Garras e Presas
16 Capítulo 16
Olhar naqueles olhos enormes e vorazes era como fazer uma viagem no tempo, de volta a um passado não muito distante, mas que não era menos doloroso ou terrível.
Marianne já não sabia mais dizer se estava vendo íris verdes ou douradas, se dentes afiados e cobertos de tártaro ou um bico de aparência cruel, se uma pelagem ruça ou penas acinzentadas. Não sabia nem mais dizer se os raios de luz que se derramavam sobre ela vinham do sol da tarde ou de uma lua cheia, cujo brilho prateado criava uma atmosfera funerea para o evento que desencadearia sua morte. Chegava a ouvir os gritos de Dawn, Sunny e seu pai, a comoção do povo correndo desabalado, a voz de Bog a chamando em pânico...
Os bigodes do gato do mato pareceram vibrar, e ela se viu observando a luz dançar sobre eles com um fascínio estuporado. Ele abriu ainda mais a boca, tanto que Marianne viu a úvula dependurada nos fundos de sua garganta, que mais parecia uma caverna abafada e malcheirosa.
“Voe! Você tem que voar! Voe voe voe voe voevoevoevoevoevoe”
Seu corpo foi incapaz de obedecer ao comando. Não duvidava nada que o gato do mato fosse capaz de se erguer nas patas traseiras e apanhá-la em pleno ar. Em seu estado de torpor, ela só conseguia pensar que seria ótimo se o animal a engolisse numa só bocada, sem mastiga-la. Pelo menos morreria sem dores, ao contrário da agonia que fora ser atacada pela coruja...
— Não fica parada aí, sua idiota!
Marianne não reconheceu de imediato a voz que gritava em seu ouvido. Só sentiu o chão sumir sob seus pés e o mundo virar momentaneamente de cabeça para baixo. Estava deitada de bruços sobre algo duro e que se mexia demais, deixando-a zonza e desorientada. O gato do mato, estranhamente, parecia estar encolhendo...
— Marianne!
Então o mundo voltou a entrar em foco.
Marianne ofegou, saindo de seu estado letárgico como se alguém a tivesse esbofeteado. Seus sentidos voltaram a trabalhar com a precisão de sempre, e ela foi capaz de registrar vários fatos simultâneos: os goblins sobre os galhos mais baixos das árvores puxando suas armas e disparando suas munições, uma chuva de flechas e dardos que produziam zunidos que machucavam seus tímpanos; viu Roland se arrastar no chão como se estivesse em uma trincheira de guerra, o rosto branco como coalhada enquanto gritava por sua mosquinha; ouviu os guinchos e rosnados dos goblins de sua comitiva, acompanhados pelos gritos alarmados de Sunny, Pareh, Adrian, Ricard e Edwin, junto a sons de trituramento provocados pelas passadas de pés pesados e agitados; aparentemente eles haviam perdido o controle de Lizzie, que se apavorara com a súbita aparição do gato do mato e se sacudia de um lado para o outro, ameaçando jogá-los longe.
E ela estava dependurada por cima do ombro de alguém. Bog? Não, não sentia escamas duras e nem via as placas pontiagudas, sem contar que estava próxima demais do chão. Virou a cabeça para trás, ainda muito atordoada, e sentiu dar seu estômago dar uma cambalhota com o susto.
Quem a estava carregando era Poppy.
— Mas o quê-
— Acorda pra cuspir, boneca! O Rei do Pântano vai usar a minha cabeça como estandarte se você for devorada! – Ela ofegou. Voltou seu olhar à fada pasmada sobre seu ombro, sorrindo zombeteira – E vê se tenta não vomitar encima de mim, beleza?
Marianne não conseguiu pensar em nada para responder, abismada como estava pelo rumo dos acontecimentos. Olhando por cima do ombro, ela viu que Poppy se dirigia ao ponto onde estava a comitiva rival, mais espeficamente na direção de Bog e Griselda. O Rei do Pântano alçou voo no instante em que as viu se aproximando, estendendo os braços para frente, a expressão tempestuosa e transtornada.
