Notas iniciais
Antes que vocês cortem meu pescoço...
— Fernanda! Você também veio? — perguntou a mãe do Tom

animadamente.

— É claro, vim deixar a minha Marcela... — respondeu ela abraçando

a minha sogra. É, acho que já podia considerá-la assim, se as infernais

da Marcela e da Fernanda, tia do Tom, nos deixasse em paz. Eu estava

rezando para isso. — Ah, meu Tomzinho! Como você está, querido? —

Ela abriu um sorriso enorme ao abraçá-lo intimamente demais, na minha

opinião. Seu sorriso diminuiu drasticamente ao me ver. Ah, inferno. —

Agatah... — seu tom desanimado foi aparente, assim como o seu desprazer

ao me ver. De novo.

— Vocês já se conheciam? — perguntou Marcela, um pouco nervosa.

— Ah, sim. E vocês continuam... Amigos? — disse Fernanda com desgosto.

— Eles estão namorando! Não é maravilhoso? — Stephanie deu a notícia.

Pude ver a Marcela erguendo suas sobrancelhas louras para nós.

— Claro. Meus parabéns — disse a Fernanda, não achando nem um pouco

maravilhoso e sorrindo falsamente (um dom que, pelo jeito, foi herdado pela

filha). — Eu vou indo, então. Boa festa, filha!

E então uma das infernais foi embora. Mas ainda faltava a pior, e eu teria que

aturá-la por mais alguns dias. Merda.

Eu estava realmente disposta a não deixar ninguém estragar a festa com o meu

Tom. E eu ia usar todas as minhas forças para que isso acontecesse.

Houve um breve e desconfortável silêncio após a piranha mãe ir embora. Eu fiquei

observando a beleza da mãe do Tom. Ela era uma deusa! Pelo amor! Não era à toa

que o meu namorado era tão gostoso... Olhei para o Tom e vi ele sorrindo para mim.

Por um instante, eu esqueci da loira vadia que estava do meu lado para estragar tudo

e apenas pude pensar naquele sorriso perfeito, que fazia meu coração fraquejar.

Eu comecei a ficar tonta com a intensidade daquele simples sorriso. Deuses, como

eu sou estranha.

Meu celular começou a tocar estridentemente do nada. Senti meu sangue fluindo

para as minhas bochechas ao me lembrar de que eu o guardara na lateral da

minha calcinha.

— Er, com licença... — disse meio sem jeito e saindo correndo igualmente desajeitada.

Ao entrar na sala de cinema de novo, peguei rapidamente meu celular quando não estava

mais no campo de visão deles.

— Alô? — atendi falando baixo.

— Agatah! Onde é que você está? Eu liguei pra sua casa e nada! — disse uma voz

preocupada. Era a Alice.

— Bom, é que eu estou... Sabe... — Merda, eu não sabia o que falar. Ela ia me achar

uma puta! Suspirei e então disse a verdade. — Eu estou na casa do Tom.

— O QUÊ? Ahmeudeus, como assim?! Agatah, você precisa me contar tudo! Tu-di-nho!

Revirei os olhos e tentei arranjar uma maneira de encurtar toda aquela história.

— O Tom me pediu em namoro...

— Eu sabia! Eu sabia! — gritou ela histericamente. Pude ouvir cochichos excitados

ao fundo. — A Rose e a Bella estão aqui... Ai, para! Tá, eu vou falar! Elas estão

mandando beijos pra você e pro Tom! Ah, eu sabia... Vocês são tão lindos juntos!

Mas... Espera aí! Você ~dormiu~ aí com ele?

— Bem, ele me convidou então, sabe, eu aceitei.

— E vocês dormiram juntinhos? — Escutei risadinhas ao fundo.

— Tecnicamente, sim. — Eu agradeci por elas não estarem cara a cara comigo,

porque eu estava vermelha como um pimentão.

— E, por favor, não me diga que vocês fizeram... Aquilo.

Agora eu estava mais vermelha do que nunca estivera na vida. Caralho, o que eu

ia responder? "Ah, claro, porque eu sou uma puta!". Eu não podia mentir!

Emiti um som incompreensível que nem mesmo eu entendi. Praguejei em silêncio

ainda muito vermelha.

— Deuses, Agatah! Eu não acredito! Agatah! — Houve um murmúrio excitado no

fundo enquanto eu roía furiosamente as minhas unhas.

— Ag, aqui é a Rose! Quero que você saiba que vai me contar tudo para mim,

sem exceções! Escutou?

— Está bem — murmurei com uma voz que nem eu reconheci.

— E vê se vai logo pra festa! Nos encontramos no portão às 16h, tá bom pra você?

Agora são... 14h.

— Aham — concordei ainda corada.

— A gente se vê então! Tchauzinho!

Desliguei o telefone praguejando e muito, muito vermelha.

— Você fica linda quando está envergonhada, sabia? — falou Tom me abraçando

enquanto eu estava de costas. Senti seu perfume delicioso na hora em que ele me

tocou.

— Hum — resmunguei. — E cadê a Marcela?

