Garras e Presas

9 Capítulo 9


Notas iniciais
Este capítulo não chegou tão rápido quanto o anterior mas também não demorou muito, vai xP Finalmente algumas perguntas começarão a ser respondidas. Boa leitura 0/

Houve uma época em que Marianne prezara o silêncio. Alguns poderiam estranhar essa preferência, considerando sua natureza explosiva e irrequieta. Mas a verdade é que ela considerava a ausência de som um subterfúgio tanto das interações sociais exaustivas quanto de seus próprios pensamentos ansiosos. Silêncio significava sossego. Significava um tempo para organizar as idéias e acalmar seus ânimos. Significava não ter que ouvir críticas ao seu comportamento, sua vestimenta, sua maquiagem, seus trejeitos pouco femininos, suas escolhas de companhia. Silêncio significava paz.

Agora, porém, o silêncio não fazia nada além de deixá-la apreensiva. Afinal, na sua humilde opinião, um passeio pela Floresta Sombria deveria ser tudo menos silencioso. Geralmente porque Bog estava com ela e ambos estavam sempre determinados a preencher lacunas de silêncio com conversas casuais, implicâncias bem-humoradas, risadas e alguns beijos entre uma troca de farpas e outra. Mas Bog não estava com ela. A Floresta que tanto lhe oferecia em termos de descobertas e exploração era agora um terreno hostil onde o perigo parecia espreitar em cada arbusto, cada tronco oco, cada galho ou folha secos cujos estalos no silêncio se pareciam com as explosões que ouvira há pouco. Era enervante e deixava seus instintos de guerreira à flor da pele, por isso, pelo menos naquele momento, ela era grata à tagarelice interminável de Griselda, que a distraia de seus anseios enquanto caminhavam por entre o matagal.

— Então vocês também estão sofrendo ataques. – Ela ponderou tristemente – Nós imaginamos que algo assim poderia acontecer, mas não que as coisas fossem chegar a esse ponto. Sinto muito por isso, querida.

— Não precisa se desculpar, Griselda. Vocês não têm culpa do que está acontecendo. – A princesa garantiu, soltando uma exclamação de surpresa ao tropeçar na barra gasta de seu manto. Teria dado com a cara no chão se Griselda não tivesse passado os bracinhos finos, porém surpreendentemente fortes por seus quadris.

— Cuidado, bonequinha. O outono é uma estação bem traiçoeira por aqui, por isso precisa olhar por onde pisa. E mantenha o manto firme em torno de seu corpo. Será um desastre se algum predador conseguir captar seu cheiro.

Marianne assentiu, repreendendo a si mesma em pensamentos por sua falta de jeito. A primeira coisa que Griselda fizera depois de convidá-la a acompanhá-la fora lhe entregar um longo manto feito de musgo e folhas úmidas, enlameadas. Era gelado, áspero ao toque e exalava um cheiro estranho e desagradável de flora em decomposição, mas a goblin idosa garantira que era necessário. Sua coloração opaca era a camuflagem perfeita naquele terreno e o cheiro que dele se desprendia aparentemente confundia o olfato de predadores. Ela também usava um, o que fazia Marianne se perguntar a que ponto chegara a crise na Floresta Sombria se os próprios goblins estavam precisando usar daquele artifício para se manterem seguros.

— Seja sincera comigo, Griselda. Como estão as coisas por aqui? O que aconteceu durante o mês em que estive fora?

— Oh, meu bem, por onde eu devo começar? – Ela suspirou com infelicidade – A Floresta Sombria já não é mais a mesma. Acho que a esta altura do campeonato você já deve saber como é a sensação de se sentir uma prisioneira em seu próprio lar. Eu costumava poder andar por todo este território sem precisar olhar por cima de meu ombro duas vezes, e agora eu tenho que usar os túneis de emergência ou vestir esta porcaria caso queira me afastar cinquenta metros de casa para colher uma mísera cenoura. Faz semanas que nosso contingente e os demais clãs da Floresta estão voltando das caçadas de mãos abanando. Nossa água está ficando impossível de beber e se afastar para procurar uma fonte não contaminada pode acabar no seu atestado de óbito. Os ataques não são brincadeira. Mas nós sabemos como lidar com isso. – Ela se voltou para Marianne, que ouvia seu relato com o coração apertado e segurou sua mão direita com força – Para vocês deve estar sendo pior ainda, não é? Sendo atacados por esses animais que não são comuns ao seu habitat, não sabendo como lidar com eles...

