Garras e Presas

5 Capítulo 5


Notas iniciais
A quem estiver lendo, peço desculpas pela demora em atualizar. A faculdade entrou em época de provas e precisei me abster de escrever para estudar. Mas cá estamos nós com mais um capítulo saído do forno. Boa leitura 0/

A espessa neblina que serpenteava pelos Campos de Luz naquela manhã tornava a tarefa de enxergar a um palmo a frente do nariz quase impossível. A Guarda Real se mantinha em formação de batalha, todos mantendo suas espadas em punho, prontas para o abate ao menor sinal de movimento. Dois dos soldados entreolharam-se brevemente, engolindo em seco, seus olhos se encontrando numa tentativa mútua de amparo. Sentir-se em constante perigo em seu próprio lar era uma das sensações mais enervantes que já tinham experimentado.

O som de asas cortando brevemente o ar fez com que todos se retesassem. Dagda tentou manter as costas hirtas, desejando mais do que nunca que seus quilos a mais não dificultassem tanto sua capacidade de voar. E Marianne desejou de todo o coração que não estivesse incapacitada para o combate, seu braço firmemente imobilizado por aquela maldita tala...

— Aí vem ela!

O grito de aviso do capitão da guarda quase veio tarde demais. A pega surgiu em meio a nevoa quase que por encanto, o bico aberto pronto para capturar o alvo mais próximo. A formação de combate surtiu efeito, porém: as espadas se ergueram simultaneamente num círculo protetor, formando uma espécie de domo metálico sobre as cabeças de todos. O tinido agudo produzido pelo choque do bico da pega contra as lâminas fez com que os ouvidos de Marianne zumbissem.

— Formação defensiva! – O capitão comandou enquanto a guarda alçava vôo – Usem o brilho das lâminas para distraírem-na e ataquem ao meu comando!

Pai e filha assistiam ao combate aéreo nervosamente, suor escorrendo por suas têmporas ao verem seus leais soldados arriscando suas vidas na tentativa de espantar a teimosa ave, que parecia resoluta em sua tentativa de fazer de pelo menos um deles seu café-da-manhã. Marianne sentia suas asas trepidando avidamente com o desejo quase irrefreável de se unir a eles. Mas não estava na posse de sua espada, a ferida em seu ombro ainda não totalmente curada e ela se sentia grudada ao solo, inútil, um peso morto-

— Marianne, se abaixe! – Seu pai gritou em alarme, prendendo-a em seus braços ao mesmo tempo em que se agachava, escapando no último instante das garras da pega que conseguira se desvencilhar dos soldados e avançara para as duas fadas que eram, obviamente, alvos menos resistentes. Ela ouviu um dos guardas praguejando e os gritos de guerra quando todos avançaram simultaneamente para proteger seu rei e princesa. Ouviu seu pai gritar alguma ordem ininteligível, mas por um instante só conseguiu prestar atenção na ferroada de dor que assaltou o seu ombro, o que a fez ofegar e xingar em voz alta. O Rei Dagda imediatamente a soltou, os olhos arregalados tanto com espanto ao ver sua filha usar um palavreado chulo quanto com culpa por ter apertado seu ombro ferido mais do que o necessário com seu abraço protetor.

— Me perdoe, querida! E por favor, cuidado com a linguagem...

Marianne balançou a cabeça, ignorando a reprimenda.

— Está tudo bem, pai. Não está mais doendo tanto.

E era verdade: o talho em seu ombro já estava coberto por uma grande crosta de sangue coagulado e a região afetada, embora ainda estivesse vermelha e dolorida, não estava nem de longe tão sensível quanto estivera há quase três semanas. A velocidade com a qual seu ferimento sarava era no mínimo assustadora, fato que não passou despercebido aos curandeiros que a examinavam periodicamente.

— Eu nunca vi nada parecido antes. – O curandeiro-chefe informara a ela e ao rei Dagda há poucos dias, sua voz rouca e os olhos esbugalhados com assombro – O ferimento foi profundo e certamente havia bactérias nocivas nas garras daquela coruja. Nem os medicamentos mais potentes em nossa posse poderiam providenciar uma cicatrização tão rápida. Vamos continuar com os exames, mas no momento não temos ideia do que pode ter causado isso.

