Chegaram na cidade de forma quase arrastada, num silêncio espesso e pesado, distraindo-se com a paisagem colorida e farta em objetos a serem contemplados, por sorte.

A rua tortuosa de ladrilhos de cor salmão terminava perpendicularmente em uma outra, mais larga, de cor turquesa, que se estendia quase eternamente.

À direita, casinhas em tons róseos, e vermelhos, e roxos constituíam uma longa linha de lojas que vendiam todo tipo de roupa feminina, sapato, assessório ou maquiagem extravagante e costumeiramente chamativa que parecia ser típica terra de aspecto quase circense.

À esquerda o mesmo se repetia em estabelecimentos verdes, azuis, e amarelos, onde se negociavam roupas masculinas, relógios e sapatos de aspectos sociais ou excessivamente fantasiosos se espalhavam até onde a vista alcançava.

No centro da rua, em frente a onde Charlotte e Cheshire se encontravam, havia uma placa com garrafais letras douradas que parecia ter sido feita à mão.

“ESTAFE DAS TROCAS”

- Aqui. – Cheshire entrega um pacote de pedras redondas peroladas, como um saco de bolinhas de gude. – Vou deixas as suas compras e as de Mary por sua conta, quando o relógio bater nove solstícios de estrela, me encontre aqui.

- Certo... – Charlotte concordou de modo vago, mesmo que não tivesse certeza de quando exatamente seriam nove solstícios de estrela.

Cheshire se afasta, caminhando pela rua de aparência eterna, ela se move para o outro lado, olhando as pessoas de vestidos em camadas, longos, curtos, lisos, rendados, porém todos em camadas, pessoas em pernas de pau, em linhas de bonde, e em pequenos carinhos esféricos coloridos e às vezes estampados.

De repente todos param, centenas de pares de olhos com cílios compridos se voltam aos telhados, altos, baixos, enroscados em arabescos.

- Olhem! É ele! – alguém sem nome aponta na multidão.

“Ele”, o estranho rapaz de casaco púrpura, para, estaca no pico de um castelinho rosa, apoiado na minúscula esfera da torre, esfera que se encontra na ponta de uma fina vara vertical. Seus olhos rasgam a multidão e pousam em Charlotte, ele sorri, puro e infantil.

- Olá minha criança. – ele inclina de leve a cabeça, agindo como se estar parado naquele poste não fosse nada, como se não estivesse a no mínimo seis metros do chão.

Ele se inclina levemente para frente, saltando de cima de seu poleiro suspenso para descer ao solo, flutuando e caindo devagar, como uma lufada púrpura de ar.

E as centenas de pares de olhos então se voltam a Charlotte... Oh não! Não, não, não, não! Atenção de mais! Atenção de mais!

Ele talha através da multidão, abrindo caminho com facilidade, as mãos dadas nas costas.

- O que alguém com tanto potencial em atrair problemas faz sozinha na Estafe das Trocas tão cedo? – ele pergunta, sorrindo, com uma descomunal e genuína inocência.

“Pense Charlotte! Pense! Como se livrar dos holofotes? Como? Como?” ela pensava sozinha. Então uma ideia não tão boa surgiu em sua cabeça atordoada pelo ataque surpresa, não era perfeito, mas teria de servir.

- Desculpe, mas eu não o conheço senhor. – ela diz, fingindo o melhor que pode uma expressão de surpresa.

Centenas de olhos maquiados de cores exóticas fuzilavam-na com tenacidade.

- Oh, mas é claro que não, minha criança. Eu não me apresentei.

- Perdão senhor, mas estou ocupada, tenho coisas a fazer, não posso perder muito tempo, desculpe.

E recomeçou a andar, simulando surpresa sincera e pressa atordoada.

Parte convencera-se de que ela não o conhecia de fato, parte não. Mas era melhor do que se todos acreditassem que se conheciam... Por deus! Ela somente havia esbarrado nele! Somente isso!

Caminhou por mais algumas ruas, enfiou-se numa viela escura, fruto do espaço entre dois prédios e recostou-se na parede, puxando uma longa braçada de ar.

- Deixou cair.

E lá estava o casaco púrpura de novo.

- Ah! – engolindo o coração de volta para o peito. – De onde você veio...?

- Do telhado, você fugiu e me deixou falando sozinho. – ele diz, ainda sustentando uma pequena corrente prateada.

Charlotte toca o pescoço. Droga! A corrente que Cheshire havia lhe dado...

- Ah... Obrigada... – ela estende uma das mãos para pegar a fina corrente prateada.

Ele tira a corrente do alcance de sua mão.

- Devolvo se me disser como se chama. — o sorriso volta a ocupar sua expressão.

Uma breve pausa. – Charlotte...