A princesa soltou um gritinho quando Poppy a mudou bruscamente de posição, segurando-a em seus braços para logo em seguida atirá-la ao ar. A súbita tontura a impediu de bater as asas para se sustentar, mas Bog imediatamente a amparou.
— Deuses, Marianne! – Ele quase soluçou, apertando-a com tanta força junto ao peito que Marianne temeu que ele quebrasse algumas de suas costelas – Você está bem? Está doendo muito? Sua cabeça está sangrando! O que é que-
— Sossega, Bog, eu ‘tô bem! E afrouxa esse aperto, você está me sufocando-
— Não, Lizzie, não!
O grito de Sunny foi o único alerta que tiveram antes do corpanzil de Lizzie aparecer em seus campos de visão, vindo imparável em sua direção como um enorme tronco rolando uma ribanceira. Bog e Poppy saltaram para lados opostos, escapando por milímetros de serem atingidos. Lizzie caiu bruscamente para o lado com um estrondo que ecoou pela clareira. Sunny e Pareh foram arremessados para longe, caindo no solo com baques dolorosos e rolando pela grama até pararem com as barrigas viradas para cima, gemendo de dor. Adrian, Ricard e Edwin conseguiram alçar voo antes de sofrerem o mesmo destino, imediatamente se voltando para o Rei do Pântano e sua princesa com expressões idênticas de tormento.
— Alteza! A senhorita está bem?
— Estou sim! Não se preocupem comigo, vão ajudar Sunny e Pareh! – Ela conseguiu ordenar enquanto se sacudia nos braços de seu companheiro – Me solta, Bog! Eu tenho que fazer alguma coisa-
— Você já fez o suficiente! – Ele rugiu. Marianne estremeceu em espanto, os olhos esbugalhados. Ele então se voltou para Griselda e exclamou: — Mãe! Cuide da Marianne!
— Pode deixar, querido.
Não deram a Marianne a chance de protestar. Bog a colocou cuidadosamente no chão ao mesmo tempo em que Griselda aparecia ao seu lado e passava os braços ao redor de seus ombros, tanto num gesto de amparo quanto num aviso para que nem sequer pensasse em tentar fugir.
— Eu devia arrancar sua cabeça de seus ombros com uma dentada! – Bog rosnou para Poppy, os olhos azuis chamuscando em cólera. A matriarca revirou os olhos em exasperação.
— Pode rosnar e bufar o quanto quiser. Pelas leis da Floresta Sombria, não cometi nenhum crime. Agora se me der licença, Majestade, eu tenho um gato do mato para liquidar.
— Esse é o meu trabalho! – Ele bufou, voltando-se logo em seguida para seus subordinados – O que estão fazendo aí parados, seus lesados?! É hora de trabalhar!
Os goblins pularam em alarme como se tivessem coreografado. Correram para junto de seu rei, que bradou instruções brevemente antes de iniciar o ataque. Poppy já estava fazendo o mesmo com os seus asseclas, e os dois grupos imediatamente avançaram na direção do gato do mato.
— Bog! – Marianne se esganiçou, furiosa e indignada por estar sendo deixada para trás – Filho da mãe!
— Sim, isso ele com certeza é. – Griselda comentou com um sorrisinho.
— Como ele pode me deixar para trás assim? Quem ele pensa que é?!
— Um macho desesperado para manter a companheira ferida em segurança, talvez.
— Ele não tem o direito! Eu sei cuidar de mim mesma, ela sabe disso, então por que-
— Sim, Marianne, você sabe cuidar de si mesma, mas neste momento você não tem essa capacidade. – Griselda a cortou, e Marianne se surpreendeu com seu tom duro e impaciente – Olhe só o seu estado. Você mal consegue se manter de pé. Se for lutar agora, vai mais atrapalhar do que ajudar. Seja menos inconsequente e pare para pensar em como o Bog ficaria caso a situação do tal Festival da Colheita se repetisse.
