Garras e Presas

17 Capítulo 17


A sede do clã dos rochedos localizava-se na mesma cadeia de formações rochosas onde estava a nascente contaminada, embora estivesse a alguns quilômetros afastada. Era o conjunto habitacional de goblins mais próximo da fronteira. A caminhada até lá era relativamente curta, mas foi ocasionalmente interrompida pelos escândalos que Roland fazia a cada cinco minutos e que obrigavam a comitiva a parar para colocá-lo em seu lugar.

— Vocês não podem fazer isso comigo! Eu não lhes dou esse direito! Eu fui seu capitão! – Ele grasnava melindrado para Ricard e Edwin, que se limitavam a trocar olhares exasperados e nem se dignavam a respondê-lo. Ele se sacudiu novamente sobre o lombo de Lizzie, lutando contra os pedaços de cipó que mantinham seus pulsos e tornozelos unidos, o que lhe dava a aparência de um animal que fora caçado vivo e que estava se recusando a cooperar – Ei, ei, Sandy!

— É Sunny.

— Você não pode deixar que me tratem assim. É uma violação dos meus direitos.

— O único direito que você tem é o de ficar com a boca fechada. – Marianne rosnou para ele. Roland revirou os olhos para ela com um sorrisinho debochado.

— Marianne, querida, não é uma atitude muito madura descontar suas frustrações num pobre prisioneiro que sequer pode revidar sem ter sua integridade ameaçada. Não seja uma má perdedora e simplesmente admita que você não foi páreo para a bruaca chifruda.

Bufando furiosa, Marianne fez menção de agarrar o cabo de sua espada, mas a mão de Bog em seu punho a impediu.

— Ignore-o. Não vale a pena gastar saliva com esse saco de titica. – Ele então se voltou para Stuff e Thang – Arrumem um pedaço de pano e amordacem-no. Ninguém merece ter de ouvir a lenga-lenga insuportável dele por mais de cinco minutos.

Os protestos de Roland foram calados quando Stuff amarrou um lenço sujo em sua boca, dado por Adrian, que lançou ao Rei do Pântano um olhar de agradecimento. Mais à frente, pode-se ouvir distintamente a risadinha de Poppy.

— Heh. Bruaca chifruda. É a primeira vez que ouço essa.

A líder do clã dos rochedos parecia muitíssimo bem-humorada para alguém que tivera o nariz quebrado há menos de meia hora. Dois de seus subordinados haviam-na ajudado a colocá-lo de volta no lugar e a limpar o sangue de seu rosto, e agora ela ostentava dois impressionantes hematomas logo abaixo de seus olhinhos de contas. Não que Marianne pudesse se gabar por ter sido a causadora desses espólios; seu olho esquerdo estava tão inchado que ela mal conseguia abri-lo, sem contar todas as dores em sua cabeça e no restante de seu corpo. Estava tendo dificuldades para andar, manquitolando feito uma velha, mas recusara terminantemente a ajuda de Bog, de Griselda ou de qualquer outro. Pretendia preservar o mínimo de dignidade que lhe restara, muito obrigada.

A boa disposição de Poppy só estava servindo para deixar Marianne ainda mais frustrada e irritadiça. Talvez Roland tivesse razão: talvez ela estivesse mesmo descontando seu desgosto no primeiro pobre coitado que ousasse testar sua paciência, mas não conseguia evitar. Fora jogada de um lado para o outro como um saco de batatas, deixada de lado durante o embate contra o gato do mato feito uma inútil e, como se isso tudo não bastasse, descobrira que sua adversária se segurara durante a luta unicamente para testá-la, como se ela fosse uma cobaia cuja única função era satisfazer a curiosidade de uma goblin arrogante. A sensação de desamparo com a qual precisara conviver durante todo o mês anterior ameaçava voltar com força total, e ela precisava abraçar o próprio tronco como se isso fosse tudo o que pudesse fazer para não despedaçar diante da pressão.

Não era justo que Poppy estivesse toda risonha e satisfeita consigo mesma enquanto ela precisava lidar com dores e todo aquele constrangimento! Não fora levada a sério e ainda precisava se sentir orgulhosa por aparentemente ter provado um ponto? Ela não era um experimento! Não era justo que a usassem para medir o valor de seu povo pela régua de outros! Se não tivesse respondido às expectativas de Poppy, isso automaticamente tornaria a ela e a todos residentes do Reino das Fadas indignos de receber uma proposta de aliança? Mesmo a perspectiva de conseguir o apoio dos outros clãs da Floresta Sombria agora a deixava com um gosto amargo na boca. Sentia-se tratada como um animalzinho razoavelmente esperto e que merecia ganhar um agrado por ter feito o truque que lhe fora ensinado. E aquilo estava começando a envenenar outras de suas certezas, anteriormente inabaláveis. E se Bog também se contivesse quando ambos duelavam? Queria perguntar e exigir que ele fosse sincero, mas tinha muito medo da resposta...

— Aqui estamos. – A voz de Poppy a tirou de seus pensamentos tormentosos – Sejam bem-vindos à sede do clã dos rochedos, nosso lar, doce lar.

Afastando para o lado algumas folhas de tumbérgia azul, Poppy e seus subordinados guiaram o grupo para dentro de outra clareira, esta ainda maior que a anterior. Não havia sinais de barracas, tocas ou qualquer tipo de construção no solo, porém. Olhando para o enorme paredão a frente pode-se ver, coladas a sua encosta áspera, dezenas de construções de tamanho médio que lembravam ninhos de joão-de-barro. Ao lado de cada casinha, haviam saliências cobertas de musgo que pareciam ser degraus, formando diversos caminhos ziguezagueantes que iam até a casa mais próxima ou até o chão. Marianne, Sunny, Pareh, Adrian, Ricard e Edwin soltaram juntos exclamações de admiração; era extremamente difícil fazer construções em pedra, e aquelas simples casinhas de barro aparentavam uma firmeza impressionante. Os goblins do clã dos rochedos sorriram encabulados ante a aprovação e Poppy e Griselda estufaram os peitos em orgulho.

— Impressionante, não é? Nós mesmos esculpimos as pedras para formar os degraus e usamos barro, palha e pedaços de galho para fazer nossos ninhos. Depois que eles endurecem, nem uma tempestade consegue desmanchá-los.

— Oh, eu lembro da primeira vez em que construí meu próprio ninho. – Griselda comentou animadamente – Para um goblin do clã dos rochedos, é um orgulho ser capaz de construir sua própria casa e vê-la resistindo a desastres naturais. Você se lembra quando eu te trouxe aqui para uma visita, Bog? Quando você era só um filhotinho? Você ficou tão empolgado que pediu que eu te ensinasse a fazer seu próprio ninho.

