Garras e Presas
3 Capítulo 3
— CORUJA!!!
Por um instante, pareceu que ninguém entendeu o significado daquela palavra. Todas as cabeças erguiam-se para o céu noturno, os corpos paralisados, as bocas escancaradas e incapazes de produzir sons. O vulto pairou sobre o vilarejo, fazendo um círculo completo, o som de suas asas parecendo chicotear o ar. Então a luz de um holofote-vagalume particularmente potente conseguiu captá-lo, revelando as penas cinzentas, as garras colossais e recurvadas, o bico afiado e assassino e os enormes olhos dourados, fixos nas pequenas criaturas abaixo, cintilando com uma fome voraz.
E então o pânico se instaurou.
Os gritos de absoluto pavor tomaram o vilarejo, ensurdecedores e alarmantes. No instante seguinte estavam todos correndo de um lado para outro, tropeçando, caindo e esbarrando uns nos outros, empurrando-se, atirando-se para debaixo das mesas ou fugindo para o vilarejo ou para o matagal escuro.
— Acalmem-se! Mantenham a calma! – Dagda gritava, mas ninguém ali se dignou a escutá-lo. Uma das garçonetes esbarrou violentamente nele, fazendo-o cair de lado, o peso de sua armadura o mantendo preso no chão. Isso o fez gritar ainda mais estridentemente – Por favor, não entrem em pânico! Ordenem-se, eu imploro.
— Eu não acredito! – Bog rugiu, olhando para os lados alucinadamente enquanto empunhava seu cetro – Eu disse para aqueles imbecis guardarem a divisa! Por que não soaram o alarme?!
Marianne não respondeu, ainda em um estado letárgico causado pelo choque e pelo medo. Olhava para os céus sem conseguir acreditar no que via. Nem em um milhão de anos imaginou que se veria cara a cara com a criatura que assombrava os recantos da Floresta Sombria e era o combustível para pesadelos entre todos os habitantes dos Campos de Luz.
Uma coruja. O terror da noite. O demônio alado que era capaz de provocar pavor até nos corações dos goblins.
Foi então bruscamente empurrada para o lado por um elfo que passara correndo desabaladamente. O caos ainda predominava no festival, a decoração sendo pisoteada, as mesas e cadeiras jazendo reviradas no chão. E no centro do pandemônio estavam Dawn e Sunny, abraçados um ao outro, tremendo de pavor. Os olhos de Dawn estavam marejados e ela chamava desesperada pelo pai e pela irmã, não conseguindo enxergá-los em meio à multidão desgovernada.
Foi como se recebesse um poderoso jato de água gelado no rosto para despertar. Ela não tinha tempo para ficar paralisada pelo medo. Seu povo, seu pai e sua irmãzinha precisavam dela.
E naquele momento, a coruja atacou. Fechou as asas de modo que ficassem quase coladas ao seu corpo e mergulhou numa velocidade assustadora, curvando-se segundos antes de chegar ao chão e estendendo as garras para frente. Os convidados apavorados saltaram para os lados no último instante, mas a ave não parou. Estava indo na direção de Dawn e Sunny.
Como um raio, Marianne disparou, batendo as asas o mais rápido que podia, a adrenalina a fazendo desconsiderar o enorme risco a que estava se expondo. Sentiu seus braços se fecharem com força em volta de sua irmã e do pequeno elfo e deixou-se desabar sobre eles, prensando-os no chão um nano segundo antes de a coruja voltar a ganhar o ar, guinchando de frustração por ter perdido sua presa. A ventania provocada pelas asas fustigou seus cabelos, e ela podia jurar que sentiu as garras cruéis arranharem superficialmente a base de suas asas.
— Marianne! – Dawn gritou, agarrando-se a ela com força. Sunny tremia no chão, as pernas bambas demais para sustentá-lo. Marianne os ajudou a se levantar e tornou a erguer a cabeça. A coruja ainda não desistira, voltando a pairar em círculos, provavelmente procurando por um alvo mais fácil.
