Garras e Presas
4 Capítulo 4
—... Sabia que isso ia acontecer. Sabia, mais cedo ou mais tarde...
O Rei Dagda zanzava de um lado para o outro na enfermaria, pisando com força, bufando e resmungando enquanto gesticulava para o nada, ignorando os olhares ansiosos da equipe médica e os assustados de suas duas filhas.
Tinham chegado ao seu destino há apenas trinta minutos, não perdendo tempo com discussões a cerca dos acontecimentos recentes; tratar do ferimento de Marianne era prioridade absoluta. O corte fora profundo e tomava quase toda a pele acima do seio direito da princesa, mas segundo o relato aliviado do curandeiro-chefe, não atingira nenhuma área vital. Ela perdera uma quantidade considerável de sangue, porém, necessitando de uma transfusão imediata. Ela estava naquele momento deitada em uma das camas (uma confortável flor copo-de-leite), o ombro direito firmemente enfaixado, um fino tubo saindo por debaixo de uma das ataduras e conectando-se a uma bolsinha contendo sangue. O machucado precisara ser desinfetado antes, e a fúria do rei das fadas se acentuara ainda mais quando os curandeiros lhe confidenciaram que encontraram saliva de goblin durante a limpeza.
— Estava cobrindo todo o ombro de Sua Alteza, tão grudenta que foi difícil remover. Esperamos que isso não cause infecções... – O curandeiro-chefe balbuciara – Ela já não corre risco de vida, mas um ataque de um animal daqueles pode trazer consequências desastrosas. As bactérias que certamente estavam presentes naquelas garras podem provocar infecção e consequentemente gangrena. Ainda existe um risco de amputação, e mesmo que isso não aconteça, a cicatriz não sumirá. Sinto muito, Majestade.
E agora ele estava naquele estado de absoluto estresse, enfurecido demais para sossegar, rosnando e amaldiçoando o Rei do Pântano até sua última geração. Maldito seja ele por colocar os olhos em sua filha, maldito seja Sunny que roubara a bendita Poção do Amor e iniciara aquele desastre, maldito seja ele mesmo por permitir que aquele perfeito absurdo chegasse àquele ponto...
— Papai, por favor, se acalme. – Dawn pediu baixinho – O senhor não pode se estressar demais. Seu coração, lembra?
Ele sacudiu a cabeça, ignorando o apelo. Pro inferno com seu coração, não era como se ele já tivesse muita força sobrando depois de todos aqueles infortúnios...
— Pai, ficar remoendo o ocorrido não resolverá nada. – Marianne se manifestou, tentando aparentar calma apesar do nervosismo e da forte dor em seu ombro, que pouco abrandara mesmo depois de uma generosa dose de chá de gengibre – O que importa é que nada de mais grave aconteceu.
— Nada de mais grave?! – Ele repetiu incrédulo – Você já deu uma boa olhada em seu ombro, Marianne?
— Isso não foi nada. – Ela murmurou, tentando gesticular e fazendo uma careta com a poderosa pontada de dor que a assaltou – Vai melhorar com o tempo. O importante é que ninguém mais saiu ferido...
— Ninguém além de você! – Ele agarrou com força os cabelos brancos, entortando ainda mais a coroa em sua cabeça – Pelos deuses, Marianne, por que você nunca me obedece? Por que teve que ir se engalfinhar com aquela maldita coruja? Você poderia ter morrido, Dawn poderia ter morrido...
— Eu fiz o que tinha de fazer! É a obrigação de um monarca zelar pela segurança de seu povo!
— Você ainda não é rainha, Marianne! Como espera estar aqui para seu povo no futuro se se atira para a morte com tanta imprudência e irresponsabilidade?
— Eu não podia deixar o Bog lidar com aquilo sozinho, ele podia ter se ferido...
