Notas iniciais
Boa leitura

Oitavo dia

Meu pai Francisco estava dentro de um quarto olhando pensativo por uma janela. O quarto era pequeno, tinha uma cama de solteiro, uma TV suspensa no canto oposto à cama, uma mala encostada numa outra parede aberta com algumas roupas por cima. A visão que eu tinha era como se eu fosse meu pai, estava olhando por sua perspectiva. Ele pensava em uma mulher, mas não era minha mãe, uma mulher que eu não conhecia com a pele bronzeada, aparentemente uns trinta e cinco anos, cabelos lisos na altura dos ombros escuros e olhos negros, com uma profundidade hipnotizante. Fiquei impressionado com seus olhos...... Era uma linda mulher, nunca a tinha visto antes. Ele se assustou quando percebeu que a imagem dela não estava só na sua cabeça, mas também ao lado de fora da janela, era real. Ele andou em sua direção abrindo a janela de encontro à escuridão. Depois de aberta a imagem dela se dissipou e várias sombras adentraram ao quarto, o tomaram e o levaram janela a fora.
Quando se deu por si, estava numa floresta deitado na cama, mas não havia paredes, a cama estava sob o gramado. Estava sozinho naquele momento. Sabia que precisava sair dali. Assim que acordou percebeu a energia negativa e sabia que estava em apuros. Tentou se transformar no lobo, mas senti-se fraco e na primeira tentativa falhou. Tentou mais uma vez e se transformou num lobo negro com olhos amarelos.
Identificou que estava na terra, na colina, sabia que estava fora do campo de força, pois sentia a presença do mal. A visão do lobo durante a noite era igual a sua visão durante o dia, a diferença eram somente as cores que passavam de tons de vermelhos e amarelos para tonalidades de cinza e azul. Via perfeitamente e identificou em que direção deveria correr. Neste mesmo momento sentiu um baque no peito e foi jogado ao encontro da guarda da cama. Não sabia nem o que tinha o atacado, mas sentiu que não tinha parado e levou ainda vários golpes até perder a força se transformando em humano novamente.
Estava assustado e percebeu o que o atacava, eram as sombras, sem qualquer formato, densa e negra. Quando tocavam sua pele deixavam um rastro queimado, sua pele latejava de dor, mais nas pernas e braços que em outro lugar, pois os usava para proteger-se, estava com o corpo nu sob a relva.
Com um último sopro de energia focou a visão e a última coisa que viu foi uma das sombras se materializar em um homem. Ele aparentava ter uns quarenta e cincos anos, vestiam roupas fora de época, tinha os cabelos ondulados e negros um pouco maior que a altura dos ombros, a testa era exposta e a face transmitia uma expressão rude. Ele apagou.........
Eram três horas da madrugada quando acordei, estava ofegante e sentia-me cansado. Sentei-me em minha cama num movimento só e comecei a lembrar-me de meu sonho. Não tinha sonhado com a minha mãe como das outras vezes, desta vez foi um sonho diferente.
Na verdade, não era um sonho, tinha realmente acontecido com meu pai. Ele havia sido capturado pelo mal, estava próximo, dentro da Colina. Provavelmente isto foi a três dias, na noite de seu desaparecimento. Não sabia como sabia destes detalhes, mas sabia que era real. Como será que estaria agora? Ainda estava vivo, com certeza. Precisava encontrá-lo. Sabia exatamente onde ele estava. Eu havia passado por este ponto da floresta no dia em que cheguei à colina. Acho que uns dois quilômetros daqui.
Não tinha tempo para esperar o conselho se reunir e mandar um grupo de busca. Precisava achá-lo agora e se procurasse por Kevin ele me faria esperar. Não conseguiria esperar até o amanhecer. Sabia que tinha prometido não ir sozinho, mas depois me entenderia com Kevin. A vida de meu pai era mais importante que uma promessa. Decidi ir naquele momento. Me vesti e coloquei a couraça, minhas espadas, o saco de magia, as botas e saí porta afora.