— Ainda não acabou! – Ela exclamou, apontando para os dois – Sunny, leve a Dawn para o vilarejo e se escondam! Não fiquem em campo aberto!
— Mas e você, Marianne?
— Eu vou dar um jeito nessa ratazana voadora. – Ela rosnou, desembainhando sua espada num gesto feroz.
— Ah, mas não vai mesmo! – Dagda gritou, correndo para eles enquanto era amparado por três membros da Guarda Real – Você vai se esconder com sua irmã!
— Eu quero ajudar, pai!
— Está maluca se pensa que vou deixá-la se digladiar com aquele monstro! Você vai ser morta, Marianne!
— Eu sei cuidar de mim mesma!
— Isso não vem ao caso! Eu a proíbo terminantemente-
Mais uma onda de gritos alarmados tomou a pista. A coruja mergulhara novamente, e desta vez suas garras apanharam a cabeça decepada da cobra-rato. Ela cortou um naco de carne com o bico afiado, mas soltou outro guincho desapontado por não se tratar de uma caça recente. Largou a cabeça bruscamente, que foi voar na direção do grupo a uma velocidade mortal, rodopiando no ar. Dagda gritou alguma coisa, os guardas se atiraram na frente da família real, mas o impacto seria forte demais para que conseguissem segurar...
Um enorme vulto esbelto tomou a frente, atingindo o que restara da cabeça da serpente com a ponta de seu cetro. A força do impacto tirou o objeto de seu curso, que foi desabar violentamente sobre o palco, destruindo instrumentos e arranjos.
— Bog!
— Não se contenta com pouco, não é, monstrengo esfomeado? – Bog rosnou, flexionando os ombros – Que seja. Vou fazer você comer seus próprios olhos. Cambada!
Então eles foram cercados pela comitiva de goblins, todos abrindo e fechando os punhos e arreganhando as presas ameaçadoramente. Dagda e os guardas exclamaram em alarme.
— Vamos ter que agir rápido! Stuff, Thang, guiem esses malucos para algum lugar seguro! Brutus, Bloodwarth e Vinca, não deixem que a coruja se aproxime dos demais! O restante fique a postos para seguir meu comando!
— Ah... Guardas, não fiquem aí parados! Guiem minhas filhas e o restante do povo para a segurança! – Dagda ordenou, recuperando parte da postura. Marianne, porém, esquivou-se da mão de um dos guardas que se estendia para segurar seu ombro e correu para junto de Bog, ignorando os protestos de seu pai.
— Não pretende roubar toda a ação, não é? Quero ajudar também!
— À vontade. – Ele assentiu sem olhá-la. Dagda ficou escandalizado.
— De jeito nenhum! Não irá nem por cima do meu-
Tarde demais. Marianne e Bog saltaram para o ar, voando velozmente na direção da ave que ainda pairava em círculos.
— MARIANNE!
Procurando não deixar que os gritos de seu pai a desconcentrassem, Marianne pareou com Bog, os olhos colados na coruja que ainda não os tinha percebido se aproximando.
— Então? Qual é o plano? – Perguntou em meio ao rugido do vento.
— O melhor curso de ação é fazê-la perder altitude. Não acho que mesmo nós dois juntos possamos dar conta dela em pleno ar, mas se pudermos derrubá-la, tudo será mais fácil. – Ele se voltou para ela e apontou para a cauda da coruja com o cetro – A cabeça dela pode se virar a cento e oitenta graus, portanto ataques por trás não surtirão efeito. Tente atacá-la por baixo, nas patas, enquanto eu a distraio. A dor a deixará desorientada, e é nesse momento que a atrairemos para o chão. Ao meu sinal, mude o curso do vôo e vá para o mais longe possível dela. Meu pessoal a agarrará no instante em que ela se aproximar o bastante, e aí cuidaremos do resto.
— Entendido.
— E por tudo o que é mais sagrado, mantenha a maior distância que puder das garras dela. Um golpe é o suficiente para te cortar ao meio. – Ele avisou – Sei o quanto é habilidosa, mas você não dispõe de uma armadura natural como eu. Tome muito cuidado, Durona.
