Garras e Presas

10 Capítulo 10


Notas iniciais
Aqui estamos com mais um capítulo. Declaro minha desistência em tentar deixá-los mais curtos, eu simplesmente não consigo xD Mais algumas perguntas começarão a ser respondidas neste. Boa leitura 0/

— Ele foi por ali!

— Atrás dele, não deixem que fuja!

A terra sob suas patas tremia com as violentas passadas de seus perseguidores, que se aproximavam cada vez mais em seu encalço. Seus pulmões queimavam e suas juntas protestavam, mas ele não podia parar. Não ainda. Já estava próximo demais de seu destino para desistir.

Talvez tenha sido insensatez de sua parte provocar os temíveis goblins. No estado faminto em que eles se encontravam, qualquer animal que se aproximasse demais estaria arriscando o pescoço. Mas não haviam lhe dado escolha. Apenas ele conhecia a verdade, mas não poderia resolver o problema sozinho. Precisava da ajuda daqueles que tinham mãos funcionais e músculos fortes para trabalhar, uma mente criativa para bolar uma solução, a força de vontade para superar adversidades. Precisava do elfo. Ele entenderia, tinha que fazê-lo entender de uma vez por todas.

Com o coração na garganta e vento em suas canelas, ele disparou a toda pelo matagal em direção ao que poderia — não, ao que precisava ser sua salvação. Em direção ao Reino das Fadas.

§ § §

Quando Sunny deixou sua residência às pressas, alarmado pelo som longínquo das explosões e pelo tropel de passos dos vários elfos que tiveram a mesma ideia, a última coisa que ele esperara ver era uma Dawn aos prantos, cortando o ar na velocidade de uma flecha em sua direção.

Sua reação instintiva foi erguer os braços para ela, tencionando ampará-la. Não fazia ideia do que tinha acontecido, o que poderia ter ocasionado seu choro, mas seu forte vínculo com a princesa mais jovem já não tinha mais ligações com seu lado racional: Dawn precisava dele, e ela o teria. Ela sempre o teria.

Foi então que se lembrou de que a estava evitando. Travando no lugar, amaldiçoando seu egoísmo, ele tentou recolher os braços e dar um passo para trás, mas já era tarde. Como fizera tantas vezes ao longo dos anos, Dawn jogou os braços ao redor de seu tronco como se ela estivesse se afogando e ele fosse um bote salva-vidas. O impacto do encontrão tirou seus pés do chão. E lá foram os dois, rolando pelo gramado como um casal de tatuzinhos de jardim.

— Argh! Dawn! O que-

— Oh, Sunny, eu sinto muito, muito!

Sunny tinha certeza de que engolira um bom bocado de grama, mas isso era o que menos importava no momento. Dawn escondera o rosto na curva de seu pescoço, soluçando profusamente, encharcando a gola de sua camisa com água salgada, e ele não teve outra escolha a não ser envolver a cintura fina dela com os braços e apertá-la com força junto ao seu corpo, friccionando seu rosto contra a bochecha molhada dela e fazendo sons confortantes em seu ouvido.

— Shh, shh... calma, Dawn. Eu estou aqui. Está tudo bem agora.

Ela soluçou mais, os ombros se sacudindo com violência. Deuses, o que havia acontecido para deixá-la naquele estado? Uma possibilidade aterradora cruzou sua mente.

— O que aconteceu? Foi mais um dos ataques? – Perguntou nervosamente, segurando o rosto dela nas mãos trêmulas – Você se machucou?

— N-Não...

— Foi a Marianne, então? O seu pai?

— Não! – Ela grunhiu, parecendo frustrada, o que deixou Sunny ainda mais apreensivo. Seus conterrâneos haviam enfim notado a presença da fada chorosa, aproximando-se deles com expressões de espanto e desagrado.

— Alteza! O que a senhorita está fazendo aqui? – Adair foi o primeiro a indagar.

— A senhorita deveria estar no palácio! – Alanis a censurou.

— Mil perdões, minha princesa, mas deixamos claro que sua presença aqui já não é mais bem vinda. – Breno tomou a frente, cruzando os braços com severidade – Peço encarecidamente que atenda ao nosso apelo e parta imediatamente.

Mas Breno poderia muito bem estar falando com uma porta, já que Dawn não deu sinal de tê-lo escutado. Ela tinha olhos somente para Sunny.

— Eu sinto tanto, tanto... – Ela balbuciava – Se eu soubesse, se eu tivesse prestado alguma atenção...

Os balbucios dela não estavam fazendo o menor sentido, e Sunny estava começando a ficar seriamente assustado. Os apelos dos outros elfos tampouco ajudavam.

— Sentimos muito, Alteza, mas a senhorita precisa ir embora!

— Largue-a, Sunny. Não direi duas vezes.

Estavam formando um cerco em volta deles, o mar de rostos zangados e acusadores fazendo com que Sunny tivesse uma desagradável sensação de déjà vu. Já estivera naquela situação antes, e os resultados não tinham sido bons...

— Sunny! ‘Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa com a princesa?

Era Pareh, abrindo caminho em meio à multidão com seu tamanho avantajado. A presença dele o lembrou de quem estava ali no momento, parecendo tão frágil e desamparada em seus braços. Envolveu Dawn com mais força, o medo súbito dando lugar ao instinto protetor e a raiva. Não se importava quando os outros elfos o usavam como bode expiatório, mas como eles se atreviam a fazer o mesmo com ela, tão doce e amável? O que Dawn fizera para merecer aquilo?

