Gelo e Cinzas

22 Cicatrizes e Sopa Quente


Youko não tinha certeza de como chegará aquela casa. O frio e a exaustão a tomaram pouco depois de ter se reencontrado com Itachi. Suas memórias eram vagas, pois passará parte do tempo em um estado de semi-inconsciência. Recordava-se que às vezes via Shisui e quando voltava abrir os olhos, era Itachi. Embora seus olhos e mentes cansados lhe pregasse essa peça, ainda lembrava que Shisui cheirava a terra molhada e suor. No entanto, o aroma ali era outro: era o de remédio com o cheiro metálico de armas, misturados a um sutil de fumaça.

Teve pesadelos durante a noite, é claro. O rosto de Shiro, os raios azuis do choque e o estalo das algemas fundiam-se em uma dança frenética. Ela despertava em certos momentos, sem conseguir abrir os olhos, apenas sentindo braços firmes segurando os seus e alguém chamando seu nome na escuridão. Algo lhe dizia que era Yamato.

Embora seus membros e músculos estivessem doloridos e as feridas inflamadas, o que a fez despertar foi o estômago. Ele roncou alto e doía por estar vazio a tempo demais. Abriu os olhos sonolentos, observando o quarto que não lhe pertencia e não fazia ideia de quem fosse o dono. Sabia que já era de dia pelo som vindo do lado de fora, já que o quarto estava na penumbra com a cortina ocultando a única iluminação natural do lugar.

Afastou a pesada coberta que a cobria, notando os pulsos e os tornozelos livres das algemas, mas não das marcas que se juntariam à sua coleção. Ambas as partes estavam bem enfaixadas e exalavam o cheiro forte de ervas. Notou que as roupas que usavam não eram as suas. Trajava calças e camiseta largas. Pôs os pés descalços no chão. Mexia os dedos contra a madeira fria quando a porta do quarto foi aberta de repente.

Youko notou o quanto estava travada ao não reagir. Não houve o sobressalto que deveria vir, não houve movimento de defesa algum. Apenas uma consciência distante de que alguém entrara, e uma incapacidade de fazer qualquer coisa a respeito. A exaustão ainda a dominava.

Olhou o menino que estagnou com a mão na maçaneta, a boca boquiaberta como se visse um fantasma. Devia ter uns dez anos, talvez menos. Os olhos eram grandes demais para o rosto, arregalados demais para a situação. As mãos que seguravam a maçaneta tremiam ligeiramente.

Para surpresa de Youko, ele se prostrou no chão.

Ajoelhou-se tão rápido que os joelhos bateram na madeira com um baque seco, e então a testa tocou o chão, os braços estendidos à frente, as mãos abertas como em oração.

— ABENÇOADA SEJA! — gritou, a voz aguda, estridente. — ABENÇOADA SEJA!

Repetia as palavras batendo a testa no chão, uma, duas, três vezes, como se estivesse diante de um altar. A reação de Youko foi franzir o cenho diante da cena pitoresca. Olhou ao redor, mas além da cama, uma cadeira encostada na parede e cortina, não havia nenhuma imagem ou símbolo dedicados aos deuses ali dentro.

— Abençoada seja a renascida de Tomoe! Abençoada…

— Levanta — Youko conseguiu dizer, a voz saindo mais áspera do que pretendia.

O menino ergueu a cabeça, os olhos brilhando de emoção, as lágrimas acumulando.

— Acordou? — A voz de Kisame chamou sua atenção, fazendo-a levantar o olhar para o homem que entrava no quarto que, com um passo largo, passava por cima do garoto como se ele fosse um móvel qualquer. — Esse aí é seu fã número um.

Ele sentou-se na cadeira, esticando as pernas e observando o garoto com um sorriso de zombeteiro. O garoto não pareceu se incomodar com o nukenin. Na verdade, simplesmente ignorou a presença dele já que seus olhos apenas enxergavam Youko.

— Kisame — Youko levou a mão à garganta, sentindo a seca e dolorida. — Onde estamos?

Antes que Kisame pudesse responder, o menino já estava de joelhos novamente, a cabeça baixa, as mãos apoiadas nas coxas.

— A senhorita está em Kooritsuki — respondeu, a voz rápida, como se tivesse medo de perder a chance de falar. — Tenho a honra de ser um dos moradores. Uma honra imensurável poder estar diante de sua presença, poder servir à herdeira do clã Yukiryuu, poder....

