Gateway - Camping Green hil
15 Assunto Delicado!
Notas iniciais
Como falar isto agora?
Nono dia
Levantei da cama junto com o sol, cedo demais para procurar tanto minha mãe quanto Elizabeth. Então, fui para o banho demorando o maior tempo possível para não ficar com tempo livre perdido em pensamentos ou ficar vagando até um horário decente de procurá-las.
Aonde eu iria primeiro? Quem deveria procurar? Mas antes de acabar a pergunta, já sabia a resposta. Elizabeth deveria ser a primeira que eu deveria procurar. Até por que não sabia onde deveria procurar Leonor e nem se ela me atenderia antes da reunião desta manhã.
Não sabia como contar a Elizabeth. Como iniciaria o assunto desagradável de Laila? Por onde começar? Eu me sentia péssimo pelo que fiz, o que não ajudava nada, ela com certeza não sabia de nada ainda, o que ajudaria um pouco em meus argumentos. Mas quais seriam eles? Poderia colocar a culpa no feitiço e ponto final? Para nosso bem, acho que era o que deveria fazer, mas mesmo assim não sabia por onde começar.
Saí do banheiro enrolado na toalha e fiquei mais tempo que o normal na frente do armário, estava preocupado, reorganizando os argumentos, mas antes que eu pudesse me vestir ouvi passos no corredor. A esta hora da manhã? Pude ouvir que alguém parou frente à porta do meu quarto. Vi a sombra pela fresta da porta, ninguém batia ou entrava. Meu visitante estava ponderando se entrava ou não. Por alguns momentos, refiz meus argumentos para expulsar Laila daqui, mas para minha surpresa e pavor a porta se abriu e Elizabeth entrou em meu quarto me pegando totalmente desprevenido.
“-Bom dia!” Ela disse um tanto sorridente. Eu ainda estava enrolado na toalha o que a fez ter dúvida se ficaria ou me deixava sozinho. “-Você prefere que eu volte mais tarde? Só entrei por que...” ela estava envergonhada. “... achei...que.... Desculpe! Não deveria estar aqui.”
“- Não, tudo bem! pode entrar! Vou me trocar no banheiro.” Peguei a primeira troca de roupa que vi e saí em direção ao banheiro.
“Volto num segundo” Acrescentei meio nervoso, mas acho que não dava para notar em minha voz. Pelo menos eu esperava que não.
Que merda!!
Minha mente corria.... E agora? Não tinha mais como fugir. Ainda não tinha os argumentos prontos! O desconforto da situação me fez considerar a fuga, mas não seria muito nobre da minha parte. Além disto, nem se eu quisesse. Não havia qualquer janela nestes alojamentos, pelo menos não no meu.
Bem, não tinha mais o que enrolar, tinha que resolver tudo agora.
Vestido decentemente consegui pensar em como começar este assunto com Elizabeth.
Entrei no quarto percebendo que ela estava mais agitada que o normal, mas antes de abrir a boca para dizer qualquer coisa, ela veio em minha direção e me atacou. Não da maneira que estava acostumada a fazer, me agredindo fisicamente, mas com um daqueles beijos de desentupidor de pia, que me pegou desprevenido, de novo.
O sentimento que tive com Laila não foi nada comparado com o que eu estava sentindo neste momento com Elizabeth. Percebi que sim, realmente senti algo com Laila, mas não tinha a corrente elétrica que me tirava da orbita e me puxava para dentro de nossa bolha particular, era alguma coisa sim, mas infinitamente menor.
Nosso beijo começou quente e estávamos muito próximos um do outro, percebi que ela tinha escondido tudo de mim, era amor sim, mas havia desejo, muito desejo. Podia sentir o calor aumentando e já previa o resultado.... Eu não podia me deixar levar, tínhamos que começar nossa relação da maneira correta, deveria ser honrado. Eu devia isto a ela. Enquanto eu brigava comigo mesmo, Elizabeth não estava facilitando as coisas, ela tocava meu peito procurando os botões da minha camisa, já estava com metade aberta quando lembrei meu propósito e com muito esforço afastei minha boca da dela o mais gentil que consegui, tentando não magoar seus sentimentos. Olhei em seus olhos e vi confusão neles. Eu estava refletindo seu desejo, eu queria continuar, esquecer tudo. Meu lado menos nobre reconsiderou quando viu que seus olhos ardiam, mas coloquei a vontade acima de tudo e parei tentando respirar e colocar juízo em minha própria cabeça.
