Gato De Cheshire: As Sombras De Ícaris
4 Capítulo 4
Depois de horas de aprendizado forçado e atropelado ela havia adiquirido algumas roupas que poderia usar para ela e para Mary, para que elas não chamassem de mais a atenção. Entao correu para debaixo da placa da ESTAFE DAS TROCAS e esperou, atrapalhada, até que Cheshire chegasse.
Para sua surpresa ela distinguiu Cheshire um pouco longe dali, acompanhando de um ponto púrpura... Ah, não... Eles se conhecem?!
O ponto purpura cutuca as orelhas recém-descoloridas de Cheshire e ri, aparentemente comentando a abstinência de cor das mesmas, Cheshire cruza os braços com uma expressão grave, que em nada modifica o sorriso estampado na cara do estranho de olhos vítreos, que continuou a matraquear animadamente, até arrancar um sorriso do rosto de Cheshire, que riu alguma provável besteira dele.
Os dois eram encarados por moças que andavam pela rua, mas Cheshire não parecia se importar com isso, parecia habituado à plateia e Alles também.
Charlotte caminhou até os dois com uma expressão que dizia “não atrair holofotes, hãn? Sei...”.
- Ah, olá minha criança. Bom vê-la novamente. – ele sorri.
- É... Bom... – disse encarando Cheshire.
- Você e Alles se conhecem Charlie? – ele disse em surpresa.
- Sim... Nos conhecemos... – ela diz, ainda inconformada.
- Raro ver Alles descendo de seu mundinho feliz para interagir com qualquer um. – Cheshire ri.
- As pessoas em sua maioria são muito chatas. – ele diz, sorrindo. – Elas que não chegam ao meu mundinho feliz, não o oposto.
Cheshire ri novamente, parecia ter alguma intimidade do rapaz, talvez se conhecessem de longa data, ou ele simplesmente o tenha abordado de maneira invasiva como fez com ela.
- Diga-me, minha criança, você parece incomodada. O que te aflige? – Alles pergunta.
- Ah, nada. Apenas estava pensando.
- Se pensar lhe causa tanto desgosto, sugiro que pare de pensar o mais breve possível. – ele recomenda em tom de seriedade.
Charlotte apenas olha para ele, não seria possível que ele estivesse falando sério, mas parecia estar. Estar realmente recomendando a ela que parasse de pensar.
- Certo, certo. – Cheshire diz. – Ouça Alles, agora temos que ir.
- Claro, eu também. – ele diz, alternando o apoio de peso do corpo da perna direita para a perna esquerda.
Alles era dotado de uma naturalidade avoada e aérea, e parecia nesse momento ter milhões de outros pensamentos simultâneos ao foco que tinha para a conversa.
- Nos vemos em algum momento. – Cheshire sorri.
- Obviamente, — Alles que não havia deixado de sorrir em quase momento algum consente. – A menos que eu fique inesperadamente cego, mas eu duvido, a possibilidade é realmente bem pequena. Então acho que existe algo como 97% de nos vermos novamente, de fato.
Cheshire e Charlotte caminhando de volta pelo caminho, Charlotte tentava entender se ele realmente estava falando sério, e Cheshire ria calmamente, parecia tão habituado a mente aleatória de Alles quanto ela estava a de Mary e sua falta completa de coordenação motora.
Alles seguiu até os subúrbios de Ícaris, um lugar escuro e úmido, onde aqueles que estavam perdidos viviam, num acordo cravado com os cádins, que vagavam pelas sombras do local.
Não por falta de motivo, todo o entorno da cidade-capital era chamado de “Subúrbios Cadianos”, lugar onde pessoas apáticas viviam no frio e nas sombras dos lados mais hostis de Íscaris.
E nesse local inóspito, Alles caminhava como se estivesse cercado de flores.
Em verdade, nada o tentaria mata-lo, afinal ele era neutro, não pendia a nenhum dos lados, então era um figura tão desimportante quanto qualquer outra para aqueles que por lá transitavam. E, por seu acordo com Aristark, ele podia passar também entre os cádins, que se camuflavam em formas humanas pela população desinteressada.