Mesmo com seu agente de cura elevado a uma potência alarmante, ela ainda se via impossibilitada de lutar ou mesmo de praticar. O pai a proibira de sequer pensar em empunhar sua espada até que o ferimento estivesse totalmente curado, e ordenara aos guardas que a mantivessem sob constante vigilância e a impedissem de escapulir para a arena de combate caso tentasse. Tudo o que restara para ela se ocupar fora a leitura de documentos reais, acompanhar Dagda a reuniões maçantes com o conselho, sentar-se em uma das saletas de reuniões em absoluto tédio enquanto tinha aulas de pintura, costura e etiqueta e se trancar em seu quarto, postar-se junto a janela e observar as árvores e arbustos que se agitavam com o vento frio a medida que o outono avançava, lá na Floresta Sombria.

Fechava os olhos e suspirava. Não queria pensar em Bog. Não queria, mas não conseguia evitar. Não quando não ouvia qualquer notícia sobre ele ou sobre o que acontecia em seus domínios há quase um mês. Não recebia cartas, nenhum mensageiro aparecia com novas, não via uma alma viva sequer nem através das folhagens que circundavam a fronteira. Era ainda mais enervante do que as duas semanas antes do fatídico Festival da Colheita, já que agora ela estava ciente do que acontecia no reino vizinho. Não poderia fazer uma viagem até a Floresta Sombria sem ser impedida e arrastada de volta ao palácio, mas mesmo a ideia de escapulir não lhe parecia mais tão tentadora. Não quando tinha a certeza absoluta de que seu companheiro estava claramente a evitando. Não queria pensar assim, mas não tinha como não permitir que sua mente descambasse para aquela possibilidade, não depois da última conversa que tivera com ele antes da separação...

— Boggy! Até que enfim você apareceu!

Dawn exclamou com alívio e censura no instante em que a figura altaneira do Rei do Pântano surgiu pela porta da ala hospitalar. Dagda entrou logo atrás, os olhos desconfiados colados nas costas do goblin.

Bog não registrou o apelido. Na verdade, ele parecia sequer saber para qual das princesas deveria olhar. Coçou a nuca em um gesto nervoso, a cabeça baixa. Então se voltou para Dawn com uma expressão de arrependimento.

— Você está bem, Dawn?

— Eu estou ótima.

— Tem certeza? Eu... Eu não a feri?

— É claro que não. – Ela lhe garantiu, sorrindo para tranquilizá-lo – Você só me assustou um pouco. Se queria ver como Marianne estava, bastava que me pedisse.

A risadinha nervosa que ela soltou falhou em apaziguar a tensão que emanava dele. Lançou-lhe um último olhar culpado antes de por fim concentrar-se em Marianne. A herdeira do trono viu diversos sentimentos lampejarem na face dele simultaneamente: alívio, ternura, remorso, tristeza, resignação...

— Bog. – Marianne o chamou, estendendo o braço em bom estado para ele – Eu estou bem. Não precisa ficar plantado aí. O que eu tenho não pode ser transmitido ou coisa assim.

Ele lhe deu um meio sorriso infeliz. Aproximou-se hesitante e estendeu a mão direita, permitindo que os dedos dela se entrelaçassem com os seus. Ela tentou se sentar, mas rapidamente voltou a posição anterior, seu rosto se retorcendo em agonia. Ele se afastou imediatamente, estremecendo.

— D-Desculpe! Eu não queria-

— Está tudo bem. É sério, não é nada grave. – Ela prometeu, voltando a estender a mão – É como a Dawn disse: você só nos deu um susto danado. Agora deixe de ser ridículo e venha até aqui, sim? É difícil socar você desta distância.

Ele então riu, meio sem fôlego. Agachou-se sobre ela, plantando um beijo suave em sua testa. Marianne deu uma risadinha e o socou de leve no ombro com o braço bom. Por um momento, foi como se o desastre do festival não passasse de um mero pesadelo, irreal e incapaz de atingi-los. Ignorando completamente os demais presentes e mandando o decoro às favas, Marianne passou o braço livre pelo pescoço de Bog e o puxou para mais perto. Ele roçou o nariz enorme e pontiagudo no seu repetidamente, os olhos fechados, dando o primeiro sorriso verdadeiro desde que pusera os pés naquela salinha abafada...