— Mãe, agora não...

— Você fez uma casinha de barro no alto de um carvalho e se recusou a sair de lá por duas semanas inteiras. Eu tinha que ficar te levando comida e sempre escondida do seu pai, que queria que você aprendesse a se alimentar por conta própria. Deixe-me dizer a vocês, era a coisa mais adorável do mundo vê-lo botar a cabecinha para fora do ninho quando eu o chamava para comer!

— Mãe!

— É uma pena que aquele carcaju tenha destruído o ninho quando escalou para apanhar aquela colmeia. O Bog estava lá dentro na hora e pelos deuses, que gritaria dos diabos foi aquela...

— Já chega, mãe! – Bog rosnou, o rosto enrubescendo em humilhação enquanto todos riam.

— Não precisa se envergonhar, Majestade. O meu primeiro ninho também não ficou bem construído e despencou paredão abaixo. Lyra pode contar a vocês, mas não agora. Temos trabalho a fazer. – Poppy então se voltou para um de seus subordinados, um goblin dentuço e de garras grandes e sujas – Humbert, soe o alarme.

Assentindo, Humbert fechou as mãos em concha sobra a boca e soltou um bramido grave e trepidante que ecoou por toda a clareira. Dois segundos depois, várias cabeças de goblins apareceram nas aberturas dos ninhos de barro, espiando o grupo lá embaixo com desconfiança.

— Somos nós. O Rei do Pântano está nos acompanhando para ter com o restante dos alfas. – Poppy anunciou – E também trouxemos visitantes de fora. A princesa Marianne do Reino das Fadas e alguns de seus súditos.

Marianne só pode arquear uma sobrancelha ante o tom formal da matriarca. Os goblins no paredão imediatamente abandonaram seus ninhos e desceram em disparada pelos degraus de pedra. Eles nem sequer calculavam os passos; até os filhotes pareciam ter um enorme senso de equilíbrio, e a princesa se pegou invejando-os. Finalmente saltaram para o chão e correram para a comitiva, os olhos cintilando em curiosidade. Logo as quatro fadas e os dois elfos se viram bombardeados pelas perguntas dos aldeões irrequietos.

— Então essas são as fadas?

— Olhem o tamanho dessas asas!

— Como conseguem se camuflar com essas coisas enormes e coloridas?

— É verdades que vocês dormem em flores? Isso não é muito prático.

— E esse elfo aqui? Tão pequenininho, parece até um dos meus bebês.

— Vocês moram em cogumelos ou em tocas no chão?

— Olhem só para essas orelhas!

— Chega! Deixem-nos respirar! – Uma fêmea do grupo se manifestou, sacudindo a cabeça em exasperação. Marianne tomou um susto ao vê-la. Por um segundo, ela achou que se tratava da garota que fora o primeiro amor de Bog; a semelhança era desconcertante. Mas suspirou em alívio ao se dar conta de que não era a mesma goblin: a pele desta era acinzentada, não esverdeada, e seus olhos eram de um bonito tom de avelã. Ela gentilmente afastou dois filhotes que estavam naquele momento puxando as orelhas de Sunny e encaminhou-se até o grupo, sorrindo calorosamente como uma verdadeira anfitriã.

— Sejam bem-vindos. – Ela então fez uma reverência a Bog – Espero que não tenham encontrado dificuldades em sua caminhada até aqui, Majestade.

— Demos de cara com o gato do mato.

— Oh, pelos espíritos! E vocês estão bem?

— Na medida do possível. Ah, e obrigado pela hospitalidade, Lyra. – Bog grunhiu quando Griselda lhe deu uma cotovelada nos quadris. Ele então estendeu o braço na direção de Marianne – Esta é Marianne, princesa e futura rainha do Reino das Fadas, e também minha companheira.

— Oh sim. A famosa fadinha do Rei do Pântano. – Ela constatou, e Marianne sentiu aquela mesma indignação ante a alcunha – É um prazer conhece-la. – Ela estendeu a mão num gesto amigável, ao que a princesa aceitou meio a contragosto – Meu nome é Lyra, Alteza. Sou a companheira de Poppy. E... bem, acho que vocês já foram apresentadas. – Ela acrescentou, arqueando um supercílio ao mirar seu olho inchado. Voltou-se para Poppy e arregalou os olhos ao se deparar com o estado de seu nariz – O que foi que você aprontou?

— A boneca e eu caímos na porrada. Foi divertido.

— Pelos espíritos, não posso deixar você sozinha por cinco minutos! – Ela bronqueou, dando um safanão no ombro de Poppy. A alfa soltou um silvo de dor e fez um beicinho amuado. Marianne arregalou os olhos em espanto, bem como seus conterrâneos, mas aquela parecia ser uma ocorrência normal por ali, considerando como todos os goblins caíram na risada – O que é que você tem na cabeça para se engalfinhar com a futura rainha do reino vizinho e companheira do nosso rei? Quer ser executada por alta traição?

— Eu só estava tirando algumas dúvidas, amor. E docinho aqui se mostrou bem disposta a responder. Você tinha que ter visto, foi um arranca-rabo do cara-

— Chega! Não quero mais ouvir! – Lyra a interrompeu. Voltou-se novamente para Marianne com uma expressão envergonhada. – Sinto muito por isso, Alteza. Minha companheira é incapaz de manter esses punhos junto ao corpo e essa língua diabólica dentro da boca.

— Ora, não finja que você não gosta. – Poppy gracejou, sacudindo sua língua languidamente para Lyra.

— Poppy! – Ela gritou, dando outro tapa em seu ombro, embora parecesse estar se esforçando para segurar o riso. Todos riram ainda mais, e desta vez Marianne não resistiu e acompanhou. A recepção calorosa e o clima de família que cercava aquele clã estavam conseguindo penetrar as nuvens de seu mau humor.

— O papo está muito bom, mas viemos aqui com um objetivo. – Griselda se manifestou. Bog assentiu.

— Sim. Fomos informados de que os outros alfas estão aqui, a nossa espera.

— Poppy os convocou há alguns dias. Ela planejava comparecer a sua corte com um pedido formal, Majestade, mas foi muita sorte encontra-los em nosso território. – Lyra indicou um ponto adiante no paredão. Depararam-se com a única construção de barro ao nível do chão, maior e mais espaçosa que as outras, cujo interior parecia dar para uma espécie de caverna que adentrava a pedreira – Eles já estão a sua espera.

— Como estão os ânimos, Lyra?