Não cruzei com ninguém dentro do dormitório, já do lado de fora havia alguns guerreiros e tralhos fazendo ronda noturna. Avistei Jake ao longe, pensei em pedir sua ajuda, mas com certeza ele também tentaria me impedir. Portanto segui o plano inicial de partir sozinho.
Andei pelas sombras das arvores do alojamento até chegar à extremidade do campo de força. Lembrei-me das habilidades do mal e fiz a magia de proteção da mente dizendo as palavras mágicas. Depois peguei o pó para abrir a passagem no campo de força e passei fechando-a atrás de mim.
Já do lado de fora, peguei a esfera do cavalo alado e o convoquei para me ajudar no transporte. Sentia a energia negativa pairando no ar, mas não me afetava mais. Acho que o feitiço de mente fechada estava funcionando perfeitamente. Voei em direção a floresta me perguntando quem era aquele homem que se materializou das sombras negras em meu sonho. Sempre ouvi que o mal não tinha forma definida e que não era liderado por ninguém, apenas energia negativa aleatória. Mas no caso do rapto de meu pai, ele deveria ser o líder. Mais uma pergunta inclusa na minha enorme lista de dúvidas. Pelo visto elas nunca iriam acabar.
Enquanto ainda voava me perguntei se poderia ser uma emboscada, o que poderia ser facilmente uma verdade. Precisava de uma estratégia para abordar meu pai e resgatá-lo do mal com êxito. Lembrei do feitiço de duplicar a mim mesmo e resolvi testá-lo no ar enquanto voava. Conseguia conjurá-lo com facilidade e projetar não só uma cópia, mas umas cinco. Isso ajudaria. Outra magia que eu já sabia controlar era a dos elementos. Coloquei a esfera colorida no topo da bolsa e avistei uma pequena clareira na floresta. Era próxima da localização que meu pai estaria.
Desci na clareira e decidi fazer minha aproximação pelo solo e sozinho, sem o cavalo. Caminhando chamaria menos atenção. O silêncio era absoluto, acho que os animais, insetos e qualquer ser vivo que pudesse sair da floresta se fora fugindo das trevas que pairavam. Não havia nenhum barulho por entre as árvores. Como eles não liam minha mente eu contava que não percebessem minha presença de imediato. E assim segui em frente.
Fui por entre as sombras, quando me aproximei, avistei alguns soldados negros, eram todos iguais como os que tinha se disfarçado de Elizabeth e me atacado há dois dias. Estava convencido que o plano deles era me destruir, totalmente direcionado a mim. Mas me sacrificaria por meu pai. Trocaria de lugar com ele se fosse preciso. Amava-o muito. Mas o plano original era salvar os dois. Ao longe, pude vê-lo dentro de uma gaiola suspenso em uma arvore.
Percebi que as arvores se tocavam no topo. Poderia ir andando sob elas, haviam poucos soldados ao redor da gaiola, oito para ser preciso. Mas olhando mais pra cima, ao redor, percebi que além dos soldados, sombras voavam formando um anel sincronizado com os soldados em terra, numa espécie de proteção. Um frio estranho irradiava delas. O homem que os liderava, em meu sonho, não se fazia presente. Poderia ser uma das sombras ao vento, embora não acreditasse nisto, pois supostamente ele seria o líder.
Segui meu plano e ao em vez de tomar minhas espadas nas mãos, peguei a esfera dos elementos e conjurei o ar. Uma neblina densa e branca me envolveu e a direcionei para as árvores que iria usar para chegar à gaiola do meu pai. Enviei a neblina devagar parecendo uma neblina natural, nem as sombras nem os soldados perceberam. Continuaram com sua ronda habitual. Cada soldado negro andava em par cobrindo o anel inferior de proteção. E as sombras também não estavam agrupadas e provavelmente também deviam estar em oito delas formando o anel superior. Não sei como sabia desta informação, pois não era possível contar as sombras, estavam misturadas entre si parecendo uma grande sobra em formato de circulo. Mas tinha certeza da quantidade delas.