— Quem é o menino? — Perguntou ríspida a Kisame, interrompendo o garoto.

— Seu fã. — respondeu. — Apresente-se garoto, não era o que queria?

O menino ergueu a cabeça e assentiu com tanta força que o queixo quase bateu no peito.

— Haru — disse, a voz agora mais calma, como se estivesse recitando algo que ensaiara muitas vezes. — Meu nome é Haru. Estou aqui para servi-la.

Servi-la. A palavra ecoou estranha no quarto até a poucos instantes silenciosos. O menino continuava de joelhos, a postura rígida, os olhos fixos no chão como se olhar para ela fosse um privilégio que ainda não merecia.

Kisame riu, um som rouco, familiar.

— Aproveite então e traga comida pra ela, garoto. É rápido!.

Haru assentiu novamente, rápido, quase desesperado, e se pôs em pé num movimento que parecia ensaiado. Saiu do quarto tão rápido que a porta quase bateu atrás dele.

Youko ainda tinha o cenho franzido, sem compreender bulhufas. Voltou a sentar na cama quando as pernas começaram a doer, o colchão rangendo sob seu peso. Os pés descalços pendiam, não alcançando o chão, e ela se sentiu como uma criança naquela cama grande demais, naquelas roupas que não eram suas.

— Fã número um? — repetiu, a voz ainda rouca, mas agora com um fio de ironia. — O que é isso, Kisame?

Ele deu de ombros.

— Membro dos devotos da morta lá… Esse garoto estava doido pra te ver. Nos seguiu enquanto te procuramos. Ele é jovem então aproveite o quanto for necessário pra fazer ele de emprego já que ele acredita que você é reencarnação de Tomoe.

Youko passou a mão pelo rosto, sentindo os hematomas que ainda estavam inchados, os cortes que ainda ardiam.

— Reencarnação de Tomoe — repetiu, e a ironia em sua voz era tão amarga que quase podia ser provada. — Essa história não vai morrer nunca, vai?

— Não enquanto você estiver viva — Kisame respondeu, simples. — E agora que sobreviveu ao que sobreviveu, vai piorar.

Youko fechou os olhos por um instante. A cabeça girava, a garganta ardia, o corpo inteiro era uma coleção de dores que ela ainda não tinha coragem de explorar.

— Itachi — disse, abrindo os olhos. — Onde ele está?

— Dormindo — disse. — O idiota passou os últimos dias te vigiando.

Youko sentiu o peito apertar. O que ele queria dizer com “últimos dias”?

— Quanto tempo?

— Dois dias — Kisame respondeu, fazendo o sinal com a mão do número. — Você chegou aqui desmaiada. Itachi te trouxe nos braços. Não largou você nem quando vieram cuidar dos ferimentos. Tive que arrancar ele do lado da cama.

Youko deu um sorriso cansado imaginando a cena. Não era a primeira vez que era salva por ele e sentia que meras palavras não seriam capazes de mostrar o quão grata estava. E por Kisame também.

— Kisame — Youko chamou, e ele ergueu a sobrancelha. — Obrigada. Por ter vindo. Por...

— Não precisa agradecer — ele cortou. — Você faria o mesmo.

Youko não respondeu. Não porque discordasse, mas porque sabia que era verdade. Ali em Yukigakure conseguia esquecer que eram nukenin e membros da Akatsuki. Conseguia até imaginar em manter-se com eles, mas logo tratou de hostilizar tal pensamento. Os momentos de vulnerabilidade a deixavam suscetível a isso.

A porta se abriu novamente, e Haru entrou com uma bandeja tão grande que mal conseguia ver por cima dela. O cheiro de sopa quente e pão fresco encheu o quarto, e Youko sentiu o estômago roncar tão alto que Kisame riu.

— Come — ele disse, levantando-se da cadeira. — Vou avisar o cara que você acordou.

Saiu antes que ela pudesse dizer alguma coisa. Haru colocou a bandeja sobre a cama com as mãos trêmulas, apertando os lábios, para que nenhum dos pretos balançasse.

— A senhorita precisa comer — disse, a voz séria demais para uma criança. — Para ficar forte. Para...

