Garras e Presas

8 Capítulo 8


Notas iniciais
Como prometido, este capítulo saiu cedinho xP Ele ficou simplesmente gigantesco (é o maior até agora), mas não consegui diminuí-lo considerando todos os detalhes que eu quis colocar. Espero que não se incomodem e que tenham uma boa leitura 0/

— Você tem certeza de que isso vai dar certo?

— Ora, Grizzy, sua desconfiança me ofende. Até parece que não me conhece.

— Oh, eu a conheço muito bem. É exatamente essa a razão de minha desconfiança.

— Você consegue ser quase tão antipática quanto seu filho, quando assim quer.

— Acredite, se fosse o meu filho em meu lugar, você já estaria sendo reintroduzida a sua antiga cela.

— Isso foi uma ameaça? Um pouco incoerente, considerando como você veio ao meu encontro tão desesperada por ajuda. Quer ver seu menino fazendo as pazes com o amorzinho dele ou não?

— É claro que eu quero!

— Então segure essa onda e deixe tudo comigo. Não deve demorar mais que trinta minutos. Logo, logo ela virá ao seu encontro.

— Acho bom mesmo. E tente não dar muito bandeira, sim? Se o rei das fadas tiver a mínima desconfiança sobre quem está causando toda a confusão, nosso plano vai por água abaixo.

— Já estou ciente. Apenas fique tranquila e dê um voto de confiança a uma velha amiga, Grizzy.

— E pare de me chamar de Grizzy!

§ § §

— Posso entrar?

A voz de Dawn veio acompanhada de três batidas surdas na porta que dava para o quarto de Marianne.

— Claro. – A voz de sua irmã respondeu do outro lado. Dawn espiou pela fresta que entreabrira e sentiu seu queixo cair. O que quer que ela tenha esperado ver, definitivamente não era aquilo.

O quarto de Marianne estava de pernas para o ar. A mais velha das princesas não era exatamente a pessoa mais organizada do mundo, mas até mesmo ela sabia cuidar de seus bens com um pouco mais de zelo do que aquilo. A porta do closet estava escancarada, seu conteúdo espalhado pelo chão em uma confusão de túnicas, calças e vestidos coloridos. Escovas, enfeites de cabelo e utensílios de maquiagem estavam jogados desordenadamente na penteadeira e sobre a enorme rosa que servia como cama. Caixas e mais caixas estavam empilhadas nos cantos do aposento, os objetos outrora ordenadamente guardados dentro delas agora atirados ao léu. E no centro da zorra estava a ocupante do cômodo, sentada no chão enquanto revirava o conteúdo de mais uma caixa, as três pixies que trabalhavam como suas aias ziguezagueando agitadas em torno de sua cabeça.

— Pelos deuses, Marianne! Você meteu outro filhote de lagarto dentro do seu quarto? – Dawn exclamou incrédula, entrando pé ante pé no quarto que agora mais parecia um campo minado. Marianne se limitou a sacudir a cabeça.

— Eu não encontro minha espada em lugar nenhum! Tenho certeza de que a guardei em meu closet. – Ela resmungou enquanto virava a caixa em suas mãos de boca para baixo. Dawn tapou os ouvidos para abafar o som incomodo dos inúmeros seixos que Marianne colecionava caindo no chão – Você não a viu por aí, viu?

— Você podia ter vindo me perguntar antes de virar seu quarto do avesso! – A princesa mais jovem a censurou, ficando de cócoras no chão para apanhar os seixos espalhados – E para quê você quer sua espada? Os curandeiros recomendaram que você evitasse exercícios puxados por pelo menos mais uma semana.

— Meu braço já está bem melhor. Tenho que fazer ao menos um pouco de exercício, não quero ficar com um músculo atrofiado. E eu já estou tão cansada de ficar sem fazer nada, Dawn! Quero poder voltar à forma logo, poder lutar ao lado de todos contra esses ataques. Ter que assistir aos outros arriscando seus pescoços enquanto fico plantada no chão está me deixando maluca!