— Tudo bem, já chega. – O Rei Dagda rosnou, colocando um braço entre sua filha e o goblin e quebrando o momento – Marianne não está nas melhores condições e qualquer gesto brusco pode piorar seu estado.

— Eu não sou uma pétala de rosa, pai.

— Mas é uma fada. – Ele constatou sem tirar os olhos de Bog, como se o advertisse. Ele cerrou o punho esquerdo, mas não retrucou. Suspirando pesadamente, ele se inclinou de modo a se aproximar mais da princesa, contudo sem tocá-la.

— Eu vim para ter certeza de que você ficará bem. E para... para pedir perdão.

— Perdão?

— Eu... Eu não sei o que aconteceu comigo... – Ele balbuciou, as mãos trêmulas – Não sei o que me fez fazer aquilo. Juro... Juro que não quis ferir ninguém, nem Dawn e nem você...

— Você não me feriu, e nem a Marianne! – Dawn protestou, mas o goblin não lhe deu atenção.

— Ver você ferida, sangrando daquele jeito... – Ele agora sussurrava para que apenas Marianne o ouvisse, a expressão transtornada em arrependimento – Eu fiquei tão apavorado... Mas isso não justifica, eu poderia ter matado alguém, poderia ter aberto ainda mais seu ferimento, poderia-

— Mas isso não aconteceu. Ninguém foi devorado ou ferido, e foi tudo graças a você. – Ela sussurrou de volta, pesarosa ao vê-lo tão entristecido, pesarosa ao se lembrar de como o rompante de selvageria dele assustara-a e a fizera pensar o pior – Se não fosse por você, uma tragédia poderia ter acontecido.

— E por você. Você salvou Dawn e o elfo, se sacrificou, enfrentou aquele monstro por conta própria...

— Foi tudo o que eu pude fazer. – Ela sorriu tristemente – No final acabei levando a pior. Mas já passou, nada de mais grave aconteceu-

— Não se refira a sua situação com tanta indiferença, Marianne. – Dagda a interrompeu, indignado – O perigo ainda não se foi completamente.

— O que quer dizer? – Bog perguntou, subitamente alarmado. O curandeiro-chefe se manifestou, pigarreando, recusando-se a olhar o Rei do Pântano nos olhos enquanto falava.

— Garras de animais selvagens como aquele possuem bactérias nocivas e que podem causar graves infecções. Sua Alteza precisará de tratamento constante, do contrário o ferimento poderá gangrenar, e nesse caso-

— É “adeus” para o meu braço. – Marianne concluiu a frase por ele, tentando não aparentar preocupação com aquela possibilidade – Mas isso não vai acontecer, basta que eu siga os cuidados necessários e tudo vai ficar-

— O seu braço pode ser amputado?! – Bog ofegou. A pouca cor que restava em seu rosto havia desaparecido. Ele se afastou da flor onde a princesa repousava como se ela o tivesse queimado, encarando-a horrorizado.

— É uma possibilidade. – Dagda rosnou, fitando o outro monarca com ódio, como se o culpasse por aquilo estar acontecendo – A perda de um membro é algo desastroso para uma fada. Dificulta enormemente a capacidade de vôo. Para Marianne seria ainda mais terrível. Ela nunca mais poderia empunhar uma espada.

— Isso não vai acontecer, papai! – Dawn exclamou, pálida como seda de aranha – Marianne vai se tratar e repousar e até a próxima lua cheia estará curada!

O rei e a princesa mais jovem discutiam avidamente, enquanto os curandeiros procuravam explicar que não havia como um ferimento profundo como aquele se curar com tanta rapidez. Mas Marianne não lhes prestava a menor atenção. Seus olhos estavam fixos em Bog. O lábio inferior e as mãos ossudas tremiam violentamente. O peito escamoso subia e descia com a intensidade de sua respiração, agora rascante. Os olhos azuis eram poços de horror e pesar, e Marianne sentiu um choque súbito ao ver que estavam marejados. Seu olhar era vago, como se ele não a enxergasse apesar de estar fitando-a. Ele parecia à beira de um ataque de pânico.

