Gelo e Cinzas
16 Memória e Presença
Após Arisa confessar seu medo, Youko revirou os olhos e lhe deu as costas, saindo da cabana. A idosa ficou parada onde estava com as mãos tremulas, os olhos marejados e o coração partido. O que havia de tão imperdoável em admitir que não queria perder mais ninguém? Que o fantasma da noite em que vira seu mundo congelar ainda a sufocava?
A idosa apertou os lábios, lutando para não deixar as lagrimas caírem.
— Só queria que ela soubesse… que tenho medo. — murmurou para si mesma, com a voz embargada.
Itachi, em seu canto, absorvendo a enxurrada de informações, preocupava-se agora com algo que notara ao ver Youko sair: seu chakra. No instante em que Youko passou por ele, a assinatura dela fria, controlada, fina como lâmina de gelo, havia se tornado algo completamente diferente.
O espadachim notara o olhar fixos do amigo em Youko.
— Vai atrás dela? — perguntou, sem rodeios. — Porque se não for, eu vou. E não quero ter que usar a Samehada pra impedir que ela congele metade desse lugar sem perceber.
— Não será necessário — respondeu, voz baixa, pondo-se de pé — Eu cuido disso.
Kisame observou Itachi se afastar, olhos semicerrados.
— Cuida dela, hm? — murmurou, quase rindo.
**
A kunoichi procurou por um lugar que pudesse respirar só e acalmar o turbilhão em sua mente. Ela se sentou na raiz coberta de neve de uma árvore antiga, o tronco áspero contra suas costas. Os flocos de neve caiam devagar, acumulando-se em seu cabelo e roupas, mas ela não se importava.
Retirou do bolso o colar que significou por um curto tempo uma promessa de futuro. Ela passou os dedos pelo pingente frio, tentando lembrar quando, exatamente, deixara de acreditar no próprio amanhã. Procurava na mente o instante exato em que aceitara morrer, mas não havia apenas um.
Eram vários.
O momento em que descobriu que um dia poderia ser caçada por aquilo que nem compreendia. O dia que soube do suicídio de Shisui. A morte do avô, que a deixou sem raízes, sem família. Completamente sozinha.
Cada ferida tinha sido uma pequena rendição. Cada perda, uma escolha silenciosa. E talvez… talvez o pacto tivesse nascido ali quando ela, sem perceber, aceitou que sua vida era algo que poderia ser oferecido, já que não fazia sentido viver.
Youko fechou a mão ao redor do colar, apertando-o contra o peito. A lembrança da noite na biblioteca secreta veio com força.
O bilhete entregue por um corvo estava massado em sua mão. “Te busco à meia-noite. Tenho algo importante para te mostrar.” A ansiedade de Youko era tamanha que andava de lado ao outro pelo quarto, esquecendo que o avô, com sua audição aguçada e sono leve, dormia no cômodo ao lado. Entretanto, ele não se incomodou quando ouviu os sussurros do Uchiha, tampouco a neta pula a janela com ele. Eram jovens, afinal.
— A roupa de ANBU combinou com você. — Youko não pode deixar de comentar enquanto corriam silenciosamente pelos telhados, o vento agitando seus cabelos.
Ele a olhou pôr sobre o ombro e sorriu, agradecido. Youko não fazia ideia para onde estava sendo levada. Sua imaginação corria solta, tecendo cenários escandalosos e românticos. Por isso, o destino a pegou de surpresa. Eles passaram direto pelo Monumento Hokage, seu suposto local "romântico", e Shisui parou diante de uma escadaria discreta que ela conhecia só de ouvir falar: a entrada da biblioteca secreta de Konoha.
— O que viemos fazer aqui? — Sussurrou, franzindo o cenho.
Shisui tomou sua mão e algo na expressão do Uchiha a fez estremecer por dentro. Ele estava sério demais. Não tinha o sorriso maroto de sempre, nem a leveza com que a provocava. Havia um peso em seu olhar.
— Preciso te mostrar uma coisa.