— Quem dera se meu pai e os conselheiros tivessem essa noção. – A fada mordeu o lábio inferior para conter um rompante de raiva – Para eles tudo pode ser resolvido com violência gratuita e uma boa dose de privilégios de classe. Vamos colocar os elfos e brownies na linha de fogo enquanto as fadas ficam seguras por trás das trincheiras, não tem como isso dar errado. – Ela sacudiu a mão livre num gesto irônico – Já perdi a conta de quantas vezes exigi que mensagens com pedidos de ajuda e ofertas de auxílio fossem enviadas a vocês, mas quem escuta uma aspirante a rainha que não sabe se por em seu lugar?

Uma estranha expressão perpassou o rosto de Griselda, o que não passou despercebido a Marianne.

— Aconteceu alguma coisa?

— Oh, ignore-me, querida, apenas acabei de ter um déjà vu.

— Como assim? Espere um pouco. – Seus olhos se arregalaram com espanto – Não me diga que isso também está acontecendo por aqui. Vocês também estão sendo impedidos de se comunicar conosco?

A boca de Griselda se crispou com desagrado.

— Por mais incômodo que seja, Bog também precisa responder a um conselho, docinho. Um bando de velhos antipáticos, com egos do tamanho de sequoias e uma incapacidade absurda de aceitar algo que fuja das tradições que eles tanto idolatram. Se não houver um consenso com eles, nenhuma ação pode ser tomada. Ainda assim meu menino tentou tomar uma atitude, ainda que às escondidas. Ele enviou incontáveis cartas a você, sua irmã e ao Rei Dagda. Nenhuma delas foi respondida.

Ela encarou Marianne com a cabeça ligeiramente inclinada, procurando com os olhinhos estreitados por alguma coisa em sua expressão. Talvez algo que delatasse culpa. O que ela viu, porém, foi raiva, indignação e tristeza. Suspirou pesadamente.

— É, eu já imaginava que você não tivesse recebido as cartas de Bog. Você seria incapaz de deixá-lo sem respostas, mesmo se quisesse terminar tudo.

— Eu só descobri sobre as cartas dele hoje. Não faz nem uma hora, aliás. – Os punhos dela se cerraram sobre o manto – Meu pai as esteve escondendo. Nem Dawn recebeu as dela.

— Hunf. Se eu escondesse a correspondência de meu filho pelo motivo que fosse, ele nunca mais olharia na minha cara.

— Eu estou pensando seriamente nessa possibilidade. – Marianne grunhiu – Meu pai é uma pessoa difícil de lidar, mas eu nunca imaginei que ele seria capaz de chegar a esse extremo. Eu sei que ele nunca aprovou meu relacionamento com o Bog, mas ao invés de conversar comigo como um pai que respeita a autonomia dos filhos, ele resolve tomar essa atitude ridícula. Ele simplesmente me apunhalou pelas costas, Griselda. Meu próprio pai. Diga-me, como eu poderei voltar a confiar nele um dia?

— Isso é uma resposta a qual só você pode chegar, lindinha. Eu sinto muito que seu pai tenha agido assim com você, mas no momento não há muito que eu possa fazer para te ajudar. Eu já estou por aqui com certo moleque teimoso. – Ela ilustrou o que queria dizer colocando a mão direita rente alguns centímetros acima de suas madeixas emaranhadas – Ter que ouvir resmungos e choramingos sobre como ele merece a política de silêncio que você supostamente estabeleceu por causa de certas atitudes em certo festival está cansando minha beleza.

— O festival. – Marianne gemeu, fechando os olhos com força ao se lembrar de mais esse problema pesando em seus ombros – Eu precisava mesmo conversar com você sobre isso. Tem tantas perguntas que eu preciso fazer! A maneira como ele agiu... Eu juro para você que eu quero entender, mas eu não consigo...