— Solta ela, Sunny! Ela precisa ir!

— Por que vocês têm que dificultar as coisas?

— Não estou de brincadeira, Sunny! Você tem três segundos para soltá-la e mandá-la embora! – Breno ergueu três dedos – Um! Dois! Três-

— CALEM A BOCA!!!

Levou pouco mais de um segundo para que Sunny se desse conta de que fora ele quem gritara aquelas palavras. Espantou-se com a própria audácia, ainda mais quando os outros elfos praticamente pularam para trás, atônitos com seu rompante. O silêncio que se seguiu era quebrado apenas pelas fungadelas de Dawn. É claro. Fora por Dawn que ele tivera um surto de coragem, e seria por ela que se agarraria a ele com todas as forças.

— Calem a boca! – Ele repetiu num rosnado – Eu não quero mais saber das suas baboseiras supersticiosas! Dawn precisa de mim, e se não forem oferecer nenhuma ajuda, então fechem as matracas e nos deixem em paz! Agora saiam de perto, vocês estão nos sufocando!

E como se fossem formigas obedecendo aos comandos da rainha, eles imediatamente se afastaram, abrindo o círculo, ainda em absoluto silêncio. Estavam todos com os queixos caídos, os olhos esbugalhados ao se depararem com um Sunny que não mais aceitava ameaças passivamente. Pareh o encarava em assombro e admiração, enquanto Breno parecia mais pasmo do que devidamente zangado ao ter sua autoridade questionada. Sunny sabia que aquilo lhe custaria caro no mais tardar, mas no momento esta estava longe de ser a maior de suas preocupações. Voltou-se novamente para Dawn, que o fitava com uma expressão insondável.

— Está tudo bem agora, viu? – Ele tentou sorrir – Eu estou aqui com você, amor. Agora me diga, o que foi que-

Suas palavras seguintes foram cortadas por seu súbito guincho de dor. Dawn segurava a ponta de sua orelha direita entre o dedão e o indicador e a puxava com força como se quisesse arrancá-la.

— Ai, ai, ai, ai! Dawn, isso dói! O que é que-

— Só agora você resolveu tomar uma atitude? – Ela bronqueou, a voz ainda esganiçada pelo choro – Você deveria ter feito isso desde o começo quando todos esses boatos maldosos começaram, deveria ter me contado sobre as cobranças do meu pai, deveria ter se aberto comigo como sempre fizemos!

— O quê?

— Você é um burro, Sunny! Burro, burro, burro! – Ela acertou seu ombro com o punho fechado repetidas vezes.

— Ai, ai, ai! Pare! Isso ta doendo! – Segurou o pulso dela, assustado com a violência repentina – O que é que te deu? Marianne morreu e o espírito dela baixou em você, é?

— Por que você não disse nada sobre estar inseguro sobre seu papel no nosso relacionamento?

— Hã?

— Marianne me contou tudo. Você estava desesperado para obter a aprovação do papai e depositou todas as suas esperanças na organização do Festival da Colheita. Estava desesperado para que ele enfim te visse como alguém digno de me cortejar. – Ela balançou a cabeça, as lágrimas em suas pestanas se desprendendo e caindo nas calças dele – E você também não se conforma por aparentemente não ter sido capaz de me proteger. Todos estão te cobrando e te criticando por isso. É por isso que você se afastou de mim. Como se eu algum dia tivesse te cobrado qualquer uma dessas coisas.

— Dawn... – Sunny engoliu em seco – Eu... eu não...

— Algum dia eu pedi que você fizesse isso, Sunny? Alguma vez dei a entender que eu esperava que você arriscasse seu pescoço por mim?

— Não...

— Alguma vez eu reduzi seu valor à sua capacidade de impressionar meu pai? Alguma vez eu disse que só ficaria com você se você se igualasse ao modelo ideal de homem que ele visualizou para mim? Que eu só te amaria se você fosse o perfeito cavaleiro galante que toda princesa quer?

— Você não entende, Dawn...

— O que eu não entendo? Diga! – Ela exigiu – Fale comigo! Bote para fora o que está te atormentando!

— Eu não quero ser ideal apenas para seu pai! Eu quero ser ideal para você! Quero ser o homem que você sempre sonhou em ter!

Dawn se calou, encarando-o confusa.

— O homem que eu sempre sonhei? Como assim?

— Você não se lembra, Dawn? Desde que éramos crianças, por anos e anos o que você mais desejou foi que o príncipe bonito, forte, valente e carismático das histórias que você tanto adorava aparecesse e te jurasse amor eterno. – Sunny se pôs a tagarelar, incapaz de se conter agora que estava verbalizando seus maiores temores – Você queria ser como as princesas desses contos. Você queria um homem que lutasse por você, que tirasse você do chão, que pegasse você nos braços e te protegesse de todos os males do mundo. Você queria um nobre cavaleiro em uma armadura brilhante. E eu queria ser esse homem. Eu queria poder fazer todas essas coisas por você. Mas olhe para mim. – Ele gesticulou para si mesmo depreciativamente, os olhos marejados. – Eu não sou forte. Eu não sou carismático. Eu sou covarde, fugi de medo de uma coruja. E eu nunca fui bonito como os caras por quem você já se interessou. Foi por isso que apelei para uma Poção do Amor, e olhe para onde isso nos trouxe. Transformei-me num ladrão disposto a drogar a melhor amiga. – Balançou a cabeça, arrasado, a garganta se apertando num nó cego – Eu não sou o príncipe encantado que você sempre quis. Não sou seu cavaleiro em armadura brilhante. Não consigo nem organizar uma droga de festival. Uma garota incrível como você merece apenas o melhor.