— Não muito bons. Sabir e Beladona estão furiosos, mas quem não ficaria depois de ter membros dos seus clãs devorados? Agamenon não para de reclamar de dor nas costas e Paris diz que não vai ser capaz de suportar outra reunião dessas sem álcool no sangue. Bane e Arnica não compareceram.

— É bom mesmo que ele não tenha vindo. – Bog rosnou – Não sei o que eu seria capaz de fazer se o visse de novo.

— Então esse foi o cara que você tentou matar. – Marianne comentou casualmente. Sunny, Pareh, Adrian, Ricard e Edwin trocaram olhares escandalizados. Que diabos de reuniões eram essas que terminavam em tentativas de homicídio?

— Vamos tentar não matar uns aos outros desta vez, Majestade, fazendo o favor. O senhor não faz ideia do trabalho que me deu convencer essa velharada a comparecer.

— Farei o meu melhor, mas não prometo nada.

— Relaxa. Você segura e eu bato. – Marianne brincou, socando a palma de sua mão esquerda e fazendo Bog rir – Falando sério, é melhor irmos até eles de uma vez, não?

— Eles não vão ficar muito felizes de ver uma forasteira participando da reunião, ainda mais uma fada...

— Olha a minha cara de preocupada. – A princesa revirou os olhos – A questão da crise diz respeito ao meu reino também. Não poderemos resolvê-la se não trabalharmos juntos, então eles terão que aceitar meu parecer, gostem disso ou não.

— Eu irei também. Como conselheiro real, é minha obrigação dar assistência à minha princesa em tratados com outros reinos. – Adrian declarou pomposamente.

— Então contem com nós. – Sunny disse. O Diabinho esbugalhou os olhinhos para ele – Quê foi? Somos nós dois que podemos explicar melhor a causa da crise e a que pé ela anda. Eu também não fico feliz com a ideia de ficar preso em uma caverna escura com um monte de goblins raivosos, mas o dever vem primeiro. Anda, não seja covarde. – Decretou, agarrando o Diabinho pela cauda e o puxando em direção à caverna.

— Falando em covardia, estamos nos esquecendo de alguém.

Marianne e Bog sorriram maldosamente um para o outro antes de se voltarem para Roland, que choramingava enquanto tinha diversos pares de mãos apertando seu nariz e puxando suas orelhas.

§ § §

— Alguém faria a gentileza de explicar que diabo está acontecendo aqui?

A pergunta mal-humorada de Sabir foi acompanhada de rosnados indignados, soltados pelos outros alfas presentes à enorme mesa tosca de madeira.

Como Poppy previra, os demais goblins não ficaram nem um pouco satisfeitos ao descobrirem que teriam a presença de três fadas, um elfo e um demônio peludo em sua reunião particular. Já não estavam especialmente animados com a perspectiva de engajarem em outro debate com o Rei do Pântano, e quando souberam que ele viria acompanhado de convidados de fora, esse animo só minguou ainda mais. Marianne via, com um quê de indignação, como eles se recusavam a se dirigir a ela, a Sunny e a Adrian, fazendo indagações a seu respeito a Bog e Griselda como se eles nem estivessem presentes.

— Acho que isso ficou bem claro, não é, Sabir? – Griselda respondeu antes que Bog pudesse dizer alguma coisa – A princesa Marianne, herdeira do trono do Reino das Fadas e companheira de seu rei, compareceu a esta reunião para que discutamos em conjunto os problemas que afligem nossos reinos.

— Isso nós já entendemos. O que não entendemos ainda é o que a fez acreditar que seria bem-vinda. – Beladona grunhiu em escárnio, ainda se recusando a encarar Marianne.

— Eu a convidei. Isso é tudo o que ela precisa para se sentir bem-vinda. – Bog rosnou, os olhos azuis estreitados ameaçadoramente.

— A convidou sem o nosso parecer, o que já nos mostra o quanto valoriza nossas opiniões. – Agamenon revirou os olhinhos rodeados de pés-de-galinha – E não só isso, mas também permitiu que ela trouxesse acompanhantes. Diga-me, rapaz, você faz alguma ideia do porque de essas reuniões serem reservadas unicamente aos líderes dos clãs da Floresta Sombria? Isto não é um evento aberto. E se este fosse um conselho de guerra? Tem noção de que poderíamos estar dando de bandeja aos nossos inimigos informações sigilosas e cruciais?

— Eles não são nossos inimigos, Agamenon. – Poppy se manifestou – Tirei essas dúvidas por conta própria. Eles podem não ser exatamente poderosos, mas são valentes e confiáveis. Foram de grande auxílio quando topamos com o gato do mato.

— Isso é você quem está dizendo, minha cara. – Paris resmungou sem se impressionar – Desculpe-me por minha sinceridade, mas você é suspeita para falar. Todos aqui estão cientes de que você sempre tomou partido das decisões de vida duvidosas de nosso rei. Que garantia temos de que você não está dizendo essas coisas para cair nas graças dele e ganhar regalias que nenhum de nós possui?

— Não me meça por sua régua, Paris. Nem todos são aproveitadores vendidos como você.

— Ora, como ousa-

— Acha que eu não sei sobre suas reservas de água subterrâneas? Seu clã tem escavado na tentativa de encontrar nascentes não contaminadas, mas você tem mantido isso em sigilo enquanto planeja barganhar com o Rei do Pântano. Quer trocar água limpa por alguns privilégios, não é? Acha que eu sou otária ou o quê?

O rosto de Paris passou de branco para vermelho a uma velocidade nauseante.

— Hein? Que história é essa?

— Você encontrou uma fonte de água não contaminada e não comunicou isso a nós, Paris? Como você pode?!

— Seu sovina interesseiro!

— Alta traição! Negligência para com o seu povo! Isso é punível com morte!

— Chega! Silêncio! – Bog bradou, batendo seu cetro no chão com força – Explique essa história direito, Paris! Se sua resposta não for satisfatória, não terei misericórdia.

— N-Não é nada disso, Majestade! Poppy entendeu tudo errado! – Ele balbuciou – Durante as escavações, meu clã conseguiu atingir um aquífero, mas estamos tendo que tomar cuidado, pois se escavarmos demais, os túneis serão inundados.

— E por que não fui avisado disso? É seu dever cívico deixar seu rei a par de informações como essa!

— E-Eu ia informa-lo, mas primeiro precisava ter certeza de ter encontrado uma fonte totalmente segura. N-Não queria sair espalhando informações que poderiam ser falsas, isso não seria justo com ninguém...

— Pare de se fazer de sonso! Você queria fazer acordos com o Rei do Pântano e ganhar vantagens dentro da corte!