Shisui a guiou em silêncio, a mão apertando a dela de forma firme, mas cuidadosa. Nenhum som era ouvido no local, o que dava garantia aos dois que estavam sozinhos ali. Por enquanto.
— Você vai me meter em encrenca — murmurou, tentando parecer leve, mas a seriedade no rosto dele calava qualquer brincadeira.
— Não tem problema. — Shisui parou diante de uma porta com kanji indicando que o local era restrito. — É... sobre você.
Youko franziu o cenho. Ao abrir a porta, revelou uma sala estreita. Os globos de luz acenderam devagar, revelando estantes baixas, armários com trancas e uma única mesa no centro.
— Esse setor é de registros sigilosos. — Shisui caminhou até um dos armários e o abriu com facilidade, dando um puxão na tranca. Dentro, vários fichários organizados por ordem alfabética. Ele folheou com precisão até parar na letra S. — Achei há um tempo, durante uma missão de catalogação. E… precisei ter certeza.
Youko se aproximou, ainda confusa. Shisui empurrou o fichário em sua direção. Na folha, um título marcado em vermelho saltava aos olhos:
Satozuke – sob vigilância.
Ao virar a página, o choque tomou lugar da confusão.
Ali estava uma foto antiga de seu avô, ainda jovem, com informação de seu país de origem: Yukigakure. A data de seu casamento, o nascimento do único filho e falecimento da esposa. Mas algo no canto inferior chamou a atenção: “Kekkei Genkai não manifestada.”
A página seguinte trouxe a foto de seus pais, jovens e sorridentes, com seus nomes e a indicação de que ambos eram ninjas. A data de suas mortes no ataque da Raposa de Nove Caudas estava ali. E novamente, a mesma anotação no canto: "Kekkei Genkai não manifestada."
Ela virou a página mais uma vez, e o ar escapou de seus pulmões.
Era ela mesma. Uma foto de quando era criança, seus cabelos escuros presos em uma trança, seus olhos encarando a câmera com dureza. Abaixo da imagem, anotações em tinta escura:
"Portadora da linhagem original, com manifestação precoce da Kekkei Genkai. Poder incompatível com os registros da nova geração Satozuke. Potencial elevado demais para controle moral padrão.”
Youko prendeu a respiração, os dedos tremendo ao ler a próxima linha:
"Recomendada aniquilação imediata em caso de rebeldia, ruptura emocional grave ou aliança externa com elementos perigosos."
— Isso é algum tipo de piada? — sua voz soou fraca, irreconhecível para seus próprios ouvidos, vendo aquelas linhas tremerem.
— Eu queria que fosse — respondeu Shisui, a voz baixa, retirando o fichário das mãos dela. — Quando você comentou que certas missões pareciam suicidas… eu tinha que investigar. Precisava saber se sua intuição estava certa. E estava.
Youko cambaleou até a mesa e se sentou, cobrindo o rosto com as mãos. Uma parte dela queria gritar e chorar. Outra parte queria sair correndo e confrontar o avô, o Hokage, qualquer um que fosse.
— Eles... eu... sou vigiada? Por quê? — indagou, erguendo o olhar úmido e confuso para Shisui. — Eu sou uma jounin! Nunca recusei missão alguma. Nunca desrespeitei ordens. Participei até da escolta do Sandaime... — sua voz falhou. — E mesmo assim, a qualquer momento, ele pode mandar me matar?
Shisui deu um passo na direção dela, mas parou, sentindo o ar do local esfriar repentinamente.
— Youko... — ele disse, quase num pedido de perdão. Ele se aproximou e segurou o rosto dela com as mãos, obrigando-a a encará-lo. — Não é sobre o que você fez. É sobre o que pode fazer. Para eles, apenas essa possibilidade já é motivo suficiente.
Ela soltou um riso curto e sem humor.
— Então não importa o quanto eu me sacrifique... serei sempre uma bomba-relógio, pronta para ser descartada?!
— Não para mim — Shisui apertou um pouco mais seu rosto entre as mãos. — Nunca foi para mim.
A respiração de Youko estava trêmula, irregular, o gelo avançando pelo chão como raízes.