— Haru — Youko interrompeu, e ele se calou na hora, os olhos arregalados. Ela pegou a tigela de sopa, sentindo o calor contra os dedos enfaixados. — Senta.

— Eu não posso...

— Senta — repetiu, e ele sentou no chão, aos pés da cama, os joelhos dobrados, os olhos fixos nela.

Youko provou a sopa. Estava quente e era a melhor coisa que ela provará em dias.

— Haru — disse entre uma colherada e outra, a voz ainda rouca, mas mais calma agora. — Me conta uma coisa. — Ele aquiesceu. — Sabe o que aconteceu durante esses dois dias? Enquanto eu estava dormindo.

— A senhorita quer saber de tudo? — perguntou, a voz hesitante. Youko Aquiesceu.

Ele respirou fundo, como se estivesse se preparando para contar uma história importante. Os ombros subiram e desceram num movimento que parecia grande demais para seu corpo pequeno.

— O senhor Itachi trouxe a senhorita nos braços — começou, a voz baixa. — A senhorita estava desmaiada. Tinha sangue nas roupas, nas mãos, no rosto. Eu achei que a senhorita tinha morrido. O senhor Itachi não falava nada. Ele só olhava para a senhorita. O tempo todo. Mesmo quando o velho veio cuidar dos ferimentos, ele ficava ali, no canto, olhando.

— Que velho?

— O senhor Tanaka — Haru respondeu, os olhos brilhando. — O comerciante que o Conclave atacou. Ele sabe de ervas. Disse que aprendeu com a avó dele. Ele que fez os curativos da senhorita, que passou as pomadas, que disse que a senhorita ia ficar bem.

— Tanaka — Repetiu o nome com intenção de gravá-lo e agradecer pessoalmente ao homem. — Ele está bem?

Haru assentiu.

— O senhor Kisame levou ele pra vila. A perna dele estava machucada, mas o senhor Kisame o carregou nas costas. Graças a ele o senhor Itachi conseguiu encontrar a senhorita.

— E depois?

— Depois... — Haru hesitou, os olhos passando rapidamente para a porta e depois de volta para ela. — Depois o senhor Itachi não saiu mais daqui.

Youko deu um suspiro.

— Kisame me contou que precisou arrancar ele do meu lado.

— Foi mesmo! Ele não dormiu — Haru disse. — Ficava sentado nessa cadeira a noite toda. Olhando a senhorita. Eu vi. Eu acordei várias vezes e ele ainda estava ali. No mesmo lugar.

Youko deu um sorriso cansado. Tinha muito a agradecer ao Uchiha.

— Ele é um bom amigo… — Disse, então sussurrou para si mesma: — Pena que percebi um pouco tarde isso…

A porta se abriu suavemente, e os dois se viraram. Itachi estava ali, apoiado no batente, os olhos escuros fixos nela como se o resto do mundo não existisse.

Haru se levantou tão rápido que Youko se questionou se o garoto tinha medo do Uchiha. .

— Eu vou buscar mais comida! — anunciou, a voz aguda, e antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa, já havia passado por Itachi como um foguete, desaparecendo no corredor.

Itachi não se moveu. Apenas a olhou, os olhos percorrendo seu rosto, os hematomas que ainda escureciam sua pele, os cortes que começavam a cicatrizar, as mãos enfaixadas que seguravam a tigela vazia. E sentiu alívio. Tão puro e tão cru que ela sentiu o peito apertar.

— Que bom que acordou… — Disse ele. — E está comendo. — observou.

Youko ergueu a tigela vazia como prova.

— Comi tudo. — Então pôs a tigela de lado e pôs-se de pé. — Muito obrigada, Itachi. Sei que não há nada que eu possa fazer que mostre o quão agradecida estou. — Com o corpo protestando, inclinou a costa em reverência. — Obrigada!

Os olhos de Youko estavam fixos no chão de madeira, nos pés descalços, nas próprias mãos enfaixadas unidas à frente do corpo. Ela o via como amigo. Como alguém a quem devia gratidão e lealdade, embora estivessem em caminhos diferentes.

Você é meu amigo, pensou, e eu nunca vou esquecer o que fez por mim.

Quando ergueu os olhos, ele estava mais perto.