A princesa sentiu como se uma força invisível comprimisse seu peito dolorosamente. Mordeu o lábio inferior e fechou os olhos com força, remorso, desamparo e exaustão a mantendo pregada no chão. Não queria ser um peso para Bog, não queria preocupa-lo, mas observar a ação ao invés de tomar parte nela fazia com que se sentisse tão inútil, tão fragilizada! Griselda apertou seus ombros gentilmente, tentando confortá-la enquanto observava com uma expressão apreensiva o pandemônio se instaurando na clareira.
O gato do mato soltou um miado agudo e ultrajado ao se ver cercado de goblins minúsculos, mas indiscutivelmente ferozes e que procuravam atacá-lo nos membros inferiores com clavas, lanças toscas e até mesmo com as garras e as presas. Aqueles espalhados pelos galhos baixos nas árvores continuavam a atirar projéteis em sua direção; só algumas flechas conseguiram atingi-lo, mas não eram grandes o bastante para penetrarem seu couro resistente mais que alguns milímetros. Foi quando Poppy, tendo escalado rapidamente um tronco posicionado bem atrás do felino, saltou habilmente e aterrissou sob seu enorme dorso peludo. O gato do mato percebeu isso e tentou se livrar da intrusa, sacudindo-se e tentando acertá-la com a grande cauda, mas a alfa se manteve firme no lugar. Agarrando-se ao pelo embaraçado, ela conseguiu chegar até a nuca. Cravou os dentes afiados na carne. O gato do mato rugiu e se empinou nas patas traseiras, deixando seu abdome exposto.
— Agora, Majestade! Rasgue o ventre dele! – Ela conseguiu gritar.
Os goblins bradaram seu incentivo ao mesmo tempo em que Adrian, Ricard e Edwin, que estavam naquele momento tentando atingir o gato do mato nas orelhas, ofegavam e arregalavam os olhos em horror. Sunny e Pareh, que tentavam controlar Lizzie, empalideceram. Roland, ainda chamando pela mosca, pareceu prestes a vomitar. E Marianne engoliu em seco, os punhos muito trêmulos, sua expressão divida entre nervosismo e resignação ante a cena horrível de carnificina que presenciaria.
Bog se atentou a tudo isso enquanto avançava, seu cetro erguido acima de sua cabeça para o golpe derradeiro. Seus instintos predatórios clamavam por carne e sangue; o gato do mato era uma ameaça a seus súditos, sua mãe e a sua companheira, então precisava ser abatido. O gato do mato era carne fresca que alimentaria seu povo e garantiria mais algumas semanas de sobrevivência enquanto a crise não era resolvida. Carne fresca e suculenta que ele não colocava na boca há semanas. A fome dominou seus pensamentos pelo momento, o pensamento racional dando lugar à selvageria desvairada. A névoa vermelha cobriu sua visão. Por um instante ele só conseguiu pensar em abrir o ventre do gato do mato e deixar que suas entranhas se espalhassem pelo chão, um banquete para saciar a fome de todos...
“... horror...”
“... vi nada igual...”
Bog travou em pleno ar, o cetro a meio caminho de distância de seu alvo.
“... podia ter nos matado...”
Ele se viu novamente no Festival da Colheita, o frio vento noturno soprando contra sua carapaça em chamas, o sangue quente e com sabor de ferro e sal descendo por sua garganta, os guinchos da coruja acompanhando os gritos apavorados do povo do Reino das Fadas...
“... achei que ele ia devorar...”
“... pior que a coruja...”
Seus punhos tremiam com violência, mas não de descontrole. Um terror indizível foi subindo por seu peito, esguio e traiçoeiro como uma serpente. Não, não, ele não queria que a névoa vermelha voltasse, porque quando a névoa vermelha vinha, ele se perdia. Ele não era ele. Ele se transformava em um...
“... animal descontrolado...”