Ela tentou prosseguir aproximando o rosto do meu novamente, o que deixava tudo mais difícil. Tocou sua boca delicadamente na minha. Senti seus lábios levemente com a ponta da língua, mas novamente recuperei a nobreza.
“-Espere”
Embora mal tivesse amanhecido, Elizabeth estava esplêndida, os cabelos sedosos e ondulados as costas. A fragrância de seu perfume tinha um buquê floral que a deixava mais sensual. Suas roupas estavam mais ousadas do que de costume. Sua camisa escura estava decotada com a calça clara colada ao corpo. Ela percebeu que eu a estava admirando.
“-Não” ela disse sensualmente com um sorriso maroto na face.
Elizabeth se deitou na cama me puxando com ela. Aquilo ia ser mais difícil do que eu imaginava. Tanto a parte de me explicar quanto a de refrear Elizabeth. Não acredito que estava a ponto de por tudo a perder. Ela praticamente se enrolava em meu corpo, que claro reagia fortemente. Cheguei a considerar contar tudo depois ou até mesmo deixar pra lá, meus instintos menos nobres gritavam, mas então com uma força sobre humana, meu lado nobre e honesto ganhou.... Em meio a seus lábios com uma voz de pesar disse: “-Elizabeth, espere um instante.”
Ela afastou a cabeça para olhar em meus olhos ainda sem entender:
“-O que!?”
Eu respirei fundo para me recuperar e Elizabeth entendeu errado.
“Você não me quer?”
“-Não, não é isto. É claro que te quero e muito” Dei um beijo rápido em seus lábios para não recomeçar tudo de novo e continuei. “-É que preciso te dizer uma coisa antes. Dê-me apenas um minuto.”
“-Mas não pode ser depois?” Ela perguntou confusa.
“-É importante”
Ela tirou o corpo de cima do meu, o que ajudou a refrescar mais minha mente.
Sentamo-nos na cama um de frente para o outro e segurei suas mãos entre as minhas, entre elas havia um pingente pendurado em uma corrente dourada. Parecia ser a metade de um coração, que percebi depois ela trazia a outra metade em seu peito. Senti uma porrada no estômago de dentro para fora. O que eu ia fazer? Estava destruindo tudo que havia conquistado com Elizabeth, antes mesmo de ter qualquer coisa. Mas também sabia que era a coisa certa a fazer.
Ainda sem saber como começar, resolvi primeiro abrir meu coração.
“-Peço que independente do que eu disser aqui, não há nada que faça meu sentimento por você mudar.”
“-Não entendo. O que está acontecendo com você?”
Eu respirei fundo. E de novo.
“Precisamos de uma relação honesta. Temos que começar do jeito certo.”
“Você está me deixando confusa, Davi.”
“-Eu sei, mas você vai me entender. Outra coisa que preciso que faça por mim, é esperar eu acabar de falar tudo que preciso, prometa que vai escutar tudo que eu tenho pra te dizer. Até o final?”
Disse erguendo uma sobrancelha aguardando sua resposta.
Elizabeth tinha a expressão mais confusa ainda. Parecia que estava procurando em sua mente por razões para eu agir assim.
Como não tive a resposta de imediato, cobrei: “Promete escutar tudo antes de qualquer reação?”
“-Prometo.” Ela disse quase num sussurro.
“-Você está me assustando. O que aconteceu? Parece que matou alguém.
Ela disse a ultima frase com humor que eu tinha certeza que não duraria por muito tempo. Eu sorri também e antes que eu voltasse atrás, comecei a falar:
“-Desde que cheguei aqui, Laila vem me procurando querendo que eu deixe você e que fique com ela. Como se isto não bastasse, ela vem se oferecendo insistentemente.”
Não conseguia ler sua expressão, estava vazia. Então continuei:
“- Eu não cedi a nenhum dos seus ataques.” Não de livre e espontânea vontade, mas ia chegar a esta parte ainda. “Ela tentou me beijar e não foi correspondida, ela entrou em meu quarto e ficou somente com as roupas de baixo. Todas estas vezes eu a rejeitei e me afastei.” Pude ver uma leve expressão de raiva passar por seu rosto e logo voltar ao vazio. Parecia que cumpriria a promessa de escutar toda minha história primeiro.
