Gelo e Cinzas
29 Entre as Cinzas do Vale
Foi em meio aos protestos de Itachi e à indiferença de Kisame que Youko pôs-se de pé. A coxa ardia, os pontos puxavam e ameaçavam abrir a cada passo. Mas Youko não queria permanecer ali por mais nenhum segundo; não podia mais adiar o inevitável.
Ainda sentia os efeitos da febre, mas, comparada à noite anterior, sentia-se levemente melhor. Compartilhou entre os nukenins pílulas de ração e puseram em marcha imediatamente, apagando qualquer vestígio de que estiveram por ali.
Itachi os guiaria ao último ponto onde Yamato esteve. O peito de Youko doía pela expectativa de vê-lo, de compreender que caminho estava seguindo e saber se estava bem. Ainda tinha sua bandana e tinha que devolver. Ou deixaria isso a cargo de alguém, caso finalizasse a missão sem encontrá-lo.
Andar com uma perna coberta e a outra enfaixada era incômodo, pois, mesmo com o manto em volta a protegendo, o frio doía a ferida na perna. Mas Youko não deixava transparecer. Seguia atrás dos dois, saltando com cautela e dor sobre os galhos das árvores. De quando e quando, notava Itachi olhar para ela por sobre o ombro.
Poucos minutos depois, a vegetação densa de coníferas congeladas começou a rarear, abrindo espaço para um vale escarpado. O vento mudou de direção, trazendo consigo um odor inconfundível que fez Youko prender a respiração: o cheiro acre de madeira queimada.
O cenário à frente era desolador. Árvores colossais de Mokuton rasgavam a crosta de gelo e neve, estilhaçadas e parcialmente carbonizadas por jutsus de fogo. Crateras profundas pontilhavam o vale, revelando a violência implacável do confronto que ocorrera ali.
Youko deu mais alguns passos, sentindo a coxa latejar com a força de um martelo a cada apoio firme na neve. Ela ignorou a tontura que ameaçava desestabilizá-la, seus olhos correndo por cada detalhe da destruição. Era inconfundível. Yamato havia lutado com tudo o que tinha.
— Parece que seu amiguinho está na nossa frente. — Olhou para Youko por sobre o ombro.
Os olhos de Youko estavam ávidos, indo de um ponto a outro, buscando compreender a batalha que ocorrera ali, em busca de corpos e de sinais de para onde o Yamato fora.
— Precisamos encontrar ele.
— Não acho que seu amigo esteja sozinho. — Kisame falou, seus olhos miúdos analisavam o cenário. — Ele é forte, mas… sinto que até eu sozinho não daria conta.
— É por isso que não anda sozinho? — Retrucou ela. — Yamato é forte. Quando estive presa, Shiro comentou que Yamato estava dando trabalho…
Kisame a olhou de cima a abaixo.
— Mas do que você, não.
Youko estreitou os olhos, pronta para replicar, mas a pontada aguda na coxa a lembrou dolorosamente de que o espadachim, por mais insuportável que fosse, estava certo. Ela cerrou os dentes, engolindo o orgulho ferido junto com o gosto amargo.
Aproximou-se mais da borda do galho, pronta para saltar, independente da dor que causasse. Mas seu punho foi segurado por Itachi. O contato repentino da pele firme e quente da mão dele fez um arrepio súbito subir por sua espinha, provocando um rubor tênue em suas bochechas que a febre ajudou a disfarçar. Ela puxou o braço com força, desvencilhando-se de seu aperto com um movimento brusco.
Itachi, parecendo perfeitamente indiferente à reação dela, limitou-se a apontar com um movimento ínfimo da cabeça para o chão, entre os escombros do que deveria ter sido uma frondosa árvore.
Youko cerrou os dentes, engolindo a confusão e a irritação consigo mesma, e seguiu a linha do olhar dele. O vermelho escuro do Sharingan, ativado sob as pálpebras de Itachi, captava o que os olhos comuns perdiam na desolação do terreno um fio metálico ultrafino esticado rente ao solo, conectado a um selo explosivo cravado na raiz.