Balançou a cabeça em pânico, tentando espantar a névoa vermelha, tentando se ancorar à sanidade. Não queria se perder outra vez, não queria voltar a assustar Sunny e os outros, não queria nunca mais ver Marianne olhando para ele com os olhos cheios de temor. Não queria perde-la outra vez. Não queria se transformar em um...
“... Monstro...”
Então uma coisa enorme e pesada o atingiu na lateral do corpo com a potência de uma avalanche.
— BOG!!! – Marianne e Griselda gritaram em pavor ao verem o gato do mato, ainda se empinando, acertar o Rei do Pântano com uma das patas dianteiras. Ele foi arremessado contra um tronco de árvore, batendo contra a superfície dura com um baque nauseante. Bateu em um galho mais baixo durante a queda, caindo no chão com outro baque. O cetro escapou de suas mãos e quicou para longe. As asas de vespa trepidaram debilmente por um segundo, e ele não mais se mexeu.
Poppy praguejou para a clareira inteira escutar. Os goblins gritaram, chamando em pânico por seu rei. O gato do mato voltou a se sacudir, erguendo as ancas no ar e escoiceando, e a líder do clã dos rochedos não conseguiu mais se manter no lugar. Girou quase graciosamente e conseguiu pousar com muito mais leveza do que Bog, os dentes afiados trincados em nervosismo.
— Vão ajudar o Rei do Pântano, rápido! – Ela gritou para ninguém em particular, e Stuff e Thang imediatamente correram em direção ao seu chefe, ziguezagueando para evitar as patas do gato do mato que ainda sapateava – Continuem atacando-o, não é hora para se distrair! – Ordenou aos subordinados, que voltaram a avançar contra o enorme animal. Voltou-se então para Sunny e Pareh – E deem um jeito nesse lagarto! Ele está mais atrapalhando do que ajudando!
— Estamos tentando, mas ela não ouve! – Pareh gritou de volta, erguendo os braços na frente da cabeçorra de Lizzie enquanto chamava: – Calma, garota! Tá tudo bem, não se apavore! Sunny, me ajuda aqui!
Sunny não estava escutando. Parara a meio caminho de tentar voltar a montar o lombo de Lizzie e observava de olhos arregalados o estranho cabo-de-guerra que Marianne e Griselda tinham iniciado: a princesa alçara voo e fizera menção de disparar na direção de Bog, mas a goblin a agarrara pelos tornozelos e agora tentava puxá-la de volta ao chão.
— Me larga, Griselda! Eu tenho que ajuda-lo, ele precisa-
— Stuff e Thang já foram até lá! Não tem nada que você possa fazer, menina, não seja teimosa-
Ocupadas em vociferar uma para a outra, elas não haviam percebido que Roland estava naquele momento fazendo mais uma tentativa de escapar. Ele sacudia os braços no alto e pulava, sinalizando para a mosca que ele chamara de Frida.
— Aqui, meu botãozinho de rosa! Eu estou aqui! Venha, vamos dar no pé, deixe esses malucos se virarem com o gato do mato!
A mosca, que sobrevoava a clareira, pareceu revirar seus olhos compostos, mas mergulhou na direção do ex-capitão da Guarda Real com as patinhas estendidas.
— Ei, ei! Ele está tentando fugir! – Sunny exclamou, saltitando enquanto apontava para Roland e a mosca – Marianne! Ele está tentando...
Logo percebeu que Marianne não o ouviria. Estava preocupada demais com Bog e ainda tentando escapar das garras de Griselda, chegando a arrastá-la por alguns centímetros enquanto batia as asas. O elfo olhou de um lado para o outro, procurando desesperadamente por alguém que pudesse deter a fuga da única esperança que tinham de revelar toda a verdade por trás da crise, mas estavam todos ocupados em tentar dar cabo do gato do mato...