Alles mal se interessava pelas pessoas vestidas praticamente todas do mesmo modo, optando por caminhar sobre os telhados como de costume, sendo que estes são tortos, pontiagudos e mal acabados, feitos de madeira ou pedras, cobertas de pó e limo.
O estremo leste do subúrbio era muito próximo das montanhas, era muito mais frio e mais escuro que as zonas mais próximas do centro, e era possível ver “pessoas” com olhos negros caminhando livremente pelas ruas, com uma respiração chiada, as vezes com lágrimas negras e expressas vazando dos olhos, nada como uma demonstração emocional, mas sim uma reação fisiológica a forma bípede escolhida, que é muito complexa de manter.
Ele entre numa das lojas esquálidas do quarteirão e é recebido por um vozeirão animado.
- Oh! Alles! É bom vê-lo de novo garoto! – disse Maquiel, o dono do estabelecimento.
Pouco se sabia sobre Alles, ele nunca dizia nada sobre si e não gostava particularmente de atenção, mas, pela forma como normalmente se comportava, acaba por chama-la toda para si, por andar pelos telhados cantarolando e rindo, por desrespeitar ditadores e roubar objetos que pertenciam ao governo.
Landscape, por exemplo, era chefe da guarda nacional, e era conhecido por ser um ditador extremamente rigoroso. E, mesmo sabendo disso, Alles não havia hesitado em dizer-lhe tudo aquilo que todos pensavam porém não tinham estômago para encarar.
A princesa Genébra ainda era criança, e não podia tomar o trono, seu pai, um velho inválido, rei Teodoro, já não era apto para o serviço, e com isso, Landscape tinha basicamente todo o poder.
- Quero uma chave.
Maquiel sendo chaveiro, ainda que não dos mais corretos legalmente, puxou sua caixa e perguntou.
- Chave para onde garoto?
- Para a torre sudoeste do castelo Lanscape.
- O que vai fazer lá, garoto?
- Nada que lhe diga respeito Maquiel.
- Ai, ai, ai. Não acha que já tem problemas demais, garoto?
Maquiel era um dos moradores ainda não perdidos da periferia, e parecia bastante feliz para alguém nessa situação.
Era um homem de seus quase cinquenta e oito anos, de cabelo que perderam parte da cor e desbotaram até um cinza escuro pálido com muitos fios brancos, tinha suas marcas de expressão com orgulho, de acordo com ele eram “as marcas de uma vida que valeu a pena”.
- Se meus problemas não me encontrarem, eles não existem. É como brincar de pique com a morte, até hoje eu estou ganhando.
Maquiel ri da atitude aérea e displicente do rapaz que para ele sempre parecia criança.
- Certo, como quiser. Venha aqui pegar a chave amanhã.
- Obrigado Maquiel.
- De nada, garoto. Eu coloca na sua conta.
- Até logo. – ele diz, saindo e voltando pelos telhados.
- Ai, ai. Essa juventude revolucionária...
***
Charlotte larga as sacolas sobre a cama, olhando pra Mary, que lia de ponta-cabeça um livro de capa vermelha.
- O que é isso?
- Um livro de lendas antigas. – ela diz.
- E você consegue ler esse negócio?
- Nem uma palavra. – ela dia atirando o livro no sofá. – O que tem ai?
- Roupas.
Mary vai xeretar nas sacolas e Charlotte aguarda que William saia do banheiro para que ela possa usá-lo.
- Onde está Antonie?
- Ele saiu. Foi até a cidade tentar encontrar alguém que consertasse seus óculos de leitura.
- Então tá.
Will sai do banheiro, um tanto atordoado.
- O que foi Will?
- Chuveiro estranho das dimensões paralelas... – ele diz, ainda tentando entender o que aconteceu em seu banho.
- Como assim?
- Saiu uma coisa azul do ralo... E perguntou se eu queria um taftar... Eu não tenho ideia do que seja isso...
- Coisa azul... Não deixe Mary ouvir.
- A coisa azul sabia o meu nome... Ai eu tinha de escolher umas cores de água colorida, que tinham uns cheiros estranhos... e ai a coisa azul voltou pro ralo... Charlie eu não vou mais tomar banho com aquela coisa lá.
