Na manhã do dia seguinte, Charlotte pensava que em poucas horas teria de se encontrar com Cheshire para fazer comprar, estava lembrando passagens e memorizando referencias, dois prédios rosa, uma livraria, um poste de querosene.

BAM!

CRASH!

- Oh, céus! Perdoe-me... – Charlotte dispara apressadamente.

Um rapaz de olhos vítreos e azuis como bolas de gude, brancos e azuis, como uma pequena esfera feita para parecer-se perfeitamente com o olho humano, porém muito mais translúcidos e reluzentes, olhava agora o enorme embrulho de papel que agora vazava liquido aos frangalhos, úmido e azulado.

- Oh, mais que tragédia, uma tragédia mesmo. – ele diz, num tom nenhum pouco alterado, com um sorriso imóvel nos olhos de vidro.

Charlotte se abaixa com o intuito de recolher os miseráveis pedaços de vidro no chão.

Ele se abaixa, jogando o leve tecido púrpura de seu casaco algo fino macio como cetim, porém mais flexível e mais ajustável, a esvoaçar como uma retalho de seda jogado a uma ventania, pegando as mãos de Charlotte antes que ela tocasse no embrulho esmigalhado.

- Não, não, minha criança, não toque nisso. Isso seria muito, muito problemático.

Charlotte se vê encarando os olhos daquele sujeito tão... Excêntrico, o casaco púrpura era apenas a mais chamativa de suas características, se viu pensando se seus olhos eram reais, se não seria na verdade um boneco, até que ele piscou e seu sorriso se contraiu numa alegre expressão de despreocupação. A palavra “criança” ecoava dentro de sua cabeça como uma lembrança.

- Criança...?

- Não se preocupe, cuidarei disso, agora vá, vá antes que eles cheguem.

- Eles...?

Um grupo de contundentes homens trajados de preto chegaram em carros pelas ruas, o rapaz lentamente se levantou, com sua leve expressão veranesca e colocou dramaticamente a mão em sua testa, com um olhar excessivamente expressivo, retornando ao natural assim que terminou de falar:

- Oh céus! Trade de mais, eles chegaram.

Virou-se de súbito, pegando o pacote esfarrapado e atirando no meio do pequeno grupo de sinistros e indistintos homens.

O pacote se inflou, queimando-se numa enorme labareda azulada que tornou-se magenta após alguns segundos.

- Corra criança, antes que você se comprometa demais.

Para todos os efeitos, talvez pelo fogo, talvez por toda a estranheza daquele homem sorridente e excêntrico, Charlotte fez como lhe foi dito e disparou loucamente rua abaixo. Seu peito doía, o ar parecia pesado, mas ela não parou ou olhou para trás, queria ficar longe de encrencas, dos holofotes, e aquela parecia uma péssima maneira de fazê-lo.

Parando numa praça, muito, muito longe de toda aquela cena, ela se jogou num banco cinzento de pedra polida e ficou lá, largada e ofegante, como um hamster velho que correu em sua roda por tempo demais.

Um grupo de mulheres com enormes vestidos floridos e pregueados conversava com uma alegria sincera e fofoqueira.

- Você viu? Parece que ele apareceu de novo.

“Mais que mania revoltante de se referir a tudo e todos como ele” Charlotte resmungou para si mesma, dentro de sua mente, onde ela podia falar sem ter que absorver imensas braçadas de ar.

- Mesmo? O que foi dessa vez?

- Parece que ele comprou briga com Landscape.

- Landscape?! Nossa, ele certamente tem muita coragem...

- Shh... Landscape está oferecendo uma recompensa enorme pelo pescoço dele.

- Hump, não há ninguém capaz de pegá-lo de surpresa. – uma delas proferiu, com uma certeza absolutamente cega.

- Aposto que ele escapara feito fumaça como da última vez.

- Não tenho certeza. – uma de azul a esquerda, não tão confiante, disse. – Landscape é muito assustador, e não desejará perder seu respeito diante dos outros.

Fôlego recuperado, Charlotte sentiu um ímpeto de perguntar se elas falavam do estranho rapaz de púrpura hoje, mas sua garganta se fez em nó ao pensar que isso podia atrapalhar o objetivo principal de toda aquela viagem.

- Não importa, não vão pegá-lo. – a convicta diz.

Charlie se da conta do horário, pelo grande e luminoso relógio do centro, faltava pouco para encontrar Cheshire, disparando novamente em casa, poste de querosene, uma livraria, dois prédios rosa.

- Voltei! – finalmente dentro de casa.

Ela era a única dentro do pequeno aposento de entrada, que ainda cheirava a algo que por muito tempo ficou fechado.

Caminhou por dentro do estreito corredor, adentrando a sala espaçosa com uma lareira numa das paredes, sofás de cores amenas, cortinas que um dia, quando estavam limpas, deviam ser de um tom escarlate charmoso, mas agora aproximavam-se a um possível coral amarelado levemente desbotado.

Transpassando a sala, verificou os quartos, sim, estava só, o que era quase óbvio, afinal ainda distanciava-se muito do sétimo solstício de lua, o último quarto a verificar era...

Cheshire.

A porta estava entreaberta, lá dentro ela ouviu o som da torneira aberta, e algo sendo limpo, talvez esfregado.

- Cheshire, você está...- POR DEUS! COM TODOS O ANJOS!

Cheshire olhava para o espelho, o cabelo molhada despenteado num caos quase ordenado, porém... Loiro, loiro como se a cor houvesse escorrido durante o banho, um loiro límpido e dourado, o negro profundo de seu cabelo havia se convertido em loiro reflexivo e suave, como a noite torna-se dia após muitas horas de espera... Não que para Charlotte isso fosse bom de modo nenhum.

- O QUE HOUVE COM VOCÊ?!

- Ah, descolori o cabelo, não quero que me reconheçam fácil na rua.

- Mas, mas, mas, mas, mas...

No recinto o cheiro forte de orquídeas, produtos químicos e vapor... Só então notou que ele só usava uma toalha...

- Espere-me lá fora, logo terminarei o que estou fazendo. – ele declara com calma, secando o cabelo com uma pequena toalha de mão. – A menos que prefira ficar aqui e assistir enquanto me visto.

Charlotte bate a porta com o coração na boca, viu mais do que podia e menos do que gostaria por mais que nunca em sua vida fosse admitir, o rosto da mesma cor do cabelo.

— Ora essa! Mais quanto atrevimento. – resmungou pra si mesma, pisando duro até a sala.

Notas finais
Mais um capítulo, be happy