Foi então que o Diabinho saltou sobre sua cabeça. Soltou um gritinho assustado e quase caiu para trás, mas o pequeno demônio não o estava atacando. Usando sua cabeça como ponto de apoio, ele se impulsionou para frente, dando um grande salto e indo cair a poucos centímetros dos pés de Roland. O loiro, distraído enquanto se agarrava às patas da mosquinha, só percebeu sua aproximação quando já era tarde demais.
— Argh! Seu monstrinho filho de uma... – Ele gritou em dor e raiva quando o Diabinho saltou sobre seu rosto e enterrou as garras em seu escalpo. A mosca zumbiu alto em aflição e bateu as asinhas mais freneticamente, levantando Roland a alguns centímetros do chão. O loiro ainda se debatia, tentando se livrar do persistente Diabinho, e a mosca estava tendo dificuldades para subir mais no ar, tendo que carregar uma carga tão pouco colaborativa. Foi aí que Sunny teve a ideia.
— Pareh! Sai do caminho! – Ele gritou enquanto corria na direção do amigo, que ainda tentava acalmar Lizzie. Confuso, mas satisfeito com a perspectiva de se afastar das patas pesadas do lagarto, Pareh saltou para trás ao mesmo tempo em que Sunny se posicionava atrás do quadril bamboleante do animal. Pulou para evitar a cauda que chicoteava o ar e ergueu a mão direita.
— Me desculpe por isso, Lizzie. Iá!
Lizzie rugiu em choque quando a mão espalmada de Sunny bateu com força em seu traseiro. Disparou a toda pelo gramado em desorientação, derrubando todos os goblins que estavam em seu caminho. Adrian, Ricard e Edwin foram capazes de prever o que iria acontecer a seguir e imediatamente voaram para o mais longe possível do gato do mato. Poppy, que mais uma vez tentava chegar ao lombo do felino ao escalar suas patas traseiras, não teve a mesma sorte.
O corpo de Lizzie trombou com as patas dianteiras do gato do mato com um baque surdo, pelos contra escamas. Os dois enormes animais bramiram em ultraje, perdendo o equilíbrio e capengando para o lado. Os goblins ao redor correram desabaladamente em todas as direções para evitarem ser esmagados. Quase ninguém ouviu Poppy gritar ao ser atirada ao chão sem a menor cerimônia, bem entre o gato do mato e Lizzie. Mas o intento de Sunny fora atingido. A cabeçorra do gato do mato tombou para o lado, bem na direção de Roland e da mosca, que estavam conseguindo se elevar mais e mais mesmo com o Diabinho atrapalhando. A mosca soltou um zumbido agudo que poderia muito bem ser um grito e largou Roland automaticamente. O loiro guinchou, batendo a asa esquerda inutilmente enquanto desabava em direção ao chão. O Diabinho saltou de sua cabeça e rolou para o lado assim que atingiu o solo, enquanto Roland caia com as costas chapadas no gramado.
Naquele momento, Lizzie e o gato do mato perderam de vez o equilíbrio, tombando para o chão em uma confusão de patas e caudas. Ouve gritaria enquanto goblins remanescente corriam para sair do caminho, alguns perguntando por Poppy aos brados. O estrondo dos dois enormes corpos atingindo o solo ecoou por toda a clareira, o que não só pareceu enfim chamar a atenção de Marianne e Griselda, como também despertou Bog.
O Rei do Pântano abriu os olhos já desejando que não o tivesse feito; sua cabeça rodava e doía feito o diabo. Rosnou em dor e confusão, dando um ligeiro pulo de susto ao sentir dois pares de mãos pressionando seu peito e o mantendo no chão.
— Majestade, tente não se mexer muito. – Ouviu a voz grave de Stuff – A pancada em sua cabeça foi bem feia.