— Fizeram do local uma emboscada perfeita.
Kisame pôs-se de pé e bufou, cruzando os braços e olhando para Youko de soslaio.
— Deve ser as boas-vindas pra você. Gostou?
Youko ignorou o sarcasmo.
— Só quero saber onde Yamato está.
— Não somos os únicos aqui — anunciou Itachi. Apontou para o escombro de uma árvore queimada, alguns metros à frente.
Youko precisou semicerrar os olhos para perceber o ínfimo movimento em meio à neve. Havia alguém ali, camuflado de forma quase perfeita contra a paisagem. Um ninja. E, pelo equipamento e pelo símbolo parcialmente visível sob a camada de neve, não havia dúvidas de que pertencia ao Conclave.
— Devemos nos apresentar? — Kisame sorriu.
Por alguns segundos, ela permaneceu em silêncio.Então assentiu, o rosto endurecendo.
— Com certeza.
Antes que Youko pudesse reagir, o espadachim saltou do galho. Itachi o acompanhou no mesmo instante. Youko hesitou apenas por um segundo antes de saltar também, aterrissando alguns metros à frente dos dois. A perna ferida protestou imediatamente, fazendo uma pontada subir pela coxa, mas ela se manteve de pé.
Os três avançaram juntos pelo vale. O movimento pareceu ser o suficiente para denunciar a presença deles. A figura escondida entre os destroços se moveu, tentando recuar para mais fundo ao perceber que o disfarce havia sido comprometido. Mas era tarde demais.
Kisame fechou o cerco girando a ponta da Samehada com um sorriso predatório, enquanto Itachi mantinha a postura impassível, agora sem o brilho escarlate do Sharingan. Mas foi Youko quem se colocou diretamente na linha de visão dele. Ignorando a pontada lancinante que rasgava sua coxa ferida, ela cravou o olhar no ninja do Conclave, a voz saindo cortante e gélida:
— Onde está Yamato?
O ninja permaneceu imóvel por alguns segundos, os olhos percorrendo os três à sua frente. Quando seu olhar finalmente pousou em Youko, houve uma mudança sutil em sua expressão, abrindo a boca, espantado.
— você é...
Youko estreitou os olhos.
— Responda à minha pergunta.
— Não… Não acredito… — Gaguejou, espantando, olhando Youko. — To… Tomoe…
— Não. — Youko revirou os olhos. — Sou pior que ela. Agora responda: onde está Yamato?
O ninja tremia com os olhos vidrados em Youko. Kisame bufou. No entanto, os olhos de Itachi foram chamados para a mão do ninja. Ele segurava algo metálico na mão esquerda. Itachi estreitou os olhos, analisando-o por alguns segundos.
— O que você está segurando? — perguntou.
O ninja imediatamente fechou a mão com mais força. Kisame tocou no ombro de Youko e a kunoichi entendeu o sinal, dando uns passos para trás. Olhou ao redor. O tronco com o explosivo continuava intacto, pois haviam desviado dele. A menos…
Os olhos de Youko se arregalaram.
— Itachi! — gritou.
No mesmo instante, o ninja abriu a mão e um pequeno mecanismo metálico estava preso entre seus dedos. O clique foi quase inaudível. Itachi virou-se imediatamente.
— Abaixem-se!
— Droga! — Kisame praguejou, envolvendo o braço ao redor da cintura de Youko com força e puxando-a para trás, protegendo-a com seu próprio corpo no exato instante em que o solo sob os escombros começou a vibrar.
O ninja do Conclave soltou uma risada sôfrega, com os olhos arregalados de loucura, antes de as primeiras chamas irromperem sob a neve.
Então o vale explodiu. O estrondo rompeu o silêncio da floresta, fazendo a neve despencar dos galhos e levantando uma nuvem de gelo, terra e madeira carbonizada.
