Geisha

6 Capítulo 6 - Despedida


Notas iniciais
Narrador por Rika

Eu observava os subordinados de Irie colocarem minhas coisas sobre a carruagem. Não era muita coisa. Eu podia sentir o peso da tristeza em meu rosto, puxando os cantos de minha boca para baixo e semicerrando meus olhos. Um dos rapazes veio tentar me consolar.

- Madame Rika, há algo incomodando a senhora?

- Ah, não. – pisquei uma vez e o respondi – E, por favor, não precisa desse “madame”. Apenas Rika. Não faz muito tempo que estive uma posição abaixo a de vocês. – eu sorri.

- Eu me lembro daquela época. Você era uma criança adorável, Rika. – ele retribuiu o sorriso.

- Ora essa. Não sou mais tão adorável como antes, é isso? – fingi indignação.

- Não! Não é isso. Longe disso... – ele tentou se explicar.

Eu ri de seu embaraço e toquei seu ombro, amigavelmente.

- Está tudo bem. Descansem um pouco.

Ele concordou com a cabeça, sorridente, e eu entrei para a Okiya. Minha expressão melancólica havia retornado. Eu passeava, sem rumo, pelos corredores da casa, guardando memórias fotográficas daquele lugar. Quando passei em frente ao quarto de Aniya, a porta estava entreaberta e pude ouvir uns gemidos, chorosos e tristes.

- Por que ela tem que ir? – Aniya molhava o colo de Shizuka com suas lágrimas. Ela estava no lugar de Marine, que normalmente seria a primeira a acalantá-la.

- Calma, Aniya. Tudo vai dar certo. – dizia abraçada à loira.

Eu me encolhi de remorso e segui meu caminho. Eu iria sentir falta das minhas irmãs. Todas elas. Mas... Cheguei então em frente ao quarto de Mameha. Pensei em falar com ela e fiz menção de bater à porta, quando ouvi Marine se exaltando.

- Isso é ridículo! – me encostei, discretamente, à porta para ouvir a conversa.

- Marine, se acalme. – disse Mameha.

- Por que ela tem que ir? Pior que isso!! Como ela vai embora e deixa a gente aqui?! Não devíamos ir com ela?!

- Ela sabe se virar sozinha. Não precisa de guarda-costas.

- Não me refiro a isso! Quer dizer... Ela vai viver na vida boa, em um palácio e a gente continua aqui? Deveríamos poder desfrutar dessas regalias também, não acha?

- Marine. A quem quer enganar? – tinha um tom sarcástico em sua voz.

- C-como assim, Mameha?

- Eu sei que usa esse egoísmo e interesse para esconder que não deseja que ela vá embora. E você também sabe disso...

- N-não. Claro que não é isso. – ela se atrapalhou.

Eu não podia ouvir mais aquilo. Estava me corroendo de culpa, de saudade. Abri a porta e fiz algo horrível.

- Não podem seguir comigo.

- E por que, posso saber? – Marine perguntou.

- Vocês só iriam me atrapalhar. Um bando de garotas inconseqüentes perambulando pelo palácio.

- Atrapalhar?! Como ousa?

- Agora, por favor, saia. Preciso conversar com Mameha.

- Se pensa que vou sair...

- Marine. Vá. – Mameha a interrompeu.

Marine a encarou, indignada e depois levou seu olhar até mim. Um ódio que eu nunca tinha visto em seus olhos. Mantive minha pose de soberana. Ela saiu do quarto com pressa e fechou a porta. Esperei que estivesse um tanto distante para me desfazer de minha máscara. Desabei. Toda a tristeza e culpa se apossaram de mim.

- Não acredita que ela engoliu essa, não é? – Mameha se manifestou tranquilamente enquanto tomava seu chá.

- Espero que sim, de verdade. Para o bem dela e das outras.

- Por que não as quer com você?

- Não é comigo. É naquele lugar.

- Elas serão protegidas daquele homem.

- Não! – me exaltei – Não quero, de maneira alguma, colocá-las em perigo. Eu sei me cuidar, Irie vai cuidar de mim. Mas elas não. Elas não conhecem as pessoas que vivem lá. Não podem imaginar os segredos que residem naquele palácio. E eu juro! Se o Kimura, ou algum de seus capangas, encostasse um dedo nelas... Eu juro! Eu mataria a ele e a toda sua família!

- Isso inclui o Irie? – ela levantou uma sobrancelha e dirigiu o olhar para mim, ainda com a xícara na boca, tomando um gole.

Eu não respondi, apenas desviei o olhar. Ela entendeu meu recado e não insistiu.

- Bom, o que veio fazer aqui?

- Despedida? – eu disse com um sorriso sem graça.