Segui lentamente por sobre as arvores e avistei a gaiola com mais perfeição. Meu pai estava deitado dentro dela com roupas maltrapilhas e com os olhos fechados. Tive que me conter para não correr ao seu encontro. Quando estava mais próximo há mais ou menos umas cinco arvores de distância, meu pai abriu os olhos em alerta. Estava imóvel, percebi que notou minha aproximação. Olhei ao redor checando se os soldados ou as sombras me notaram assim como meu pai, mas eles se comportavam normalmente.
Faltavam umas três árvores para eu chegar ao circulo, as sombras estavam sob as arvores que eram altas, se eu não fizesse barulho seria fácil passar despercebidos por eles. O problema maior era os soldados que estavam próximos a gaiola, pois quando eu abrisse o alçapão em seu topo eles perceberiam.
Quando cheguei sob a gaiola ainda estava tudo tranqüilo, meu pai ainda imóvel me acompanhando com os olhos. Usei a nevoa para subir e cobrir a visão das sombras por completo e comecei a descer a nevoa sobre os soldados. Eles olharam uns para os outros, acredito que começaram a achar nevoa demais em torno deles e ficaram um pouco agitados.
Pulei silenciosamente em cima da gaiola e percebi que meu pai já se transformara em um grande lobo negro. Pulou para fora em cima de um soldado, atacando sua garganta e eu o segui já com as duas espadas em mãos atacando o próximo, fizemos o mínimo de barulho possível. Mas não foi suficiente, logo a neblina já tinha se dissipado um pouco e as sombras também nos atacavam.
Fiz o feitiço de multiplicar a mim mesmo e muitas das sombras erravam o alvo, atacando as copias, mas como não tinha tanta prática, só consegui mantê-las por uns dez segundos aproximadamente. Derrubamos os oito soldados facilmente, e estávamos tendo dificuldades para destruir as sombras. Recuperei o poder do vento e o fiz afastar as sombras de nós. Funcionou num primeiro momento, mas quando olhei por onde iríamos fugir, percebi um exercito daqueles soldados negros vindo em nossa direção.
Estávamos perdidos, embora tivéssemos indo bem até agora, não conseguiria manter a magia por tanto tempo. Era preciso muita concentração e com tantos soldados para lutar, seria muito difícil. Tinha uma centena deles, nós dois não seríamos suficientes. Dei as costas ao meu pai ainda transformado em lobo e assim derrubamos qualquer um que se aproximasse, mas num determinado momento, percebi que estávamos sendo derrotados. Meu pai fora afastado de mim e estava caído perto de uma árvore, mas como ainda estava transformado, percebi que ainda era dono de sua mente.
A situação não podia ficar pior e temia sermos destruídos em poucos momentos. Continuei lutando como louco, derrubando quantos soldados conseguia. A loucura de exterminar o mal me preenchia de dentro para fora. Uma pequena parte de meu cérebro ainda raciocinava, a maior parte se empenhava nos golpes, em uma batalha perdida. Lembrei-me das palavras do ministro dizendo que a valentia que resultava em um guerreiro abatido era idiotice. E pude ver a verdade nas palavras. Eu tinha feito exatamente isto, correndo para minha própria destruição.
Quando não havia mais esperanças, ainda continuei a lutar. Se morresse, seria lutando e tentando pelo menos salvar meu pai e assim me virei em sua direção. Um soldado chegava por trás dele e iria cravar a espada em seu corpo, não chegaria a tempo. Mas antes que a espada tocasse em seu peito, uma flecha perfurou sua armadura derrubando-o ao chão. Reconheci a flecha, era Elizabeth, com certeza. A flecha vermelha era sua característica.
Fiquei com medo de verdade, pavor de perdê-la. Por que tinha de me seguir? Ela era tão estúpida a ponto de querer me ajudar sozinha? Eu me sentia um estúpido. Tinha colocado a vida de meu pai em risco para salvá-lo. Está bem..., meu resgate era suicida, mas Elizabeth arriscar a vida também? Era demais pra mim. Eu perderia as duas pessoas que mais amo no mesmo momento. Via somente uma única flecha, o que indicava que a tola estava realmente sozinha. Não podia deixar isto acontecer.