Youko sentiu o impacto do chão nas costas e o peso de Kisame sobre ela. Destroços choveram ao redor dos dois, alguns atingindo o manto que a protegia, outros enterrando-se na neve a poucos centímetros de seu rosto. Por alguns segundos, não houve nada além do barulho ensurdecedor da explosão.
Youko tentou respirar, mas o ar saiu preso em sua garganta. A dor na coxa voltou com violência quando ela tentou se mexer, e um gemido escapou entre os dentes.
— Fique abaixada! — Kisame ordenou, ainda cobrindo-a com o próprio corpo.
Outra explosão estourou mais adiante, e o chão tremeu novamente. Kisame ergueu a cabeça, procurando uma rota de fuga em meio à fumaça.
— Merda…Segura firme.
Antes que ela pudesse responder, ele a puxou contra o peito, firmou os pés na neve e saltou. O mundo girou. Youko sentiu o vento cortar o rosto, o cheiro de fumaça e ferro queimado, e quando o giro cessou, estavam no alto de um pinheiro, Kisame a soltou e agachou.
Abaixo, o vale ardia. Focos de fogo abriam buracos negros na neve, e a fumaça subia em colunas espessas que escondiam o chão. Youko varreu cada metro com os olhos: a cratera maior, os troncos partidos, os restos das pedras. Nada de capa preta. Nada de cabelos negros.
— Onde ele está?
— Não sei.
— Ele estava na frente. — A voz saiu esganiçada. — Estava bem na frente, Kisame.
— Eu vi. — Ele manteve os olhos no vale. — Mas o Uchiha é teimoso demais para morrer.
— Então por que não aparece?
Kisame não respondeu. O fogo estalava lá embaixo, e cada segundo em que a fumaça não se abria piorava a imagem que ela não conseguia parar de ver: o clique do detonador, Itachi se virando, a chama subindo onde ele estava. A respiração dela ficou curta e rasa, e as mãos tremiam contra a casca do pinheiro sem que ela conseguisse contê-las.
Não. Ele não podia.
— Itachi! — gritou, e o nome rasgou a garganta.
Kisame prendeu o pulso dela.
— Fique quieta. Vão ouvir.
— Que ouçam!
— Youko.
— Ele estava bem na mira daquela porcaria! — A voz quebrou. Ela tentou descer, o corpo inclinado para o vazio, e Kisame a puxou de volta pela cintura, mais brusco do que pretendia. — Me solta!
— Espera a fumaça baixar, porra.
A vontade de Youko era bater nele, mas notou que Kisame estava ferido pelos destroços que caíram sobre ele ao protegê-la. Ele levou a mão às costas, com uma expressão clara de dor.
— Eu vou ficar bem… — resmungou, ao notar o olhar dela. — Temos que sair daqui.
— Não sem o Itachi. Ele não pode simplesmente... — Youko engoliu em seco, a voz travada.
— Olha, isso eu garanto. — Kisame forçou um meio sorriso. — Mas que a explosão foi feia, foi.
Youko cerrou os punhos com força para esconder a tremedeira. Virou-se para o vasto destroço em que o vale se transformara e gritou:
— Itachi!
— Fique em silêncio. — A voz veio de cima, repentina, e a fez paralisar. — Aqui.
Youko ergueu o rosto, o coração dando um salto de alívio tão grande que ela jamais admitiria em voz alta. Itachi estava três metros acima, agachado num galho mais fino, a capa coberta de fuligem, farpas de madeira presas na barra. A expressão era a mesma de sempre, impassível. Mas os olhos dele estavam nela.
Kisame soltou um suspiro pesado, endireitou as costas com uma careta contida e ajeitou a Samehada no ombro.
— Eu disse — murmurou, massageando o local onde um pedaço de rocha o atingira. — Uchiha não morre numa armadilha qualquer. É desperdício de energia gastar neurônio se preocupando com ele.
Os olhos de Youko marejaram, e ela chegou a sorrir, mas, ao notar que isso feriria seu orgulho, escondeu o sorriso. Endireitou os ombros, forçando o orgulho a se erguer acima da dor latejante da coxa.