As pequenas aias chilrearam compreensivas, dando tapinhas consoladores no topo da cabeça de sua senhora. A expressão frustrada de Marianne acabou por enternecer Dawn. Depois de um mês de repouso e intensa terapia, o ferimento no ombro de Marianne apresentava um estágio de cicatrização impressionante e para o qual os curandeiros ainda não tinham conseguido encontrar explicações. O curandeiro-chefe inclusive a dispensara das visitas diárias a ala hospitalar, entregando nas mãos de Dawn uma pomada cicatrizante feita de babosa com recomendações sobre a aplicação, confiando que a ferida se curara o bastante para ser tratada se o auxílio da equipe médica. Ainda assim, ele recomendara mais uma semana de repouso absoluto para que uma possível distensão fosse evitada. Marianne, que entrara na enfermaria ansiosa para se livrar da tala e empolgada com a perspectiva de voltar à boa forma, saíra pouco depois frustrada e irritadiça. Nada do que Dawn dizia ou fazia para animá-la surtira algum efeito. Era só uma questão de tempo para que sua impaciência atingisse o limite, e os resultados estavam bem ali, na forma de um quarto completamente desordenado.

— Não é possível! Juro que a vi pela última vez dentro do closet! – Marianne se ergueu do chão em um pulo, andando de um lado para o outro com passadas bruscas, o rosto retorcido numa expressão de concentração tão intensa que sua irmã só estava esperando o momento em que fios de fumaça começassem a sair de seus ouvidos – Você não a escondeu para me impedir de treinar, não é? – Perguntou com desconfiança, ao que Dawn sacudiu a cabeça, tentando ser compreensiva e não se indignar com a acusação – Então me ajude a procurá-la! Ainda tem caixas dentro do closet, é só pegar e começar. – Ela se ajoelhou diante do baú onde guardava suas jóias e vestimentas mais sofisticadas, segurando um punhado de trajes nos braços e os atirando sobre a cama. As aias chiaram em desgosto com o descaso. Fechando os olhos e tentando ao máximo não deixar que seu descontentamento com a bagunça ficasse muito aparente, Dawn também se ergueu e foi até a irmã, tocando-a no ombro que não estava enfaixado.

— Marianne. – Chamou o mais gentilmente que pode – Eu sei que você está triste, mas destruir o seu quarto não vai fazer com que você se sinta melhor.

— Eu não estou triste! – A outra protestou. Dawn sacudiu a cabeça.

— É lógico que você está. Suas orelhas estão caídas e você tem andado arrastando as asas. – Ela tocou a ponta da orelha direita de Marianne, tão baixa que quase tocava seu ombro. Por um instante a mais velha a encarou desafiadora, as mãos apertando a tampa do baú. Dawn esperou, sustentando o olhar sem piscar. E então a convicção de Marianne se desfez como água escapando por entre os dedos. Ela deixou escapar um suspiro que era quase um soluço e se sentou com as costas rentes ao baú, a cabeça pendendo baixa enquanto seus olhos se fechavam. Dawn se sentou ao seu lado, a mão acariciando gentilmente seu ombro. As aias as circundavam, balbuciando baixinho com preocupação.

— Eu sei como você está se sentindo...

— Não, Dawn, você não sabe.

— Eu sei sim. Pare de achar que você a única aqui que fica frustrada, assustada e sofre por causa de um namorado que não sabe o que quer da vida.

— Não é só por causa do Bog, Dawn. – Os lábios de Marianne se contraíram em uma linha dura. Era a primeira vez que ela pronunciava o nome de Bog em voz alta em semanas – É por causa de tudo o que eu queria poder fazer, mas não posso. É por causa de tudo o que eu queria poder dizer, mas a pessoa para quem eu quero dizer não parece interessada em ouvir. É por ter que ver dia após dia, noite após noite o meu reino, o nosso reino cair num estado de calamidade e ser culpada por isso, ao mesmo tempo em que não me deixam fazer nada para resolver por causa de uma ferida que quase já nem dói. Eu to me sentindo presa, sufocada, deixada de lado.

Dawn assentia sobriamente, compreendendo e sentindo empatia mais do que Marianne poderia imaginar. Não era uma guerreira como sua irmã, mas nas atuais circunstâncias, ela entendia perfeitamente o que era se sentir de mãos completamente atadas. E era um bônus que Marianne tivesse resolvido deixar momentaneamente de lado sua conduta fechada para se abrir sem reservas. Aquilo tornaria a conversa mais fácil.