— O Rei do Pântano – Dagda rosnou, citando aquele nome com tanto desprezo que era como se pronunciasse um palavrão – Era de esperar que um maldito silvícola tratasse a segurança de uma princesa com tanto descaso.
— Não fale assim, pai! Ele cuidou para que eu não me arriscasse mais que o necessário, usou a si próprio como uma isca para facilitar meu ataque-
— Ele sequer deveria ter permitido que você o acompanhasse! Onde ele estava com a cabeça quando concordou em ser auxiliado por uma menina como você, delicada e pouco experiente...
— Eu não sou mais uma menina, e muito menos delicada! – Marianne se agitou indignada sobre a cama, sibilando com mais uma pontada de dor. Dawn, alarmada, pôs as mãos gentilmente em seu peito e a faz se deitar de novo. Sua irmã a ignorou, furiosa demais com o pouco caso que seu pai fazia de sua capacidade como guerreira. – Ele concordou porque sabe o quanto sou habilidosa, confia em mim e acredita no meu potencial, muito mais do que você jamais-
— Isso não importa! Se você é tão importante assim para ele, seu bem-estar deveria ser prioridade! – Ele esmurrou a mesinha feita de casca de árvore onde jaziam os utensílios médicos, fazendo as garotas e os curandeiros mais atrás se sobressaltarem. O Rei Dagda costumava ser ponderado e tranquilo, e vê-lo num estado tão intenso de raiva era algo alarmante. Ele voltou a andar de um lado para o outro, seus passos ecoando pesadamente na enfermaria. – E como se isso não bastasse, ele ainda enlouquece daquela maneira, colocando todos em um risco ainda maior! E não pense que eu não vi o que ele tentou fazer com você! Abocanhando seu ferimento aberto igual a um morcego desgraçado...
— Não era o que você está pensando, papai. – Dawn protestou, cerrando os punhos – Bog jamais faria algum mal a Marianne, tenho certeza de que há uma explicação.
— E há: ele é um predador, um carniceiro! O cheiro de sangue deve tê-lo deixado ainda mais esfomeado, e se sua irmã não tivesse se manifestado, só os deuses podem imaginar a tragédia que teria acontecido!
— O que o senhor está insinuando? Que Bog estava tentando devorá-la?! – Dawn exclamou, incrédula – Ele nunca faria algo assim! Ele a ama, ele preferiria morrer a machucá-la, ele... Marianne! – Ela se voltou para a irmã mais velha, buscando apoio – Diga a papai que as coisas não são assim, diga!
Mas Marianne não a estava ouvindo. Não conseguia ouvir mais nada a não ser um fraco zumbido, sua mente turbulenta trabalhando febrilmente para tentar encontrar uma explicação para o comportamento extremo que Bog exibira mais cedo. Os rugidos e rosnados, o ataque impiedoso à coruja, a maneira como ele saltara sobre Dawn, como por muito pouco não decepara o braço de seu pai com uma dentada... E como a boca dele se fechara sobre o talho em seu ombro, a língua áspera em sua pele ferida, lambendo seu sangue como se estivesse degustando o sabor férreo...
“Não! Não veja as coisas assim! Há uma explicação, há uma explicação...”
Mas o que mais poderia ser? Nunca, em todos os sete meses que estavam juntos ela o vira agir daquela maneira. Ele já a alertara sobre sua natureza predatória, dos instintos primitivos que ainda habitavam nos fundilhos de seu subconsciente, mas ela nunca considerara aquilo como algo digno de preocupação. Podia não parecer, mas ele possuía um alto-controle invejável. Sem contar como ele sempre procurava ser cuidadoso e gentil em seus momentos mais íntimos. Marianne nunca tivera qualquer razão para temer por sua segurança quando estavam juntos... Pelo menos até agora.