— Ei. – Ela o chamou, segurando-o pelo pulso e puxando-o para que se encostasse rente a sua cama – Bog. Ei. Se acalme. Respire. – Esfregou as costas da mão dele com o polegar, procurando falar baixo e docemente apesar da preocupação – Respire fundo. – Ele inalou profundamente e soltou o ar pela boca, deixando um soluço escapar – Isso. Inspira. Expira. Isso, assim. – Repetiram aquele processo mais cinco vezes até que ele pareceu enfim se controlar. Marianne beijou as costas da enorme mão – Viu? Vai ficar tudo bem. Não vai haver amputação. Eu vou me cuidar bem para sarar logo. Logo, logo poderemos até voltar a duelar. Vou chutar sua bunda em comemoração.

Ele não riu. Encarou-a como se a estivesse vendo pela última vez, seus olhos cheios de amor e desolação. Ele então passou o longo braço por sua cintura o mais gentilmente que pode, puxando-a até que estivesse encostada contra seu peito. Escondeu o rosto na curva de seu pescoço, soltando outro soluço.

— Marianne... Me perdoe... Me perdoe...

— Como eu posso te perdoar se não há nada para perdoar? – Ela sussurrou, acariciando o escalpo dele gentilmente – Pare com isso, ou eu juro que te soco para valer. – Ela estava ciente de que ameaçá-lo não era o melhor curso de ação, mas não sabia como agir ao ver Bog em um estado tão fragilizado. Ele era forte, inabalável, a coisa mais perigosa em toda a Floresta Sombria, vê-lo soluçando e tremendo em seus braços era mais apavorante que qualquer coisa que vivera naquela noite...

— Tudo bem, já chega. – A voz de seu pai, rouca em aversão cortou seus pensamentos tormentosos e pareceu alcançar Bog em meio aos seus lamentos. Ele imediatamente ergueu a cabeça, olhou nos olhos dourados de Marianne como se fossem o último raio de sol antes de um inverno rigoroso e rapidamente se afastou, tentando recompor-se.

— Eu... Eu preciso ir.

— Já? Vocês não ficaram quase nada! – Dawn protestou antes que Marianne pudesse dizer qualquer coisa – Vamos, vocês nem experimentaram nossas iguarias, se esperarem mais um pouco Sunny e eu podemos arranjar-

— Dawn, querida. – Dagda a interrompeu em tom de advertência – Não o questione. Eles precisam partir, e já.

— Mas você vai voltar amanhã. – Marianne disse, e não era um pedido – Para me visitar e nos fazer companhia. – A expressão taciturna dele deixou-a subitamente inquieta, e a convicção morreu em sua voz – Você... Você vai voltar, não vai?

Amaldiçoou-se por soar tão patética, mas alguma coisa nos olhos dele lhe deu uma sensação ruim na boca do estômago; uma sensação de que alguma coisa estava acontecendo, algo sobre o qual ela não tinha controle, e se ver como agente passiva era simplesmente assustador. Ele pareceu ver o medo em seus olhos e, naquele momento, a expressão em seu rosto era a de alguém que estava tendo que lidar com uma forte dor física. Mas ele tentou sorrir, mesmo com os cantos da boca tremendo. Abaixou-se e beijou sua testa uma última vez.

— Eu vou tentar. Fique bem, Durona.

Mas Bog não voltou no dia seguinte. Nem na semana seguinte. E nem na outra.

Se aquilo não era uma confirmação da recusa dele em vê-la, Marianne não sabia o que mais poderia ser. A única pergunta que lhe restara fazer era: por quê?

Se a escassez de alimentos na Floresta Sombria tivesse se agravado, um pedido de ajuda já teria sido enviado. Se os ataques de predadores tivessem atingido um ponto catastrófico, o pedido de ajuda teria chegado mais rápido que um falcão peregrino. Ela se recusava a acreditar que Bog seria estúpido a ponto de priorizar os dramas de sua vida, deixando as necessidades de seu povo em segundo plano. Ou que goblins pudessem ser assim tão orgulhosos.

Então só restava uma alternativa, embora Marianne não quisesse acreditar nela mais do que nas outras. Não era possível que ele estivesse se culpando pelo fiasco do Festival da Colheita, considerando sua presença um perigo para a segurança dela e mantendo-se afastado propositalmente em uma tentativa de protegê-la... era?

“Se for isso, eu arranco as escamas do corpo dele, uma por uma!”

