Gelo e Cinzas
28 Fios, Dor e Silêncio
Foi com relutância que Youko aceitou a ajuda dos dois. Mesmo com as explicações de Itachi e Kisame, a kunoichi ainda tinha ressentimentos. Mas não confessaria que, no fundo, estava aliviada por vê-los novamente.
Youko apoiou o braço em volta do pescoço de Kisame e andou aos saltos, tentando acompanhar os passos do espadachim. Itachi ficou atrás. O empurrão que ela lhe dera após o comentário do Kisame o fez perceber que, por mais que ele argumentasse que fizera por ela, por amor a ela, Youko não queria contato. E respeitaria isso.
Kisame ajudou-a a se sentar no chão úmido da gruta, onde passariam a noite e onde fariam, dentro do possível, um curativo melhor para o ferimento da kunoichi. Kisame rasgou o tecido manchado da calça da kunoichi com um movimento firme, expondo a coxa. O cenário sob as ataduras velhas não era nada animador: a região estava visivelmente inchada, anormalmente quente ao toque, e o sangue seco formava uma crosta grossa que impedia de avaliar a gravidade da infecção.
— Vamos limpar isso aí. —Disse Kisame, com os olhos fixos na ferida.
Youko, no entanto, perguntou-se como pois não havia água potável, antissépticos ou suprimentos médicos à vista, a não ser gelo e neve. Mas sua dúvida foi imediatamente sanada, pelo menos parte dela, ao ver Kisame tirar um cantil de sua bolsa tática.
— Consegue arranjar mais algumas coisas, cara? — indagou, olhando por sobre o ombro para o Uchiha, em pé, encostado na parede. — Pelo menos um pano e alguma coisa para juntar esse retalho bizarro na perna dela.
— Bizarro é você — Retrucou Youko.
Itachi desencostou as costas da parede onde estava até então quieto e afastado, com o semblante impassível.
— Eu já volto.
E saiu. Youko acompanhou a silhueta do nukenin sumir na entrada da gruta, com um misto de amargura e ironia ecoando em sua mente. Desta vez, pelo menos, ele se dera ao trabalho de avisar que estava partindo. Mas, contra a própria vontade, pegou-se imaginando se ele demoraria a retornar.
Kisame soltou um som divertido pelo nariz, percebendo o olhar de Youko na entrada.
— Relaxa, princesinha. O Uchiha não tem o hábito de abandonar duas vezes seguidas — zombou o espadachim. — Até porque, se ele fugisse agora, quem ia aturar a sua cara feia seria eu. E eu cobro caro pelos meus serviços.
— Vai se foder!— Youko sibilou entre dentes, voltando o rosto para o espadachim.
— Custa ser um pouco mais amigável com quem vai salvar sua perna de apodrecer? — Abriu a tampa do cantil, e o cheiro de álcool impregnou o local. — Como não temos um médico, vamos ter que improvisar. Aguente firme.
Antes que ela pudesse questionar o método, um filete de álcool foi despejado diretamente sobre a ferida. A dor foi tão violenta que Youko arqueou as costas em um grito sufocado, as unhas cravando-se com força na terra úmida.
— Eu avisei para aguentar firme — Kisame comentou, inexpressivo, observando-a respirar em arfadas. Com o retalho que sobrara da calça de Youko, molhou-o e o usou para limpar a ferida.
Cerrando os dentes e os punhos com força, Youko implorava silenciosamente para que aquilo passasse rápido.
Quando o sangue e a sujeira foram limpos, evidenciou o quão a carne estava inflamada, implorando por uma intervenção mais precisa do que álcool e casca de bétula.
Itachi retornou com a mesma rapidez com que partira, mas que para Youko parecera uma eternidade. Na mão, ele trazia um punhado de ervas e alguns utensílios,além de um rolo de ataduras limpas que provavelmente subtraira de alguma propriedade das redondezas.
Sem dizer uma única palavra, o Uchiha ajoelhou-se ao lado deles. Os olhos ônix encontraram brevemente os de Youko, que ainda arfava pesadamente, com o rosto banhado em suor frio. Youko pôde ver uma agulha e linha entre as coisas trazidas por Itachi.
— É melhor segurar ela. — Alertou Kisame para a Itachi. — A princesinha tem garras, mas duvido que aguente a costura sem tentar arrancar um pedaço do meu braço.
Primeiro, os olhos de Itachi foram de encontro aos de Youko, em busca da permissão para tocar em sua perna exposta. Por alguns segundos, ela permaneceu imóvel, encarando aqueles olhos ônix que esperavam por uma resposta. Depois, desviou o olhar e fez um pequeno aceno com a cabeça.