A visão de seu amante em completo descontrole a aterrara. Naquele momento, ele não se parecera em nada com o Bog por quem ela havia se apaixonado, mas sim com a imagem que ela tinha dele antes de devidamente conhecê-lo: o terrível Rei do Pântano, inclemente e tirânico, a criatura selvagem e irascível que era a fonte das lendas assustadoras que ouvia quando criança. O goblin sedento por carne de fadas. Carne essa que ele parecera saborear, os lábios e língua deixando sua pele ferida úmida de saliva.
Uma parte dela se odiava por estar pensando coisas tão repugnantes a respeito do homem que amava. Mas a outra parte não conseguia esquecer-se do medo absoluto que a dominara ao vê-lo atacando aquela coruja tão perversamente, como um predador faminto atacaria uma presa. Sim, era terrível, mas não havia como negar: pela primeira vez em todos aqueles meses, ela sentira medo dele.
— Marianne? – Dawn chamou de novo, hesitando ao ver sua expressão.
— Está vendo? Nem mesmo sua irmã nega! – Dagda exclamou triunfante. Despertando de seu torpor, Marianne sacudiu a cabeça com indignação.
— Não é nada disso. Eu quero conversar com o Bog, tirar essa história a limpo antes de chegar a qualquer conclusão. – Ela exigiu – Alguém poderia fazer o favor de chamá-lo e-
— De jeito nenhum! O Rei do Pântano não pisa nesta enfermaria nem sobre meu cadáver!
— Pai, o senhor não está entendendo. Isso não é apenas sobre ele e eu, é sobre todos nós também. – Ela empertigou-se, seu nervosismo se acentuando – Algo está acontecendo na Floresta Sombria, algo grave. Nós vamos explicar tudo, mas o senhor precisa-
— O que eu preciso é me certificar de que aqueles goblins sumam daqui. – Ele rosnou, voltando-se para um dos guardas à porta – Eles já partiram?
— Ainda não, Majestade. O Rei do Pântano está sendo contido por seus subordinados. E... Ele está se servindo de um barril de sumo de amora.
— Ele está bebendo? — O rosto dele se avermelhou em indignação – Mas que disparate. Levem-me até ele.
— Espere, pai, eu ainda não-
Ele não se dignou a escutá-la. Desapareceu pela porta com os guardas, deixando para trás as princesas e a equipe médica. Dawn ergueu-se, decidida a seguir o pai e garantir que ele não dissesse desaforos que piorassem o humor de Bog, mas o braço de Marianne a manteve no lugar.
— Não, Dawn, eu preciso que você fique aqui. Tem algo que devo lhe contar.
§ § §
— IMPRESTÁVEIS!
— Perdão, senhor...
— INCOMPETENTES!
— Perdão, senhor!
— O que eu lhes disse sobre manter vigilância constante? Sobre a segurança deste festival estar em nossas mãos? São tão desmiolados a ponto de não poderem seguir uma simples ordem?!
— Foi um único momento de distração, senhor! Nunca imaginaríamos que um ataque pudesse vir por ar. Corujas não costumam atacar os Campos de Luz...
— Talvez pudéssemos ter nos preparado para o que viria se Thang tivesse compreendido a mensagem enviada pela linha dos cogumelos.
— Não é minha culpa! – O pequeno goblin protestou indignado – Repeti exatamente o que me foi dito – E estufando o peito, entoou: — “Uma confusa virá com um sininho”!
— É “uma coruja está a caminho”, idiota!
Rosnando em cólera, Bog se limitou a virar novamente o barril de sumo de amora em sua boca, tomando um longo gole, a queimação em sua garganta e estômago mantendo-o desperto. Ao contrário do que acontecia com a maioria das criaturas, álcool costumava mantê-lo alerta. Precisava disso desesperadamente no momento, ou a raiva e a culpa que o dominavam o fariam sucumbir novamente àquele estado de loucura.