“-Um dia ela entrou aqui com o pó da obediência tentando me dominar, mas fui mais rápido do que ela tirando o pó de sua mão e jogando o feitiço em sua direção. Literalmente o feitiço tinha virado contra o feiticeiro. Pedi para ela ir embora e fiquei vinte e quatro horas exercendo o controle sob Laila. Podendo questionar qualquer coisa e o mais importante, tendo as verdadeiras respostas.”
“-Como não sabia o que fazer ou qual poder do pó, acabei fazendo uma única pergunta a ela. Sobre seu chantageador e por que estava fazendo aquilo tudo?” Agora a incredulidade estava no rosto de Elizabeth, mas antes dela dizer qualquer coisa eu acrescentei:
“Ela desconfia de alguém sim, mas fique tranqüila que pedi para esquecer esta parte, ela continua sem saber que você está sendo chantageada, fique tranqüila.”
Elizabeth mantinha o silêncio que estava me assustando. Eu esperava que ela me interrompesse, mesmo com a promessa, que perguntaria os detalhes, expressasse sentimentos, mas nada ainda.
“Laila não é boba e quis se vingar, eu acredito.”
Então, ontem, eu fui almoçar e o único lugar vago era ao seu lado. Ela estava com os olhos vermelhos e percebi que tinha chorado. Fiquei comovido e estava me sentindo um pouco culpado por enfeitiçá-la. Por mais que eu tivesse reagido instintivamente defendo-me de seu ataque, ela era uma garota com sentimentos feridos naquele momento. Fui tomado por compaixão quando percebi que ela estava sofrendo de verdade e acabei dando a atenção que ela não merecia. “Pedi para me contar o que havia de errado, talvez ela não fosse como eu estava imaginando.”
“-E ela contou. Não sei se foi a verdade, mas falou que tinha um namorado e que ele estava usando-a para tentar nos separar. Disse que o ouviu conversando com um amigo dizendo ser apaixonado por você. Elizabeth. E que precisava conseguir uma maneira de nos separar. Em meio a tudo isto ela começou a chorar e até então, em nenhum momento, se insinuou para mim. Ela parecia muito perturbada. Foi assim que você nos pegou ontem, eu a estava consolando.”
Elizabeth fitou o vazio e vi um leve arrependimento em sua expressão, mas ela recuperou rapidamente e voltou a me encarar, sabia que o pior estava por vir.
“Você apareceu e ela virou da água para o vinho, todo o seu sofrimento evaporou, virou-se pra mim e disse que eu seria dela, custe o que custar. Eu a afastei e saí atrás de você para me explicar, mas ela deu um grito agudo e apavorante que me fez virar o rosto em sua direção novamente e foi quando senti o pó da obediência caindo sobre mim.”
Elizabeth fechou os olhos com uma expressão de pesar. Ela já sabia no que isto resultaria.
“-Você não sabe o antídoto.” Ela afirmou já me encarando novamente.
“Não, eu não sei o antídoto.” Eu repeti. Estava chegando a pior parte.
Elizabeth mordeu o canto da boca mostrando estar tão nervosa quanto eu me sentia. Eu ergui a mão para tocar sua face, mas ela travou a mandíbula desconfortável e desisti antes de tocá-la. Deixei as mãos caídas em meu colo e continuei o monologo.
“-E eu tentei... como tentei. Tentei falar com tantas pessoas.... até a rainha das fadas eu procurei, mas toda vez que eu chegava perto de alguém me esquecia o que deveria perguntar e assim fiquei até depois do jantar.”
“E?” Ela instigou.
Pressionei suas mãos memorizando seus olhos, tão intensos como esmeraldas. Quase parei, era só dizer “e nada, acabou”, mas eu não poderia. Como ela reagiria? Baixei a cabeça por um pequeno instante tomando coragem e enchi o pulmão de ar.
“-Não acabou. Ela ordenou que eu rejeitasse você enquanto estivesse enfeitiçado. Então, foi bom não ter te encontrado, pois me doeria muito ter que seguir esta ordem. O feitiço é forte e é impossível não obedecer. Não somos donos do próprio corpo.”
“Eu sei” Elizabeth disse muito calma, pelo menos ela parecia estar calma. E eu falava esta ultima parte sem qualquer emoção, estava enrolando.
Peguei-me pensando em dizer detalhes que não eram importantes naquele momento.