— Isso não é justo — sua voz saiu embargada. As lagrimas desceram profusamente por seu rosto. — Eu não fiz nada de errado...
Shisui fechou os olhos por um instante, como se cada palavra dela o atingisse direto no peito.
— Eu sei. — Ele deslizou o polegar pelo rosto dela, afastando uma lágrima que já congelava na bochecha. — Você nunca fez. — Shisui encostou a testa na dela. — Não queria te deixar assim.
O Uchiha soltou um suspiro profundo do fundo de seu coração. De fato, o que menos queria era ver Youko sofrendo. Os olhos da kunoichi fitaram os ônix do Uchiha e então se lançou-se sobre ele, abraçando-o apertado, afundando o rosto em seu peito. O cheiro e o calor de Shisui era reconfortante.
— Sabe — ele murmurou. Youko sentiu a voz dele vibrando no peito. — Uma coisa me assusta desde que te conheci — A mão dela apertou com força a roupa dele, temendo o que fosse que ele ia falar. — e é a ideia de te perder... Enquanto eu estiver vivo, vou te proteger. Ouviu? Te amo, Yo.
Ela não respondeu, apenas pressionou o rosto com força contra o peito e chorou.
Agora, olhando para o colar, ela se arrependia de não ter respondido Shisui, de nunca ter falado que o amava. De não ter pronunciado as três palavras como tantas vezes ele fazia com facilidade. E então, frágil, trêmula, seus lábios se moveram sem que ela percebesse:
— Eu… te amo…
Foi exatamente nesse momento que Itachi apareceu entre as árvores, parando ao ouvir a confissão que não era para ele. O nome não fora pronunciado, mas pairava como um fantasma. O mesmo fantasma que havia guiado e partido a vida de ambos.
Itachi deu um passo à frente e a neve estalou sob o peso de seus pés.
— …Youko.
Ela piscou, assustada. Seus olhos procuraram algo no vazio, como se esperassem encontrar Shisui ali. Mas quando notou Itachi seu rosto, que um segundo antes estava sofrido, fechou-se. Youko guardou o colar no bolso com um gesto rápido e se levantou, esfregando os braços e batendo a neve acumulada na roupa.
Itachi observou cada movimento com aquela precisão silenciosa que só ele tinha. E viu tudo que ela tentava esconder. O tremor mínimo nos dedos. O chakra instável pulsando sob a pele. A culpa, a dor, a confusão ainda presa em seus olhos.
— Se o Conclave me quer viva temos que fazer um plano — ela começou a falar rápido. — Tenho que saber onde Yamato está primeiro. Se ainda estar lutando ou se foi capturado.
Ele estreitou os olhos. O chakra dela oscilava como uma chama tremulando ao vento.
— Youko… — chamou de novo, mais baixo.
— Não podemos perder tempo, Itachi — ela insistiu, passando por ele. — Se Yamato foi levado, eu preciso...
A mão dele pousou em seu antebraço antes que ela terminasse, parando-a.
— Kisame e eu vamos ajuda-la, esse é o combinado, lembra? — Seu tom era firme. — Agora que sabe da sua Kekkei Genkai, vejo que está se afundando nela.
Bruscamente, ela se desvencilhou da mão dele, ofendida.
— Não estou!
— Está, sim. Seu chakra está oscilando.
Com o maxilar trincado, ela cerrou os punhos com força. Se fosse apenas seu chakra oscilando, Youko até compreenderia, mas era todo seu ser que estava oscilando e olhar para os olhos ônix do Uchiha não ajudava. Ele a sondava. Um arrepio subiu pela espinha. Não era da neve, nem da Kekkei Genkai, mas o frio de ser vista onde ela própria evitava olhar.
— Pare de… — murmurou, desviando o rosto. — Pare de me olhar assim.
— Assim como?
Sisuda, com os punhos cerrados, ela o olhava como se aquilo a colocasse em risco. O ar ao redor deles tremeu com a mudança brusca de temperatura, mas Youko não percebeu.
— Como se soubesse o que está acontecendo — ela respondeu ríspida.