— E quem você pensa que é para me censurar?! – Ele vociferou para Poppy, abandonando a pose classuda – Você faz amizade com fadas e elfos, apoia essa ideia absurda de aliança só para agradar ao Rei do Pântano e acha que tem alguma moral para falar de mim?

— Eu estou tentando encontrar alternativas para resolver a crise, ao contrário de vocês, que só sabem ficar reclamando e exigindo soluções enquanto coçam as hemorroidas e não tiram os traseiros gordos das cadeiras se não obtiverem algum ganho pessoal!

A gritaria que se seguiu tornou impossível distinguir alguma palavra coerente. Bog esbravejava exigindo ordem, mas nenhum dos alfas pareceu ouvi-lo em meio a balburdia. Griselda meteu a mão no rosto e balançou a cabeça de um lado para o outro, parecendo a segundos de arrancar os próprios cabelos. Sunny estava assustadoramente pálido, e ele e o Diabinho lançavam olhares furtivos à saída da caverna como se esperassem uma deixa para escapar. Adrian encarava os goblins abismado; ele nunca havia participado de uma reunião de conselho tão informal e agressiva. Marianne se perguntava se aquela seria a oportunidade para tomar parte na discussão, mas não tinha certeza se algum dos patriarcas e matriarcas se dignaria a escutá-la. Surpreendentemente, quem acabou se manifestando foi Roland.

— Oh, a ironia deste mundo. Os monstrengos que tentam fingir que são civilizados só conseguem discutir seus problemas de maneira totalmente não civilizada. Cômico, eu diria.

— Cala a boca! – Marianne rosnou para ele, imediatamente se arrependendo de tê-lo desamordaçado, mas o comentário acabou chamando a atenção dos goblins, que se voltaram para o loiro com expressões quase assassinas.

— Como é que é? Quem te deu permissão para falar, seu insetinho?

— Não há necessidade para ofensas. Damas, cavalheiros, eu imagino que já tenham notado que esta discussão não está chegando a lugar algum. Quer dizer, eu não sei com exatidão até onde chega a capacidade cognitiva de animais como vocês, mas presumo que devem ter percebido que rosnar e babar uns para os outros não é a solução mais adequada para a situação. Vocês estão tão empenhados em esfaquearem uns aos outros pelas costas que sequer perceberam que compartilham de um objetivo em comum. Qual, vocês perguntam? Ora, nenhum de vocês quer a oficialização de uma aliança.

— Cale essa boca antes que eu esmague sua cabeça! – Bog exclamou, mas Roland continuou falando.

— Vamos ser racionais e práticos. A grande maioria aqui não concorda com essa baboseira de tratado de paz e, nesse caso, nem mesmo os mandos e desmandos de seu rei farão com que mudem de ideia. Pelos deuses, isso é uma questão de força da maioria! Acreditem, senhora e senhores, eu estou do seu lado. Também não me agrada a ideia de ter de conviver com criaturas de sua laia, e estou certo de que podemos tirar algum ganho disso.

— Fecha a matraca! – Sunny e Adrian exclamaram juntos, o elfo agarrando Roland pela gola da camisa, o conselheiro apontando a espada para sua garganta. Roland engoliu em seco, mas o sorriso em seu rosto não vacilou.

— Estão vendo como sou tratado? E isso porque sou um deles. Imaginem o que acontecerá a vocês caso concordem com este absurdo. – Balançou a cabeça numa tristeza teatral – Façamos o seguinte, meus caros: se me libertarem, juro que testemunharei a seu favor. Sou uma figura de prestígio no Reino das Fadas, minha opinião é muito validada. Garanto que vocês só terão a ganhar se tomarem meu partido.

Marianne precisou se segurar para não esmurrar a boca de Roland. Que hora para se lembrar do excelente manipulador que ele era! Os alfas o encaravam com expressões insondáveis, quase parecendo levar suas palavras em consideração. Então Beladona apoiou o queixo em seu enorme punho, observando Roland com uma sobrancelha erguida.

— Figura de prestígio, você diz?

— Exato.

— Interessante. Acho que inclusive sei quem você é. Bate muito com certas descrições que ouvimos.

— Descrições?

— A notícia da demolição da antiga fortaleza do Rei do Pântano se espalhou mais rápido que fogo de palha, sabe. – Sabir comentou – Histórias sobre uma fada a serviço do rei do Reino das Fadas. Um loirinho com cara entojada e usando uma armadura verde e dourada foi aparentemente o responsável pelo desastre.

— Hã...

— E não só isso, como ele aparentemente foi capaz de colocar uma lâmina contra a garganta de uma das princesas que jurou proteger, bem como tentou drogar a outra com uma Poção do Amor.

— Mas... Mas como...

— A Fada Açucarada colocou a boca no trombone depois de ser libertada. Ela é os olhos e os ouvidos desta floresta.

— E as descrições que ela deu batem totalmente com sua aparência.

— Se você foi capaz de uma traição deste nível com um rei, o que seria capaz de fazer conosco caso você descubra que pode ganhar mais se aliando a outro lado?

O rosto de Roland ficou branco como um pedaço de pergaminho.

— Beladona, minha cara, você se lembra que me disse certa vez que sempre teve muita curiosidade em experimentar carne de fada?

— É claro, Sabir.

— Acho que essa é a oportunidade que estávamos esperando, não?

— Concordo plenamente.

Roland soltou um guincho aterrorizado quando Beladona e Sabir saltaram das cadeiras e avançaram para ele, os punhos erguidos e as presas arreganhadas. Sunny gritou e Adrian empalideceu, erguendo sua espada tremulamente, mas Marianne imediatamente entrou na frente dos três e bloqueou a passagem dos goblins, desembainhando a espada e brandindo-a ameaçadoramente.

— Nem pensem nisso!

— Marianne, não! – Griselda exclamou ao mesmo tempo em que os dois alfas rosnavam para a princesa.

— Saí do caminho, borboletinha.

— Nem sonhando!

— Por que está protegendo o homem que traiu seu pai e seu reino?

— Talvez ela ainda sinta alguma coisa por ele. É o seu ex-noivo, não estou certo? – Sabir deu uma risada sarcástica antes de se voltar para Bog – Parece que a garota não é uma companheira muito leal, não é mesmo, Majestade?

— Vai pro inferno, seu velho caquético! – Marianne rosnou antes que Bog pudesse dizer alguma coisa – Eu preciso levar esse imbecil de volta ao meu reino para provar que ele é o responsável por essa crise!

— Oi? Que história é essa?

— Não deem atenção, a pirralha só quer ganhar tempo! – Sabir rosnou para os demais alfas antes de se voltar novamente para Marianne – Saia da nossa frente se tem algum amor às suas asinhas.