Itachi aproximou-se e apoiou uma das mãos acima do joelho dela, evitando pressionar a região ferida. A outra segurou sua perna com cuidado, mantendo-a imóvel.
— Está pronta? — A pergunta de Kisame era retórica.
Youko não tirou os olhos do trabalho cuidadoso do espadachim em passar a linha na agulha. Antes de Kisame descer a ponta da agulha sobre a carne inflamada e aberta, Itachi ergueu os olhos escuros mais uma vez para os de Youko, embaçados de dor.
— Segure em mim — disse ele, com a voz calma procurando trazer segurança e apoio a Youko.
A kunoichi fechou os olhos com toda a força que tinha e agarrou o tecido do ombro dele com uma mão. Com a outra, enfiou os dedos onde cravara as unhas na terra. No segundo seguinte, a primeira picada da agulha rasgou a carne viva. Um grito abafado e violento escapou por entre os dentes de Youko, ecoando pelas paredes enquanto o corpo inteiro se arqueava em um espasmo de pura agonia.
Para Youko durou uma eternidade; para Kisame e Itachi menos de dez minutos. A eternidade que passou a fez lembrar de quando fora atacada em Sunagakure, do corte que abriu suas costas e de como, naquela época, a dor fora excruciante e eterna, também.
— Pronto. — Kisame se afastou, avaliando o próprio trabalho. — Se ela não inventar de correr, a perna vai se safar.
Youko respirava em arfadas, os olhos lacrimejados e o rosto vermelho de dor. Sentia-se quente e sabia que era febre. Kisame levantou-se e se afastou para preparar uma fogueira. No entanto, Itachi permaneceu próximo. Desenrolou as ataduras e as envolveu em volta da ferida junto com as ervas, com cuidado. Seu toque era leve, cuidadoso. Íntimo.
A alguns passos de distância, o som de gravetos secos estalando e o calor gradual de uma pequena fogueira começaram a preencher o ambiente.
— Deixe-a descansar — a voz de Itachi quebrou o silêncio, baixa e definitiva, ao terminar o último nó do curativo. Ele permaneceu de joelhos por um momento a mais, os olhos ônix avaliando o rosto pálido e febril da kunoichi antes de se erguer com a mesma suavidade. — Ela precisa que a febre baixe antes de sairmos daqui.
Kisame bufou, enquanto se encostava na parede oposta, aquecendo as mãos perto das labaredas baixas.
— Fazer o quê — resmungou ele.
Youko quis retrucar, quis abrir a boca e ordenar que levantassem acampamento imediatamente para irem atrás de Yamato, mas as palavras simplesmente morreram em sua garganta seca. O peso do cansaço era absoluto, puxando-a para baixo com a força de uma âncora.
Sem dizer mais nada, Itachi retirou o próprio manto da Akatsuki e, com um movimento contido, estendeu-o sobre o corpo trêmulo dela, cobrindo-a para tentar conter os calafrios. Ele não se afastou de imediato; sentou-se a uma distância respeitosa, recostando-se na parede, tendo o olhar frio de Youko o seguindo.
**
Youko despertou sem noção do tempo. A fogueira ardia, aquecendo a gruta a ponto de não saber se suava de febre ou de calor. Kisame estava encostado na parede, o queixo no peito e os braços cruzados, dormindo.
Afastou o manto do corpo para ver a situação; dolorido e quente, mas, ao menos, as ataduras escondiam a visão dos pontos. O suave movimento na entrada chamou sua atenção. Itachi, sentado no chão úmido da gruta, pôs-se de pé. Seus passos silenciosos, o modo de andar centrado prendeu os olhos de Youko, que acompanhou seu movimento até se agachar a sua frente.
— Como está se sentindo?
Youko prendeu o ar ao sentir uma pontada na coxa ao se ajeitar contra a parede fria.
— Como se eu tivesse sido atropelada por uma manada... e depois costurada à força — Youko resmungou, a voz saindo como um sussurro áspero e rouco, carregado de todo o mal-estar que a febre provocava.
Itachi manteve a expressão contida, embora os olhos escuros registrassem o tom pálido de sua pele e o cansaço de seu rosto. Com um movimento lento, ele pegou um cantil limpo de sua bolsa e o estendeu. Youko hesitou por um segundo, os olhos pesados fitando o objeto e depois subindo para o rosto dele. A desconfiança e o orgulho ferido lutavam contra a sede lancinante, mas a necessidade falou mais alto. Ela puxou de sua mão e o bebeu com sofreguidão. A água fria amenizou o fogo em sua garganta.