— Eu imaginei que você também estivesse se martirizando a respeito disso. Não se preocupe, eu tirarei todas as suas dúvidas, mas aqui não é o lugar certo para isso. Precisamos sair de campo aberto antes.

Haviam chegado a um ponto onde as árvores e a folhagem eram um pouco mais espaçadas, os galhos e folhas secos no chão varridos para os lados para demarcar uma espécie de trilha que fazia ziguezagues até se perder ao longe. Mais além, Marianne conseguia distinguir os contornos da grande árvore frondosa que fora escolhida como sede do novo Castelo Sombrio, afastada da ravina onde jaziam os escombros do anterior. Do lado esquerdo da trilha, enfileirados e silenciosos, estavam os cogumelos que atuavam como os olhos e os ouvidos dentro da Floresta. O mais próximo dela observou-a por debaixo do grande píleo avermelhado, os olhinhos pretos estreitados com desconfiança. Griselda e ele trocaram olhares brevemente. A goblin limitou-se a fazer um breve aceno com a cabeça, ao que o cogumelo a imitou. Os outros foram repetindo o gesto ao longo da fileira antes de voltarem a esconder as faces com seus píleos, novamente silenciosos.

— Eles não vão passar a informação de minha chegada? – Marianne perguntou.

— Não, e eu mesma os instruiu para que não o fizessem. Não sabemos como o Bog vai reagir caso saiba que você está a caminho do castelo. É bem provável que ele tente fugir, o cabeçudo.

Marianne não achava que Bog teria uma reação muito melhor se ela aparecesse de supetão, mas absteve-se de fazer mais comentários. Limitou-se a observar Griselda com curiosidade quando ela se agachou e começou a afastar folhas, galhos e pedaços soltos de grama, afundando os dedos na terra, parecendo procurar por alguma coisa.

— Ahá! – Ela exclamou de repente. As pontas de seus dedos haviam se afundado num sulco na terra, escondido pela camada de folhas secas. Ela grunhiu brevemente, os músculos dos braços tencionando, e os olhos de Marianne se arregalaram quando um pedaço retangular do solo simplesmente se ergueu do chão. Aproximando-se, ela viu que se tratava de um alçapão camuflado que parecia abrir caminho para uma espécie de túnel subterrâneo. Griselda gesticulou para que ela saltasse, ao que ela obedeceu com certo nervosismo. O buraco era fundo o bastante para que ela coubesse inteira com folga. Griselda saltou para dentro logo em seguida e gesticulou novamente para que Marianne apanhasse a tampa de terra e fechasse a abertura. Logo a escuridão as envolveu.

— Este túnel começou a ser construído assim que estabelecemos a nova localidade do Castelo Sombrio. Ele dá direto para um alçapão logo abaixo da sala do trono. Podemos conversar mais tranquilamente aqui dentro antes de prosseguirmos.

Quando os olhos de Marianne se habituaram a pouca luminosidade, ela pode ver que as paredes de terra do túnel estavam cobertas por uma profusão de pequenos cogumelos esverdeados que emitiam um fraco brilho fosforescente. Fungos bioluminescentes, ela concluiu. Já conseguia enxergar melhor, embora a face de Griselda ainda estivesse meio escondida nas sombras.

— Você precisará seguir por conta própria a partir daqui, Marianne. Bog não pode desconfiar que eu a trouxe até aqui, pelo menos não até a hora em que você tiver de aparecer para ele. Não precisa se preocupar, o túnel não se conecta com nenhuma outra passagem, portanto você não se perderá. Apenas não pare de andar até chegar ao fim. Você vai enxergar a abertura do alçapão, mas não o abra. Eu mesma farei isso. Entendeu?

— Ah... Sim. – Ela assentiu com incerteza.

— Qual é o problema?

— Eu... Eu não sei. E se Bog não quiser me ver?

— É claro que ele quer te ver. Ele só não sabe como agir diante de você, não depois do que ele aprontou. E é exatamente sobre isso que você quer falar, eu presumo.

— Exatamente. – Ela murmurou, estendendo seu manto no chão e se sentando. Griselda a imitou.

— Bog não me deu muitos detalhes do incidente. Você terá de me inteirar de toda a situação.