— Ameace minha companheira mais uma vez e eu dou sua carcaça ao gato do mato! – Bog rugiu, mas o patriarca o ignorou completamente. Sunny e Adrian exclamaram indignados quando ele agarrou Marianne pelo braço e fez menção de puxá-la para longe de Roland.

— Eu não me repetirei. Saia do caminho ou eu juro que-

Sabir não concluiu a frase. Marianne girou a espada na mão livre, a lâmina agora próxima ao seu rosto, e acertou o nariz do patriarca com o pomo da arma com toda a força. Ele gritou de choque e agonia, soltando a princesa imediatamente enquanto apertava o nariz ferido com os dedos. Sangue vermelho espirrou, manchando todo o chão de pedra. Os demais alfas exclamaram em espanto e imediatamente se afastaram da mesa, encarando Marianne como se não acreditassem no que viam.

— Toque em mim outra vez e eu faço picadinho de você! – Ela vociferou, ofegando e tremendo com a raiva mal contida, seu músculos cansados protestando dolorosamente. Sua parte racional sabia que não devia ter agido tão impulsivamente e que o ato violento poderia lhe custar caro, mas não suportava mais ser tratada com tanto desrespeito por aqueles velhos grosseiros e preconceituosos. Já bastava que tivesse que suportar esse tipo de atitude vinda de seu próprio conselho.

— Alteza! – Adrian exclamou em sobressalto.

— Ah... É a Marianne. Dela a gente pode esperar esse tipo de coisa. – Sunny suspirou, parecendo conformado.

— Ela quebrou meu nariz! Essa desgraçada quebrou meu nariz! – Sabir rugia incrédulo, o sangue agora manchando toda a metade inferior de seu rosto. Foi então que uma sonora gargalhada se fez ouvir. Ao se virarem, se depararam com Poppy esmurrando o tampo da mesa de reuniões, o corpo inteiro se sacudindo com as risadas, as lágrimas escorrendo de seus olhinhos pretos.

— Boa, boneca! Eu mesma teria feito isso, mas não pegaria bem nas reuniões futuras. – Ela exclamou, sorrindo de orelha a orelha.

— Cala a boca, sua palhaça! Como pode achar graça nisso?! Eu estou sangrando!

— Bem feito. Quem sabe assim você deixe de ser um otário e aprenda a respeitar o espaço alheio.

— Vai se ferrar! Majestade, esse tipo de conduta em reuniões é completamente inaceitável!

Mas Bog não lhe deu atenção. Encarava Marianne com o rosto corado, os olhos muito esbugalhados brilhando em admiração.

— Uau...

Marianne corou também e, apesar dos pesares, deu uma piscadela brincalhona para seu companheiro.

— Meu rompante de violência te deixou animado, baratão?

— Muito.

— Vocês estão tirando onda com a minha cara?! – O patriarca guinchou encolerizado – Irmãos, isso não pode ficar assim! Fui atacado por uma fada em nosso solo! Isso significa guerra!

— Pare com o drama, Sabir. Enfie uns pedaços de algodão nas narinas e está tudo certo.

— Hein?!

Para o espanto tanto de Sabir quanto de Marianne, não havia um traço sequer de raiva ou indignação nas expressões dos demais alfas. O que viram ali foi assombro. Ao que parecia, sua agressividade os havia impressionado.

— Ele te tinha a mercê dele e você nem sequer pensou em pedir ajuda. – Agamenon murmurou, e não havia sido uma pergunta.

— Eu não precisava de ajuda. Sei me virar bem sozinha. – Marianne deu de ombros.

— Então quer dizer que você sabe lutar?

— E muito bem.

— Sabe usar essa espada? Não é só para fazer pose?

— Fazer pose não é comigo. – Ela revirou os olhos para Bog, que sorriu em resposta.

— Acho que eu vou mudar seu apelido. O que acharia se eu começasse a te chamar de “Marianne quebra-nariz”?

— Teria que fazer jus a ele e quebrar o seu. – Ela ergueu o punho para o rei goblin. Poppy e ele riram alto.

Os alfas pareciam sinceramente impressionados. Griselda imediatamente se sentiu esperançosa com aquilo.

— Viram, irmãos? Seus temores eram infundados. A menina é uma guerreira nata, exatamente como nós. O povo do Reino das Fadas não é fraco ou passivo. Eles são valentes e lutam por aquilo em que acreditam. Com uma aliança, todos nós só temos a ganhar.

Sabir bufou enquanto forçava seu nariz de volta ao lugar.

— Isso não prova nada. A menina pode bancar a durona, mas que prova temos de que essas fadinhas e esses elfos minúsculos podem ser de grande ajuda em uma batalha?

— Posso dar mais umas amostras gratuitas, se você quiser.

— Não me teste, pirralha. E além do mais, não temos nenhuma confirmação sobre a causa desta crise. Quem garante que todos esses males não são consequências dessas tentativas em unir os reinos? Os espíritos não ficarão felizes com mais essa afronta...

— Não tem castigo de espírito nenhum!

Os goblins se voltaram para Sunny, que soltara aquela exclamação num impulso. O elfo engoliu em seco, mas tentou criar coragem ao estufar o peito e olhar todos nos olhos.

— Não há castigo nenhum, e eu posso provar. Ou melhor, nós podemos. – Ele deu uma cotovelada no Diabinho, que o encarou com exasperação – Nós descobrimos o que é que está causando todos esses problemas e, se permitirem, nós explicaremos tudo.

Ainda admirados com o rompante de Marianne e surpresos com a súbita coragem do pequeno elfo, os alfas consentiram em lhe dar a palavra. Com a ajuda de todos que haviam visto a nascente contaminada, a verdade pode ser revelada em poucos minutos. Marianne inclusive havia guardado a pelota enlameada de cabelo como prova, e depois de minucioso exame, concluíram que aqueles eram os cabelos de Roland. O Diabinho explicou por meio de mímica como conseguiu incapacitar o loiro, saltando sobre sua cabeça e derrubando-o do alto da queda d’água, consequentemente quebrando sua asa direita e impedindo que ele continuasse a contaminar a nascente com as sementes das amoras de outono. E também revelaram que era a ele que o gato do mato vinha perseguindo por todas aquelas semanas.

— Mas que monte de asneiras! – Roland revirou os olhos, ligeiramente pálido – Vocês não vão acreditar nessas invencionices sem nenhuma prova, vão, meus caros?

Sabir, Beladona, Agamenon e Paris o encaravam com expressões confusas.

— Essa história não está muito bem contada.

— É claro que não! Não passam de lorotas! Ah, que bom que vocês não caíram nessa.