Chalotte ri.
- Ah, é! Então vai lá! Quero só ver se você vai tomar banho com aquele negócio no ralo.
Cheshire, em sua forma de gato, recentemente aloireado, passou pelo corredor, tilintando o sininho que carregava no pescoço.
- Cheshire, como eu uso o banheiro? – Will perguntou de súbito.
Cheshire parou seu caminho, virando para Will e inclinando a cabeça. Charlotte começou a rir.
- Não, você não entendeu. O que é aquele negócio azul? Que água é aquela? E o que raios é um taftar?
Cheshire miou. Will ficou encarando o gato com certa impaciência.
- Cheshire, na minha língua, por favor. Eu não falo gatonês.
O gato preto empinou as patas dianteiras pondo-se de pé, e então foi se deformando e se remodelando como alguém vítima da maldição de lobisomem, porém era um gato.
- Estranho... – observou Will, traduzindo os pensamentos de Charlotte naquele momento.
- Aquilo é um tropler, um ajudante. E não é azul, ele ficou azul por que você gosta de azul. – ele diz, recostando à parede. – Taftar é sabonete.
- Aquilo... muda de cor?
- “Aquilo” fica magoado fácil. E você com certeza não quer magoar um tropler.
- Eu não quero?...
- Lembre-se que o tropler anda dentro das tubulações da casa, se ele ficar magoado ele vai inchar e cortar o fornecimento de água.
- Certo... Não magoar a coisa azul... – disse pra si mesmo. – Como eu me refiro àquilo então?
- Chame de tropler, ele deve se apresentar.
- Se apresentar... Ok... – ele parecia estar digerindo as informações devagar.
- Você pedir que ele saia do banheiro quando você estiver tomando banho. Mas seja educado, é costume se ser educado com os tropleres por aqui.
- Certo... Educado com o... Tropler.
Com isso, e ainda enrolado em sua toalha, William voltou para o banheiro, abrindo a porta e encontrando o tropler pressionado contra a porta, grudado nela, na verdade, tentando ouvir a conversa do corredor.
- Olá senhor tropler. – William disse.
Em todos os anos trabalhando como atendente na biblioteca e após algumas semanas convivendo diariamente com os gêmeos Alcoran, em especial Arkadi, haviam agregado uma grande facilidade em fingir tranquilidade em situações de completo e absoluto estranhamento.
- Olá. – disse a grande gosma, esticando-se até a altura dele, e adquirindo uma tonalidade azul. – Quer taftar?
- Claro, mas eu agradeceria se você não ficasse no banheiro enquanto eu tomo banho. – ele sorri.
- Obviamente. – disse a gosma azul, encolhendo-se junto ao chão e rastejando como uma poça grande de geleca infantil. – Boa tarde. – disse quando passava por Charlotte e Cheshire.
- Boa tarde. – disse Cheshire com um sorriso cortês, acotovelando Charlotte que parecia em choque demais para falar com a geleca educada.
- Ah, é... Sim, boa tarde.
A geleca escorreu por debaixo da porta do quarto que Mary e Charlotte dividiam, era óbvio que Mary agora teria algo pra fazer, e alguém que lesse histórias naquela língua estranha pra ela, mesmo que esse “alguém” fosse uma poça de gosma que agora tornara-se laranja.
- Geleia falante... – Charlie resmungou mais para si que para qualquer outro.
Cheshire riu e continuou o caminho, começando as velas ao redor da casa.
***
A essa altura, Antonie começava a voltar pelo caminho, quando foi subitamente e quase esmagado por Alles que surgiu do céu, literalmente.
- Oh céus! – disse, jogando-se dois passos para trás.
- Desculpe, jovem. Não pretendia esmaga-lo. – disse simplesmente.
- De onde você veio?! – perguntou, colocando os óculos de volta no lugar e estabilizando a respiração.
- De cima, não é óbvio? Eu não teria caído se não estivesse mais em cima do que estou nesse momento.
- Certo, claro. Mas onde? – perguntou, insistente.