A comitiva dos goblins mantinha-se afastada dos escombros do Festival da Colheita, naquele momento sendo recolhidos pelos outros convidados que faziam o possível para ignorar a presença agora indesejada dos visitantes. Não que isso importasse para eles: estavam bem mais preocupados com o atual estado de espírito de seu líder, que esvaziava o terceiro caneco de bebida. O Rei do Pântano não se embebedava facilmente, mas era o que o levava a beber que os mantinha em alerta.
Bog os fizera descrever em detalhes tudo o que acontecera na clareira depois do ataque da coruja à Marianne, após certificar-se depois de dezenas de afirmações de que não fora ele o causador do ferimento da princesa. Suas memórias dos acontecimentos estavam confusas, embotadas, mas o calor do álcool e o vento frio da noite em sua carapaça estavam aos poucos o ajudando a clarear sua mente. E o que os flashs de memória lhe mostravam não lhe agradavam nem um pouco. O que diabos acontecera com ele? Por que perdera as estribeiras daquela maneira?
Se havia uma coisa sobre si mesmo da qual Bog poderia se orgulhar era o controle absoluto que possuía sobre seus instintos. Os anos como regente e protetor da Floresta Sombria o moldaram como um ser centrado (na maior parte do tempo) e totalmente ciente da importância da frieza e austeridade necessárias para governar. Os sete meses de sua união com a princesa das fadas cimentaram essa crença; ele jamais se perdoaria se viesse a ferir a mulher que amava, mesmo que acidentalmente, e manter seus impulsos sob seu absoluto domínio era imprescindível. Mas isso aparentemente não se aplicava quando ameaças a segurança de Marianne vinham de uma força exterior.
— N-Não precisa se preocupar, Rei Bog, senhor. – Sunny, o pequeno elfo, lhe assegurara enquanto o servia com mais sumo de amora, seus tremores e gaguejar estragando a faceta tranquila que procurava exibir – A c-coruja foi embora e ninguém mais se feriu. I-Isso é tudo o que importa.
Será que era mesmo? Bog duvidava piamente disso. A coruja, embora tivesse sido o alvo de toda a sua fúria, não fora a única criatura exposta ao perigo de seu descontrole. Ele se lembrara da maneira como saltara sobre Dawn, suas presas e milímetros de seu pescoço. Se lembrara de como, por muito pouco, não cravara os dentes no braço do Rei Dagda. E se Marianne não o tivesse chamado de volta a lucidez, ela também poderia ter pagado um alto preço. Poderia ter aberto ainda mais a ferida no ombro dela com suas rudes ministrações. Grunhindo em agonia, engoliu o que restava do conteúdo do barril e enterrou a mão trêmula em seu rosto. Não havia qualquer desculpa para seu comportamento. Não era certo nem descontar a frustração em seus subordinados; não haviam sido eles a aterrorizar um vilarejo inteiro com uma demonstração visceral de selvageria. Agora todos ali o temeriam ainda mais. Talvez até Dawn o temesse.
Talvez até Marianne o temesse.
— Mais um barril! – Rosnou de repente, sobressaltando os residentes mais próximos. Engolindo em seco, Sunny correu para apanhar um quarto caneco de sumo de amora, ignorando os protestos de seus amigos.
— Vai dar mais sumo a ele? E se ele se descontrolar de novo por conta da bebedeira?
Ele balançou a cabeça enquanto abria a válvula de um enorme barril e assistia seu conteúdo escuro borbulhar ao encher o caneco. Não ia arriscar enfurecer mais o Rei do Pântano, não depois do que vira naquela noite. A imagem daquela figura aterradora prensando o corpo frágil de Dawn contra o chão provavelmente o assombraria até o dia de sua morte. Ainda estava trêmulo com a lembrança, o caneco se sacudindo em suas mãos, a bebida ameaçando derramar...
— Ah... Obrigado, mas não precisa... – Ele murmurou distraído ao sentir alguém puxando o recipiente de suas mãos. A insistência do recém-chegado o fez erguer a cabeça, e tomou um tremendo susto ao ver os dedinhos compridos do Diabinho sobre a asa do caneco.