A tensão crescia.
O silencio gritou.
Elizabeth não estava conseguindo ser tão indiferente mais, se antes ela sabia, agora tinha certeza. Nas conseguia definir suas emoções, mas elas estavam lá, tensas e prontas para pular em cima de mim assim que eu revelasse a verdade.
“E.......... Laila ordenou que eu a esperasse em meu quarto depois do jantar......... para que eu dormisse com ela” Ergui a cabeça novamente e fitei os olhos tensos de Elizabeth absorvendo o sentido daquelas palavras “e... como todas as ordens não consegui desobedecer.” Falei bem devagar para até eu mesmo absorvê-las. Com Elizabeth presente, era difícil me lembrar da noite anterior, ou até mesmo da reação de meu corpo perante Laila. Fora tudo tão insignificante.
Elizabeth voltou a fitar o vazio. Naquele momento sua máscara baixou e deixou passar seus sentimentos, pude ver indignação, raiva, desprezo, tristeza.... em seguida vieram algumas lágrimas rolando por sua face. Pensei em abraçá-la, confortá-la, mas imaginava que sua reação seria me rejeitar. Então decidi ficar em silêncio esperando ela absorver.
Ficamos em silêncio por longos minutos. Até que decidi tentar uma aproximação, mas no primeiro toque ela me impediu, erguendo a mão para que eu parasse e ainda sem olhar pra mim respirou fundo assentindo com a cabeça algumas vezes. Eu esperei sua reação de raiva que não viria. Agora ela estava calma, calma demais refletindo. A tensão de antes era sobre o desconhecido, ela não sabia o que viria e estava tensa, mas a partir do momento que ficou sabendo da verdade, ela parecia saber o que sentir.
Comecei a ficar preocupado. Ela voltou o olhar em os meus olhos e fiquei preso nos seus que estavam profundos sem dizer nada. Seus olhos geralmente falavam, mas neste instante eram mudos. Como pedras de esmeraldas estáticas. Comecei a sentir pavor. Isto não estava sendo nem um pouco fácil pra ela. Queria dizer que era o feitiço, mas antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, ela suspirou e levantou-se da cama.
Sua expressão mudava toda hora e notei mais sentimentos ali, vi tanta coisa, lamento, tristeza, dor... até que chegou o vazio inicial. Ela não estava reagindo mais, parecia não sentir mais nada. Depois da enxurrada de sentimentos percebi que ela estava vazia. Não sabia o que fazer agora e tentei aproximação, segurei seus ombros e ela não me impediu desta vez.
“-Elizabeth” Chamei sua atenção.
Ela pareceu sair do torpor, movimentou suas mãos e com um gesto gentil demais, tirou as minhas de seus ombros:
“Desculpe” Ela disse.
“-Não é você que tem que se desculpar” Eu quase gritei.
“Humm! Acho que...”
“-Que o que?... fale alguma coisa, brigue comigo.”
“Eu conheço o poder do pó, você não poderia evitar.”
Ela já não olhava mais pra mim.
“Elizabeth" Chamei numa tentativa em vão, ela não estava me escutando mais, parecia falar consigo mesma.
“-Não sei. Acho que sou eu.” Pude ver uma pontada de dor em seus olhos que ainda não me encaravam. “Não sei se posso aceitar. Sou eu, entenda. Se eu ....” Ela suspirou perdidas em pensamentos “Acho que preciso pensar. É melhor ficarmos longe por um tempo. Por favor, não me procure.”
Disse a última frase já saindo pela porta de meu quarto e me deixando sozinho com seu meio coração deixado para trás sob a cama. A corrente dourada brilhava, parecia que me feria os olhos.
E agora eu que estava sem reação, não consegui sair em seu encalço, estava paralisado, como acontece nos meus sonhos que vejo a ação e não consigo interagir. Esperava pela irá de Elizabeth, estava contando com isto. Seria mais fácil, o natural, ela me culparia, me bateria ou os dois e eu pediria desculpa, perdão, o que quer que ela pedisse para fazer... seguraria seu braço com força e impediria que me deixasse, beijaria, abraçaria, até continuaria do ponto em que a interrompi.