— Bem, a história não é muito longa. – Marianne suspirou, passando a mão pela nuca – Tudo começou por causa do presente.

— Eu sabia! – Ela exclamou exasperada, dando um tapa na própria coxa e sobressaltando Marianne – Eu tinha certeza de que isso aconteceria. Eu tentei avisar Bog, mas aquele menino é mais teimoso que um carrapato.

— Sim! Eu sei que ele não teve a intenção de ofender, mas ele deveria ter alguma noção do que é ou não é adequado dar a um reino com o qual se pretender formar uma aliança.

— Eu disse exatamente isso a ele, mas quando é que ele me escuta? – Ela balançou a cabeça com desgosto – Uma cabeça de serpente! O que é que ele estava pensando?

— Eu sei! Ele poderia ter perguntado-

— Eu disse a ele umas mil vezes que a cabeça de um cervo era algo mais adequado!

— É, eu... Espera, o quê?

— Eu sei que estamos em falta de carne, mas se tratava de um presente para outro rei, pelo amor dos espíritos da Floresta! Só a cabeça galhada de um cervo iguala a majestade da coroa de um monarca, cansei de dizer isso a ele, mas ele disse que eu estava sendo ridícula, dá para acreditar?

— Espera, espera, espera! – Marianne sacudiu as mãos, perdida com o rumo que a conversa tinha tomado – Eu não estou entendendo! O presente ia ser um animal morto de qualquer jeito?

— É claro, querida. É o que nós goblins fazemos quando queremos estabelecer uma relação com outros clãs ou, no caso, com outros reinos. Sempre oferecemos uma caça já morta em sinal de amizade. Caçar para dar de presente é um gesto que denota compromisso e confiabilidade. Significa que estamos dispostos a nos arriscar em prol da união que queremos cimentar. Mas nesse caso, a cabeça de uma cobra é um presente muito simplório. Sem contar que a carne não é nem de longe tão suculenta quanto a de cervo.

— Mas... Griselda, fadas não comem carne. – Ela se apressou a dizer, pasmada com a revelação – Nós, os brownies e os pixies. Somos vegetarianos. E a única carne que os elfos comem é a de peixe. Nós não caçamos e definitivamente não nos presenteamos com caças.

— Oh!

Ambas ficaram em silêncio por alguns segundos, sem saber o que dizer. Marianne se lembrou do desastre que se sucedeu a entrega do presente e agora se sentia péssima com o ocorrido. Bog e seus subordinados tiveram todo aquele trabalho para caçar e matar aquela serpente, não querendo nada além de oferecer amizade e estabelecer uma boa relação, e todos tiveram reações negativas. Sim, ele poderia tê-la avisado de antemão, mas ele obviamente quisera fazer uma surpresa. Não fazendo a menor ideia do que aquilo acarretaria, apenas empenhado em agradar a ela e a todos...

— Pelos espíritos, eu não fazia ideia. – Griselda balbuciou em descrença – Se eu soubesse, eu poderia ter prevenido Bog. Eu sinto muito, muito mesmo, Marianne.

— Não se desculpe. Vocês não têm culpa de nada. Foi tudo um mal entendido.

— Oh, vocês devem ter tomado um susto dos diabos.

— Isso foi. Principalmente o meu pai. A reação dele foi, de longe, a pior. – Ela enterrou o rosto nas mãos, gemendo em cansaço e culpa – Se ele ao menos tivesse deixado Bog explicar...

— Bem, agora não adianta chorar sobre a seiva derramada. O que está feito, está feito. – A goblin decretou com pesar – O que me preocupa no momento é o que aconteceu depois. Quando a coruja atacou.

Marianne sentiu um arrepio que não tinha relação com a baixa temperatura do túnel. Instintivamente tocou sem ombro enfaixado. Os olhinhos de Griselda acompanharam o movimento, sua expressão indiscernível na pouca luz.

— Conte-me tudo o que aconteceu, Marianne, do início ao fim.

