Geisha
7 Capítulo 7 - Chegada ao Palácio
Notas iniciais
Escuridão total. Para qualquer lado que eu olhasse, não existia nada além da escuridão. Eu me sentia tão confortável, sereno e relaxado. Quando comecei a ouvir galopes de cavalos cujo volume aumentava gradativamente. A luz começou a penetrar minha tranquila sala negra e me senti meio incomodado.
- Finalmente acordou. – um doce anjo dizia com sua voz musical.
Abri os olhos pouco a pouco e percebi a imagem de Rika sentada a minha frente.
- Por quanto tempo eu dormi? – perguntei.
- Não muito. Fique tranqüilo, não perdeu nada.
- Estamos há dois dias viajando e ainda não a vi dormir.
- É porque caio no sono depois que você apaga. – ela riu.
- Uma piadista...
Pela intensidade da luz do sol, supus que era cerca de meio-dia. Em nossa viagem para o palácio, meus dois soldados revezavam no comando dos cavalos, por isso não precisávamos fazer paradas, chegaríamos rápido.
Começamos a adentrar as propriedades do Imperador. Várias árvores de cerejeira, além de outras espécies também. Pessoas que trabalhavam nos jardins e, mais ao longe, nos campos de arroz. Pude ver Rika se encolhendo, levantei e sentei ao lado dela.
- Já disse para não se preocupar. Agora esta casa também é sua. Todos aqui irão lhe respeitar...
- Não é isso. – ela me interrompeu com um pouco de rispidez. Pensei um pouco e vi que falei algo errado.
- O que é então?
- Não pensei que iria ter a infelicidade de estar sob o mesmo teto que ele de novo.
Decidi que não iria falar nada. Apenas a abracei, acolhi-a em meus braços. Eu sei que seria difícil para ela, mas considerando quem ela era agora, tenho certeza que iria se sair melhor até do que ela mesma imaginava.
Finalmente a carruagem parou. Os meus homens desceram e abriram a porta do veículo, eu desci e percebi que os empregados começavam a se amontoar ao redor da carruagem. Eu sorri. Pensei na reação deles ao ver a linda mulher que logo desceria também. Estendi a mão para Rika, que a tomou e se apoiou para descer. Todos ficaram chocados de imediato. A bela moça de cabelos flamejantes que delineavam seu corpo, com uma yukata vermelho-alaranjada ligeiramente aberta no colo, mas nada vulgar. Ela era perfeita e todos viram isso. Para meu espanto, tinham visto bem mais que isso. Uma senhora de cabelos grisalhos se aproximou lentamente dela. Rika dirigiu seu olhar para aquela senhora e esperou o que ela iria dizer.
- É mesmo você?
Rika fez uma cara de espanto. Seus olhos percorriam suas feições, parecia reconhecê-la pouco a pouco.
- E-Eu não... Dona Kurenai?
- Rika! Oh, meu Deus! Como você cresceu!
A minha ruiva correu para a senhora e a abraçou. Estava sorridente, maravilhosa.
- A senhora está ótima. Nem envelheceu tanto. – ela disse.
- Ora, ora. Não estou tão bela quanto você, minha linda criança, mas eu tento. Veja só... Quando pequena batia em minha cintura, e agora está dois palmos mais alta que eu, no mínimo.
- Eu me lembro da época que a senhora cuidava de mim. Eu realmente era baixinha. – ela riu deliciosamente.
Os outros empregados haviam se lembrado de Rika e se achegaram mais, queriam conversar com aquela pequena garota que havia mudado da água para o vinho. Passamos alguns minutos conversando enquanto os soldados entravam no palácio para anunciar nossa chegada. Uns perguntavam para Rika como ela estava, outros me perguntavam como havia sido a viagem. Até que um deles fez uma pergunta muitíssimo pertinente.
- Rika, que motivo a trás novamente para cá?
Eu sorri vitorioso e a envolvi com um dos braços, puxando-a para perto de mim.
- Rika será minha futura esposa.
Todos se calaram. Os rostos atônitos nos fitavam e nós nos sentimos um tanto incomodados. Mas eles não estavam nos condenando, na verdade estavam sentindo pena de nós. E o motivo desse sentimento deplorável não demorou muito para aparecer.
Kimura saía abraçado a duas geishas maquiadas de forma pesada. Ele ria junto com as moças, o trio exalava luxúria e orgia. Os empregados foram retomando seus afazeres pouco a pouco, com receio de serem punidos. Rika se encolheu contra mim e eu tentava escondê-la. Kimura percebeu a gente e parou, se aproximou de nós.
- Ora, se não é meu irmãozinho... E veio acompanhado. – ele dizia sarcasticamente. Não tinha reconhecido Rika ainda.
- Orgia de novo?
- Não é orgia. É reunião de negócios. – ele riu medonhamente – Eu proponho a essas moças o produto e elas me fazem sua oferta.
- Patético.
- Como se você tivesse autoridade nesse assunto, não é? Aliás... Essa mulher ai atrás é só enfeite ou tem alguma serventia?
- Você não estava de saída? – eu estava começando a me irritar.
- Só vim trazer as moças até a porta. – ele beijou ambas as mulheres.
Uma das moças conseguiu identificar Rika.
- Espere um pouco... Você não é da Okiya da Bruxa? – ela disse.
- Okiya da Bruxa? – Kimura repetiu ligando, rapidamente, um fato ao outro.
- Você não é a geisha revoltada? A protegida da Bruxa? – perguntou a outra geisha.
Rika baixou o olhar, sua respiração estava instável, mas ela se forçava a ficar calma.
- Rika... – Kimura finalmente se lembrou.
Ao ouvir seu nome sendo pronunciado por ele, ela levantou o olhar ferozmente. Seus olhos encontraram os de Kimura. Um olhar mortífero e repleto de ódio, repulsa e aversão. Em seguida encontrou os olhos das geishas e um sorriso maléfico se abriu em seu rosto.
- Vocês não deviam... procurar outros clientes? – Rika perguntou para as cortesãs.
- Quem é você... – começou uma das moças.
Rika logo a interrompeu. Na verdade, apenas levantou uma sobrancelha. As geishas pareceram enxergar algo além disso, algo que lhes causou tanto medo que ficaram petrificadas, paralisadas. O que elas poderiam ter visto? Logo meus homens apareceram dizendo que o Imperador queria nos ver.
- Não devemos contrariar o Imperador, não é mesmo, Irie?
- Com certeza. – eu peguei em sua mão e saí com ela.
Entramos no palácio e deixamos o trio orgia, embasbacados, do lado de fora.
- Rika, como se sente? – ela não respondeu. Virei para ela e parecia estar possuída. Peguei em seus braços e a sacudi um pouco. — Rika! – ela reagiu como se saísse de um transe.
- Irie? O que é isso?
- Em que mundo você estava? – de início ela demonstrou não entender, piscou duas vezes e se recompôs.
- Seu irmão me deixa assim.
- Sei... Bom, vamos logo.
- Está bem.
E seguimos para o salão imperial.
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