— Pode deixar.
Trocaram um último olhar intenso antes de dispararem em direções opostas. Marianne deixou-se perder um pouco de altitude, posicionando-se bem abaixo da figura maciça da ave. Bateu as asas o mais leve que pode, sabendo que a audição aguçada do animal poderia alertá-lo de sua aproximação. Viu quando Bog avançou contra a coruja, prendendo a respiração quando ele se aproximou perigosamente do bico entreaberto. Ele esquivou-se habilmente quando ela tentou abocanhá-lo, girando em pleno ar e acertando a lateral da enorme cabeça com seu cetro. A coruja guinchou com dor e raiva, atrapalhando-se em seu vôo, e Marianne viu que aquele era o momento perfeito para atacar.
Disparou velozmente, segurando a espada no alto com ambas as mãos. Com um grito, ela golpeou com toda a força que conseguiu reunir, mas a coruja ainda não havia parado de se debater em confusão. A lâmina de sua espada se chocou com uma das enormes garras, o impacto produzindo violentas vibrações que reverberaram por seus braços, ombros e mandíbula, quase a fazendo derrubar a arma. A enorme pata voltou a se debater, cortando o ar, e o deslocamento de ar resultante fez Marianne perder o prumo. Ela girou descontroladamente, quase desabando de vez.
— Marianne! – Bog a chamou, assustado.
— Eu estou bem! Não se distraia! – Ela conseguiu gritar, recuperando o equilíbrio no último instante. Podia ouvir Dawn e seu pai gritando o seu nome, mas não ousou olhar para baixo. Sacudiu a cabeça e trincou os dentes com força, grunhindo de frustração.
“Foco, Durona, foco! Foi só um imprevisto! Tente de novo!”
Bog grunhiu também, enraivecido. Marianne poderia ter se ferido seriamente, tudo por culpa daquele monstrengo. Voltou a avançar com um rosnado, desta vez mirando entre os olhos da coruja.
— Preste atenção em mim, coisa feia!
Mas desta vez a coruja estava preparada. Abriu o bico e agarrou o cetro antes que ele a atingisse. Bog rosnou em surpresa e raiva e tentou se desvencilhar, puxando e sacudindo com violência, enfrentando a ave num cabo-de-guerra mortal. Marianne assistiu hipnotizada por um instante antes de voltar a se concentrar. Se não agisse agora, a distração que Bog conseguira não teria servido de nada, sem contar o enorme perigo que ele estava correndo, disputando forças com aquele demônio. Ergueu a espada e mais uma vez avançou, desta vez mirando certeiramente a cartilagem amarelada da pata. A lâmina afiada afundou apenas alguns milímetros antes de a pata ser furiosamente puxada para longe, mas foi o bastante para fazer o sangue escuro esguichar.
— ISSO!
A ave gritou de agonia, largando o cetro e libertando o goblin, que ergueu um punho no ar, sorrindo triunfante.
— Boa, Durona!
Marianne só pode sorrir em resposta por um segundo. A coruja virou-se para ela, os olhos dourados chamuscando de dor e fúria. Apesar de certeiro, o golpe não fora o suficiente para desorientá-la, e ela agora voava na velocidade de um relâmpago em sua direção. A princesa gritou e se deixou cair no ar, escapando por míseros centímetros do bico assassino. Dawn e Dagda voltaram a gritar.
Bog praguejou. Não era isso o que pretendera! Não era para a ave escolher Marianne como seu alvo! Suas asas se agitaram ainda mais com o impulso de voar para ajudá-la, mas sabia que aquilo só pioraria a situação. Tinha que dar um jeito de voltar a chamar a atenção da coruja para si, e rápido.
— Vocês aí embaixo! – Ele gritou para a multidão no chão, que assistia ao combate aéreo em um estupor apavorado – Joguem alguma coisa para mim!
— O quê?