Os soldados me golpeavam enquanto eu alcançava meu pai bloqueando minha passagem. Percebi mais algumas flechas e todas de Elizabeth. A haste das flechas dela era vermelha. Depois de um tempo eu vim a descobrir que ela coloria a haste para não ver suas flechas serem tingidas com o sangue das vítimas. Era vermelho vivo, da cor do sangue humano.
Ouvi mais barulho atrás de mim e pensei serem reforços para o mal. Desequilibrei com um golpe de um terceiro soldado, pois já lutava com dois naquele momento e escutei o barulho de espadas se chocando as minhas costas. Virei-me derrubando mais um soldado com as espadas e vi Jake acompanhado de vários tralhos lutando contra os soldados negros.
Tive um alívio quando notei outros guerreiros, muito mais tralhos e Kevin nos salvando daquela emboscada que eu mesmo tinha criado. Assim as sombras se foram e os soldados eram derrubados um a um até que não havia mais. As fadas vieram em seguida conjurando a magia de eliminação do mal por completo.
Jake se aproximou:
“-Está difícil ficar de olho em você se você tenta fugir de mim deste jeito.”
“-Como me encontrou?” Perguntei curioso e muito agradecido por Jake me salvar.
“-Segui você, mas tive que esperar os reforços chegarem para me aproximar, além disto, não sabia o que você planejava, então resolvi esperar até que realmente precisasse de ajuda.....” Jake disse com um sorriso brincalhão dando um soco de leve em meu ombro.
“-Você estava me seguindo sozinho?”
“-Kevin me alertou que tinha contado a verdade sobre seu pai a você e como conheço seu mau gênio sabia que a hora que descobrisse seu paradeiro iria tentar salvá-lo sozinho, sem esperar qualquer estratégia. Então fiz eu mesmo a estratégia, colocando alguns tralhos atrás de você. Não desgrudando os olhos um segundo sequer.” Lembrei-me de Laila, e que provavelmente viram-na entrando e saindo do meu quarto esta noite. Que azar! Jake percebeu meu constrangimento: “-Não se preocupe, o vigíamos somente para sua segurança. Nada, além disso, sua vida pessoal não nos diz respeito. E você não veio aqui totalmente sozinho, alguns tralhos te acompanharam, caso surgisse alguma emergência antes dos reforços chegarem.”
“-Obrigado Jake, independente do que viu eu agradeço por ter feito tal coisa e ter salvado meu pai enquanto eu não pude fazê-lo.”
“-Claro que me salvou” Disse meu pai se aproximando. “-Você que conseguiu ver minha localização e veio me tirar destes malditos. Precisamos nos apresentar ao conselho o mais rápido possível. Tenho muitas informações valiosas para a grande batalha final.”
Olhei por sobre os ombros de meu pai e vi Elizabeth correndo em minha direção com os braços abertos e uma expressão de alívio.
“-Fiquei tão preocupada. Você está bem?” Ela se jogou em meus braços. “Cheguei primeiro aqui e percebi que lutava sozinho. Vim com meu cavalo alado, por isto cheguei antes dos guerreiros. Achei que não conseguiria distraí-los por tempo suficiente enquanto os guerreiros estavam a caminho” Me abraçou com mais força puxando minha cabeça para que pudesse falar ao meu ouvido sussurrando “-Tive tanto medo de perdê-lo. Desculpe pela estupidez hoje de manhã, confio em você plenamente, sei que tem uma explicação razoável para a cena que vi. Realmente desculpe-me!”
Que bosta! Estavam me agradecendo pela merda que fiz hoje, que porra!! Primeiro dar atenção a Laila e cair em seu feitiço, depois ir resgatar meu pai sozinho, colocando tudo a perder e por último, ter passado a noite com Laila não conseguindo desfazer o feitiço e nem falar com ninguém sobre o assunto. O pior de tudo é que eu tinha gostado desta ultima parte. Não merecia a gratidão deles em nenhum sentido, mas só consegui dizer.