— O que é que você está fazendo aqui?! – O elfo exclamou em choque – Já disse, não há nada aqui para você!
A criaturinha lhe mostrou os dentes afiados e puxou o caneco mais decididamente. Sunny o segurou o mais firme que pode, equilibrando-se num pé só enquanto usava o outro para empurrar o intruso, que caiu de costas no gramado.
— Pode parar! O festival que eu tive tanto trabalho pra preparar foi um completo desastre e a situação já está bem ruim sem você tentando piorar as coisas!
O Diabinho sacudiu as patas na tentativa de se recompor. Rosnou em completa frustração e lançou um olhar magoado a Sunny antes de correr para longe mais uma vez. Bufando, ele se perguntou se alguma força superior não o estava punindo por todos os pecados que já cometera. Lá se ia sua chance de ficar em bons termos com o Rei Dagda, conseguir que ele aprovasse seu relacionamento com Dawn...
— Cadê o meu barril?! – O rosnado animalesco do Rei do Pântano o fez saltar e correr a toda para atendê-lo. Tropeçou, quase derramando a bebida sobre as escamas do peitoral do goblin, endireitou-se e estendeu o caneco tremulamente. Bog viu como a pele escura do elfo havia empalidecido e estava luzida de suor, e novamente se viu assaltado por um assomo de culpa. Sunny era o único dos residentes do vilarejo que ainda estava se dignando a lhe dirigir a palavra, e mesmo a ele não estava conseguindo tratar com um mínimo de gentileza. Que espécie de animal descontrolado ele havia se tornado?
— Então você ainda está aqui.
A voz carregada de desprezo do rei das fadas o fez erguer a cabeça. Ele se aproximava na companhia de seu fiel batalhão de guardas, todos com as mãos firmes nos cabos das espadas, apenas esperando um descuido seu e um comando de seu monarca para atacar. Seu instinto de alto-preservação, ainda aguçado, fez com que assumisse uma pose defensiva e arreganhasse os dentes num aviso.
— Não adianta tentar me amedrontar. Caso não tenha notado, você está em desvantagem numérica. – Dagda apontou, seu tom odiosamente calmo, apesar de seus olhos verdes ainda chamuscarem – Meus guardas preveniram-me de sua resolução em não partir, mesmo depois de minha expressa ordem. É muita audácia de sua parte, ainda mais agora que vejo que resolveu usufruir do banquete que preparamos mesmo depois de todos os problemas que nos causou. – Ele então se voltou para Sunny e ordenou resoluto: – Sunny, livre-se desse caneco.
— Elfo, dê-me o caneco. – Bog exigiu, os olhos ainda fixos em Dagda num claro desafio. Sunny olhou de um rei para outro sem saber o que fazer.
— Não ouviu, Sunny? Ordenei que se livrasse desse caneco.
— E eu ordenei que o entregue a mim!
— Você não dá ordens aqui, Rei do Pântano. – O rei das fadas cerrou os punhos – Estou tentando evitar confusões, mas se continuar a me desafiar, serei obrigado a tomar medidas drásticas.
— Como o quê? Ordenar que seus guardas me ataquem, como tentou fazer antes? – Bog bufou em desprezo – Adoraria vê-los se digladiando com minha comitiva. Será tão engraçado quanto naquele baile de primavera.
— Não me provoque! – Dagda rosnou, furioso, lembrando-se com clareza como seus homens não foram páreos para os temíveis goblins. Recusava-se a ficar de mãos atadas como naquela noite – Estou procurando ser civilizado, mas sou perfeitamente capaz de me rebaixar a seu nível se for completamente necessário. Se for um líder tão sensato quanto diz, você e sua comitiva darão meia volta e partirão daqui agora mesmo. – E ele então abaixou a voz ameaçadoramente, acrescentando: — E se se importa tanto com minha filha, você a deixará definitivamente em paz.