Fiquei por quase uma hora imóvel deitado em minha cama fitando o teto. Minha posição era relaxada, as mãos atrás da cabeça, as pernas cruzadas, mas a cabeça estava uma bagunça. Tinha perdido a consciência, não conseguia raciocinar nada. Só a imagem triste de Elizabeth me preenchia. Fiquei por muito tempo ali até que o barulho do relógio me trouxe a realidade e percebi que já estava quase na hora da reunião.
Agora não tinha muito a fazer senão esperar Elizabeth digerir a informação para termos uma nova conversa mais tarde. Pelo menos era disso que eu estava tentando me convencer.
Tentei colocar o assunto de Elizabeth em segundo plano, mas era algo que mexia comigo mais do qualquer coisa. Eu a amava e ela não podia me deixar no primeiro obstáculo que tivemos. Fiquei me convencendo que a raiva dela passaria e aos poucos procurei focar minha concentração na aparição de minha mãe.
Outro assunto difícil. Será que esta fase não passaria nunca? Ou iria piorar? Eu tinha uma intuição quanto a isto que me dizia que só pioraria e eu precisava resistir.
Minha mãe. Era difícil pensar na palavra, pior seria dizer em voz alta novamente. Nunca deixei ninguém perceber o quanto sentia sua falta para evitar o sofrimento de meu pai, mas na verdade o único que sofria era eu, meu pai foi recrutado para ser meu pai e cuidar de mim, não tinha nenhum sentimento por Leonor. Eu senti sua falta sozinho por todo este tempo. Ele não fala dela porque não sabia nada sobre minha mãe e não para não sofrer como eu imaginava.
Comecei a sentir raiva novamente, mas não deu tempo de fortalecer o sentimento, rapidamente empurrei para o fundo de minha mente. Iria focar nas coisas boas, era o certo a fazer. E além disse, Leonor estava de volta a minha vida.
Não sabia o que perguntar, tinha uma fila de perguntas. Era importante perguntar sobre os sonhos, não era? O que ela fazia neles? Por que se repetiam com acréscimos a cada dia? ou por que ela tinha fingido estar morta? Poderia me visitar de vez em quando, não podia? Por que não o fez? Por que eu era o único inconsciente de toda a verdade? Percebi que todos os príncipes sabiam a razão de sua existência do gene diferente dentro deles. Eu era o único inconsciente desta informação.
Alem do mais, queria saber o que ela fazia? Qual era o seu papel neste mundo maluco? Percebi que todos estavam ansiosos para sua chegada, inclusive Elizabeth. Como ela poderia ajudar-nos na chantagem?
E assim, fui formulando perguntas e me dirigindo a tenda de Demétrius. Ficava atrás da tenda principal, acredito que era o único que morava nesta tenda com suas dependências personalizadas.
Cheguei lá alguns minutos antes do horário marcado para a reunião, achei que todos estariam conversando em pequenos grupos e que não estariam organizados a mesa ainda, mas, como sempre acontecia neste lugar, eu era surpreendido, já estavam todos a mesa oval. Naquele momento percebi que a reunião tinha começado antes do previsto, mas por que não me chamaram antes também? Alguma coisa estava errada, muito errada.
Elizabeth estava ao lado da rainha e não olhou em minha direção quando entrei na sala. Procurei por um lugar, mas todas as cadeiras já estavam ocupadas, com exceção de uma que não estava perto de alguém que eu conhecia. Percebi que fui o último a chegar. Enquanto me dirigia a esta cadeira, consegui identificar meu pai e Kevin no outro lado da sala. Sentei-me entre um anão e um Elfo, ambos não haviam sido apresentados ainda.
Todos conversavam em um volume baixo. Não podia identificar conversa alguma, apenas o burburinho de vozes. Sentei-me e ninguém notou minha presença. À esquerda, o Elfo conversava com um humano e a direita, o anão conversava com um urso.
Olhei ao redor e percebi que quase todos os príncipes estavam lá. Acho que só faltava Ramon, príncipe de Ethin. Olhei em direção ao Kevin tentando decifrar sua expressão, mas foi em vão, matinha uma conversa casual e despreocupada com Jake. Olhei mais uma vez para Elizabeth que estava com os olhos perdidos na floresta. Nesta manhã o interior da sala era o mesmo de ontem, a mesa com as cadeiras ao redor, com exceção das cortinas que estavam abertas e mostravam o lado de fora das janelas, que cobria toda a extensão da sala proporcionando uma vista para a floresta, era como se estivéssemos dentro de uma caixa de vidro isolada em meio à floresta.