“-Não me agradeçam” Olhei de um rosto para o outro. Ao meu redor estava Jake, Elizabeth e meu pai. “-Só tive atitudes precipitadas e estúpidas no dia de hoje, não mereço a gratidão de vocês em nenhum aspecto. Desculpem-me”

Antes que qualquer um pudesse responder, Demétrius se materializou atrás de mim e me tirou dos braços de Elizabeth dizendo:
“-Davi. Preciso que venha agora, chame seu cavalo e me siga.” Ele continuou dirigindo-se a Kevin. “Preciso de todo o conselho amanhã pela manhã às dez horas em meu escritório. Kevin, pode convocá-los, por favor? E diga a todos que estão aqui que o treinamento de amanhã na parte da manhã será suspenso. O da parte da tarde continuará normalmente. E os que não estão aqui, deverão treinar reunidos em um único grupo. Você poderá decidir qual será a modalidade.” E se virou subindo em seu cavalo alado.
Peguei a esfera do cavalo alado, convoquei o cavalo por magia e segui o ministro de volta ao alojamento. O cavalo dele era de um castanho avermelhado, um belo cavalo. Voamos em silêncio os dois quilômetros e entramos pelo campo de força da mesma maneira que entrei no primeiro dia. Não havia nenhuma porta aparente, atravessamos como se não houvesse campo de força algum.
Seguimos até a ante sala e o ministro me levou para uma sala de reunião em uma segunda porta no aposento, onde havia uma mesa oval enorme de madeira escura com umas vinte cadeiras, não contei para confirmar. A sala era bem grande, caberiam umas três mesas iguais aquelas. Todas as cadeiras eram iguais. Portanto não havia uma especial para um líder. Me lembra os cavalheiros da Távola Redonda do Rei Artur.
“-Só o trouxe aqui para te apresentar a alguém que não poderia apresentar na frente dos outros.”
Não entendi o que Demétrius quis dizer. Por que não podia conhecer esta outra pessoa junto com os outros. O ministro era estranho. De repente me lembrei da única pessoa que faltava chegar ao alojamento, além de tralhos que não paravam de chegar e me virei para o som de passos vindo em minha direção.
Quando me virei, tive que apoiar numa cadeira para não me estatelar no chão.... Ela estava com a mesma túnica branca, os cabelos soltos, exatamente como em meus sonhos. Era minha mãe. Leonor. Fiquei tão confuso que não consegui nem reorganizar minhas teorias.
Não sabia se ela existiu algum dia? Se era minha mãe biológica ou se foi apenas magia para me enganar, como fizeram Paula se parecer com Elizabeth. Tinha várias teorias, mas que minha mãe Leonor era a rainha me pegou completamente desprevenido.
Sabia que ela podia ter alguma relação com o mundo paralelo, pois nos sonhos ela estava com os tralhos e com os guerreiros, mas achei que realmente não estivesse viva.
Sentei-me na cadeira e fiquei ponderando o que dizer. Em dez dias já havia passado por muita coisa, mas nada comparado com que eu estava sentindo naquele momento. Meus sentimentos eram um misto de surpresa, choque, raiva, dor, angustia, ansiedade. Tudo misturado e confundindo meu cérebro. Quando consegui perceber que não era um sonho, pude sentir meus olhos ficaram marejados. Respirava com dificuldade, mas aos poucos me concentrei e suspirei balançando a cabeça negativamente, poucos segundos se passaram, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, não que conseguisse, ela sorriu:
“-Desculpe filho. Sei que o choque é grande, mas acredite, foi preciso te privar de mim assim que nasceu. Não pense que não sofri também, pois você é meu filho.”
Saí do torpor profundo que me sentia e consegui dizer com muito mais raiva do que sentia:
“-Então você é realmente minha mãe? Digo, biologicamente falando?”