E Marianne contou. Contou absolutamente tudo, não deixando passar nenhum detalhe, desesperada como estava por informações que poderiam sanar todas as suas dúvidas. Griselda ouviu sem interrompê-la, assentindo em determinados momentos, às vezes parecendo estar distraída, com a cabeça longe dali. Marianne se perguntou se ela estava fazendo pouco caso de seu relatório, mas a fêmea mais velha voltou a se endireitar assim que ela terminou seu conto.

— Então ele voltou a si assim que você o chamou.

— Sim. Parecia que ele estava despertando de um transe. – A princesa descreveu, lembrando-se de como Bog voltara a si completamente desorientado – Os outros goblins o chamaram antes, mas ele não parecia ouvi-los. Ele estava fora de controle.

— Claro. – Ela assentiu com simplicidade – Eu tinha medo que isso pudesse acontecer mais cedo ou mais tarde.

— Como assim? Não havia nada que pudesse ser feito para prevenir aquele surto? Ele ia enlouquecer uma hora ou outra? – Marianne indagou amedrontada, não querendo acreditar que seus piores temores eram reais, que seu pai estava com a razão, que o relacionamento que tanto a fazia feliz estava fadado ao fracasso...

— Não ponha a carroça na frente dos sapos-boi, querida. – Griselda a avisou – Antes de tudo, me responda uma pergunta. Você tentou chamá-lo em algum outro momento durante esse surto?

— Ah... Sim, eu o chamei.

— E como ele reagiu?

— Ele... Ele travou. – Marianne murmurou enquanto se lembrava, estreitando os olhos – Ele pareceu reconhecer minha voz, mesmo que por um segundo. Ele simplesmente congelou no lugar. Foi graças a isso que a coruja conseguiu fugir.

— Entendo. Sim, sim, é exatamente o que eu imaginava.

— O quê? Por favor, Griselda, se você sabe, diga-me o que aconteceu! Eu estou quase enlouquecendo aqui!

— Calma, calma! Não há motivo para esquentar a cabecinha! – Ela garantiu – A verdade é bem mais simples do que você pensa. Bog simplesmente reagiu como qualquer animal selvagem reagiria ao ver seu companheiro ou companheira ferido e correndo risco de vida. Ele entrou no modo da superproteção.

— Modo da superproteção? – Marianne repetiu em confusão – O que é isso? É uma coisa de goblin?

— Pode se dizer que sim. Exemplificando, goblins são extremamente protetores com seus parceiros. Especialmente os machos.

— Mas... Mas eu não preciso que ele seja superprotetor comigo! Eu sei me cuidar sozinha, ele sabe disso! – Ela exclamou, ainda mais frustrada e confusa – O que aconteceu foi um acidente! Eu sei que ele ficou preocupado, mas ele poderia ter ferido alguém se descontrolando daquela maneira!

— E você acha que Bog pensou nisso? O lado racional dele foi suprimido pelo irracional naquele instante, Marianne. Ele não pararia para pensar se foi um acidente, se mais alguém poderia sair ferido, se você tinha ou não a capacidade para se proteger por conta própria. Você estava ferida. Você estava em perigo. Você precisava dele. E aquele que a tinha posto nesta situação ainda estava ali, ameaçando sua segurança. Aquilo era tudo o que importava. Por isso ele atacou aquela coruja com tanta fúria. Por isso ele não queria que mais ninguém se aproximasse de você. No estado primitivo em que a mente dele se encontrava, cabia a ele e somente a ele te proteger. E ele não conseguiria reconhecer nenhuma voz além da sua, nenhum rosto além seu. Pelos espíritos, foi um milagre ele ter sido capaz de reconhecer sua irmã e não atacá-la quando a viu te segurando. Acho que é uma prova de que ela também tem um alto grau de importância para ele.

— Mas... – A cabeça de Marianne rodava e pulsava, tentando processar aquela enxurrada de informações – Mas como pode ser assim? O que ele fez depois... Ele não tentou me atacar?

— É lógico que não. De onde você tirou uma coisa dessas?

— Mas ele abocanhou meu ombro! Lambeu minha ferida!

Os olhos de Griselda pousaram em seu ombro enfaixado.

— Ah, a ferida. Importa-se de tirar as bandagens para que eu dê uma olhada?