A calma que Bog procurava manter se evaporou. Arrancou o caneco das mãos de Sunny e o atirou ao chão com força. Sumo de amora se espalhou pelo gramado e lascas de madeira voaram pelo ar. O elfo gritou em alarme e caiu com o traseiro no chão, arrastando-se para longe do goblin que agora avançava para o rei das fadas com um rosnado enraivecido. Dagda não se intimidou desta vez, estufando o peito e empinando o queixo para olhar o outro monarca nos olhos. Tanto a guarda real quanto os goblins se posicionaram atrás de seus respectivos governantes em poses hostis. Os residentes assistiam a tudo apreensivamente. A tensão era tão forte que era quase possível sentir seu gosto pairando no ar.
— Como se atreve a fazer exigências como se eu estivesse abaixo de você? – Bog grunhiu – Se esquece de que está falando com outro rei.
— Não me esqueço de que este é o meu reino e, portanto, são as minhas ordens que prevalecem. – Ele afirmou com arrogância — E a não ser que queira que uma declaração de guerra seja feita, sugiro que siga meus conselhos e parta imediatamente.
— Não vou a lugar algum sem antes ver Marianne!
— Você não vai se aproximar de minha filha!
— Não cabe a você decidir algo assim. – As enormes mãos do rei goblin apertavam o cetro com tanta força que o fazia tremer. A fúria borbulhava perigosamente perto da superfície de seu autocontrole, ainda fresca e incandescente depois do embate com a coruja, e um suave tom de vermelho começava a toldar sua visão. Fechou os olhos com força, respirando fundo e contando mentalmente até dez. Se sucumbisse a raiva novamente, não teria mais qualquer desculpa para adiar sua partida. E não queria ir embora sem antes se assegurar de que Marianne estava bem e, quem sabe, oferecer a ela uma explicação. Abriu os olhos novamente e falou num tom baixo e controlado: – Eu só quero conversar com ela. Apenas isso.
— E o que o faz pensar que ela quer conversar com você?
A insinuação do rei Dagda o pegou com a guarda baixa. Suas pernas estremeceram com o impulso de dar um passo para trás. “Não se deixe intimidar. É óbvio que ele está blefando para desconcertá-lo.”
— Prefiro ter essa certeza ouvindo o que ela tem a me dizer.
— Não ouviu o que eu disse? – Os olhos claros do rei das fadas se estreitaram – Ela não tem absolutamente nada a lhe dizer. Duvido que sequer queira dizer algo, depois do que vivenciou esta noite. Duvido inclusive que o queira por perto.
— As suas dúvidas pouco me interessam. – As narinas dele se dilataram com raiva – Seja lá o que for, dispensa ou não, eu quero escutar da boca dela. – Ele então pôs a mão livre na cintura e apoiou-se de lado no cetro, dando um meio sorriso atrevido – E se ela ainda me quiser por perto, não haverá nada que você possa fazer para me afastar.
As unhas de Dagda se afundaram ainda mais em seus punhos cerrados. Admitir quase lhe causava dor física, mas o maldito goblin estava certo. Marianne certamente não o dispensaria, e eles continuariam com aquela loucura que chamavam de relacionamento indefinidamente. Precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa...
— Majestade... – Sunny chamou de repente, tão baixo que o rei das fadas quase não o escutou – Os... Os outros convidados estão ficando apreensivos. Por favor, por que o senhor e o Rei Bog não se sentam para conversar mais tranquilamente? Eu estou certo de que ele se arrepende do que fez...
E então sua mente se iluminou como a cauda de um vaga-lume.
— Bom... Vejo que será perda de tempo tentar apelar para seu bom senso. – Ele murmurou, encarando o Rei do Pântano com uma tranquilidade que o deixou desconfiado – Mesmo que tenha visto esta noite como sua presença pode por a vida dela em risco, não espero que-
— Em risco? – Bog repetiu em súbito alarme. E ali estava a carta na manga que Dagda precisava.