Era agora tão óbvio que sua infelicidade acabou arrefecendo, a raiva escaldante assumindo o primeiro plano. Não aceitava que Bog pudesse ter chegado à conclusão de que o melhor curso de ação para um imprevisto no relacionamento deles era tomar uma atitude tão clichê e patética, típica dos romances água-com-açúcar que Dawn devorava. Como se ela fosse igual às heroínas daquelas histórias, frágil, estúpida e incapaz de tomar decisões por si própria e a quem ele, o grande macho detentor de todo o bom-senso e sabedoria, precisava proteger da própria imbecilidade. Exatamente como Roland costumava tratá-la.

Marianne não admitia ser tratada como uma criança, nem por seu pai, nem pelos velhos caquéticos do conselho e muito menos pelo homem que escolhera como seu companheiro na vida. Não queria mais pensar em Bog e nem nas possíveis desculpas que ele daria caso ela o confrontasse. Se ele não era capaz de vê-la e tratá-la como sua igual, de discutir problemas com ela como um adulto, então talvez aquele relacionamento não tivesse um futuro. Talvez o melhor fosse que cada um seguisse com sua vida, separadamente.

Aquele pensamento a deixou deprimida e abatida por todos os dias que se seguiram, mas não pode ser sua prioridade por muito mais tempo. O ataque da coruja na noite do festival, embora tivesse sido o mais sério até então, não fora o único. Dois dias após o desastre quase fatal, um casal de mochos sobrevoara os campos em plena luz do dia. Uma semana depois, uma víbora deslizara por debaixo da raiz em arco que marcava a divisa e resolvera se aventurar pelo vilarejo dos elfos, sibilando, sua língua negra e bifurcada lambendo o ar a procura de vítimas desavisadas. E agora era aquela pega, pássaro absurdamente inteligente e que quase tivera sucesso em seu ataque ao se aproveitar da neblina das primeiras horas da manhã para se manter oculta. Todos os incidentes poderiam ter terminado em tragédia se os habitantes do Reino das Fadas não soubessem de antemão do que os aguardava. Marianne havia relatado a Dawn os estranhos acontecimentos que se desenrolavam na Floresta Sombria e como poderiam afetar também os Campos de Luz, e as irmãs imediatamente puseram o rei Dagda e os conselheiros a par da situação.

— Isso é terrível! O povo precisa ser avisado de imediato! – Sir Wallace ofegara em horror.

— Um toque de recolher precisa ser estabelecido, se a maioria dos ataques for noturno. E a vigília da Guarda Real e das sentinelas no vilarejo dos elfos precisará ser dobrada. – Sir Terrance calculou, ao que todos concordaram com vigorosos acenos de cabeça. Ou quase todos.

— Não seria melhor que pedíssemos ajuda ao contingente do Rei do Pântano? Eles têm mais experiência em lidar com esses animais do que nós. – Sir Adrian, o mais jovem dos conselheiros, se manifestara. Sua proposta foi recebida com protestos indignados, como se ele tivesse ferido o orgulho das demais fadas presentes.

— Não abaixaremos a cabeça para aqueles goblins selvagens!

— Exato! Ainda mais considerando que eles são os culpados por estarmos nessa situação!

— Isso é ridículo! Ainda não sabemos o que está causando a escassez que leva esses predadores a nos atacarem! – Marianne batera com o punho no tampo da mesa de carvalho – E os goblins também estão sofrendo com isso, provavelmente muito mais do que nós!

— Por favor, Alteza, este não é o momento de se condoer com os infortúnios dos outros, não quando já precisamos lidar com os nossos. – Sir Umber respondera com impaciência.

— Deixando a emoção sobrepujar a razão. – Sir Wallace revirara os olhos – Tipicamente feminino.

— São vocês que estão deixando a emoção falar mais alto! – Marianne rosnara, desejando arrancar os olhos do velho por aquele comentário sexista – É como Adrian disse, não temos experiência com esses tipos de predadores, e se as coisas continuarem como estão o povo é quem pagará o pato. Ou continuamos a nos esconder nos túneis de emergência ou pedimos auxílio a quem realmente sabe como proceder.

— Ou estabelecemos o toque de recolher, redobramos a vigília e fortalecemos nossas defesas!

— Daremos armas mais potentes aos nossos guerreiros, podemos até começar a trabalhar com nossas reservas de pólvora.