Conforme o tempo passava o burburinho se transformava em algo entendível e consegui pegar algumas partes do diálogo entre o anão e o urso que estavam ao meu lado.
Eles falavam sobre as sombras e trevas que estavam na floresta e que haviam capturado meu pai. Pelo tom da conversa percebi que algum assunto já havia sido lançado a mesa e que todos discutiam organizadamente. Isto era impressionante. Uma reunião organizada? Controlar todas estas pessoas e suas ansiedades.
Como será que funcionava? Enquanto me questionava as regras desta reunião o ministro levantou a mão sem emitir som algum e instantaneamente todos se calaram voltando a atenção a ele.
“- Após o prazo de discussão, gostaria de saber a opinião de vocês.”
“- O primeiro ponto”. Começou a falar o urso que estava conversando com o anão ao meu lado. “- Acredito que estão se reorganizando e escolheram um líder”
O ministro assentiu e prosseguiu “-Nisto você está certo. Eles estão muito mais organizados do que da última vez”
Eu ainda estava confuso. Quem eram eles? Será que falávamos da força das trevas?
Kevin levantou a mão e teve a palavra: “-Precisamos descobrir quem é este líder e como têm tantas informações sobre nós? Na verdade sobre Davi?”
O ministro assentiu novamente e deu a palavra a um humano. Que acabou perguntando a mesma coisa de uma maneira diferente. Alguns outros perguntaram também e o assunto era sempre o mesmo. Por que as trevas se organizavam? Como descobriam sobre mim? Com qual freqüência ocorreriam os ataques? Quais as motivações por trás deles? Foram abordadas várias questões sobre o tema, até que foi dada a palavra ao meu pai, Francisco.
“-Acho que posso contribuir com algumas respostas ou pelo menos dar um incentivo a mais a vocês para analisarem melhor.”
“-Quando fui capturado, eu estava num hotel na beira da estrada em outra dimensão aguardando chegar o dia para atravessar o portal dimensional em segurança que ficava ha uns três quilômetros da minha localização. Ninguém sabia de minha relação com Davi. Era de madrugada e eu estava dentro do quarto quando as forças das trevas me localizaram e armaram uma armadilha para me capturar, sem qualquer erro. Foram estratégicos e extremamente organizados... Quando me dei conta estava no meio da floresta sendo torturado..... As trevas queriam informações sobre Davi, quais seus defeitos suas fraquezas.... Claro que não disse nada até o próprio Davi aparecer por lá para me resgatar......”
“Enfim, eles estão evoluindo. Como nós também passamos por transformações e aprendemos com os nossos erros. Antes julgavam não precisar de um líder, mas depois de terem perdidos todas as batalhas, aprenderam com os próprios erros e agora uma das estratégias que estão usando é tentar eliminar o líder, o nosso líder. Um exército sem um líder fica enfraquecido.”
Francisco finalizou a frase olhando em minha direção, o que me causou um frio na barriga. Não por ser o alvo das trevas, mas por medo de falhar como líder. Eu não me sentia como um líder e as forças das trevas estavam concentrados em me exterminar. Se organizando, atacando as pessoas que me rodeavam, primeiro Elizabeth, depois Francisco. Eu não estava preparado para isto tudo, me sentia inseguro. Claro que não tão fraco como antes, mas era um garoto normal e que cometia um erro atrás do outro....
“-Outro ponto que percebi é que o líder das trevas está determinando funções definidas para seus seguidores. Antes falávamos de força negativa sem uma identidade, sem muito raciocínio atacando em vão. Hoje além de organizados, tem uma estratégia, um objetivo comum. Estão focados. Discutem os fatos entre si. Pude pegar muito pouco do que falavam quando estava em forma humana, mas quando me metamorfoseei eu pude entendê-los mais claramente, pois tem as mentes sintonizadas e pude entrar na mesma sintonia e pegar um pouco do sinal telepático que emitiam.”
Então a rainha se manifestou: “-Eu tinha a informação que eles tinham um líder, mas a parte das sombras se comunicarem telepaticamente é novidade pra mim. Acho que precisaremos traçar nossas próximas estratégias. Amanhã será dia de apresentá-las a todos e precisamos determinar os próximos passos. Gostaria de ouvir as sugestões de vocês?”