— Joguem alguma coisa! Uma pedra, um galho, qualquer coisa, mas JOGUEM!
— Ele quer que joguemos algo na coruja? – Dagda exclamou abismado – Ele enlouqueceu?!
— Loucura ou não, ordens do chefe são ordens! – Bloodwarth grunhiu – Apanhem a pedra mais pesada que encontrarem!
Despertos do choque e determinados a ajudar sua princesa no que pudessem, as fadas, elfos, pixies e brownies correram à caça da maior pedra que achassem. Não encontraram uma suficientemente grande, mas acharam um galho particularmente grosso que poderia servir. Carregaram-no até a comitiva de goblins, atirando-o aos seus pés.
— Vai ter que servir. – Vinca rosnou, apanhando o galho e estendendo-o para Brutus – Vai lá, Brutus! Atire isso na coruja com toda a força!
O grandalhão assentiu. Tomou impulso e, com um rugido de guerra, atirou o galho ao ar, que passou direto pelo rei goblin e rodopiou velozmente na direção da ave.
— NÃO! ERA PARA JOGAR PARA MIM, NÃO NA CORUJA!!! – Bog urrou horrorizado, mas o estrago já fora feito. Distraída com sua perseguição à Marianne, a coruja não viu o galho se aproximando. Ele foi atingi-la em cheio nas costas, produzindo um estalo agudo que ecoou no espaço aberto. O grito da ave foi ensurdecedor. Marianne tapou os ouvidos e voou para sair do campo de visão do animal. Por um instante pareceu que a coruja ia desabar diretamente para o chão. Mas ela rapidamente recuperou o prumo, sua cabeça virando para trás bruscamente, fitando a multidão abaixo. A princesa ofegou.
— Essa não!
Antecipando as ações do animal, Marianne disparou a toda velocidade na direção da clareira. Bog gritou por ela, mas não havia tempo para escutar. Se não fosse rápida, tudo estaria perdido. A ave imediatamente a seguiu, porém sem enxergá-la. Seus olhos estavam colados nos inúmeros convidados, que perceberam tarde demais o erro que haviam cometido.
— Ela está vindo para cá!
O pânico mais uma vez tomou conta de todos, que voltaram a correr sem rumo à procura de abrigo.
— Dawn, corra! Corra e não olhe para trás! – Dagda gritou para a filha mais jovem, que imediatamente agarrou a mão de Sunny e correu por entre a multidão. Não foram muito longe, porém. Sunny tropeçou num pedaço exposto de raiz, seu pé se prendendo firmemente ao arco. Dawn e ele gritaram estridentemente, a princesa ofegando enquanto tentava libertar o namorado.
— Não, Dawn, me deixe aqui! Corra e se esconda!
— Eu não vou a lugar algum sem você!
— DAWN!!!
Marianne vinha voando desabaladamente em sua direção, o rosto pálido e suado. Logo atrás dela, estava a monstruosa coruja. O casal gritou mais uma vez, antecipando a morte iminente. Foi quando Marianne, girando num movimento fluído e ao mesmo tempo agarrando o cabo da espada, postou-se entre os dois e a enorme ave. O bico se chocou com a lâmina da espada, produzindo fagulhas luminosas. Ela quase perdeu o equilíbrio, batendo as asas loucamente para se manter no ar, seus dentes trincados com o esforço de impedir o avanço da coruja.
— Vão! Corram! – Ela gritou para a irmã sem se virar. Nunca aplicara tanta força no cabo de sua fiel espada antes, dando tudo o que tinha na tentativa de empurrar o monstro para trás, mas sabia que não aguentaria por muito tempo. Só o suficiente para que Dawn e Sunny escapem, ela implorou em pensamentos. Pode me devorar se quiser, mas deixe minha irmã em paz...
Ela ouvia Dawn e Sunny gritando por ela, seu pai esbravejando ordens para os guardas, a voz de Bog chamando seu nome em pânico, mas tudo o que ela via eram os olhos enormes e dourados que lhe prometiam a morte.