— Acredite, eu entendo perfeitamente bem. Também ouvi as histórias sobre as desculpas que estão inventando para todos esses ataques e para as mortes dos animais. Não estão culpando apenas a você e ao Bog.

Marianne grunhiu, seus punhos se fechando com o desejo quase irrefreável de socar alguém ou alguma coisa. Ela tivera esperanças de que Dawn não estivesse ciente das invencionices ridículas que estavam sendo espalhadas aos quatro ventos sobre as princesas e suas escolhas de vida duvidosas. Tivera esperanças de que Sunny e ela fossem poupados do chorume. Então se lembrou do comentário de Dawn a respeito de namorados indecisos.

— Aconteceu alguma coisa entre você e o Sunny?

— Percebeu só agora? Sunny não quer mais falar comigo. Ele acha que não é bom o bastante para mim e que se manter afastado vai de alguma forma tornar minha vida mais fácil.

— Que inferno! – Ela rosnou em frustração, agarrando os próprios cabelos – Por que é que homens são assim tão estúpidos? E por que você não me disse nada antes?

— E você iria escutar? Ocupada como está em ficar resmungando e se lamentando sobre como o mundo é tão injusto com você, e só com você?

Um silêncio desconfortável se seguiu. Dawn não pretendera soar tão acusadora e se arrependera do que falara quase no instante em que aquelas palavras deixaram sua boca. Mas o que dissera parecera ter algum efeito sobre Marianne. Aquele colosso de fada simplesmente murchou diante de seus olhos, toda a aura agressiva desvanecendo. A expressão dela era agora um misto de choque e culpa.

— Eu... Eu não acho que é só comigo...

— Então por que você afirmou que eu não sabia como você se sentia sem nem ao menos ouvir o que eu tinha a dizer? – Dawn se agarrou àquela brecha antes que pudesse se refrear – Você faz isso desde o fim do seu noivado com o Roland, Marianne. Você afasta todo mundo, se fecha e age como se ninguém mais fosse capaz de entender sua dor. Talvez fosse assim antes, mas agora você viu que não é a única que está com problemas. Eu sei pelo o que você está passando. Eu posso não saber usar uma espada ou coisa assim, mas eu sei o que é ver todas essas coisas horríveis acontecerem em nosso reino e não poder fazer nada para ajudar. Eu sei como é difícil ser acusada de algo que está totalmente fora do meu controle e sei como é se sentir deixada de lado pelo homem que eu amo. Eu estou passando por tudo o que você está e, ainda assim, você teima que eu não seria capaz de te entender e age como se só você tivesse o direito de se sentir sobrecarregada e sufocada. – Ela respirou fundo, lutando contra as lágrimas que empoçavam em suas pálpebras inferiores – Você está me afastando, me deixando de fora dos seus problemas, exatamente como depois de você mandar o Roland ir passear! É porque você acha que sou muito burra, muito imatura?

— Não! Dawn, você não é burra! – Marianne se apressou a contradizê-la, mas Dawn reparou que ela não a contestara quanto a parte do “imatura” – Eu só... Eu só não quero te aborrecer com meus problemas. Eu não queria que você tivesse que passar por isso, escutar essas coisas absurdas e ter que lidar com comentários maldosos. Eu queria poder te proteger de tudo o que está acontecendo...

— Bem, você não pode! Eu estou levando todos os golpes, mas está ficando difícil de suportar porque minha irmã está ocupada demais sentindo raiva do mundo e pena dela mesma para me apoiar!

Marianne se encolheu como se Dawn tivesse brandido um chicote contra ela. Ela não fazia ideia de que era assim que sua irmãzinha se sentia quando ela se fechava e se recusava a conversar. Fora assim que ela se sentira quando Marianne se fechara para o amor depois da traição de Roland, tornando-se amarga, fria e distante com a irmã que outrora fora sua melhor amiga? A culpa a trespassou como uma flecha.

— Eu não pensei... Eu não imaginava que era assim que você se sentia.