— A febre ainda está alta — constatou em voz baixa. Ele desviou o olhar por um instante para checar Kisame, que continuava adormecido e imóvel na penumbra do outro lado da gruta, antes de voltar os olhos ônix inteiramente para ela. — Você não tem condições de caminhar. Nem amanhã, se insistir nisso.
Youko cerrou os dentes, a contrariedade faiscando fracamente em seus olhos cansados enquanto tentava se erguer um pouco mais.
— Eu não tenho tempo para ficar deitada... Yamato está lá fora, enquanto nós ficamos escondidos aqui.
— Não precisaríamos estar escondido se tivesse ficado com Tanaka. — A resposta veio seca.
Youko lançou-lhe um olhar furioso.
— E você deixou uma pista clara demais sobre para onde está indo — continuou Itachi, antes que ela pudesse retrucar. — Se o Conclave já a esperava na capital, agora tem certeza de que você está perto. Deveria ter deixado isso pra mim e com Kisame.
— Nunca. — A palavra saiu em um sussurro carregado de fúria. — Eu não sou um fardo que vocês podem carregar ou deixar para trás. E Yamato é meu companheiro de missão. E o Conclave... O Conclave tem uma dívida comigo. E eu vou cobrar com juros.
Itachi a encarou em silêncio. O maxilar se contraiu discretamente. Havia poucas coisas capazes de fazê-lo perder a compostura, mas ver Youko naquele estado e ainda insistindo em se colocar diante do perigo era uma delas.
— Orgulho não vai te salvar da próxima vez que estiver ferida — disse, abaixando ainda mais a voz para não despertar Kisame. — Acha mesmo que tem alguma chance de derrotar alguém nessas condições? Ou espera que seus inimigos tenham piedade?
— Eu não pedi piedade de ninguém! — Youko tentou se projetar para frente, impulsionada pela raiva, mas foi traída pelo corpo.
Uma tontura violenta tomou conta dela. A visão escureceu nas bordas e o estômago revirou. Antes que pudesse tombar sobre o chão úmido, a mão de Itachi se moveu rapidamente, segurando-a pelo ombro e amparando seu peso contra a parede de pedra.
— Cuidado — murmurou ele, a proximidade repentina trazendo o aroma de ferro e remédio que sempre parecia acompanhá-lo.
Youko respirou fundo, trêmula, odiando a própria fraqueza mais do que odiava a si mesma por precisar daquele apoio. Ela fechou os olhos por um segundo, encostando a testa contra o ombro dele por puro reflexo antes de empurrá-lo com o pouco de força que lhe restava.
— Sai... — respirou pesado, a voz saindo como um sopro derrotado.
Itachi recuou lentamente, soltando-a, mas manteve-se por perto, avaliando o suor frio que escorria pelas têmporas dela.
— Enquanto estava fora… encontrei pistas sobre Yamato— disse ele, a voz voltando ao tom analítico de sempre, cortando a tensão pessoal entre eles.
O cansaço e fúria que Youko sentia repentinamente sumiram ao erguer a cabeça surpresa.
— O que?
— Ele passou por essa área. — Informou. — A três quilômetros daqui há uma área de combate. Sem sombra de dúvidas, o caos ali foi ele que fez.
Youko tentou se mover, o corpo protestando com uma pontada aguda na coxa recém-costurada, mas a urgência falou mais alto do que a dor.
— Três quilômetros? — ela repetiu, os olhos arregalados fixos nos de Itachi, a febre esquecida por um segundo diante daquela revelação. — Isso significa que ele ainda está perto.
— Não parece ser recente, mas com certeza ele já deve estar na capital. A menos que tenha sido emboscado… — a voz de Itachi permaneceu firme. — Se você aparecer lá cambaleando e queimando em febre, não vai salvar Yamato. Vai apenas servir de isca em uma bandeja de prata para o inimigo.
— Não. — Ela balançou a cabeça, recusando-se a aceitar aquela possibilidade e ignorando totalmente sua última frase. — Yamato não teria deixado rastros assim se tivesse sido capturado.
— Não sabemos o que aconteceu depois daquela luta.
— Então vamos descobrir.
Youko tentou apoiar o peso nas pernas para ficar de pé, mas vacilou com a dor, escorregando para o chão. Itachi acompanhou o movimento em silêncio.
— É exatamente por isso que você não pode ir desse jeito. Só vai atrapalhar.
O olhar que Youko lançou a Itachi era de puro ultraje, mas o Uchiha não lhe deu tempo para responder. Virou-se nos calcanhares e voltou para sua posição na entrada da gruta, ignorando o fogo que sabia que estava queimando nos olhos dela.
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