Ele enfim se calou cabisbaixo, não querendo encarar Dawn ou a multidão ao redor deles. Esperou que ela enfim se desse conta que ele não valia o esforço, que permanecer ao lado dele era uma perda de tempo. Esperava apenas que Dawn fosse livre do peso morto que era sua existência. Esperava que ela fosse feliz, mesmo que nos braços de outro.

O que ele não esperava, porém, era o aperto quase férreo dos braços dela ao redor de seu tronco, abraçando-o como se ele fosse a única coisa que pudesse mantê-la naquele plano de existência.

— Dawn? O que está fazendo?

— Você disse que uma garota incrível como eu merece apenas o melhor. – Ela murmurou baixinho em seu ouvido – Eu concordo. Por isso estou escolhendo o que há de melhor.

E antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa, ela o calou com um beijo apaixonado.

Sunny soltou um ganidinho estrangulado, mas seu choque durou míseros segundos. Os beijos de Dawn tinham o poder de lhe tirar todo o ar, deixar sua cabeça leve e seus sentidos completamente abobalhados. As exclamações de espanto e indignação de seus conterrâneos eram meramente coro de fundo para a música que a boca dela produzia junto a sua. Gemeu e fechou os olhos, retribuindo com igual ardor e desejando que aquilo durasse para sempre.

— O que... – Ele conseguiu dizer quando ela enfim deixou-o respirar – O que foi isso, Dawn? Eu... eu não acabei de dizer-

— Que eu mereço o melhor. Sim. Você é o melhor para mim.

— C-Como? Não ouviu tudo o que eu disse? Eu não sou aquilo que você quer.

— Você é tudo o que eu quero.

— Não, Dawn. – Ele gemeu novamente, não querendo estender o assunto que tanto o machucava – Eu não posso ser. Eu não sou o príncipe perfeito que você sempre sonhou em ter, não vê?

— Não, você não é. – Ela concordou, sorrindo tremulamente – Você não é nada do que a velha Dawn, uma amante de histórias de cavalaria e romances perfeitos teria querido. Mas a nova Dawn é capaz de ver o quanto ela foi cega.

Ela segurou seu rosto entre as mãos, os dedos compridos acarinhando suas bochechas, os olhos azuis cintilando como o céu numa manhã primaveril.

— Eu queria um príncipe encantado que fosse absolutamente perfeito porque era essa a ideia que eu fazia do amor. Eu achava que amar alguém era ser completamente arrebatado por uma pessoa que seria boa demais para ser real. Eu achava que o homem perfeito era aquele que empunhava uma espada, lutava com monstros pela amada e a pegava nos braços enquanto cantava canções românticas. Eu estava tão desesperada para encontrar esse homem dos sonhos que demorei a me dar conta que existem outras formas de amar e ser amado. Formas realistas, não perfeitas, mas que não são menos especiais. – Ela beijou a ponta do nariz de Sunny, que se arrepiou dos pés à cabeça – No fundo, o que eu sempre quis foi alguém que me aceitasse como eu era e me fizesse feliz. E você sempre estava aqui para mim, Sunny. Você nunca me julgou por eu gostar de paquerar, até me ajudava mesmo que no fundo se sentisse enciumado. Quando eu estava infeliz com o que quer que fosse, você levantava meu astral, cantava uma canção para mim e me lembrava de que eu sempre poderia contar com você para o que desse e viesse. Você sempre me lembrava do meu valor como um ser vivo, independentemente de minha posição social. Você sempre fez com que eu me sentisse feliz, segura e querida. Eu não preciso ter modos de princesa quando estou com você. Eu posso ser eu mesma.

— Dawn...

— Eu achava que amor fosse uma coisa intensa, louca, explosiva. Bem, às vezes é, mas não é uma regra. E o que nós temos sempre foi seguro, doce, gentil. Simples como respirar. É como o sol: uma necessidade nas nossas vidas, mas sempre tão presente que é fácil se esquecer de que ele está ali. Acho que foi por isso que demorei tanto para perceber o real valor de nossa relação. Amor é isso o que nós sentimos um pelo outro. É essa tranquilidade, essa confiança, essa certeza de que você sempre vai estar aqui, me apoiando, me fazendo rir, me fazendo me sentir bem comigo mesma.

Sunny soltou um pequeno soluço, a vista embaçada pelas lágrimas teimosas.