Não sabia quando ele se moverá. Não ouvirá passos, não sentirá o deslocamento de ar. Era como se o espaço entre eles tivesse se dobrado, como se a gravidade o tivesse puxado para perto dela.

Itachi estava a apenas um passo de distância. Tão perto que ela podia ver as olheiras escuras sob seus olhos, a palidez excessiva da pele, os lábios ressecados e rachados. Ele parecia doente. Parecia exausto. Mas seus olhos... seus olhos estavam mais vivos do que ela jamais vira.

Ele a olhava de uma forma diferente. Não era o olhar que se dá a um amigo. Não era o olhar que se dá a uma aliada, a alguém por quem se tem respeito e admiração. Era algo mais. Algo que ele talvez nem mesmo soubesse que estava mostrando.

— Não precisa me agradecer — A mão dele se ergueu, lenta, hesitante, como se ele tivesse medo de assustá-la. Os dedos tocaram seu rosto. — O que aconteceu naquele lugar?

Youko sentiu o corpo inteiro estremecer com a pergunta. A memória da luz branca, o metal frio, os choques, os punhos de Shiro, a voz dele sussurrando promessas de dor. Tudo voltou de uma vez, como uma onda que a submergiu antes que pudesse respirar.

Ela apertou os dedos de Itachi sobre seu rosto, então os afastou e voltou a se sentar na cama.

— Quem fez isso com você, Youko?

A kunoichi travou o maxilar ao pensar em pronunciar o nome em voz alta. Como poderia estar com medo se já enfrentara tantos e tantos inimigos?

— Shiro. O nome dele é Shiro – Respondeu a voz baixa. Engoliu em seco. —– Braço direito do Nedzu. Um cientista, ou algo do tipo. Um filho da puta arrombado. — Levantou os olhos para Itachi. — Tirou meu sangue várias vezes. Não sei o que fizeram com ele. Não sei se usaram para alguma coisa ou se só jogaram fora. Falava muito aquele merda… Mas, me desculpa, não fui capaz de saber de muita coisa . Sei que tem alguma tecnologia que minguava meu chakra. E Nedzu está na capital com a arma. Estava sendo levada pra lá quando escapei. E, Itachi — Sua voz então soou mais animada, quase rindo. — Yamato não é refém deles. Está lutando! Soube que acabou com alguns homens do Conclave. Isso é maravilhoso!

Itachi ficou em silêncio, digerindo as informações que Youko compartilhava. Seu rosto impassível não dizia nada, mas os olhos ônix ardiam em raiva, em ódio por aquele homem. Queria saber o quão aquele verme a machucara. Os pulsos e tornozelos queimados. O rosto cheio de hematomas. As marcas de agulhas no braço. O faria pagar por tudo. Todos pagariam.

Foi então que Itachi se ajoelhou. Youko não teve outra reação além de abrir a boca, embasbacada. Ele levou a mão ao peito.

O temido nukenin da vila da Folha, o assassino de clã, o homem que matara seus próprios compatriotas estava de joelhos diante dela. Não era por submissão, era por algo que parecia muito maior do que orgulho ou vaidade.

Era por ela.

— Arrancarei a cabeça dele por você!

As palavras paíraram no ar como um juramento. O coração de Youko batia forte no peito, e ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas pela sensação nova que lhe invadia.

Então com um leve sorriso e pousou a mão sobre a dele, os dedos enfaixados encontrando os dedos de Itachi e apertou suavemente.

— Eu mesma arrancarei, Itachi — disse. — Farei ele sentir tudo o que eu senti. Cada choque. Cada golpe. Cada momento de medo. Acabarei com todo o Conclave. — Seus olhos se encontraram. Youko via olhos ônix sérios, resolutos, que a compreenderia. Itachi notava o quão bonito eram de perto. — A missão é minha.

Ele piscou, afastando tais pensamento. Balançou a cabeça, aquiescendo. Não esqueceria o motivo que Youko fora mandada àquele país. Não esqueceria que ela era uma kunoichi de Konoha em missão, que ela tinha um objetivo, que ela tinha orgulho e honra. Ele não tiraria isso dela. Mas ficaria ao seu lado vigilante. Pronto para agir se ela precisasse. Pronto para matar se ela falhasse. Pronto para tudo.

— Termine de comer — disse Itachi, levantando-se lentamente. — Quero levá-la a um lugar.