— Bom, não é óbvio? – Ele revirou os olhos – Mesmo que tente não aparentar, o instinto predatório ainda é uma parte proeminente em sua espécie. Isso ficou claro depois do incidente com a coruja. Não que eu o culpe, é claro. – Ele garantiu – Mas é o que me faz temer pela segurança de Marianne quando ela está ao seu lado.
— O que quer dizer-
— Entenda-me, meu caro Rei do Pântano. – Ele murmurou, sua voz um sussurro que quase implorava – Por mais que eu reconheça que exista a civilidade em seus domínios, não se pode negar sua natureza primordial. Já disse que não o culpo. Não é como se você tivesse controle sobre algo intrínseco de sua natureza. Mas isso não muda o fato de que você expõe Marianne a um sério perigo. Ela tenta se impor como uma guerreira forte e inabalável, mas nós dois sabemos do quão frágil é a sua compleição de fada.
— Ela não é-
— Você viu o que aconteceu esta noite. Um único golpe das garras de uma coruja quase a matou. O que poderia acontecer a ela, caso você voltasse a perder o controle pela razão que seja?
— Isso jamais aconteceria! – Ele rosnou em ultraje, as placas em seus ombros se salientando e vibrando.
— Como pode ter certeza? Você prefere arriscar, apostar a vida dela com uma garantia pífia? É assim que demonstra a importância que ela tem para você? – Os punhos de Dagda tremiam à medida que o desespero ameaçava dominá-lo. A voz dele subitamente ficou embargada quando ele grunhiu, desacreditado: — Como pode ser tão egoísta?
E foi a última palavra que deixou o Rei do Pântano completamente desarmado. Dagda viu como seus olhos azuis se esbugalharam e esfriaram, a raiva e indignação esquecidas. Ele abriu e fechou a boca diversas vezes como um peixe, querendo dizer alguma coisa, porém incapaz de fazer sua língua trabalhar a seu favor. As mãos no cetro perderam a firmeza, quase o deixando desabar no chão. Naquele momento, ele se parecia menos com um goblin feroz e mais com um inseto assustado e inofensivo. Isso quase fez com que o rei das fadas sentisse piedade. Quase.
— Eu não espero que você compreenda meus temores. – Ele continuou a falar – Afinal, você não é um pai. Mas existem perigos neste mundo dos quais filhos não estão cientes, e como pais, é uma obrigação mantê-los seguros daquilo que não compreendem. É o que eu estou tentando fazer por Marianne e, de certa forma, por você. – Ele engoliu em seco, tentando impedir sua voz de tremer – Ela é ingênua. Ingênua e rebelde. Não faz ideia do risco a que está se expondo e os avisos que dou a ela só a deixam mais determinada a ignorá-los. Ela não quer enxergar que certas coisas são simplesmente inviáveis, e eu esperava que você, como um governante experiente e responsável, fizesse isso por ela, mas vejo que superestimei sua capacidade para tal.
Em outra ocasião, Bog se indignaria com a tentativa de Dagda de reduzir Marianne a uma criança tola e incapaz. Mas o choque com suas palavras o manteve mudo, fato que não passou despercebido ao outro monarca, que se pôs a tagarelar ainda mais veementemente.
— Eu entendo seus sentimentos, mas existem certos aspectos da natureza que não podem ser mudados. Isso ficou muito claro hoje. Há uma parte de você com a qual Marianne não saberia lidar porque não faz parte da realidade dela. Cultura, costumes, a própria cadeia alimentar, tudo isso interfere. Vocês dois são simplesmente diferentes demais.— Ele suspirou pesadamente, como se falar aquelas coisas lhe fosse penoso – Essas diferenças podem vir a custar a vida de minha própria filha, e eu não estou disposto a arriscar. E você está? Vai desconsiderar o bem-estar de Marianne por um mero capricho? Seu amor por ela é assim tão egocêntrico?