— E sobre você não ser um guerreiro... eu não preciso disso, Sunny. Eu não preciso que você seja um cavaleiro em uma armadura brilhante para mim. Minha irmã já cumpre muito bem esse papel. – Ela riu baixinho – Mas você sempre me protege de outras formas. Como quando eu estava sob o efeito da Poção do Amor, chorando pelo Bog, e você me confortou sem cobrar absolutamente nada. Como no festival, quando você estava mais preocupado que eu me salvasse, mesmo que eu te deixasse para trás. Como agora, quando você enfrentou todos no vilarejo para garantir meu bem estar. Não diga que você não tem a capacidade de lutar por mim, porque você faz isso mais vezes do que percebe. Isso é mais do que qualquer príncipe encantado poderia ter feito. – Beijou as mãos trêmulas dele – Me desculpe por não ter sido capaz de perceber como você sofria com isso, por não ter conseguido te apoiar e te confortar quando você mais precisou. Então por favor, me deixe mostrar que eu também posso lutar por você. Deixe-me ser o ombro onde você pode encostar a cabeça e chorar, só para variar.

Ela beijou seu olho direito e logo em seguida o esquerdo, parecendo não se incomodar com o gosto salgado de suas lágrimas. Fungando, vencido pela exaustão acumulada por semanas, Sunny encostou a cabeça no ombro delicado e deixou que as lágrimas enfim corressem livres por seu rosto. Abraçou-a com firmeza, arrependido por tê-la abandonado e emocionado ao ver o quanto ela o valorizava, apesar de todos os seus defeitos e limitações.

Don’t worry... about a thing… — Ela cantou baixinho em seu ouvido, acariciando suas costas com os dedos – ‘Cause every little thing... gonna be alright...

— Oh, Dawn...

— Ninguém me fez feliz como você faz, Sunny. E eu quero te fazer feliz da mesma maneira.

— Você sempre faz... Eu te amo tanto, Dawn...

— Eu também te amo, ursinho.

Pareh fez um som que era um misto de risada enojada e fungadela, enxugando as lágrimas na manga do blusão. Rindo junto com ele, os peitos explodindo em felicidade, Dawn e Sunny inclinaram-se novamente um para o outro, seus lábios se unindo mais uma vez. A multidão começou a resmungar entre si, incerta do que fazer a seguir. Ainda estavam furiosos com o pouco caso do casal, mas era inegável que a reconciliação entre eles os tocara em seus pontos sensíveis. Os elfos valorizavam a força do amor real tanto quanto as fadas, e separar os pombinhos em um momento como aquele parecia ser uma atitude muito desalmada. Ainda assim, algo precisava ser feito.

— Agora me escutem, os dois. – Breno se interpôs, tentando soar razoável – Eu entendo como essa situação é difícil para vocês, terem que se separar de maneira tão abrupta e definitiva, mas isso não é sobre o que vocês querem, e sim sobre o que é certo a se fazer. Não percebem que essas atitudes estão acarretando consequências sérias e que todo o reino está se vendo envolvido? Vocês estão sendo egoístas.

— Egoístas como? – Dawn questionou, sem se afastar um centímetro sequer de Sunny – Não há nenhuma confirmação de que é o nosso relacionamento que de alguma forma aborreceu os deuses o os levou a nos castigar. Isso é só uma teoria que vocês criaram para explicar a crise e que não tem nenhum embasamento.

— Os ataques, a escassez e as mortes dos animais começaram após o surto de loucura do Rei do Pântano! Isso já é embasamento o suficiente!

— Existe uma explicação lógica para tudo, Breno. Se apoiar em superstições só impede que cheguemos ao fundo da verdadeira razão e não melhora nossa situação em nada. Diga-me, que melhoras vocês perceberam na lavoura e na frequência dos ataques desde que o Rei do Pântano desapareceu e Dawn e eu estivemos separados? As mortes pararam? Os ataques cessaram? Os alimentos não estão mais se contaminando?

— Melhoras não surgem da noite para o dia! É preciso tempo para que as coisas se resolvam, o que não vai acontecer enquanto vocês continuarem a desrespeitar nossa decisão!

— Decisão que vocês tomaram sem me consultar. Eu sou tão parte desta comunidade quanto qualquer um de vocês. Também tenho o direito de opinar e de ter minhas opiniões respeitadas. Mas vocês estão me tratando como um pária simplesmente por discordar de vocês quanto a melhor solução para a crise, sendo que eu nunca fiz nada além de tentar me redimir pelos meus erros e colaborar com a manutenção da comunidade da maneira que eu posso. Ou isso não tem valor algum para vocês?

Os elfos resmungaram respostas incompreensíveis, alguns encarando o chão num sinal de clara vergonha, outros evitando deliberadamente encarar Sunny. Foi então que Pareh pigarreou, chamando a atenção para si.

— Eu... Eu concordo com o Sunny e com Sua Alteza. – Murmurou hesitante – Quer dizer, mantê-los separados não resolveu em nada os nossos problemas, não é? Talvez... Talvez fosse melhor que buscássemos outra alternativa.

— Que outra alternativa? Não temos qualquer chance contra esses predadores e nem ideia do que é que está causando as mortes e a escassez, como poderemos buscar uma solução se estamos perdidos no escuro? – Alanis indagou esganiçada, denotando o desespero que todos sentiam.

— Por isso mesmo que uma separação não vai resolver, pessoal. O que nós precisamos no momento é permanecer unidos, e não apenas entre nós. – Dawn olhou para cada um dos elfos com uma expressão convicta – Precisamos restabelecer a conexão com os goblins. Eles também estão sofrendo com a crise, mas conhecem os hábitos dos predadores melhor do que qualquer um de nós. Precisamos da ajuda deles.