Ela assentiu “-Sim, sou sua mãe em todos os sentidos.”
“-E não morreu no parto?” Perguntei estupidamente. Sentia-me péssimo. Agora tinha certeza que era minha mãe e Inclusive a mulher presente meus sonhos...
“-Não.” Ela respondeu e começou a explicação: “Carreguei você por nove meses dentro de mim e tive que me separar assim que você nasceu para te dar a chance de viver em segurança. Você conseguirá ver a importância disto depois de algum tempo. Francisco cumpriu seu papel com muita perfeição, te criando, te educando e te amando para nos salvar. Têm bom coração, sentimentos puros. Você se tornou um belo rapaz e pelo que venho observando também é um ótimo guerreiro. Um dos melhores príncipes guerreiros que já conheci.”
Apeguei-me na última frase:
“-Conheci? Quem disse que você me conhece? Não sabe nada sobre mim...” Estava transtornado, ainda me sentia traído. Levantei-me tentando me convencer a sair dali. Esta com certeza tinha sido uma das mais difíceis notícias que tive desde que cheguei naquele mundo louco. Uma parte de mim estava feliz, pois minha mãe estava viva e eu poderia falar com ela como sempre quis e fiz algumas vezes em minha vida, mesmo ela não estando lá para ouvir, mas outra parte de mim a odiava queria se afastar dela, como pôde me largar no mundo deste jeito. Sofri tanto sua ausência, a ausência de seu amor, não tinha a menor idéia de quem ela era....
Enquanto eu me remoia ela deu alguns passos e me abraçou. Pegou-me de surpresa, como todas as mulheres daquele lugar faziam comigo. Como podia ser tão suscetível a mulheres daquele jeito? Elas faziam o que queriam comigo. Eu não a empurrei aceitando seu abraço. Ela tinha um perfume agradável... eram rosas com um tom cítrico de frutas. Peguei-me memorizando seu cheiro e passei minhas mãos em torno de suas costas retribuindo o abraço e deixando as lágrimas rolarem por minha face. E eu estava cedendo a mais uma mulher naquele momento.
O ministro nos interrompeu:
“-Sugiro que vocês conversem com mais calma amanhã, pois está quase amanhecendo. A rainha acabou de chegar e teremos uma reunião em poucas horas. Davi, você fará parte do conselho daqui pra frente. Amanhã às dez horas te espero aqui”
Mal escutei o que Demétrius dizia. A minha parte feliz pelo reencontro com minha mãe tomou conta dos meus atos e não queria soltá-la por nenhum momento sequer. Não iria viver sem ela nunca mais... Mas enquanto preparava-me para contrariar Demétrius ela me afastou olhando em meus olhos:
“-Teremos muito tempo para colocar tudo em dia. Vá descansar. Preciso atualizar com Demétrius para a reunião amanhã e descansar um pouco, pois acabei de chegar de viagem e foi bem longa. Assim que acordar me procure, está bem?”
Enquanto eu concordava, ela me pegou num abraço apertado, eu sorri e disse:
“-Está bem, amanhã então!”

Mal dormi aquela noite. Deitei na cama e fiquei rolando de um lado para o outro. Estava dividido entre a volta de Leonor e o que tinha feito com Elizabeth.
Perguntava-me o que será que Leonor teria feito por todo este tempo? Precisava perguntar a ela quem era meu pai biológico? Já que ninguém me dava muitas respostas naquele lugar. O pouco que sabia era porque alguém era obrigado a falar ou soltava a informação por acidente.
Quanto a Elizabeth, fiquei pensando no que dizer a ela. O que aconteceu naquela noite entre mim e Laila era algo que gostaria de apagar de minha vida, mas com certeza Laila usaria esta informação a seu favor. Pensei até em negar, claro que eu teria mais crédito do que Laila, mas ficaria com muito peso na consciência. Meus princípios não me deixavam fazer isto. Precisava ter uma conversa honesta com Elizabeth antes que Laila jogasse isto para quem quisesse ouvir.