Desta vez, Bog deu um passo para trás. As pernas ligeiramente trêmulas, ele mais uma vez perscrutou seus arredores como que em busca de salvação. Tudo o que seu olhar registrou foi o caos do que sobrara do Festival da Colheita: as mesas e cadeiras viradas, as barraquinhas destruídas, a cabeça da cobra-rato ainda descansando sobre o palco destroçado, coberta novamente pelo toldo de musgo para poupar os olhos dos presentes. E todas aquelas criaturas, as fadas, elfos, pixies e brownies que se dispuseram a recebê-lo e agora o encaravam com expressões coletivas de temor...
— Eu realmente não posso fazer muito a não ser esperar que você caia em si, Rei do Pântano. Ela é uma fada, e você é um goblin. Ela é a presa e você, o predador. Isso é algo que nem todo o amor e civilidade do mundo podem mudar. Não permita que esse egoísmo o impeça de enxergar o que é realmente certo a se fazer.
As grandes presas capturaram o lábio inferior marcado por cicatrizes, quase tirando sangue. Os olhos dele se fecharam com força, como se ele estivesse lutando contra uma forte dor. E então aquela expressão intensa arrefeceu. O rei das fadas viu que vencera a batalha no instante em que todo aquele corpo maciço pareceu murchar diante de si, perdendo a altivez e encolhendo-se, recurvando-se. O semblante dele era agora de pura exaustão.
— Eu... Eu entendo. – Ele murmurou roucamente, os olhos azuis parecendo estranhamente mortos – Apenas... Apenas deixe que eu me despeça dela. Por favor.
Os goblins mais atrás trocaram olhares abismados, completamente estáticos com a súbita passividade de seu rei. Cerraram os punhos e encararam Dagda como se não acreditassem no que viam. Aquilo quase o fez recusar o pedido e ordenar que desaparecessem dali imediatamente, mas logo ficou claro que já não restava o menor espírito de luta em Bog. Respirou fundo e assentiu.
— Tudo bem. Mas que seja breve.
Assentindo apaticamente, Bog marchou a passos lentos, guiado pela guarda real que o flanqueava. Os outros goblins permaneceram ali, olhando nervosamente para os lados como se esperassem que tudo não passasse de uma piada. Os residentes do Reino das Fadas, porém, pareceram ficar completamente aliviados pela perspectiva de logo se verem livres dos visitantes. Todos menos um.
— M-Majestade! – Sunny se manifestou, olhando para seu rei como se não o conhecesse – Peço desculpas pela ousadia, mas isso não foi... desnecessário?
— Você não me vê questionando seus duvidosos métodos de organização, vê, Sunny? Então não se atreva a questionar minhas decisões, que não lhe competem. – Avisou, satisfeito ao ver o elfo abaixando a cabeça e corando em vergonha – Mas reconheço que você foi de uma ajuda considerável nos últimos minutos, por isso agradeço.
— Ah... Perdão?
— Apelar para o senso de honra do Rei do Pântano é mais eficaz do que bater de frente com ele. Com sua garantia quanto ao arrependimento dele, saber onde atingi-lo foi relativamente simples. – Ele empertigou-se, convicto – Agora Marianne está definitivamente a salvo. E apesar de sua incapacidade de proteger Dawn, reconheço sua serventia, Sunny. Agora, se me der licença...
E dando as costas ao elfo paralisado de choque, ele marchou para junto da guarda, sendo seguido pelos olhares indignados dos goblins. Os convidados tinham começado a murmurar entre si, mas Sunny não os ouvia.
Ele não fora capaz de proteger Dawn... Quase causara sua morte, prendendo o pé naquela raiz e a impedindo de prosseguir... E agora, por conta de suas palavras, o relacionamento de Marianne e Bog poderia estar comprometido.
Deuses... será que aquela situação poderia ficar pior?
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