Com um movimento fluido, Itachi deixou o galho e pousou ao lado deles sem fazer o menor ruído.
— Isso explica a destruição do local — disse, correndo os olhos pelo vale em chamas. — Provavelmente fizeram o mesmo com Yamato. Explicaria as árvores queimadas.
Nenhum dos três falou por um momento. O vale ardia devagar, sem a fúria de antes, e cada estalo da madeira queimada soava como a respiração de algo morto.
Desceram e pararam à beira da cratera maior. No centro, um amontoado de ferro retorcido e carne que já não tinha forma. O ninja do Conclave. Itachi se agachou ao lado de um pedaço de metal enegrecido, o mesmo mecanismo que ele segurara.
— Um suicida. E sozinho. Algo que me diz que isso tudo era pra sinalizar.
Youko franziu o cenho.
— Sinalização de quê?
— Da nossa presença.
Kisame soltou um assobio baixo. Youko olhou em volta: a rede de selos, os troncos com explosivos que tinham evitado, as árvores queimadas. Tudo montado com método, por alguém que sabia que passaria gente ali.
— Não faz sentido — disse. — Um homem sozinho, num vale no meio do nada, com uma rede dessas. Ninguém gasta tanto para matar três pessoas.
— Não era para matar — respondeu Itachi. — Era para avisar.
— Avisar o quê?
— Que alguém passou. — Ele se levantou, limpando o pó das mãos. — A rede foi montada antes de nós. Talvez depois de Yamato passar por aqui. Ela não precisava nos matar. Bastava que alguém tocasse nela.
— Mas ele falou — lembrou Youko. — Me reconheceu. Disse "Tomoe".
— Sim. — Os olhos de Itachi foram para ela. — Então o aviso era mais específico do que esperávamos.
Kisame ergueu a cabeça.
— Ei. Olhem.
Ao norte, sobre a linha das árvores, uma coluna fina de fumaça branca subia retilínea contra o céu cinzento. Não era fogo nem chaminé. Era limpa demais, regular demais.
E, bem mais longe, sobre outra elevação, subiu uma segunda. Depois uma terceira, quase perdida no horizonte.
— Postos de vigia — murmurou Itachi. — Um avisa o próximo.
— Estão passando a notícia adiante.— completou Kisame.
O gelo desceu pelas costas de Youko, e não tinha nada a ver com a neve. Ela contou as colunas, cada uma mais distante e mais tênue que a anterior. A última mal se distinguia da névoa. Uma linha de sinais, e uma linha assim só podia levar a um lugar.
— A capital — disse. — Estamos mais perto do que eu pensava.
— Mais perto do que o mapa dizia. — Observou Itachi. — E agora sabem nossa localização.
Kisame cuspiu na neve.
— Ótimo. A gente explodiu o elemento surpresa junto com o vale.
Itachi deu o primeiro passo, a capa preta roçando levemente a neve, com Kisame logo atrás, resmungando e massageando as costas doloridas. Por um segundo, Youko ficou para trás, estagnada no meio daquele cenário desolador.
Não foi a dor lacerante na coxa que a prendeu ali. Foi o peso esmagador de um pavor súbito que ela mal sabia como conter. Olhando para as costas dele, uma vontade violenta de chorar apertou o peito, rasgando por dentro a muralha de indiferença que tentava manter. Queria correr até Itachi, agarrá-lo pelo manto, abraçá-lo e esconder o rosto contra seu pescoço.
Queria dizer que estivera com medo de tê-lo perdido. Medo de que, quando a fumaça baixasse, encontraria apenas o corpo dele entre os escombros. Mas não faria nada disso. Porque, por mais que odiasse admitir, a ideia de perdê-lo havia sido muito mais dolorosa do que deveria.
E, naquele momento, percebeu algo que a assustou ainda mais. Se alguém tivesse de morrer naquela explosão, preferia que fosse ela, e não Itachi.
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