“Que seja. Mate-me e vá embora. Não machuque mais ninguém.”
E a coruja perdeu a paciência. Guinchando raivosamente, ela sacudiu a cabeça bruscamente, arrancando a espada das mãos da princesa, que rodopiou para longe. Ergueu-se nas patas traseiras, e por um instante tudo o que Marianne viu foi o peito coberto de penas cinzentas. A pata direita levantou-se no ar, as garras cintilando à luz da lua cheia.
E Marianne sentiu como se seu ombro estivesse sendo rachado ao meio, a dor esmagadora se irradiando do ponto onde a garra da coruja a cortara como ferro em brasa, seu sangue esguichando violentamente e empapando sua túnica e calças, empoçando no gramado.
— MARIANNE!!!
O ataque fez o monstro se desequilibrar, que rolou para frente, errando Dawn e Sunny por centímetros antes de se chocar com um amontoado de mesas e cadeiras. Ele gritou e se debateu, tentando se erguer, mas a fada e o elfo já não lhe prestavam a menor atenção. Gritando de horror, Dawn agarrou a irmã e segurou-a firmemente junto ao corpo, sacudindo-a enquanto a chamava, nem se dando conta do sangue que sujava sua roupa de festa.
— Marianne! Marianne! – Ela guinchava, já cega pelas lágrimas, mas os olhos da fada mais velha estavam fechados em agonia. Ela gritou de dor, debatendo-se debilmente – Socorro! Alguém a ajude! – Dawn voltou a gritar em pânico – Ela está sangrando muito! Por favor, alguém a salve!
Sunny estava paralisado no chão, os olhos fixos na princesa ferida, sentindo a poderosa ânsia de vômito reverberar em seu estômago. Dagda tentava chegar até as filhas, empurrando a multidão bruscamente, também gritando por sua primogênita em desespero.
E Bog, que havia enfim pousado, observava tudo atônito.
Marianne... Aquilo... Aquilo era sangue? Ela estava ferida?
Ferida...
Ela havia se ferido...
Era como se observasse os acontecimentos por um longo túnel enevoado, as criaturas à sua volta se tornando sombras indistintas, seus gritos e clamores um mero eco em seus ouvidos. Tudo o que via era a forma trêmula de sua companheira, de sua amada fada, pálida, frágil, suja com o sangue escarlate. E então ela gritou mais uma vez, sua dor cortando-o fundo, seu choro lhe causado a mais indescritível das agonias.
Ela estava ferida... Ferida... Sangue... Sangue vermelho... Ferida...
Feridaferidaferidaferidaferidaferidaferidaferidaferidaferida
Ela ia morrer.
E então tudo ficou vermelho.
A coruja havia enfim se erguido, abrindo as asas e preparando-se para guinchar, mas o som que poderia ter escapado de sua traquéia não teria sido nada, absolutamente nada comparado ao que veio a seguir.
O rugido demoníaco do Rei do Pântano pareceu fazer tremer as árvores da mata, o solo, o próprio ar à volta. Estrondoso, terrível, algo que poderia ter saído das profundezas do inferno. Um arrepio coletivo tomou todos os presentes, e Dawn, ainda mantendo Marianne em seus braços, arregalou os olhos em total descrença com o que via.
— Bo... Boggy?
Não houve resposta. A criatura que se apresentava na forma do afável goblin que tanto amava sua irmã parecia agora incapaz de formar sentenças coerentes. O grande corpo estava curvado para frente, os dedos dos pés formando profundos sulcos no solo, as garras das mãos em riste. Cada escama estava eriçada, as placas pontiagudas dos ombros parecendo mais ameaçadoras do que nunca. As asas de vespa tremiam furiosamente. Sua respiração era rascante, entrecortada por rosnados animalescos. Os olhos azuis estavam vidrados, sem qualquer vestígio de racionalidade.
Todos encaravam aquela figura sinistra com um medo súbito, quase instintivo. Mas ninguém estava mais assustado que os goblins.
— Essa não... – Dawn ouviu Stuff ofegar, soando alarmada.