— Quer dizer, por que ele faria algo assim? O que ele ganharia tentando sabotar um reino que não é o dele?

— É exatamente isso que pretendemos descobrir. – Bog disse antes de se voltar para Roland bruscamente – Anda, desembucha! O que é que você pretendia com essa ideia imbecil?

— Sinceramente, não sei o que você quer que eu diga. Sou inocente.

Os alfas se entreolharam. De repente, Paris sorriu e disse:

— Sabem, eu também tenho curiosidade sobre como é o gosto de carne de fada.

— Então por que não descobrimos?

Roland gritou novamente quando os goblins voltaram a avançar contra ele, mas desta vez, Marianne e Adrian não fizeram nada para impedir. Sorrindo diabolicamente, Poppy o segurou com os braços para trás enquanto os outros alfas lambiam os beiços e arreganhavam os dentes.

— Não! Eu sou inocente, não podem me devorar!

— Não comemos só aqueles que são culpados, mariposinha. Comemos quando estamos com fome. E neste momento, estamos famintos.

— Não! Tudo bem, eu falo, mas tirem essas bocas nojentas de perto de mim!

Marianne concluiu que os conselheiros de Bog eram pessoas de quem ela poderia vir a gostar, eventualmente. Todos imediatamente abriram espaço e Roland se viu preso no centro do círculo, seu rosto retorcido em medo e aversão. Naquele momento, Marianne se perguntou como ela pudera um dia acha-lo bonito.

— Começa a cantar, passarinho. – Poppy rosnou para ele. O loiro soltou um suspiro trêmulo.

— Tudo bem. Fui... Fui eu quem contaminou a nascente.

Ele se encolheu e fechou os olhos com força quando todos começaram a bradar desaforos e sacudir os punhos para ele.

— Calma! Vamos nos acalmar! – Bog ordenou – Isso nós já sabemos, seu boçal. O que queremos saber é o “como” e o “por quê”.

— É uma história interessante, sabe. Sementes de amoras de outono são venenosas justamente para facilitar a polinização. Os animais as descartam no solo e assim elas naturalmente-

— Pare com as gracinhas ou eu arranco sua cabeça e a uso para jogar bilboquê!

— Tá, tá! – Roland bufou – Eu estava na periferia do Reino das Fadas na época, o que era o mais próximo que me foi permitido ficar. Fui banido do palácio e de suas redondezas depois de ser destituído de meu título de cavaleiro, então não podia ir muito longe. E sabe, Sulley-

— Sunny.

— Você teria dado uma companhia interessante. É uma pena que seu relacionamento com a pequena Dawn tenha te dado algumas regalias e te salvado de punições merecidas.

O rosto de Sunny explodiu em vermelho. Era bem verdade que escapara de uma punição mais severa graças à intervenção de Dawn e Marianne, que testemunharam a seu favor e o salvaram de um destino pior. E Roland não recebera um castigo mais rígido pelo mesmo motivo: Sunny acabaria sofrendo a mesma sentença que ele, considerando que haviam sido cúmplices no roubo da Poção do Amor. Mas graças as suas tentativas de remediar seus erros e ao seu arrependimento sincero, ele fora punido apenas com alguns meses de serviço comunitário. Estremecia só de lembrar que o banimento definitivo fora considerado, mesmo que brevemente.

— Já falei pra não colocar o Sunny no seu balaio!

— Tá, que seja. – O loiro deu de ombros – Como eu dizia, acabei entreouvindo as conversas dos civis sobre os barris de sumo de amora que estavam sendo preparados para o Festival da Colheita. Dois dos cozinheiros estavam apavorados, porém; eles haviam acidentalmente derrubado algumas sementes no riacho. Foi aí que a ideia me surgiu. Se poucas delas já fazem um estrago, o que uma grande quantidade concentrada faria? Era a oportunidade perfeita. Se alguém descobrisse a contaminação, ninguém suspeitaria de mim.

— Oportunidade perfeita para o quê?

— Bem, eu já havia aceitado que não poderia mais me tornar o monarca do Reino das Fadas. – Ele revirou os olhos para Marianne – Mas isso não significava que eu não poderia me tornar um monarca em definitivo. Ainda havia um reino próximo.

— Você queria se tornar o rei da Floresta Sombria? – Marianne o encarou, abismada – Por quê? Você sempre odiou este lugar.

— Não era por mim. – Ele então suspirou, sorrindo sonhador – Mas sim pela minha amada Frida.

— Frida?

— A adorável mosquinha que conquistou meu coração. Oh, como ela ficaria perfeita com uma coroa em sua adorável cabecinha! Pelo menos foi isso o que ela me disse, caso eu estivesse mesmo interessado em conquista-la.

— Hein? Quer dizer que foi aquela mosca quem te mandou contaminar a nascente?

— Não exatamente. Por algum motivo, Frida parecia meio... esquiva com meus avanços. Estava se fazendo de difícil, claro, como qualquer dama de respeito. Ela disse que não tinha interesse nenhum em um cavaleiro desonrado que agora não tinha nem onde cair morto. Eu insisti, apelei para o fato de que o amor ultrapassa as barreiras de espécie, crença e poder. Então ela disse que, se eu realmente a queria era melhor que eu colocasse uma coroa em sua cabeça.

Griselda praguejou.

— Aquela lá só queria dar o golpe do baú no meu filho! Eu deveria ter imaginado, que sirigaita...

— Frida merece isso! Ela tem modos tão régios e refinados, não há ninguém melhor para ser uma rainha. Foi com essa convicção que pus meu plano em ação. Se eu desse um jeito de me livrar da barata monstruosa e conseguisse me colocar como rei deste muquifo, daria à Frida exatamente o que ela queria.

— Então... Seu plano era matar o Bog desde o começo? – Marianne balbuciou.

— Ele e quantos goblins influentes fossem possíveis.

— Tudo porque a sua mosca queria se tornar rainha?

— Claro! Eu queria fazer uma surpresa, mas quando descobriu o que estava acontecendo, ela... não pareceu muito feliz. Ficou assustada, a coitadinha, ela tem um coração tão bom. Quando esse orelhudo fedido descobriu o que eu andava fazendo, passou a me seguir e tentar me impedir de por as mãos nas amoras de outono. Até foi ao Reino das Fadas para ver se conseguia avisar alguém ou dar um sumiço nas amoras que tinham sobrado.

Sunny lançou um olhar culpado ao Diabinho, que o encarou com ares de “eu-te-disse”.

— Depois que esse malditinho me derrubou da queda d’água e me incapacitou de voar, Frida e eu precisamos nos por em marcha. Ela não queria que fôssemos pegos, acusados e executados. Fugimos para o norte, tentando sair da Floresta. E quando conseguimos sair, demos de cara com o gato do mato.