— Sim! Ataques aéreos para confrontar as aves de rapina, por exemplo. Podemos aproveitar para colocar o projeto da catapulta em ação. Isso redobrará o trabalho dos elfos, mas é por uma boa causa-

— Deuses, vocês estão se ouvindo?! – Marianne exclamara em frustração – Estamos em uma grave crise, o povo corre perigo imediato e vocês estão querendo colocar a classe trabalhadora na linha de fogo? E o que farão enquanto os elfos e brownies arriscam os pescoços? Ficarão sentados em seus cadeirões, se empanturrando de quiche de cheiro-verde e sumo de amora?

— Coordenaremos as operações, o que é nossa obrigação como a classe intelectual!

— A nossa obrigação é lidar com o problema com o mínimo possível de dano! Bater de frente com esses predadores não é sensato, não quando sabemos tão pouco sobre seus hábitos! – Ela se erguera da cadeira, os olhos cor de mel chamuscando com a raiva mal contida – É completamente inconsequente recusar a ajuda dos goblins num momento em que ela viria a calhar. Podem resmungar e dar as desculpas que quiserem, para mim isso não passa de uma tentativa de manter um orgulho tolo.

— Marianne, seja razoável...

— Era eu quem deveria pedir isso, pai! Minha maior preocupação é com a segurança de meus súditos, mas este conselho parece estar bem mais interessado em exibir nosso arsenal bélico como se tentasse compensar o tamanho das genitálias!

A sala de reuniões explodira em exclamações furiosas e escandalizadas. Todos falavam ao mesmo tempo, alguns censurando Marianne, outros se queixando para o rei Dagda e exigindo que ele colocasse a filha rebelde em seu devido lugar. Adrian tentara apaziguar a situação, falando baixo e pedindo calma, mas era difícil se fazer ouvir quando a própria princesa respondia aos queixumes à altura, rosnando, praguejando e demandando o apoio de seu pai. O rei das fadas não respondera a nenhum dos lados, mantendo o rosto escondido na palma da mão direita, pálido de exaustão e parecendo desejar estar em qualquer lugar que não ali. Nenhuma ajuda viria dali, isso era certo. Fora então que ela ouvira a voz de Sir Wallace, se elevando sobre as demais numa exasperação encolerizada.

— Estão vendo? É isso o que acontece quando se dá posições de poder a mulheres!

A mão boa de Marianne voara para o cabo da espada que não estava ali, seu cérebro entorpecido pela fúria mal registrando a ferroada de dor que o gesto provocara. Estivera prestes a avançar contra o conselheiro com as mãos nuas quando as portas da sala de reuniões, duas lascas polidas e envernizadas da casca de um jacarandá, se abriram com um estrondo. O capitão da Guarda Real entrou aos tropeços, ofegando, os olhos esbugalhados.

— Majestade! Chamado de emergência próximo ao córrego! O senhor precisa ver...

A reunião com o conselho acabara sendo adiada, e cinco minutos depois o rei e a herdeira do trono disparavam para longe do palácio, flanqueados pela guarda, em direção ao ponto de onde o chamado de emergência viera. Chegaram ao braço leste do córrego que percorria todo o reino, o braço que corria entre os vilarejos dos elfos e o dos brownies. Os patriarcas de ambas as regiões aguardavam, bem como um grande grupo de curiosos.

— O que aconteceu? – Dagda exigira saber. Após o reverenciarem com uma mesura, os patriarcas indicaram a várzea mais próxima com um aceno de cabeça, sem dizer uma palavra.

Havia alguma coisa grande e felpuda sobre o gramado molhado de orvalho. Por um instante, Marianne achou se tratar de uma grande pelota empapada de teias de aranha, mas um olhar mais atento lhe mostrara que era, na verdade, um animal. Mais especificamente um coelho, seu pelo outrora macio agora encharcado, sujo e emaranhado, seu corpo roliço contorcido em uma posição fetal. Os olhinhos negros estavam arregalados, vidrados e sem vida, e seu focinho estava coberto com o que parecia ser uma espessa espuma, do tipo que envolve ovas de sapo. A grama em um raio de quinze centímetros ao seu redor estava amassada de modo não natural, como se o coelho tivesse rolado por ali por uns bons cinco minutos antes de enfim morrer.