Agora mais consciente das outras dores no restante de seu corpo, Bog xingou baixinho ao sentir um filet de sangue escorrendo pela lateral de seu rosto e por sua narina direita. O desgraçado do gato do mato o pegara de jeito. Se não fosse por seu exoesqueleto, ele provavelmente teria quebrado metade de seus ossos. Rolou de modo a ficar de bruços, ignorando os protestos de Stuff e Thang. Ainda estava muito tonto, sua visão se recusando a entrar em foco. Só conseguia distinguir a forma gigante e peluda do gato do mato e uma massa verde se embolando junto a ele. Ouvia os gritos de seus subordinados e dos de Poppy, além dos dos elfos, das três fadas, os de sua mãe e Marianne... Mas nenhum era mais alto que o grito estridente soltado pelo imbecil responsável por toda aquela confusão.
O grito de Roland teria sido capaz de quebrar vidraças. Ninguém poderia culpa-lo, porém, considerando que agora estava cara a cara com o gato do mato, que desabara bem na sua frente. Os imensos olhos verdes piscaram duas vezes ao focalizarem em seu rosto. As pupilas se dilataram, e ele sabia que o maldito monstro o reconhecera. Sentiu o bafo quente do animal quando ele inspirou e imediatamente se ergueu, arreganhando os dentes enormes que gotejavam saliva. Roland assistiu, branco feito cera, quando ele abriu a bocarra. E foi nesse instante que Frida mergulhou e se colocou diante dele, zumbindo furiosa. Um pequeno furo se abriu na região onde deveria estar sua boca e um comprido apêndice se desenrolou de dentro dele. O apêndice se sacudiu até entrar em uma das enormes narinas. O gato do mato silvou de dor e raiva e sacudiu a cabeça. Focalizou a atenção completamente na mosca, que aproveitou o momento para zumbir raivosa para ele e mudar de direção, fugindo rapidamente.
— Frida, não! – Roland gritou, mas já era tarde. Bufando, o gato do mato disparou atrás dela, suas passadas fazendo o chão tremer. Logo tanto ele quanto Frida haviam desaparecido por entre as árvores, os ecos da perseguição sumindo ao longe.
O silêncio que se seguiu era quebrado apenas pelas respirações ofegantes de todos e pelos apelos sofridos de Roland, que tentava se erguer, fazendo menção de correr na direção em que o gato do mato seguira. Foi imediatamente impedido por Adrian, Ricard e Edwin, que o cercaram com as espadas apontadas para seu rosto. Sunny e Pareh finalmente conseguiram acalmar Lizzie, ajudando-a a se erguer enquanto davam palmadinhas em sua cabeçorra. Os goblins do clã dos rochedos correram para ajudar Poppy, ainda estirada no chão, tendo aparentemente sido jogada de um lado para o outro entre os animais destrambelhados. E Marianne finalmente conseguiu se livrar de Griselda, voando desembestada para onde Bog estava. Colidiu com o peito dele quando o rei goblin já tinha conseguido se erguer, fazendo com que outra vez fossem parar no chão.
— Seu idiota! Você quer me matar do coração?! – Ela bronqueou furiosa, mas os beijos que distribuía pelo rosto dele acabavam estragando o efeito – Você está bem? Se machucou muito?
— Não, mas você vai quebrar uma ou duas das minhas costelas se continuar me apertando assim. – Ele ofegou, embora sorrisse abobalhado ante os carinhos dela. Rosnou ameaçador quando Stuff e Thang colocaram os punhos nas bocas para sufocar risadinhas. Marianne balançou a cabeça, ainda pálida pelo susto, mas agora aparentando uma zanga genuína.
— Mas o que foi que deu em você? Por que parou no meio do ataque? Você poderia ter liquidado o gato do mato naquele instante!
As palavras faltaram ao Rei do Pântano. Lembrou-se na mesma hora dos motivos de sua hesitação e sentiu a vergonha e a raiva de si mesmo queimarem dentro de si, causando-lhe um rubor que fez Stuff e Thang franzirem as sobrancelhas. Viu Griselda correndo em sua direção, o rosto retorcido em uma fúria materna justificada, e ele se perguntou se conseguiria explicar suas ações sem parecer um perfeito idiota. Seus pensamentos foram interrompidos quando Roland voltou a bramir como um animal ferido, lutando contra os braços de Adrian, Ricard e Edwin, que o mantinham ajoelhado no chão.