— Senhor? Majestade? – Thang chamou baixinho, tremendo – P-Por favor...
E então Bog atacou.
Foi tão rápido que quase não deu para assimilar. Num instante ele estava paralisado, e no outro ele se atirava furiosamente contra a coruja, que surpreendentemente também estava estática com o medo. Houve gritos quando muitos dos presentes foram brutalmente atirados para os lados pela passagem tempestuosa do goblin, um segundo rugido infernal explodindo na noite. Os braços de Bog se fecharam em volta da traquéia da ave e ambos rolaram pelo chão, destruindo mesas, cadeiras e barracas. Gritando, a multidão se dispersou para escapar de ser esmagada pelo corpo da coruja, que tentava desesperadamente se libertar de seu captor. Mas os braços de Bog eram como torniquetes, poderosos e inescapáveis, e aos poucos estavam sufocando o animal. Os guinchos saíam abafados, roucos, os olhos dourados quase saltando das órbitas.
— O que ele está fazendo?! Façam alguma coisa, parem-no! – Dagda gritou, abraçando as filhas tremulamente. Stuff balançou a cabeça, sem desviar os olhos da cena.
— Não podemos. Ninguém pode pará-lo agora.
E então a boca de Bog se abriu, revelando fileiras de dentes afiados como navalhas, que em um instante se enterraram na garganta da coruja. Ela soltou um guincho ensurdecedor, debatendo-se ainda mais, suas asas derrubando tudo o que havia pelo caminho. O Rei do Pântano a segurou com ainda mais força, grunhindo enfurecido, sacudindo a cabeça brutalmente enquanto suas presas destroçavam a carne e os tendões. Sangue escuro espirrou pelo gramado, manchando as penas cinzentas e as escamas do rei goblin. As garras deixaram a traquéia da ave e se cravaram nas laterais do corpo. O som de carne sendo violentamente rasgada era nauseante. Todos ofegaram, afastando-se ainda mais. Dagda balbuciava em horror, Sunny choramingava, os goblins discutiam raivosamente entre si, e a coruja continuava a se debater. Dawn nunca imaginou que uma criatura pudesse perder tanto sangue e continuar a se debater daquele jeito...
A coruja parecia prestes a perder a batalha, e Bog não dava mostras de que teria misericórdia, o rosto manchando de sangue e os olhos alucinados de ódio. Então Marianne, que inacreditavelmente ainda se mantinha consciente, soltou um longo gemido de dor e chamou fracamente por ele. O som da voz dela fez Bog travar, seu corpo se paralisando, suas garras e presas perdendo momentaneamente a força. A ave se aproveitou da situação e se sacudiu veementemente, atirando o Rei do Pântano para o lado. Abriu as asas, ganhou o ar e fugiu em disparada, mas seu vôo desajeitado e o sangue que continuava a verter de suas feridas indicavam que muito provavelmente não sobreviveria.
Bog ainda ofegava pesadamente, rosnando raivoso ao ver sua vítima escapando. Ele se voltou para o grupo e urrou mais uma vez, arrancando gritos assustados de todos. A boca dele estava vermelha com o sangue da coruja, bem como suas mãos. Os olhos enlouquecidos então se fixaram em Dawn, que estremeceu violentamente, ainda desacreditada com o que estava vendo.
Quando seu pai resmungava sobre o goblin selvagem que sua primogênita escolhera para amante, Dawn era a primeira a sair em defesa de seu amigo. Bog não era selvagem, de jeito nenhum! Podia ser um pouco resmungão e ter um gênio difícil, mas não era o animal tresloucado que o rei Dagda teimava em enxergar. Era gentil, companheiro e tão carinhoso e dócil quando estava com Marianne que Dawn se perguntava se ele realmente desprezava os clichês de romance como clamava. Como um ser tão amável poderia ser selvagem?
Mas naquele momento, ele não parecia nada menos que isso. O Bog que adorava parecia ter cessado de existir, deixando em seu lugar aquela criatura violenta, descontrolada e irracional. Vendo-se presa naquele olhar mortífero, ela engoliu em seco e procurou chamá-lo mais uma vez.