- Do telhado, oras. Mas que perguntas óbvias você faz, rapaz.
Antonie olhou para o telhado muitos metros acima.
- O que seria você?
- Eu seria um Alles, mas creio que não ajam outros como eu, pelo menos eu acho, se achar outros como eu por ai não confie neles, de certo são todos más influencias. – disse, sério.
- Um... Alles?
- Pois de certo! Parece-me que você é de fato um rapaz muito repetitivo. Por acaso falha-lhe a cabeça? – perguntou, com um sorriso piedoso.
- Eu quem deveria perguntar! – disse, sentindo-se ofendido.
- Ah, agradeço a preocupação. – disse com genuíno agradecimento. – Creio que ainda possua todos os meus parafusos, admito que um ou dois devam estar fora de seus lugares de origem, mas nunca fui bom em organizações. – aceitou.
“Mais gente doida, que maravilha...” pensou por um momento, ajeitando os óculos no rosto, analisando a expressão infantil um tanto gélida do rapaz de casaco púrpura.
- O que há de errado com seus olhos, meu rapaz? Por que carrega janelinhas junto deles? – perguntou, observando os óculos de Antonie de vários pontos de vista.
- Não são janelas, são óculos. – declarou, já um pouco impaciente.
- Oh! Que coisa fantástica! E o que fazem? – perguntou, tirando-lhe os óculos do rosto.
Colocando no próprio e sentindo-se um tanto atordoado com a repentina sensação de cegueira.
Ele pronuncia uma palavra que aos ouvidos destreinados de Antonie soou estranhamente como “almofada” — Você usa essas coisas para ficar cego, meu rapaz? – perguntou, piscando varias vezes antes de ter os óculos tomados de volta por Antonie.
- Eu uso para enxergar. Você não bate bem da cabeça, não é? – perguntou, reposicionando os óculos no rosto.
- Ah, é? Eu devo enxergar muito mal mesmo então, ou talvez de fato o mundo seja borrado desse modo e minha mente que erroneamente tenta endireita-la, e eu esteja vendo mentiras a minha vida toda! – ele de repente parece assombrado por essa ideia. – Isso não pode ser tolerado! Rapaz eu preciso desses tais “óculos” onde você os comprou? – disse olhando para Antonie em certa ansiedade.
- Não. Ouça, se você vê corretamente sem eles, não é preciso que use óculos. – suspirou.
- Mas como posso saber o que é o correto de fato? – perguntou, ansioso.
- Se nada está borrado, você enxerga corretamente. – disse, perguntando-se o quão louca era a gente daquele lugar.
- Mas eu não sei dizer se aquilo que eu chamo de “borrado” é na verdade o que a palavra realmente significa. E se na verdade cresci iludido por uma mentira?
- Nesse caso essa é a sua verdade, e se ela até hoje funciona com você, logo não é preciso que se mude nada. – disse, massageando as têmporas, as logicas daquele cara de púrpura o estavam confundindo.
- É você tem razão. – disse, aceitando tudo com facilidade e voltando a sorrir. – Olhe, são Castiçais.
- O... suporte de velas? – aquilo era a gota, estava prestes a partir quando a explicação veio.
- Não. Os assassinos mestiços de Landscape. – disse, sem se alterar muito, inclinando-se para os lados para ter melhor visão dos truculentos homens em preto que caminhavam naquela direção naquele momento, abrindo caminho entre as pessoas.
Antonie parou onde estava.
- Assassi... nos...
- Sim, são aqueles homens que matam, entende?
- Eu sei o que é um assassino! Eles estão atrás de quem?
- De mim, muito provável, já que eu acabei me tornando a razão de viver de Landscape. – disse, como se repreendesse a obsessão de Landscape.
- Então faça algo!
- Eu ainda não sei se sou eu que eles querem, não seria prudente sair atropelando pessoas sem ter certeza de que eu sou o motivo de toda essa balburdia.
- Vá de uma vez homem! – ele diz, empurrando Alles pela multidão.
Notas finais
Um capítulo após muito tempo x-x
Bem, sempre tentando.
Me digam o que acharam, ok? ^^
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