— Bem, agora você sabe, não? Ver você tão infeliz me machuca muito, Marianne, mas eu não posso fazer nada a respeito se você não me deixar te ajudar. E você sabe que precisa disso mais do que qualquer coisa neste momento, porque quando você está triste e zangada, você vira uma máquina de destruição. – Dawn indicou com um gesto amplo dos braços a baderna ao redor delas – Eu também não estou feliz com todo o que está acontecendo, mas eu sei que nós podemos resolver nossos problemas se apoiarmos uma a outra. Então por favor, pare de me deixar de lado. Pare de achar que eu não vou ser capaz de compreender. Eu não sou mais uma criança, Marianne. Você não precisa achar que tem que me proteger de tudo o que há de ruim no mundo como se eu não tivesse capacidade de lidar com isso por conta própria. Por que se você deixar, eu também posso cuidar de você.

Marianne ouviu tudo calada, arrebatada demais pelo pequeno discurso para dar seu parecer. Naquele instante, ela passou a enxergar Dawn sob uma luz totalmente nova. Talvez fosse injusto de sua parte, mas sempre pensara em sua irmã como uma flor delicada que precisava de cuidados e proteção vinte e quatro horas por dia. Era um dos ônus de ter que assumir o papel que outrora fora da mãe: às vezes, ela enxergava Dawn mais como uma filha do que uma irmã, uma igual. Era difícil pensar nela como uma fêmea crescida e que tinha os próprios sonhos e dilemas. Sua natureza romântica e ingênua poderia ser um prato cheio para canalhas interesseiros, e ela não queria ver Dawn sofrendo nas mãos de um conquistador barato; Marianne conhecia essa dor bem demais e não a desejava para ninguém, muito menos para ela. Mas agora era capaz de ver que subestimara e muito a capacidade de Dawn de ser madura e empática. Talvez estivesse mesmo na hora de parar de vê-la como uma criança. Abriu um sorriso fraco, o peito se enchendo de um poderoso orgulho fraterno.

— Desculpe, Dawn. Eu nunca quis magoar você. Desculpe.

Dawn assentiu, passando os braços ao redor do tronco de Marianne e puxando-a para junto de si. A mais velha não era muita adepta de demonstrações de afeto melosas, mas naquele momento, um abraço de sua irmã era uma necessidade, por isso retribuiu em hesitar. Permaneceram em silêncio por o que pareceu uma eternidade, segurando-se firmemente uma a outra, as três pixies as rodeando e chilreando baixinho como se quisessem tomar parte no momento íntimo. As princesas riram consigo mesmas e se afastaram, embora ainda estivessem com as mãos entrelaçadas. Agora livre de suas inibições e sentindo-se emocionalmente exausta demais para continuar mantendo uma fachada imperturbável, Marianne permitiu que sua cabeça descansasse no ombro da irmã, soltando um suspiro que era quase um soluço. Dawn a puxou para que voltassem a se sentar rentes ao baú, afagando os braços dela num gesto tranquilizador.

— Eu... Eu sinto muito por você e pelo Sunny. – Marianne murmurou – Tem alguma coisa que eu possa fazer?

— Você poderia arrastá-lo a força até aqui e obrigá-lo a conversar comigo, mas acho que isso não ajudaria muito. – A risadinha de Dawn não tinha qualquer traço de humor – Eu não consigo entender porque ele está agindo assim. Até um mês atrás estava tudo ótimo. Nunca nos importamos com comentários maldosos, nem quando éramos só amigos, e do nada ele começa a agir como se isso fosse um empecilho no nosso relacionamento...

— Não acho que seja do nada. – Marianne ergueu a cabeça para olhá-la nos olhos – Você não viu como ele estava agindo no Festival da Colheita? Ele estava desesperado para obter a aprovação do papai.

— Estava? – O queixo de Dawn caiu com o espanto – Mas estava tudo tão bonito, tão bem organizado! Eu tinha dito isso para ele. Disse que ele devia confiar mais em si mesmo.

— Às vezes só dizer não basta, Dawn. Eu acho que o Sunny ainda se sente muito culpado pelo o que ele fez na primavera. E agora que ele está na posição de seu consorte, ele está mais consciente do que nunca do peso que isso traz para ele e para você. – Ela bufou em frustração – Às pessoas sempre acham que sabem o que o melhor para nós, mais até do que nós mesmas. Falam do que não vivem e acham que podem opinar sobre o que não diz respeito a elas. Imagine o que o Sunny não andou escutando por ousar cortejar uma das princesas.