Houve mais protestos, mas desta vez não se via tanta indignação. O medo entre os elfos era denso e palpável.

— Não queremos mais nada com aqueles goblins, não depois do que aconteceu durante o festival!

— Exato! Como podemos confiar neles se possuem um temperamento tão imprevisível?

— E a senhorita eram quem mais deveria temê-los, Alteza! Já se esqueceu do que o Rei do Pântano fez à sua irmã?

— Marianne está ótima! Bog não a feriu! Não feriu nenhum de vocês, aliás! – Ela apontou para a multidão acusadoramente – Desculpem a sinceridade, mas vocês estão sendo ingratos!

— Ingratos?! Como pode dizer-

— Bog salvou vocês! Salvou a todos nós! Se não fosse por ele, aquela coruja teria ficado livre para continuar nos atacando e uma tragédia poderia ter acontecido! Mas ninguém foi devorado e Marianne foi a única ferida, e isso porque ela partiu para a batalha conhecendo os riscos a que se expunha. Minha irmã e o companheiro dela foram heróis, arriscaram as vidas para nos proteger. E como vocês os agradecem? Os acusando de serem os causadores desta crise. Eu sei o quanto estão assustados com tudo o que tem acontecido, mas apontar culpados não vai nos ajudar agora, principalmente quando um dos seus alvos não tem feito nada além de ajudar da maneira que pode e se lamentar por não estar em condições de enfrentar os predadores por vocês.

Sunny nunca vira o rosto de Breno tão vermelho. O patriarca mordia o lábio inferior e encarava os próprios pés, as palavras lhe fugindo. Os demais não estavam em melhor situação, agora parecendo decididamente constrangidos. A princesa e seu namorado se entreolharam, decidindo num acordo silencioso que aquela era uma oportunidade que não podiam deixar passar.

— Eu entendo que estejam desconfiados e temendo por sua segurança depois do que viram. Não foi fácil para mim, eu asseguro. – Dawn segurou a mão de Sunny com mais firmeza – Mas se vocês permitirem, nos deem a chance de provar para vocês que as coisas podem ter uma explicação muito mais lógica. Pensem um pouco: o problema começou na Floresta Sombria e se alastrou para cá. A fonte de todos esses desastres só pode estar lá. Se conversarmos com os goblins, se oferecermos nosso auxílio, então podemos todos juntos resolver este mistério.

Mais silêncio, agora pontuado por trocas de olhares hesitantes e temerosos.

— Não obrigaremos ninguém a tomar parte nisso. – Ela assegurou – Apenas aqueles que se voluntariarem de livre e espontânea vontade. Não partiremos imediatamente também, deve haver um planejamento antes. Uma nota de aviso deve ser enviada ao Bog, assim mostraremos que viremos em missão diplomática e que não estaremos trespassando. E se a presença de mais de um membro da realeza se fizer necessária... – Ela engoliu em seco – Eu... Eu mesma liderarei a expedição.

— Não, Alteza, a senhorita não fará isso.

Dawn pulou de susto ao reconhecer a voz, percebendo tarde demais que fora seguida. Todos voltaram as cabeças para o alto e avistaram o grupo de quatro fadas que se aproximava: três membros da guarda real, as armaduras prateadas sujas de fuligem, liderados por Sir Adrian, um dos membros do conselho.

— Adrian! Desde quando estava me seguindo? – Dawn exigiu saber, escondendo a apreensão com uma dose de aborrecimento.

— O conselho foi chamado às pressas para averiguar o problema com os barris de pólvora. Seu pai pediu a mim que a encontrasse, temendo que seu estado fragilizado a pusesse em risco. Não foi difícil adivinhar para onde a senhorita ia. – Ele murmurou com os olhos fixos em Sunny, que devolveu o olhar com hostilidade. Adrian havia sido um dos muitos paqueras de Dawn no passado, e Sunny não nutria sentimentos amigáveis para com nenhum deles.

— Espere, espere! O que houve com os barris de pólvora? – Breno perguntou ao conselheiro.

— Por alguma razão, eles entraram em um estado de instabilidade. Três acabaram detonando.

— Então eram esses os sons de explosões que escutávamos há pouco?

— Mas não é possível que tenham detonado do nada. Checamos diversas vezes para nos assegurarmos de que não detonariam sem que os pavios fossem acesos.

— Sim, Sir Adrian, não é nossa culpa! Não nos reporte ao Rei Dagda, por favor!

— Acalmem-se, senhores, acalmem-se! – Adrian pediu, alteando a voz para se fazer ouvir em meio a súbita gritaria alarmada – Ninguém aqui será culpado de nada. Fui mandando para cá a procura da Princesa Dawn, e agora que a encontrei, a conduzirei de volta ao palácio.

— Eu não vou a lugar algum! – Ela protestou – Estamos tratando de um assunto seriíssimo e não sairei daqui até que ele seja resolvido!

— Não fui mandado para cá para discutir, Alteza, e sim para escoltá-la em segurança.

— Sai fora! Não vou deixar você forçar a Dawn a nada! – Sunny sacudiu o punho para a fada num gesto agressivo. Adrian balançou a cabeça sem se intimidar.

— Estou apenas cumprindo ordens. Esse é o desejo de seu pai, senhorita: que você permaneça no palácio enquanto sua irmã não é encontrada.