— Renda-se de uma vez, Sir Roland!
— Não! Vocês não entendem! – Ele gritou desesperado, lançando a Adrian um olhar suplicante que desconcertou o conselheiro – Frida não vai poder continuar fugindo do gato do mato para sempre! Há semanas ele vem nos perseguindo, uma hora ele vai-
— Semanas? Espere um minuto! – Bog exclamou de repente, sobressaltando sua companheira, mãe e seus dois lacaios – É você? Você é a criatura que o gato do mato tem perseguido?
Roland parou de se debater, ficando imediatamente tenso.
— Hein? Que história é essa?
— O gato do mato entrou na Floresta Sombria pelo norte há algumas semanas, perseguindo uma criatura errante. – Foi Poppy quem respondeu o questionamento da princesa. Seu rosto manchado de sangue estava contraído numa indignação encabulada, denotando seu orgulho ferido pela gafe de minutos atrás – Só pudemos deduzir que era alguma coisa minimamente inteligente, já que estava apagando seus rastros e consequentemente guiando o gato do mato para as regiões habitadas da Floresta.
— Não foi de propósito! Frida e eu só queríamos despistar o monstrengo, não pretendíamos- epa!
Roland tapou a boca com as mãos, percebendo tarde demais que dedurara a si mesmo na cara dura. Pareceu ficar ainda mais consciente de cada par de olhos pregado em sua nuca.
— Então foi você! Você atraiu aquele monstro para nossas terras! – Um dos goblins do clã dos rochedos gritou, apontando para o loiro como se o amaldiçoasse. Adrian, Ricard e Edwin precisaram fechar ainda mais o cerco em volta dele quando todos os goblins fizeram menção de avançar, as lanças, clavas e punhos se erguendo junto a rugidos enraivecidos.
— Não! Vocês não podem linchá-lo! – Marianne exclamou, para logo depois acrescentar: – Bem, pelo menos não agora. – Os cantos da boca dela tremeram quando Bog riu alto e Roland soltou protestos esganiçados.
— Isso aí! A boneca aqui precisa levar a mariposinha de volta ao Reino das Fadas, então façam o favor de colaborar. – Poppy declarou. A princesa e o rei dos goblins se voltaram para ela, estupefatos.
— Que negócio é esse? Até quinze minutos atrás você estava resoluta em manter posse dele!
— Há! E o que é que eu poderia fazer com o cabeça-de-traça que ajudasse nossa Floresta e o tratado entre os dois reinos de alguma forma? – Poppy revirou os olhos, e Marianne e Bog se entreolharam em espanto quando ela abriu um enorme sorriso, divertindo-se com o efeito que provocara – Mas ainda assim eu precisava ver com meus próprios olhos qual era a da fadinha que conseguiu colocar o Rei do Pântano num cabresto, e essa foi a única ideia que me surgiu.
— Qual era a da... Espere aí! – A voz de Marianne estava esganiçada pelo choque – Você... toda aquela marra e as provocações... você estava me testando?!
— As afrontas, o sarcasmo... tudo aquilo foi proposital? Sua intenção desde o começo era lutar com Marianne? – O queixo de Bog estava tão caído que quase tocava seu peito – Por quê? O que você pretendia ganhar com isso?