A correntinha então está no bolso de Charlotte, sem que ele sequer tenha se movido... Não importa como ele fez isso, chega de mágica por hoje.

Então ele coloca as mãos nas costas, sorrindo, um sorriso fácil e harmonioso

- Você deve ser a estrangeira que humilhou Aristark.

- Humilhou... Quem?

- Aristark, um dos mais velhos Cádins do reinado do leste. – ele diz, jogando o peso pra cima, pulando e caindo sentado no batente de uma janela próxima, alguns metros acima. – pelo que dizem ele não está muito feliz.

- Como você sabe tanto sobre cádins? – Charlotte pergunta, olhando para cima e para a janela onde ele estava sentado. – Quem é você afinal?

- Ah, finalmente você perguntou. Achei que nunca fosse perguntar. – ele diz, sorridente, jogando as costas pra trás, displicente para alguém sentado numa janela tão longe do chão. – Sou Andersein Lancaster Lorelâin Eva Sistarin. Ou simplesmente Alles.

Era impressão ou ele tinha deliberadamente ignorado a primeira pergunta...?

Aliás, que maravilha, mais problema, tudo que ela precisava, mais gente pra fazê-la chamar a atenção...

- Uh-Oh... – ele diz, descendo da janela, com seu comportamento de lufada de ar.

Uh-Oh? Uh-Oh nunca é bom. O que é Uh-Oh?

- O que...? – Charlotte pergunta, já pronta pra correr de novo se preciso for.

- Me encontraram. – ele diz, dando de ombros com naturalidade. – Desculpe por te envolver nisso.

ENVOLVER?!

- Peraí! Me envolver em que?!

- Feche os olhos e respire fundo, você pode ficar um pouco enjoada.

Ele a pega pelas mãos, jogando o corpo para cima num salto de uns sete ou oito metros de altura.

- AH!

- Tente não olhar muito pra baixo, sim?

Um grupo de homens trajados de preto invade a viela de maneira truculenta, olhando para todos os lados da minúscula e enegrecida ruazinha, crentes de que ele havia se tornado algo da paisagem.

- Me ponha no chão! Me ponha no chão agora!

- Você veio pra cá com alguém, minha criança? Você não parece o tipo de pessoa que viria para o reinado do leste por conta própria.

- Eu só responderei qualquer coisa QUANDO ME PUSER NO CHÃO!

- Ora, ora, mais quanta raiva nesse coraçãozinho gelado.

Ele a solta, ela cai cerca de meio metro até o teto de um telhado íngreme de uma estrutura em forma de “V” invertido, escorregando como um grande escorregador pela beirada da construção, terminando no chão, onde rolou até bater na parede do outro prédio.

- Pronto. Está no chão. Sente-se mais feliz agora? – ele pergunta, pousando suavemente ao lado dela.

- Não! Eu rolei pela beirada de uma loja, ralei o joelho e bati numa parede! Isso sem falar que agora eu estou no meio do problema de um maluco que eu nem conheço e que parece ser inimigo número um de um governante igualmente maluco! Diz pra mim como eu posso estar BEM?!

- Qual joelho?

- O que?!

De novo, ele ignorou todo o pedaço da sentença que não lhe convinha ouvir.

Alles agacha em frente a Charlotte, olhando o joelho ralado com uma expressão pensativa, ele tira um curativo do bolso do casaco, abrindo e tirando um pequeno band-aid de formato estranho de dentro, com uma cor púrpura como a de seu casaco. Devagar ele colocar o curativo sobre a pequena ferida avermelhada, dando um beijinho logo em seguida, em sua expressão não havia a menor, a menos perceptível maldade, ele era como uma criança, não tinha ideia do efeito que provocava nas mulheres em geral.

- Pronto, agora você ficará bem. – ele sorri, doce e gentil.

Charlotte enrubesce até quase as orelhas, resmungando algo para si mesma, algo como: “Essa gente louca dessas dimensões paralelas.”

- Bem, eu tenho que ir minha criança, boa sorte no que quer que seja que está fazendo e não quer me contar. – ele acena, jogando o corpo para cima e sumindo metros acima do chão.

Quando ela percebe.

- POR DEUS QUE HORAS SÃO?!

Charlotte dispara novamente para a rua, perguntando a primeira mulher que encontra.

- Em que solstício estamos agora?

A mulher pisca seus longos cílios de aparência artificial. – São sete solstícios de estrela...

Charlotte sai em disparada pela rua, tinha dois solstícios para aprender a negociar e comprar tudo o que ela e Mary precisariam... Droga.

Era tudo culpa de Alles.

Notas finais
Bem, desculpem a demora ^^"
Eu estou em época d prova e não tenho tempo d escrever, sorry o/