— O que significa isso? Quem foi o responsável? – O rei das fadas perguntara num murmúrio, o rosto empalidecendo ao contemplar o cadáver.

— Não sabemos, Majestade. Não há sinais de luta e nem de feridas. – Breno, o patriarca dos elfos, se apressara a responder – Certamente não foi um predador, mas o ouvimos fazer sons de alarme antes que caísse morto.

— E também há essa substância esquisita saindo do focinho dele. – O líder dos brownies, Erwin, observara, coçando a pelagem acastanhada do queixo – Não entendo muito disso, mas posso jurar que é um sinal de envenenamento.

Marianne, o lábio inferior trêmulo, estendera uma mão hesitante e afagara o pelo emaranhado e úmido do coelho. Pobre criatura. Poucas coisas a deixavam tão deprimida quanto a morte sem causa de animaizinhos como aquele, e saber que ele sofrera antes de receber o alívio da inconsciência fazia com que se sentisse ainda pior. Ninguém merecia um destino tão cruel, nem os seres dos Campos de Luz e nem aqueles que sofriam na Floresta Sombria... E foi então que ela se lembrara. Seu cérebro ligara rapidamente os pontos. E sentira seu estômago despencar com o horror de sua compreensão. Virara-se para seu pai, mas ao contemplar seus olhos arregalados e seu rosto branco como as pétalas de uma anêmona, ela percebera que ele chegara à mesma conclusão.

O anúncio oficial não fora algo fácil de ser dado. A última coisa que queriam era provocar o pânico, mas deixar o povo no escuro não era uma decisão sábia. Todos precisavam compreender como as coisas seriam dali para frente e como teriam de proceder até o problema ser resolvido. E não poderiam mentir sobre as origens daqueles ataques. Todos se perguntariam o porquê de animais selvagens, atípicos nos pastos abertos e iluminados, estarem os atacando tão abertamente. E o porquê de seus próprios animais terem começado a morrer, um após o outro, da maneira mais inexplicável. Mas a explicação detalhada acarretaria nas reações que Marianne mais queria evitar.

Apesar de todos os seus protestos, o toque de recolher fora estabelecido e os barris de pólvora estrategicamente posicionados nos postos de vigília próximos a fronteira. Era como se estivessem em guerra com o reino do outro lado da divisa, apenas esperando o movimento do inimigo para jogarem todo o seu arsenal de uma só vez. E tudo o que ela conseguia ver era aquilo acabando em um desastre ainda maior que o do Festival da Colheita, fosse com um confronto sangrento realmente estourando, fosse com o temor sendo permanentemente plantado nos corações dos habitantes do Reino das Fadas. Depois de todo o trabalho que tivera para tentar estabelecer uma relação ao menos cordial, depois do tanto que Bog e ela lutaram...

— Isso é uma maldição... – Um dos guardas murmurou, quase que para si mesmo, depois de finalmente terem espantado a pega – Desafiamos os deuses e agora estamos pagando o preço...

— Do que está falando, Ricard?

— É o castigo da Mãe Natureza. Certas coisas não podem ser mudadas, nunca. Mas tentamos, e agora estamos sendo punidos.

— Ah, sim. Tentar criar laços entre luz e trevas ...

— Socializar com o predador...

— E também...

Marianne dera as costas ao grupo, não suportando ouvir aquela conversa, mas podia jurar que sentia cada par de olhos pregado em si. O de seu pai era de longe o que mais queimava.

Ela sabia o que pensavam. Acreditavam mesmo naquelas superstições ridículas, e se achavam que havia mesmo uma maldição, muito provavelmente achavam que ela fora a grande causadora. Afinal, haveria um desafio às leis da natureza maior do que uma fada e um goblin acreditando que poderiam ficar juntos? Os ombros trêmulos e os dentes firmemente trincados, seu olhar sobre a vegetação que circundava a fronteira poderia ter causado um incêndio florestal.

“Está vendo, Bog? Meu reino está sofrendo do mesmo mal que o seu. Estão todos exaustos, apavorados e acreditando que tudo é um grande castigo para nos punir por termos ousado superar nossas diferenças. E eu não sei se vou conseguir segurar as pontas sozinha. Por que você não aparece para provarmos juntos o quanto eles estão errados? Por que você me abandonou? Por que?

O som melancólico do vento gélido soprando através da folhagem foi a única resposta que obteve.