Todos olharam uns para os outros esperando alguém se manifestar, até que eu comecei a falar sem me dar conta do que estava falando. Quando percebi minha boca se abriu e a voz saiu.
“-Acho que tenho uma idéia. Precisamos pesquisá-los como eles estão fazendo conosco. Acho que a primeira coisa a descobrir é como tentar interceptar seus pensamentos. Se os metaformos são capazes deste tipo de coisa, eles podem nos ajudar concentrando sua mente nas sombras e captando quais as intenções deles.” Respirei fundo e continuei “-Acredito que isto não seja possível de dentro do campo de força do alojamento. Pois se eles não conseguem nos ler aqui, provavelmente não conseguiremos ler a mente deles daqui de dentro também.” Tive a confirmação do que dizia pelo olhar de consentimento de meu pai.
“Esta tarefa não tem que ser algo que nos arrisque, então provavelmente precisaremos das fadas para encobrir os metaformos, assim as sombras não os identificariam fora do campo de força.” Disse olhando para Geovana que estava à mesa. Ela assentiu e eu continuei “Ainda temos que descobrir mais sobre este líder. De onde ele vem? Como se tornou líder? Qual sua fraqueza? Pois poderemos usar a mesma estratégia deles. Focar no líder. E um exército sem líder será enfraquecido.” Repeti o que foi falado por Francisco alguns minutos atrás.
Foram colocados mais alguns fatos a mesa pelo ministro, com relação aos treinamentos e como iríamos nos reunir daqui pra frente. Estava faltando três semanas para a batalha final e precisávamos enfraquecer o inimigo que estava em pé de igualdade naquele momento.
Após alguns minutos, deu-se a reunião por encerrada e os membros foram se levantando em direção a saída. Percebi que Elizabeth seguiu com a rainha, ainda sem olhar em minha direção, estava descontraída. Diferente da Elizabeth que eu vira pouco antes da reunião. Ao contrário de Elizabeth a rainha olhou em meus olhos e sorriu com ternura, seguindo seu caminho rumo à saída.
Ainda estava sentado em meu lugar quando Kevin se aproximou.
“-Não treinaremos hoje.” Eu tinha escutado o ministro falar sobre aquilo há pouco. “Bem vindo ao conselho Davi.” Assenti com um sorriso forçado que Kevin percebeu, é claro! “O que há de errado?”
Pensei em contar tudo para o Kevin, mas já tinha despejado muitos dos meus problemas nele. Coisa que ele nunca fez comigo. Decidi lidar com meus problemas sozinho desta vez e apenas disse casualmente. “Muitas coisas a se pensar. Estou apenas absorvendo mais informações”
Chegando à tenda principal para o almoço avistei Laila com Ramon. Eles conversavam normalmente. Fiquei olhando meio distraído e percebi que Kevin me observava.
“-Não confio nestes dois.” Ele disse como se falasse consigo mesmo.
Eu nem respondi a ironia me queimara por dentro. Agora que ele me fala isto? Depois de toda confusão que me meti por causa deles. Bufei...... Não era mais hora de lamentar. O que estava feito não voltaria atrás. Precisava me concentrar em como resolver problemas agora. Embora a batalha final tivesse pra mim na mesma proporção que meus problemas pessoais. Neste momento lembrei-me de um assunto que tinha deixado para trás. O chantageador. Tentei entrar neste assunto com Kevin mais uma vez.
“-Você ficou de me dizer sobre o chantageador.” Disse num tom casual, mas imediatamente me senti agitado.
“-Eu sei.”
Ele estava editando o que falar e esperei até que concluísse.
“- Acho que sei quem fez isto, mas ainda não sei suas intenções.” Kevin suspirou puxando a boca numa careta de dúvida.
“-Diga Kevin. Preciso saber.”
“-Você acusaria alguém sem ter certeza de que está certo?” Perguntou Kevin ainda apreensivo me avaliando.
Eu entendi seu argumento. É claro que eu não faria isto. Poderia gerar um desconforto desnecessário. Eu podia estar errado. Ele me pegou, mas tentei ignorar meu lado nobre.
“-Você pode dividir suas suspeitas comigo? Posso ajudar a investigar...”
“-Pouco tempo que estou com você e parece que te conheço há décadas. Você não é do tipo que vai deixar passar e esperar as confirmações, Davi.” Kevin disse me interrompendo e ainda acrescentou “-Assim que tiver qualquer notícia sobre o chantageador e suas motivações, te informo. Confie em mim.”