Ainda mais aturdida e sedenta por respostas, Marianne fez o que lhe foi pedido. Atirou as bandagens sobre o manto enquanto Griselda arrancava um dos cogumelos luminosos das paredes e o aproximava de seu ombro. Ela soltou um silvo baixinho enquanto avaliava o ferimento que já tinha entrado em fase de cicatrização, a pele avermelhada, esticada e luzida se elevando numa linha reta e grosseira que atravessava sua clavícula.

— Argh, não quero nem imaginar o estado disso no dia. Garras de coruja fazem um belo de um estrago. Você poderia até ter sofrido uma amputação se Bog não tivesse agido rápido. Mas a ferida cicatrizou muito bem. Ele fez um ótimo trabalho.

— O quê? Como assim?

— Bog lambeu sua ferida, não lambeu?

— Sim, eu acabei de dizer-

— Então. Aí está sua resposta.

Marianne abriu a boca para protestar, mas a insinuação nas palavras de Griselda foi aos poucos adentrando sua mente desordenada. Seus olhos se arregalaram, parecendo ridículos à luz fosforescente dos cogumelos. Ela encarou Griselda com a boca escancarada, abismada demais para dizer algo. A pequena goblin lhe abriu um sorriso divertido.

— Saliva de goblin é um senhor remédio, querida.

A resposta de Marianne foi se deixar cair até suas costas baterem na parede do túnel. As juntas de suas asas protestaram, mas ela passara a muito do ponto de se importar. Não conseguia acreditar nas palavras de Griselda, no que elas implicavam...

— Sei que você deve estar confusa. Não é sua culpa. – Griselda tocou gentilmente sua mão – Há certos aspectos da natureza não só do Bog, mas dos goblins em geral que você ainda desconhece. Posso resumir traçando um paralelo com a sua espécie. – Ela voltou a se sentar sobre o manto – Ao contrário das fadas, nós goblins não abrimos mão de nossos instintos mais primitivos. Nós os aceitamos e os abraçamos, pois eles são parte de quem nós somos. O que fazemos é aprender a mantê-los sob controle e deixá-los sair quando a situação pede. O contraponto é que isso é algo que não se pode ensinar. É preciso aprender com a experiência. É aí que entra o problema. Bog não tem experiência com relacionamentos amorosos. Ele nunca teve um companheiro ou companheira antes de você. Ele nunca aprendeu a controlar o aspecto mais animalesco do instinto protetor porque ele nunca precisou lidar com a vida da pessoa amada em jogo. Ver você machucada e ensaguentada despertou essa parte adormecida dele, porque nada o apavora mais do que a possibilidade de te perder. Entendeu agora, Marianne? Bog jamais, em hipótese alguma machucaria você, nem mesmo em um estado primitivo. O que ele não perdoa é aqueles que tentam te fazer algum mal. A coruja pagou o pato dela. Seu pai quase entrou na roda também. – Ela suspirou – Isso sim foi um problema. Ele vai ter que aprender a se controlar, e para já...

Marianne deixou que sua mente divagasse, maravilhada e arrasada com todas aquelas descobertas. Tocou mais uma vez seu ombro, lembrando-se de como a língua áspera de Bog percorrera sua pele e como a saliva dele ficara tão grudenta que os curandeiros tiveram dificuldade em removê-la. Como ela não percebera antes? Ele não a mordera em momento algum. Ele ficara fazendo sons estranhos para ela, ganidos e crocitares, como se tentasse consolá-la, dizendo que estava tudo bem, que ele estava com ela agora e que ninguém mais a machucaria. Ele vira os presentes ao redor como ameaças a sua segurança, mas ainda fora capaz de reconhecer Dawn. O ataque à coruja fora a sua fúria e seu pavor em perdê-la explodindo. Sem malícia, sem intenções vis. Apenas um animal selvagem lutando pela amada com tudo o que tinha.

Ele não estivera tentando devorá-la. Ele estivera tentando protegê-la.

A primeira coisa que sentiu ante a conclusão foi alívio, caindo sobre ela como uma cascata límpida, varrendo as impurezas do medo e da desconfiança para longe. A segunda coisa que sentiu foi culpa, causticante como ferro em brasa, cortando-a e punindo-a por ousar duvidar de Bog. Como ela pudera temê-lo? Como ela pudera acreditar mesmo que por um segundo que ele seria capaz de lhe fazer mal? Como ela teria coragem para encará-lo agora, sabendo de tudo isso?