— O quê? O que aconteceu com a Marianne? – Sunny voltou-se para Dawn, que mordeu o lábio inferior e juntou as mãos em preocupação.

— É uma longa história, então a resumirei. Nós descobrimos que Bog esteve mandando cartas para a Marianne esse tempo todo, mas que papai as esteve escondendo. – Ela disse enquanto Sunny arregalava os olhos e a multidão mais uma vez irrompia num falatório ansioso – Como você pode imaginar, ela não ficou nada feliz. Foi uma briga feia. Ele falou de você também, o que só piorou a situação. Foi então que nós duas fugimos, tomando direções opostas.

— E ao que tudo indica – Adrian tomou a dianteira – a Princesa Marianne tomou uma direção muito específica. Aparentemente ela voou em direção à fronteira, a caminho da Floresta Sombria.

Os elfos explodiram em exclamações alarmadas, falando atropeladamente enquanto bombardeavam Adrian e os guardas com perguntas sobre o bem-estar da herdeira do trono. Entrar na Floresta Sombria tão displicentemente, sabendo dos perigos que agora nela rondavam, era suicídio. Dawn e Sunny entreolharam-se em temor. Sabiam de toda a habilidade que Marianne possuía como guerreira, mas se ela fosse atacada por predadores da Floresta, se fosse pega desprevenida ainda tendo que atentar ao ferimento que continuava a restringir partes de seus movimentos...

“Que Bog a encontre antes de qualquer um deles.”

E como se estivesse respondendo à súplica de Dawn, a Floresta Sombria pareceu ganhar vida.

O vilarejo dos elfos era um pouco afastado da raiz que demarcava a fronteira, mas a Floresta circundava a periferia do Reino das Fadas formando uma espécie de U, fazendo com que o vilarejo e o arvoredo quase se tocassem. A folhagem fustigou como que impelida por uma ventania, seu ruído murmurante entrecortado pelo som trovejante de passadas pesadas. Todos se viraram de imediato para aquela direção, trêmulos, antecipando o que parecia ser mais um ataque de predadores. Quem saltou do mato e disparou na direção deles, porém, foi um pequeno animal que lembrava um camundongo albino e que segurava na longa calda o que parecia ser uma amora de outono. Sunny arregalou os olhos ao reconhecê-lo. O que é que o Diabinho estava fazendo ali em um momento como aquele?

Sua pergunta foi respondida no instante seguinte quando um grupo de quatro goblin surgiu da mata, grunhindo raivosos enquanto corriam a toda no encalço do Diabinho. Os elfos e fadas gritaram em espanto e temor. Dawn, porém, ofegou em súbito reconhecimento.

— São os goblins! Estamos sendo invadidos!

— Corram para os túneis de emergência! Mulheres e crianças primeiro!

— Não! Se acalmem, por favor! – A princesa pediu, gritando para se fazer ouvida em meio a balburdia – Eu os conheço, eles fazem parte da comitiva do Bog! Tenho certeza de que não querem nos fazer mal!

Sunny os reconhecia também; lembrava-se de tê-los visto acompanhando o Rei do Pântano durante o festival. Se ele não se enganava, o maior deles, o macho parrudo, chamava-se Brutus. Se os parasse e pedisse por uma conversa civilizada, aquilo poderia ser o pontapé inicial que o plano de diplomacia de Dawn precisava. Só não entendia por que estavam perseguindo o Diabinho. O que ele roubara desta vez?

— Segurem-no! – Um dos goblins, um pequeno com o nariz trombudo gritou. A multidão, ainda mais surpresa, partiu-se para sair do caminho do pequeno demônio felpudo. E ele, respirando descompassadamente e com os olhinhos negros arregalados em pânico, deu um último saltou, indo fincar as garrinhas afiadas nas vestes de Dawn. A fada gritou em espanto, quase perdendo o equilíbrio, suas asas se agitando enquanto seus pés deixavam momentaneamente o solo.

— Ei! – Sunny gritou indignado, correndo até eles – Saia de perto da Dawn! Não sei o que você aprontou para deixar os goblins zangados, mas nem pense em usá-la como escudo!

— Pobrezinho, Sunny! Ele parece assustado de verdade. – Dawn contestou, segurando o Diabinho nos braços e se encolhendo minimamente quando os quatro goblins a cercaram, rosnando e cerrando os punhos – Esperem, esperem! Sei que não devem estar felizes com ele, mas não é certo assustar um animalzinho desta maneira.

— Não estamos zangados. Estamos caçando. – Um dos goblins maiores, a fêmea musculosa e de dentes que eram como agulhas grunhiu – E ele é o nosso almoço.

— É isso aí! Então não o proteja! – O menor deles, o que tinha um bico semelhante ao de um pássaro apontou acusadoramente para a criatura trêmula. Dawn balançou a cabeça, ainda com os olhos fixos no Diabinho. Um segundo se passou até seu rosto se iluminar.

— Espere... Eu conheço você. – Ela murmurou – Foi você quem eu vi há alguns dias atrás, quando estava partindo do vilarejo em direção ao palácio.

O Diabinho sacudiu a cabeça em concordância.

— Você esteve rondando a fronteira esse tempo todo? – Ela perguntou, ao que ele assentiu novamente – Por que? Está procurando comida? – Outro aceno, desta vez negativo – O que é, então? Você... – Ela se calou quando ele começou a soltar chiados agudos, apontando com um dedo comprido para Sunny – Você esteve atrás do Sunny?