Se o frio o estava incomodando, Itachi não demonstração nenhuma emoção. Seu rosto impassível tinha os olhos fixos em Youko. Ele deu um passo à frente, lento.
— Eu sei.
— Não sabe! — Youko rebateu, dando um passo para trás. — Nem eu sei. Então não tente…
— Sei que está com medo — ele a interrompeu, dando mais um passo — Sei que sua Kekkei Genkai está reagindo ao que você está tentando enterrar. Sei que está com medo do que acabou de saber.
Ela engoliu em seco. A cada passo que Itachi dava, sua presença se imponha a de Youko, a ponto dela se sentir encolhida diante dele.
— E sei… — Itachi continuou aproximando-se até que ela sentisse o calor dele apesar do vento gelado — …que quando alguém olha para a sua dor, você prefere fugir do que admitir que ainda dói.
Youko arregalou os olhos como se tivesse levado um tapa. Ela balançou a cabeça em negativa, primeiro um movimento pequeno, quase imperceptível. Depois outro, mais firme, mais revoltado.
— Você… não sabe o que está dizendo — ela sussurrou, a voz falhando.
Seu peito subia e descia com fúria. O braço direito dava pinicadas, e Youko temia que fosse o gelo regressando, faminto. Fez o possível para engolir o nó na garganta, mas não havia mais espaço dentro dela. Se não jogasse tudo para fora agora, de algum jeito iria explodir e não seria de uma forma controlada.
— EU NÃO SEI! — o grito explodiu pela floresta. — Eu não sei em que momento fiz essa merda de pacto!
O gelo respondeu antes mesmo que Itachi pudesse. Ele subiu pelos troncos das árvores como raízes famintas, estalando, rasgando a madeira, buscando espaço para crescer. A neve se ergueu ao redor dela, rodopiando em turbilhões desordenados, puxada pelo caos em seu chakra.
— Foram ANOS, Itachi! — ela continuou, o grito em tom de desespero. — Depois de tantas perdas… depois de Shisui… Nada, absolutamente nada… e de repente, aqui? Aqui em Yukigakure! Como se este lugar tivesse esperado eu pisar nele pra… pra despertar tudo ao mesmo tempo!
As lágrimas romperam, quentes e insuportáveis no frio cortante. Ela apertou os olhos com força, como se pudesse empurrar de volta aquilo que transbordava.
— Eu não entendo… — sussurrou, a voz raspando como vidro — …não entendo por que agora. Por que aqui. Por que… — mordeu o lábio, falhando em recuperar o ar, — …por que isso tem que ser comigo?
O silêncio que se instalou era espesso, quase palpável. A floresta congelava ao redor deles. Youko respirava como quem acabara de sair debaixo d’água, lutando contra ela mesma, contra o peso, contra a verdade.
Itachi deu um passo largo, a sombra de seu corpo engolindo a dela. Antes que ela pudesse reagir, ele a envolveu pelos ombros num abraço firme. Os olhos de Youko se arregalaram. Seu corpo, sempre tenso, pronto para reagir, simplesmente falhou.
O calor dele atravessou suas paredes internas como se elas nem existissem. Era injusto. Ele não levantava a voz, não forçava nada e ainda assim, desmontava tudo em silêncio. Ela prendeu os dedos no manto dele, buscando algo que nem sabia que precisava. O peito dela apertou como se algo antigo se desfizesse, doloroso e doce.
Um alívio. Terrível, proibido. Um alívio que ela não estava pronta para admitir: O alívio de poder descansar a cabeça e contar as dores do peito.
— Eu… — seus dedos apertaram o tecido dele, como se temesse que ele a soltasse — …é errado sentir medo?
Itachi permaneceu em silêncio por alguns segundos. Um segundo que pareceu longo demais para alguém como ela.
Youko sentiu o ar quente dele roçar o topo de sua cabeça antes mesmo de ouvi-lo falar. Itachi baixou o rosto devagar e apoiou o queixo sobre os fios escuros dos cabelos dela.
— Errado seria fingir que não sente.
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