A expressão de Roland então se tornou sombria.

— Eu queria impressionar Frida, sabe. Queria salvá-la ao dar cabo do monstrengo e assim conquista-la de vez. Mas é difícil lutar quando se está impedido de voar. Tudo o que consegui foi enfurecer o bicho depois de cravar minha espada em sua gengiva. Perdi minha arma no processo e já não tinha mais com o que me defender. Conseguimos escapar do gato do mato, mas ele nos seguiu para a Floresta. Esses animais são rancorosos como o diabo. Não descansam até darem uma lição naqueles que os feriram. Ele tem nos perseguido desde então. – Ele então ergueu o olhar para o grupo, subitamente suplicante – Não era nossa intenção, sério! Não culpem a Frida, ela não teve nada a ver com isso!

Se a situação fosse diferente, Marianne se surpreenderia com o fato de Roland estar demonstrando preocupação genuína com alguém que não fosse ele mesmo. Mas só havia um motivo para aquilo: a Poção do Amor. Roland nunca fora um poço de inteligência, mas aquele plano era absurdo e totalmente fadado ao fracasso, até para os padrões dele. Fora a influência da Poção do Amor que o deixara inconsequente ao ponto de acreditar que contaminar a fonte de vida de um reino inteiro lhe daria o que ele queria. Tudo para agradar o objeto de sua obsessão. A princesa engoliu em seco, suor frio se acumulando em sua testa. E pensar que sua irmãzinha já estivera sob a influência daquela coisa maligna... olhou para Bog e, pela expressão no rosto dele, podia imaginar que ele estava considerando seriamente a possibilidade de ir atrás da Fada Açucarada para trancafiá-la outra vez. Não por despeito, mas para garantir que aquela poção abominável não voltasse a ser produzida.

— Pelos espíritos... esse cara sofre de algum problema mental, por acaso?

— É a Poção do Amor agindo.

— O quê? Ele foi drogado?

— Sim. Já tem mais de sete meses.

Os alfas se entreolharam aflitos. Agamenon então declarou:

— Teremos que mata-lo, nesse caso.

— Não! Não podemos fazer isso! – Marianne exclamou enquanto Roland empalidecia.

— Não há outra opção! Só existe um antídoto para a Poção do Amor e não temos tempo ou paciência para ver se esse saco de esterco se apaixona por alguém!

— Nós precisamos leva-lo até o Reino das Fadas! Meu pai e o restante do povo precisam ver a verdade com os próprios olhos, assim como vocês. Do contrário não acreditarão em uma só palavra do que dissermos.

— Como pode ter certeza?

— Porque ele e todos os outros também acreditam nessa história de castigo divino. O pai de Marianne não aprova nosso relacionamento. – Bog suspirou – Eles não acreditarão enquanto não tiverem as provas esfregadas em suas caras.

— Mas não podemos o deixar continuar vivo! – Beladona protestou – Vocês ouviram o que ele foi capaz de fazer sob o poder da poção. Se o deixarmos à solta, o que mais ele pode aprontar? Nossa floresta já sofreu demais por culpa dele!

O peso da afirmação pareceu minar o que restava de forças nos goblins. Todos se entreolharam, exaustos e desamparados.

— Deuses, o que será de nós agora?

— Saber a verdade não mudará nossa situação. A nascente continuará contaminada. Continuaremos sem água e os animais continuarão a morrer.

— Bem, podemos apelar para a reserva que o Paris encontrou. Isso se ele não resolver cobrar por gota. – Poppy grunhiu em escárnio, ao que Paris a encarou com ódio.

— Agora escute aqui, sua-

— Esperem! Existe uma solução! – Sunny exclamou, ao que todos se sobressaltaram – O nosso sistema de encanamentos!

— Hein?

— O Reino das Fadas possui um sistema de escoamento de água. Foi assim que conseguimos filtrar a contaminação e garantir que ninguém no reino adoecesse. – Ele contou, subitamente empolgado – Se dermos um jeito de reproduzir esse sistema de filtração aqui na Floresta, então talvez possamos limpar a nascente.

— Isso é possível?

— Não sabemos se dará certo no solo daqui, mas não custa nada tentar. – Adrian entrou no embalo, sorrindo admirado para Sunny – Deuses, como não pensamos nisso antes?

— Sunny, você é um gênio! – Marianne abraçou o pequeno elfo, que corou e pigarreou.

— Se é! – Griselda abriu um enorme sorriso – Não fazíamos ideia de que vocês possuíam uma tecnologia desse porte.

— E nós não fazíamos ideia de que vocês não a possuíam. – Adrian comentou, ao que os goblins ainda espantados se entreolharam.

— Nós não sabíamos que algo assim poderia ser feito. Como isso funciona?

— São canos subterrâneos, feitos com pedaços de bambu. Eles saem de uma bomba e se conectam a câmaras onde a água fica alojada. É um sistema que ajuda a separar água limpa da que não serve para consumo.

— Fascinante! – Agamenon exclamou, e todos concordaram com acenos de cabeça – E isso pode ajudar a purificar a nascente?

— Bem, não vai ser fácil. Vai demorar a ser construído e, mesmo depois de pronto, o processo de limpeza é muito lento. Pode demorar meses.

— Mas é melhor do que nada. Podemos convocar um pelotão para construí-lo aqui na Floresta, Rei Bog, senhor. Com o conhecimento tecnológico do nosso povo e a força braçal dos goblins, a construção pode ser mais rápida.

— Sim! Podemos começar assim que o problema do gato do mato for resolvido! – Marianne quase saltitou de empolgação. Voltou-se para Bog, mas se surpreendeu com seu olhar hesitante.

— Isso não é certo.

— Como não é certo? Estamos oferecendo uma solução e você está recusando assim, na cara dura?

— Não é tão simples assim, Marianne. Já conversamos sobre isso, lembra? – Ele suspirou – Em um acordo entre reinos, é preciso que haja um dar e receber em igual instância. Como posso aceitar algo assim se não tenho nada para oferecer em troca?

Marianne sentiu vontade de lhe dar uns tabefes, dizer que agora não era a hora de bancar o monarca cumpridor das regras, mas conseguia entender sua preocupação. Todos ficaram em silêncio, nervosos e pensativos, até que Poppy murmurou:

— Na verdade, nós temos sim algo a oferecer.

— O quê?

— Me responda uma coisa, boneca. Como você conseguiu fazer essa ferida aí sarar tão depressa? – Ela perguntou, apontando para o ferimento no ombro da princesa.

— Ah... Foi o Bog. A saliva dele até me salvou de uma amputação.