— Atrás de mim? O quê... – A confusão de Sunny durou poucos segundos. Seus olhos pousaram na gorda amora de outono que o Diabinho levava presa pela cauda e se arregalaram em súbita compreensão – Espere aí! Esse é um dos frutos que você esteve tentando roubar durante o festival! Ah, seu ladrãozinho guloso! Resolveu voltar para ver se havia alguma sobra, não é?

O Diabinho sacudiu a cabeça com impaciência. Apanhou a amora entre os dedos e sacudiu o corpo para desvencilhar-se dos braços de Dawn. Pousou no chão de frente para Sunny, ignorando os goblins que fizeram menção de avançar para ele, sendo impedidos pela princesa.

— Alteza, por favor, não bata de frente com eles! – Adrian pediu alarmado, fazendo menção de desembainhar sua espada. Os três membros da Guarda Real o imitaram. Os elfos ao redor, apesar de temerosos, mantiveram-se firmes no lugar, os ombros tensos, como se se preparassem para um possível embate.

— Não temos comido nada além de frutos e legumes nessas últimas semanas. Ele é a primeira fonte de carne não contaminada que encontramos. Não podemos voltar para casa de mãos vazias. – A fêmea quase pedia.

— Você é a Vinca, não é? – Dawn perguntou – Lembro de você no Festival da Colheita. Entendo que estejam famintos, mas não é certo que cacem em nossas terras.

— Exato. Peço que partam imediatamente, ou seremos obrigados a apelar para a força. – Um dos membros da Guarda real avisou com severidade.

— Foi ele quem fugiu para cá! Nós só o seguimos! – Brutus protestou – Entreguem-no e a gente vai embora agora mesmo!

— Não. Fiquem, por favor. Eu queria mesmo conversar com vocês. – Dawn pediu – Mas antes de tudo eu quero descobrir o que ele quer com o Sunny. – Ela indicou o Diabinho.

— Eu sei muito bem o que ele quer. Esse trapaceiro só quer saber de comer. – Sunny cruzou os braços com aborrecimento – Desde o Festival da Colheita ele vem tentando surrupiar as amoras de outono que usamos para produzir o sumo. Pelo visto Poções do Amor não são o único atrativo para ele.

O Diabinho rosnou, parecendo frustrado. Segurando a amora com as pontas dos dedos, ergueu-a no alto como se exibisse um troféu. Certificando-se de que todos os olhos estavam pregados nele, ele a aproximou do focinho e abriu a mandíbula, fingindo dar uma generosa mordida. Mastigou teatralmente por alguns instantes. De repente, ele soltou um guincho engasgado e caiu de costas no chão, largando a amora e estrebuchando violentamente, os olhinhos saltando das órbitas. Dawn, Sunny e os demais assistiam mudos de espanto. Sunny então socou a palma da mão esquerda com a direita.

— Ah sim! É claro que nós sabemos que elas são venenosas. Mais especificamente as sementes. E é por isso que eu não entendo o que você quer com elas. Comer uma dessas é morte na certa.

O Diabinho assentiu. Apanhou novamente a amora e, gesticulando para que o acompanhassem, disparou em direção ao riacho que dividia os vilarejos dos elfos e dos brownies. Todos o seguiram, a curiosidade superando o receio. Ele parou junto à várzea, voltando-se para a multidão com uma expressão séria. Debruçou-se sobre a superfície do riacho e bateu com a palma da mão livre na água repetidamente.

Dawn e Sunny se entreolharam em confusão. Os goblins grunhiram aturdidos. Os elfos murmuravam entre si. Adrian e os guardas pareciam completamente perdidos.

— Ah... O que é que o riacho tem a ver com sua fixação por essas amoras?

O Diabinho enterrou o focinho na pata direita. Revirando os olhos, ele sacudiu a amora na outra mão. Repetiu os estranhos sons de engasgo. Voltou a bater na superfície da água. Então apanhou um pouco da água com a pata em forma de concha e atirou-a contra o rosto de Sunny, que gritou e se engasgou.

— Seu palhaço! Por que você-

E então ele compreendeu. A força da revelação foi como uma ferroada de vespa em seu peito, tirando-lhe todo o ar. Completamente abismado, sentindo como se finalmente estivesse conseguindo encaixar as peças de um quebra-cabeça impossivelmente difícil, ele se voltou para Dawn. Ela estava pálida como a face visível da lua, a boca aberta e um O perfeito.

— As amoras... a água...

O silêncio sepulcral que caíra sobre a multidão denotava o completo choque ante a descoberta. Breno estava tão branco que parecia prestes a desmaiar, tendo que ser amparado por outros três elfos. Adrian, o queixo caído de assombro, virou-se para os guardas pasmados.

— Isso... Isso necessita um reporte imediato, senhores. Parece... Parece que descobrimos o que está causando toda essa crise.

— Nós precisamos avisar Sua Majestade! – O goblin de nariz trombudo gritou de repente.

— Sim! Precisamos espalhar a notícia para os outros clãs também! – O bicudo concordou.

— Mas se essa é a causa, então deve haver uma fonte. – Vinca ponderou – Precisamos encontrá-la o mais rápido possível e neutralizá-la.