- Sabe o quanto odeio isso.

- Ora, Mameha. Um abraço não mata.

- Que seja. Venha logo, então.

Caminhei até ela, satisfeita, e a abracei. Ela foi minha mãe por estes cinco anos, me deu carinho, amor, roupas, ensinamentos preciosos, esperança e força. Não poderia ir embora sem me despedir.

- Pronto. Agora vá. – ela me rejeitou de forma engraçada.

- Adeus, Mameha. – eu contive um riso.

- Cuide-se, criança. E aproveite sua nova vida.

Assenti com a cabeça e sai de seu quarto. Fechando a porta.

Seguindo pelo corredor em direção à carruagem, encontrei Marine, com os braços cruzados e com as costas apoiadas à parede.

- O que você quer agora? – encarnei novamente a personagem ríspida.

- Quem você PENSA que engana? – ela dizia séria e com um tom de desdém. Fechei os olhos uma vez e suspirei.

- Se tem algo a dizer, por favor, diga logo. Estou com pressa. – pousei uma das mãos na cintura, fazendo pose.

- Quero ouvir da sua boca. – ela se aproximava pouco a pouco de mim – Por que deseja seguir essa viagem... sozinha?

- Porque não quero coisas pequenas no meu caminho.

- Coisas pequenas? – ela deu uma risadinha sarcástica – Diga a verdade. Você quer aquilo, não é?

- Como é? – ela se aproximou ainda mais e, agora, sussurrava maldosamente em minha orelha.

- Você quer ficar sozinha com ele, não é isso? Noites e mais noites de pura luxúria.

- Você não sabe o que está falando... – eu já estava espumando de raiva.

- Eu sempre soube quem você era. Nada melhor que uma mulher hipócrita e dissimulada. Uma simples ninfetinha contida. – ela passou a ponta da língua por meu pescoço subindo até minha orelha.

Eu me irritei. Peguei-a pela yukata e a joguei contra a parede.

- Você não me conhece. – minha voz era séria – Não sabe nada sobre mim. Não insinue coisas ao meu respeito, pois a desfrutável aqui é você. Alguém fútil e egoísta como você daria certinho com ele... – eu me arrependi com a última frase.

- Ele? Ele quem, querida irmã? — eu a larguei de forma grosseira.

- Não te interessa. – disse de forma ríspida e retomei meu caminho.

Cheguei até a entrada da Okiya, onde Irie esperava por mim.

- Estamos prontos para partir. — ele disse.

- Ah, ótimo.

- Talvez... Possamos levar suas irmãs...

- Não. Elas estão melhores aqui.

- Você não estava preocupada com elas?

- Preocupadas de como ficariam sem os lucros que eu trazia para a casa, não queria que lhes faltasse algo por causa de dinheiro. Mas você já cuidou disso. Minha maior preocupação agora é a de não levá-las para perto dele.

- Como você quiser, Rika. – ele me abraçou e me deu um beijo na testa.

Neste momento Mameha, Shizuka e Aniya aparecem para a despedida.

- Rika, você tem mesmo que ir? – perguntou Aniya.

- Ah, minha irmã. – eu a abracei – Não se preocupe. Venho visitar vocês, quando possível.

- Espero que saiba o que está fazendo. – disse Shizuka. Eu dei um sorriso.

- Também vou sentir sua falta. – a abracei e ela fez aquela cara de espantada. Consegui mobilizar a gélida Shizuka, hehe. Afastei-me e olhei para Mameha.

- Cuide da fênix. – foi só o que ela disse, apesar de não parecer a princípio, essa ordem foi para mim.

Olhei-a espantada com o conselho, mas logo formei um sorriso maldoso em meu rosto, compreendi seu recado. Irie, que havia se despedido de todas e agradecido mais uma vez, mostrou-me a carruagem e me ajudou a embarcar. Já sentada, olhei mais uma vez para a família que estava deixando para trás e vi Marine ao fundo da Okiya. Ela sorria de forma sincera, porém ainda petulante. Eu ria de sua pose, devolvi o mesmo sorriso. Ela abriu um leque azul-perolado, seu favorito, e escondeu metade do rosto. Nós costumávamos nos comunicar pelo olhar, para nós aquilo dizia tudo. O olhar dela era de alguém que me apoiava e me entendia , de uma garota esperta que sempre sabe de tudo e sempre consegue o que quer, era o olhar de Marine. Retribui o gesto da mesma maneira, escondendo o rosto com meu leque dourado e madeira avermelhada. Ela deu uma piscadinha para mim e se virou, toda prepotente, seguindo para o interior da Okiya. Eu não conseguia enganá-la, mentir para ela. Ela era mais esperta e uma atriz muito melhor, hehe.