“Ele também não é nenhum pobre coitado. Ele poderia ter te explicado tudo isso, mas preferiu fugir com o rabo entre as pernas e te tratar como a donzela indefesa da história...”

— Não fique se afligindo por causa disso, docinho. – Griselda a consolou – Não havia como você saber dessas coisas. E não pense que eu estou arrumando desculpas para as idiotices do meu filho. Ele realmente poderia ter ferido alguém. E não foi nem um pouco certo te deixar para trás sem dar explicações.

— Isso é o que mais me dói. – Ela sussurrou com a voz embargada – Ele poderia ter me explicado tudo isso, explicado ao meu pai, nos ter feito entender-

— Eu não acho que isso adiantaria muito. Seu pai parece ser do tipo turrão. E de qualquer jeito, em alguns pontos o Rei Dagda está certo. Bog é um predador, Marianne. Caçar e matar estão no sangue dele. Acho que esse incidente serviu como um lembrete a vocês dois que a natureza é o que é e não pode ser alterada.

— Então você está dizendo que não há esperança para nós?

— Eu nunca disse isso, disse? O que eu quero dizer é que você não deve se esquecer jamais do que o Bog é. Ele não pode abrir mão de algo que faz parte de sua natureza. Isso não faz dele alguém ruim. Predadores não são os vilões do reino animal, Marianne. Cada criatura tem o seu papel dentro do ciclo da vida. Não há maldade ou bondade aí. É neutro. É o mundo girando e seguindo seu curso. Você entendeu?

Ela assentiu, enxugando uma lágrima com a ponta do dedo.

— Mas você também não deve se esquecer de uma coisa: o Bog ama você. Ele está definhando sem você por perto. Você também está sofrendo com a distância, vejo isso em seus olhos. Por isso trouxe você até aqui. Vocês precisam conversar, botar as cartas na mesa, colocar tudo para fora. Agora, não estou dizendo que você deve correr para os braços dele e aceitar qualquer desculpa que ele der. Ele tem explicações a dar e você tem o direito de ouvi-las.

— É disso que eu tenho medo! – Ela admitiu enfim – Não sei se eu vou conseguir perdoá-lo se ele confessar que tomou essa atitude por achar que eu não daria conta, por se considerar perigoso para mim sem nem ao menos querer saber o que eu pensava e como me sentia!

— Entendo. Mas quer saber minha opinião? Não acho que as razões do Bog tenham relação com tudo o que você citou. Conheço meu filho e ele seria incapaz de enxergar você assim. Acho que há um motivo oculto aí, algo que o atormenta mais do que essas baboseiras que se lê em romances meia-boca.

— O... O que seria?

— Ora, eu não faço ideia! Só vamos descobrir quando o fizermos soltar a língua! – Griselda se ergueu com determinação – Antes de prosseguirmos com o plano, eu quero lhe dizer algo, Marianne. – Ela segurou as mãos da fada – Você não tem qualquer obrigação de perdoar o Bog. Eu também ficaria furiosa se estivesse em seu lugar. Se você decidir que está tudo acabado, que é melhor que cada um siga com sua vida, eu irei entender. Ele também irá, estou certa disso. Mas eu imploro, ao menos tente. Não desista tão fácil do que há entre vocês. Vocês dois são tão felizes juntos. Vale à pena abrir mão dessa felicidade por conta de um desentendimento?

Com os olhos fixos em Griselda, Marianne ponderou. Colocou na balança tudo o que vivera ao lado de Bog ao lado de todas as dúvidas mais recentes. Pensou em tudo o que aprendera e descobrira nos últimos minutos. Pensou na enorme saudade que sentia dele como também na grande raiva ante a possibilidade que mais a preocupava. E pensou na grande crise que os dois reinos enfrentavam.

— Então, Marianne? Você já tem sua resposta?

E com a coragem renovada, o coração mais leve e pronto para o combate, Marianne assentiu. Ela já tinha sua resposta.