— Boggy?
E ele então saltou sobre ela.
Os gritos de seu pai, Sunny e todos os convidados quase a ensurdeceram, mas fora tudo muito repentino para que pudesse ter igual reação. Sentiu suas costas baterem no chão e o hálito do goblin roçar em seu pescoço, mas a pressão sobre seu corpo sumiu tão rápido quanto veio. Não fora ferida. O que a alarmou foi o súbito sumiço do corpo de Marianne contra o seu. Ergueu-se o mais rápido que pode e viu sua irmã presa firmemente nos braços de Bog, que rolara para longe dos demais e ajoelhara-se no gramado. Ele crocitou e ganiu, os olhos fixos em sua companheira. Ele a apertou com mais força e repetiu o som, fazendo-a gemer. E então a boca dele se fechou sobre a ferida no ombro dela.
— NÃO! BOG, NÃO!
Dawn tentou correr até eles, mas seu pai e a Guarda Real foram mais rápidos.
— Tire as patas de cima da minha filha! – Ele gritou furioso, estendendo a mão para puxar Marianne para longe das garras do goblin. Bog rosnou, encolerizado, e abriu a mandíbula. Um dos guardas foi capaz de pressentir o perigo, agarrar Dagda e puxá-lo para trás um segundo antes das presas sujas de sangue se fecharem com um horrível estalo onde, no instante anterior, estivera o braço do rei das fadas. Os goblins gritaram de espanto.
— Majestade, pare! O senhor tem que se controlar!
Ele não ouvia. Continuava a segurar Mariane, crocitando e ganindo baixinho para ela, a língua novamente no ferimento em seu ombro, inclinando-se sobre ela para impedir que mais alguém tentasse tirá-la de seus braços. A herdeira do trono se debateu o ofegou de dor.
— Ele vai devorá-la!
— Alguém faça algo! Tirem-na de perto dele!
— MATEM-NO!
— BOG!
E o grito que se elevou sobre os demais partiu da própria Marianne. Ela ergueu a mão e o esbofeteou, afastando a boca ensaguentada de seu ombro.
— Bog! – Ela chamou de novo, sua voz soando firme e decidida apesar de sua palidez e tremores.
E ele finalmente pareceu ouvir. Ainda ofegava intensamente, mas seu corpo parara de tremer. Por um instante a expressão dele foi de completo aturdimento, piscando para a fada em seus braços como se tivesse acabado de despertar. A razão então voltou aos seus olhos e todo o seu corpo relaxou, as placas em seus ombros se encolhendo, suas asas se fechando suavemente em suas costas. Ele olhou para os lados em absoluta confusão, como se não soubesse como havia ido parar ali. Voltou-se novamente para a princesa.
— Ma... Marianne?
Dawn respirou fundo, o alívio quase a fazendo chorar. Ele voltara, Bog voltara...
— SEGUREM-NO!
A Guarda Real avançou num tropel. Ainda confuso e desorientado, o Rei do Pântano não teve a chance de reagir. Dez pares de mãos o agarram em diversos pontos do corpo e o atiraram ao chão, mantendo-o preso enquanto Dagda puxava Marianne para longe dele.
— Pai! Esperem, ele não-
— MATEM-NO! – Dagda rugiu, parecendo quase tão fora de si quanto Bog estivera.
— Não! Pai, não! – Marianne gritou, aterrorizada ao ver um dos guardas desembainhar sua espada. Bog mal tentava lutar contra as mãos que o seguravam, seus olhos ainda fixos nela – Pai, por favor...!
Os goblins rosnaram em alarme, correndo para tentar libertar seu rei. E Dawn, sem perceber o que estava fazendo, voou como uma flecha e se colocou entre o guarda que brandia a espada e o rei goblin, os braços abertos protetoramente. A lâmina parou a centímetros de seu rosto, o guarda quase caindo para trás com o espanto.