— Nada. Como a docinho mesma disse, só estava fazendo um teste. – Ela meramente deu de ombros – Você sabe, Majestade, que eu sempre fui de acordo com seus planos de diplomacia. Sempre acreditei que uma aliança mais duradoura com o Reino das Fadas poderia trazer muitos benefícios à Floresta Sombria, e quando chegou ao conhecimento do povo que você havia iniciado um relacionamento com uma fada, a princesa herdeira do trono de nossos vizinhos, eu vi aí a oportunidade perfeita para colocar esses planos em prática. Mas como você pode imaginar, eu não conseguia compreender mais do que meus companheiros de conselho o que você poderia ter visto de tão interessante em uma fada ao ponto de se apaixonar. Cheguei a pensar que tudo não passava de um estratagema político para cimentar uma aliança, mas vendo suas reações ante as ofensas dos outros alfas, não consegui pensar em nenhuma outra explicação. Ela realmente te tem na palma da mão. – Ela ladrou uma risada – E eu tinha que ver para crer, entende? O que havia de tão especial nessa fada em particular para fazer com que nosso rei abrisse mão da política anti-amor? Será que valeria a pena oficializar um acordo de paz com um reino que mal conhecíamos e cujos habitantes não tínhamos em alta conta? A futura rainha seria capaz de honrar um tratado de tais proporções e provar que seu povo seria um aliado digno? – Ela então se voltou para Marianne com um sorriso surpreendentemente amistoso – Você respondeu a todas essas perguntas durante nossa luta, boneca. Você não abaixou a cabeça, deu a cara a tapa e lutou pelo que achava certo, mesmo sabendo que suas chances de vencer eram mínimas. Eu tive que me segurar um bocado, mas valeu a pena. Nós goblins admiramos essas características. Se todos os guerreiros de seu reino forem como você, então nossos povos só têm a ganhar com uma aliança...
Marianne já não estava mais ouvindo. Ficara surda até mesmo aos elogios de Poppy, encarando o chão sem realmente enxerga-lo. Suas pernas e braços haviam ficado dormentes, uma sensação nauseante de choque e humilhação se espalhando por cada célula de seu corpo. Poppy... ela havia se segurado? Tinha pegado leve? Ela poderia tê-la nocauteado a hora que bem entendesse? Tudo aquilo não passara de um teste, como se ela estivesse avaliando os progressos de uma criança promissora?
Aquela conclusão foi um baque violento em seu orgulho como guerreira. Todos os seus esforços, todas as horas que passara treinando e se fortalecendo, todas as pancadas que levara e que ainda doíam, nada daquilo teria feito diferença se sua adversária não tivesse se contido? Sua espada pareceu pesar meia tonelada em seu punho trêmulo. Ficou ainda mais consciente de sua compleição frágil, da diferença absurda de forças entre fadas e goblins. Será que Bog pegava leve com ela quando duelavam, também? Não, ela não suportaria se fosse esse o caso...
— ... aprontar tudo para que partamos à caminho dos rochedos.
— Hein? – Marianne ergueu a cabeça, a frase desconexa voltando a chamar sua atenção. Bog e Poppy discutiam acaloradamente, mas voltaram-se para ela ante seu questionamento. Bog parecia muito tenso, como se estivesse se esforçando para conter um assomo de raiva.
— Poppy disse que precisamos nos dirigir à residência do clã dos rochedos antes que partamos para o Reino das Fadas.
— Hã? Por quê?
— O Rei do Pântano não pode tomar nenhuma decisão definitiva sem ouvir o parecer do conselho dos alfas. Então vamos cuidar disso antes de qualquer coisa. – Poppy declarou.
— Mas não temos tempo! Temos que voltar antes que escureça, vai demorar demais até que todos esses goblins sejam reunidos-
— Não vai. Eu já cuidei de tudo isso. – A matriarca cruzou os braços – Pedi por uma audiência com o conselho há alguns dias. Há essas horas, eles já devem estar a nossa espera. Discutiremos o problema da crise e as possibilidades de uma aliança quando chegarmos lá.
Bog limitou-se a bufar em desagrado antes de se voltar para o grupo que os rodeava, estufando o peito, outra vez o rei imponente.
— Amarrem esse imbecil para que não fuja e entrem em formação! Vamos sair daqui antes que o gato do mato resolva voltar. E tentem ter alguma compostura. – Ele apertou a ponte do nariz com os dedos em um gesto cansado. – Temos todo um conselho para tentar convencer.
O chiado apavorado de Roland foi o único som que se ouviu.
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