Senti ele ficando tenso ao perceber o desprazer na minha voz.

— Eu disse que você precisaria ter paciência. E, senhorita, está lembrada da

promessa?

— Droga. É verdade. — Me lembrei quando dissera que não iria me preocupar com a

Marcela. — Mas ela dando em cima de você toda a hora com aquela beleza sensacional

é meio difícil ignorar, entende?

— É claro que eu entendo, mas você sabe que eu sou apenas seu!

— Eu sei — respondi, mesmo ele não tendo feito pergunta nenhuma. E, sim, felizmente

eu sabia. E como era bom saber que ele pertencia apenas à mim. Mesmo assim

continuava difícil ver a Marcela jogando seu charme em cima dele... Inferno.

— Quando a gente vai para a festa? — perguntou a Marcela. O Tom nem se preocupou

em se desgrudar de mim, e continuamos abraçados. Vi seus olhos faiscando ao nos ver.

— Daqui a pouco, Mah — respondeu Tom calmamente. Não sei porquê, mas isso me

tranquilizou um pouco. Pela primeira vez desde que aquela piranha invadira a casa eu

me senti segura e sem ciúmes, e sim com pena.

— Preciso ir logo. Conheço uma garota lá na sua escola e combinamos de estar lá de

tarde.

— E quem seria essa garota?

— Ah, não sei se você sabe quem é... Nós nos conhecemos numa viagem aí, pra Paris,

acho... O nome dela é Erika.

Fiquei tensa no momento em que ela pronuciou aquele nome, que trazia lembranças nada

agradáveis à minha mente.

— É claro que nós conhecemos — me intrometi na conversa. — Ela se acha e é uma piranha?

~Como você~, completei mentalmente. Mas é claro que elas eram amigas! Igualzinhas, não?

Como combinavam!

— Não sei — respondeu ela com desdém.

Ah, é claro que ela não sabia!

— Já volto — anunciou ela saindo de nariz empinado e rebolando. Segurei meu impulso de

fazer uma careta para ela no instante em que ela se virou. Nojenta.

— Tom, a gente precisa passar depois na minha casa para eu fazer a minha mala! —

lembrei-o.

— Ah, então é melhor nós sairmos logo!

— Mas eu queria conhecer o seu pai! Onde está ele?

— É verdade, nem te apresentei ainda... Ele deve estar lá embaixo, vamos — disse ele

me puxando pelo braço.

Desci uma pequena escada branca de mármore linda (como toda a casa) e perdi meu

fôlego. Eu dei de cara com o lugar dos meus sonhos.

Deuses.

Era um espaço amplo, completamente fechado, totalmente branco e limpo. O lugar

parecia abranger todo o espaço subterrâneo da casa. Ele abrigava inúmeros carros,

um mais bonito e potente do que o outro. Tinha Ferrari, Lamborghini, Volvo, Mercedes,

e algumas Porsches.

— Meu Deus — ofeguei maravilhada.

— Não é muito, mas...

— O quê? Como isso não é muito?! Você tem um paraíso na sua própria casa! —

Balancei a cabeça olhando para aquelas maravilhas, surpreendida. Se aquilo era pouco,

meu Deus, o que era muito? E... Cara, quanto deve ter custado todos aqueles carros?

Uma enorme fortuna; muito mais do que eu poderia imaginar em ter um dia, com certeza.

— Pelo jeito seu pai gosta de carros. E ele tem muito bom gosto, pelo visto.

— Você acha mesmo? É, eu tenho uma certa quedinha por carros — disse uma voz

estranhamente conhecida e totalmente sexy.

Um homem apareceu detrás de um Volvo, limpando as mãos num pano encardido

e dando um sorriso deslumbrante. Ele parecia estar mexendo no motor do carro,

porque estava um pouco sujo de graxa. Usava uma blusa regata branca, exibindo s

eus músculos. Seu cabelo preto estava bagunçado como o do filho, mas tinha olhos

de um azul puríssimo, ao invés de verdes. Reconheci ele no mesmo instante em que

ele apareceu. Era o famoso ator gostoso Jason Mars, o sonho de toda a garota, suspiro

apaixonado, sonho de consumo... Enfim. Ele era realmente gostoso, e vendo-o ao vivo

e em cores era mais ainda. Era dele a gostosura que o Tom puxara. Sorte a minha.

— Sou o pai do Tom — apresentou-se ele com sua voz grossa e sedutora.

— Prazer, sou a Agatah...

— Namorada do Tom, fiquei sabendo — completou ele dando uma piscadela para o filho.

E a pergunta era: como?

Soltei um estúpido e típico "ah".

— A propósito, amei seus carros — falei sinceramente. — É o meu sonho de consumo uma

Porsche.

— Hum... Você tem um ótimo gosto, Agatah. — Ele lançou um olhar malicioso à uma Porsche

turbo amarela (e perfeita) antes de falar uma coisa que parou meu coração por um instante e

roubou todo o meu fôlego. — Quer experimentar dirigir o seu sonho?