— Mas como? Se o problema é na água, nosso olfato não vai funcionar. – Brutus se lamentou. Foi então que o Diabinho correu até Sunny e agarrou a manga de suas vestes, sacudindo-o enquanto saltitava.

— Ai, ai! O que é que deu em você? – Ele resmungou. O Diabinho, ainda saltitando, apontou freneticamente para o arvoredo que demarcava o terreno da Floresta Sombria. O elfo então ofegou, os olhos esbugalhados – Você... Você sabe onde está a fonte?

O Diabinho assentiu.

— Pode nos levar até ela? – O goblin trombudo quase implorou. O pequeno demônio assentiu ainda mais freneticamente. Largou Sunny e correu em direção à mata, acenando animadamente para que o seguissem. Os goblins não perderam tempo, disparando desabaladamente atrás dele.

— Esperem! – Sunny exclamou de repente, ao que os goblins se viraram – Eu vou com vocês!

— Tem certeza? A Floresta Sombria não é o lugar mais seguro do mundo para nanicos como você, ainda mais agora.

— Não importa. Agora que enfim descobrimos o que pode estar causando todas essas mortes e a escassez, não podemos ficar de braços cruzados enquanto vocês resolvem tudo. Eu os acompanharei como representante do Reino das Fadas e diplomata.

— Nesse caso eu também irei. – Adrian decretou. Sunny voltou-se para ele agressivamente.

— Não preciso de sua ajuda.

— Isso não tem nada a ver com você, e sim com minhas obrigações como uma figura política do Reino das Fadas. Há tempos digo aos meus colegas do conselho que precisamos estabelecer uma conexão mais sólida com a Floresta Sombria e seus residentes, e esta é uma excelente oportunidade. Sem contar que a Princesa Marianne está lá, e quem sabe a que riscos ela pode estar se expondo. – Virou-se para os membros da Guarda Real – Retorne ao palácio e comunique nossa descoberta ao Rei Dagda e ao restante do conselho, Tristan. Ricard, Edwin, vocês vêm conosco.

— Ah... Sim, Sir Adrian. – Ricard e Edwin resmungaram em apreensão. Tristan imediatamente levantou vôo, parecendo aliviado por ter sido dispensando do serviço mais perigoso.

— Sunny! Eu quero ir também! – Pareh saiu do meio da multidão e se juntou ao amigo – Podemos levar a Lizzie conosco. A maioria dos outros animais tem medo dela.

— Boa ideia, Pareh! – Sunny aprovou. Levando o dedão e o indicador da mão direita a boca, ele soltou um assovio longo e agudo. Alguns segundos se passaram. Então Lizzie, o enorme lagarto, surgiu por entre as casinhas do vilarejo dos elfos, sacudindo a grande cauda com empolgação. Os elfos gritaram e saíram do caminho quando ela disparou na direção de Sunny e Pareh, abaixando a enorme cabeça para que os elfos a acariciassem.

— Boa menina, Lizzie. Acha que pode nos acompanhar em mais uma expedição pela Floresta Sombria? – O elfo menor perguntou, ao que o lagarto agachou-se obedientemente para que os dois a montassem – Isso, essa é a minha garota.

— Espere, Sunny! – Dawn pediu, voando para ficar no mesmo nível do dorso de Lizzie – Eu quero ir com você!

— É perigoso demais, Dawn. E de qualquer jeito, seu pai e o restante do reino precisam de você neste momento. – Ele acariciou o rosto dela, sorrindo tranquilizador – Vamos tentar voltar antes de escurecer, e traremos a Marianne sã e salva. Cuide de tudo até lá, sim?

— Pode deixar. – Ela assentiu sorridente, inclinando o rosto para poder beijá-lo. O beijo logo se tornou meloso, ao que Pareh, Adrian, os guardas e os goblins reviraram os olhos.

— Ah... Tomem cuidado, sim? – Alanis murmurou, coçando a nuca com constrangimento.

— Não hesitem em mandar uma mensagem pedindo ajuda, caso precisem. – Adair pediu.

— Bem... Boa sorte na expedição. Nós... – Breno engoliu em seco, hesitando em continuar. Endireitou os ombros e procurou falar mais firmemente – Nós estamos contando com vocês.

Sunny lutou contra a surpresa ante a mudança de tom deles, tentando sorrir.

— Nós vamos encontrar a fonte de todos esses males e fazer o que pudermos para acabar com ela. Podem confiar em nós.

Puxando firmemente as rédeas na boca de Lizzie, Pareh a fez se virar de modo que ficassem de frente para a floresta densa e escura. Adrian, Ricard e Edwin montaram logo em seguida. Os quatro goblins postaram-se logo a frente do grande lagarto. O Diabinho os esperava na orla da Floresta, batendo o pé com impaciência.

— Bem, não temos tempo a perder. – Sunny decretou, inclinando-se para que Dawn lhe desse um beijo na bochecha – Vamos lá, pessoal!

Dawn acenou uma última vez, o peito pesado com a preocupação, mas também aquecido pelo orgulho ao ver Sunny, o seu Sunny, liderando um grupo expedicionário com a coragem totalmente renovada.

E lá foi a equipe diplomática mais bizarra que o Reino das Fadas um dia já vira: dois elfos, três fadas, um imenso lagarto, quatro goblins e o Diabinho peludo liderando a caravana, marchando decididamente em direção à Floresta Sombria.