“-Estou esperando” Eu tinha que confiar em Kevin. Mas suspeitei que para ele não me dissesse palavra alguma sobre isto, coisa boa não poderia ser.
Sentamo-nos e tivemos a refeição. Falávamos sobre coisas simples. Como o treinamento que viria esta tarde. Seria com os anões e até hoje não tinha passado pelo treinamento deles. Depois de três dias preso as fadas seria bom mudar o estilo de luta. Não tinha a menor idéia do que seguiria na área dos anões.
Depois do almoço sentei sozinho numa arvore que ficava na outra extremidade da tenda. Não era a mesma que costumava freqüentar. Não era tão confortável, mas pelo menos podia ter paz. Laila não apareceria por lá.
Como raramente acontecia, desta vez não pensei em nada, apenas me concentrei na paisagem ao meu redor. Em como os lagos eram limpos e com água cristalina, como poderia existir algo assim tão perto e eu nunca tenha visto? Podia-se avistá-los de qualquer lugar do alojamento. Estavam por toda a parte e em vários tamanhos. Nossas barracas ficavam dispostas no centro disso tudo.
Ali fiquei e meus trinta minutos se passaram rapidamente, acho que até cochilei apreciando a paisagem. Nem minha mãe eu quis procurar naquele intervalo. Sabia que não teria sua atenção e provavelmente a única coisa que conseguiria era ficar agitado e ansioso esperando.
Levantei e segui em direção a área dos anões.
Os anões, não eram como estamos acostumados a ver na Terra, pessoas com o tronco em tamanho normal e com membros pequenos. Eles eram pequenos proporcionalmente, como se fossem crianças com aproximadamente 11 anos de idade. Não eram musculosos, mas tinham os membros bem torneados. Esta era a característica que os diferenciava das crianças.
Havia homens e mulheres e logo fiquei sabendo que eram muitos bons em forjar armas. Fabricavam as suas próprias. Todas as armas dos anões eram do mesmo estilo, geralmente servindo para lançar, como martelos, lanças, facas, maça, um tipo de porrete com uma cabeça de aço bem saliente e com pontas que serviam para penetrar armaduras. Eles também usavam escudos, o que não era muito comum por aqui.
A aula começou como a dos Elfos, bastante teoria, basicamente aprendíamos a sentir o peso de cada arma e onde efetivamente deveríamos jogá-la. Havia vários alvos e no começo da aula todos nós atirávamos de muito perto e errávamos, mas à medida que foi passando o dia, já jogávamos de distâncias maiores e começamos a acertar os alvos.
Assim se passou à tarde, como todas as outras aulas, eu gostei e aprendi, meus músculos ao final da aula estavam inchados pelo esforço. Em nove dias cresci como se tivesse fazendo musculação há meses, várias horas por dia.
Nesta aula, conheci João, era um anão talentoso que acertou todos os alvos, desde o inicio da aula. Lembrei dele da reunião. Sentou-se ao meu lado esta manhã.
Logo acabou a aula e segui com João até a área dos dormitórios.
“- Há quanto tempo está aqui?” Perguntei puxando assunto.
“- Estou desde o começo, quase dois meses.”
“-Como era seu mundo?” Resolvi abordar algo mais normal. Não queria falar nada que tivéssemos falado na reunião naquela manhã.
“-Hudego é muito diferente daqui. Nós moramos em florestas, estamos ligados diretamente a natureza. Usamos sua força a nosso favor sem destruí-la. Nossa casa é no topo das árvores, plantamos nosso próprio alimento e fazemos trocas para vivermos em harmonia. Não há diferença no modo em que cada um vive. Nem nosso rei vive de uma maneira diferente do restante do povo.”
“-Você deve ser o melhor guerreiro de seu mundo?” Perguntei curioso.
Ele sorriu despreocupadamente:
“-Acho que sim. Sou o príncipe de Hudego e como muitos aqui, fui treinado para esta batalha desde que nasci.”
“-Entendo”
A conversa com todos os príncipes eram as mesmas. Eles eram bons de coração, lutavam bem e nasceram para esta batalha. Parece que o único que foi traído e não teve preparo algum, era eu!
“-Te vejo mais tarde Davi” Disse João indo em direção a seu alojamento.
Fale com o autor