— A saliva dos goblins possui um agente antibacteriano poderosíssimo. O básico, considerando que enfrentamos criaturas com garras e presas imundas numa base diária. – Agamenon comentou solene.

— Exato. Mas não dependemos só da nossa saliva. Também temos uma medicina bastante avançada, com tantas ervas e fungos à nossa disposição. Mais avançada que a de vocês, eu diria, se só a saliva do Rei do Pântano resolveu seu problema.

— Nossa medicina é bastante avançada! – Adrian protestou, ao que Poppy sacudiu a cabeça.

— Mas não o bastante pra salvar o braço da boneca aqui. Vamos lá, parceiro, não é hora pra ser orgulhoso. – Ela deu palmadinhas no ombro do conselheiro – Estão conseguindo me acompanhar? O que eu estou propondo é uma troca.

— O quê? A nossa tecnologia pela medicina de vocês?

— Isso! – Griselda exclamou em empolgação – É perfeito! Um presente muito mais útil do que a cabeça de uma serpente, considerando os presenteados. – Ela encarou Bog com impaciência, que bufou para ela.

— Como é que eu poderia imaginar que eles reagiriam daquele jeito? Só estava querendo ser agradável.

— Nós entendemos. Eu explicarei tudo isso ao meu pai. – Marianne garantiu a ela antes de se voltar para os demais com as esperanças renovadas – Vocês estão vendo? Nossos povos só têm benefícios a tirar de uma aliança como essa. Todos vão sair ganhando.

Os alfas ainda pareciam hesitantes.

— Que garantia temos de que essa aliança será duradoura?

— Eu serei rainha um dia. Podem estar certos de que perpetuarei o tratado.

— Tem certeza? E se algo acontecer que culmine na separação de vocês? – Sabir olhou de Marianne para Bog – E se esse relacionamento não der certo? Como saberemos que continuaremos seguros pelo tratado?

— O tratado será constitucional. Não tem qualquer relação com meu relacionamento com o Bog. Mesmo se por algum acaso viermos a nos separar, ele continuará em vigor. Será assinado Pelo Bog, por meu pai e por mim mesma como garantia.

Sabir ainda não parecia convencido.

— Okay, pergunta séria: esse relacionamento é para valer ou é só fachada? Vocês realmente se gostam ou só estão topando com isso para assegurar a aliança?

O casal revirou os olhos. Bufando em impaciência, Marianne afastou a gola de sua túnica de modo que deixasse sua garganta exposta.

— Eu jamais deixaria que fizessem algo assim em mim se o sentimento não fosse verdadeiro.

Os queixos dos goblins caíram ao se depararem com o grande hematoma que coloria o pescoço da fada. Adrian pareceu ficar horrorizado, enquanto Sunny enrubescia violentamente e o Diabinho deixava escapar um som que lembrava um assovio.

— Caramba! Ele a marcou!

— Então a coisa é séria mesmo.

— E essa manchinha vermelha no seu pescoço também é uma marca de posse, Majestade?

— Vocês só repararam nisso agora? Acharam que fosse o que, picada de mosquito?

— Cala a boca, Poppy!

— Isso porque vocês não ouviram o que esses dois aprontaram hoje mais cedo! Achei que iam acabar derrubando aquela pobre árvore, esses meninos cheios de fogo no rabo...

— Mãe!

— Griselda!

— Isso explica muita coisa. – Agamenon murmurou assombrado – Muita coisa mesmo. Bem, irmãos, qual será o veredicto?

Bog e os alfas discutiram por mais alguns minutos. Ainda parecia haver alguma hesitação, e isso não foi uma surpresa para Marianne. Velhos preconceitos não morriam da noite para o dia. Mas ela estava mais que disposta a provar a todos que o Reino das Fadas e a Floresta Sombria poderiam conviver em paz, se uma mísera chance fosse dada. Então, depois do que pareceram horas, todos os goblins se voltaram para os visitantes. Agamenon lançou um olhar indagador a Bog e, depois de um aceno de cabeça do rei, pigarreou.

— Depois de muito debatermos, chegamos a um consenso. Isso vai contra tudo o que sempre acreditamos, mas às vezes é preciso aceitar que certas mudanças são necessárias. Princesa Marianne. – Ele fez uma reverência à moça – É com prazer que anunciamos que aceitamos sua proposta de aliança e que esperamos ansiosos pelo momento de oficializa-la.

Bog não conteve o sorriso ao ver os olhos de Marianne se enchendo de lágrimas. Ela fungou e respirou fundo, apertando o ombro de Sunny quando ele lhe deu uma palmadinha na coxa direita. Ela nem conseguia acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. Depois de anos de espera e planejamento, depois de ver seus sonhos sendo tratados como ridículos e infantis por Roland e tantos outros, ela finalmente conseguira. Ela estabelecera uma conexão definitiva com a Floresta Sombria. Seu desejo por diplomacia estava se tornando realidade bem diante de seus olhos.

— Obrigada. Juro que não os desapontarei. Palavra de princesa.

— Assim esperamos. – Bog assentiu, encarando-a com uma adoração e orgulho que a fizeram querer beijá-lo.

— Claro, claro. Parabéns, Marianne, conseguiu atirar nosso reino inteiro na boca do covil do lobo. – Roland bufou em escárnio – Agora é só uma questão de tempo até que esses goblins apareçam com os garfos e as facas nas mãos, preparados para o almoço-

E então o loiro gritou de dor quando o punho pequenino de Sunny se conectou brutalmente com a lateral de seu rosto. Ele caiu de lado, xingando alto. Todos se viraram para o pequeno elfo, completamente abismados. Ofegando e encarando Roland com uma fúria que o fazia parecer maior do que realmente era, Sunny se limitou a sacudir a cabeça.

— Desculpem. Desculpem mesmo, mas eu não aguentava mais ouvi-lo falando.

E por falta de uma reação melhor, todos caíram na gargalhada.

A algazarra acabou sendo interrompida quando Stuff e Thang entraram na sala de reuniões como se estivessem fugindo de uma horda de demônios. Suas expressões de absoluto pavor quebraram o clima de diversão rapidamente.

— O que aconteceu? O gato do mato apareceu por aqui? – Bog imediatamente perguntou. Os dois balançaram a cabeça.

— Não, Majestade. É muito, muito pior.

— O que é? Digam de uma vez!

Marianne sentiu um arrepio percorrer sua espinha quando os dois a encararam com expressões de quem pediam por todo o perdão do mundo.

— Recebemos notícias da fronteira. São Bane e Arnica. Eles uniram forças e estão marchando com um exército. Eles... Eles pretendem invadir o Reino das Fadas.