— Dawn! Saía do caminho! – O rei das fadas gritou para a filha caçula, que sacudiu a cabeça.
— O senhor está fora de si, pai! Não vou deixar que faça isso!
— Saía, Dawn! É uma ordem!
— Não!
— DAWN!
— O SENHOR DEVE A ELE! – Ela gritou, as lágrimas enfim escorrendo livres por seu rosto – ELE ESPANTOU A CORUJA! NINGUÉM MORREU GRAÇAS A ELE! O SENHOR DEVE A ELE, PAI, O SENHOR DEVE!
Fez-se o silêncio. As palavras de Dawn pareceram trazer o rei de volta à razão, e percebendo o absurdo que estava prestes a acontecer, ele engoliu em seco. Os olhos arregalados, o rosto pálido e suado, ele fez um gesto com a mão, ordenando silenciosamente que seus guardas libertassem o cativo. Marianne soluçou, aliviada, querendo mais do que nunca abraçar a irmã. Isso teria que ficar para depois, porém, considerando a dor excruciante que sentia no ombro ferido. Percebendo isso, seu pai a pegou nos braços com alguma dificuldade e virou-se para a multidão aparvalhada.
— Equipe médica! O que estão fazendo? Não percebem que sua princesa está ferida?
Um grupo atrapalhado de fadas se apresentou imediatamente, amparando Marianne. Bog, agora cercado por seus asseclas, imediatamente se ergueu, trêmulo pelo nervosismo.
— Esperem! Eu também irei-
— Nem em seus sonhos! – Dagda rosnou para ele, colocando-se protetoramente na frente da filha – Você nunca mais irá chegar perto das minhas filhas, seu silvícola, animal-
— Pai, por favor-
— Não comece, Marianne! Não comece! E pelo amor dos deuses, levem-na para a ala hospitalar de uma vez!
— O que houve? O que está acontecendo? – Bog olhava de um lado para o outro: para sua comitiva, para Dawn, para a multidão que se afastou com medo ao vê-lo olhando em sua direção, sentindo-se completamente perdido – Para onde a estão levando? O... O que foi que eu fiz?
— Olhe para suas mãos! – Dagda respondeu com desprezo – Talvez isso responda sua pergunta!
Espantado, ele olhou. E sentiu como se uma garra de gelo estivesse arranhando sua espinha ao contemplar suas mãos, imundas com o sangue quente e carmesim que ainda pingava no gramado. Agarrou o próprio rosto e ofegou ao sentir ainda mais sangue cobrindo sua mandíbula.
— O que... – Ele olhou mais uma vez para Marianne, para seu ombro. Pareceu perceber pela primeira vez a ferida. Seus olhos azuis se arregalaram em absoluto terror – Não! Marianne!
— Não, Bog, isso não foi você! – Ela exclamou de volta, rouca – Não foi você, não foi-
— Levem-na agora! E você! – O rei das fadas apontou para ele com um esgar enojado – É melhor que não esteja mais nas dependências deste reino quando eu voltar!
Ele lhe deu as costas e marchou, liderando a equipe médica. Marianne tentou se voltar para ele, mas se viu impedida por vários pares de braços. Dawn lhe deu um último olhar de quem pedia por todo o perdão do mundo antes de segui-los.
E ele se viu admirando a destruição à sua volta com um fascínio horrorizado, um zumbido estranho em seus ouvidos. Ele fizera aquilo? Ele era a causa para a fúria do outro rei, para o medo nos olhares daquelas criaturas diminutas, para o estado fragilizado de sua amada?
Permaneceu paralisado no chão, encarando as manchas de sangue que o cercavam, seu cérebro estranhamente entorpecido registrando apenas sons fragmentados, palavras e frases soltas.
—... horror...
—... vi nada igual...
—... podia ter nos matado...
—... achei que ele ia devorar...
—... pior que a coruja...
—... animal descontrolado...
—... monstro...
E foi a última palavra que permaneceu gravada a ferro na mente do Rei do Pântano.
Monstro.
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