— Se é assim, ele deveria vir conversar comigo, saber o que eu penso, não ficar dando ouvidos para as mentiras que inventam pra tentar justificar uma crise! É algo que deveríamos estar enfrentando juntos, mas ele age como se eu não fosse capaz de suportar comentários maldosos e fica bancando o superprotetor sem nem perceber que ele estar se afastando me magoa muito mais do que qualquer absurdo que eu possa ter escutado.

Os punhos de Marianne se cerraram com força sobre seus joelhos, a boca se crispando num esgar irado. Se olhares pudessem matar, a primeira pessoa que cruzasse o campo de visão dela provavelmente cairia dura no chão. Dawn a observou com uma sobrancelha erguida, tentando interpretar aquela expressão. E então ela subitamente compreendeu.

— É exatamente isso o que o Bog está fazendo com você, não é?

Marianne só assentiu, ainda fixando um ponto qualquer do quarto com os olhos chamejando em cólera. Dawn balançou a cabeça, incrédula.

— Nossa... Eu nunca imaginei que ele fazia o tipo superprotetor.

— Ele se preocupa com minha segurança, principalmente quando estamos explorando algum ponto mais selvagem da Floresta Sombria ou duelando. Mas ele me conhece e sabe que eu posso cuidar de mim mesma. – Ela gemeu em frustração, escondendo o rosto nas mãos – Mas agora ele simplesmente me abandonou! Não veio me visitar, não mandou sequer uma carta, não deu uma mísera explicação! Se ele queria por um ponto final no nosso relacionamento, devia ter ao menos a decência de fazer isso cara a cara!

— Não tire conclusões precipitadas. Eu duvido que ele queira terminar com você. Talvez ele esteja se sentindo culpado pela maneira como ele agiu durante o Festival da Colheita. Talvez ele tenha medo de que aquilo se repita. Talvez... Talvez ele só queira proteger você-

— Eu não preciso que ninguém me proteja! – Marianne rosnou enfurecida, jogando os braços para o alto – E ele sabe disso muito bem! Mas se ele realmente está tentando bancar o cavaleiro em uma armadura brilhante, se ele me enxerga como uma borboletinha frágil que precisa ser protegida da própria burrice, então quem não quer mais saber dele sou eu!

— Não fale assim, Marianne! Desse jeito até parece que você não conhece o Bog! – Dawn a repreendeu – Aconteceu algo muito estranho com ele no Festival da Colheita, algo que nós nunca esperaríamos que acontecesse. E se ele também não estivesse esperando? E se nem ele tiver uma explicação para a maneira como ele agiu? Já imaginou o medo que ele deve estar sentindo com a possibilidade de perder o controle outra vez? Que talvez ele tema que você esteja perto demais caso ele tenha outro surto? Você sabe que ele prefere arrancar as próprias asas a te machucar, mesmo que por acidente.

— Ainda assim ele deveria ter vindo conversar comigo sobre isso! Discutiríamos o problema e procuraríamos uma solução juntos, como todos os casais minimamente funcionais fazem!

— E se ele estiver com medo do que vai ouvir caso converse com você sobre isso? E se ele tiver medo de que o comportamento dele tenha mudado a maneira como você o enxerga? E se ele achar que agora você tem pavor dele?

Aquilo fez Marianne congelar no lugar. Dawn viu o choque e a tensão súbitos na postura dela, os ombros encolhidos, os dentes dela quase rasgando o lábio inferior.

— Eu... Eu não pensei por esse lado. – Ela sussurrou, tão baixo que parecia falar apenas consigo mesma. A suposição de Dawn mudava completamente a coisa de figura e a fazia se lembrar de suas próprias reações ante a selvageria que Bog exibira durante o festival. Ela se horrorizara com toda aquela brutalidade. Vira como ele avançara contra Dawn, como tentara atacar seu pai. Por um mísero instante, ela chegara a temer pela própria vida quando a boca dele se fechara sobre seu ferimento. Naquele momento ínfimo, todos os alertas de seu pai pareceram fazer sentido.

— Eu... Eu também fiquei assustada. – Dawn murmurou, interpretando corretamente sua expressão – Eu também me choquei ao vê-lo daquela maneira. Mas ele não machucou você. Ele nem sequer estava me atacando quando me derrubou. Bog nunca faria mal a alguma de nós, principalmente a você. Ele ama você, Marianne, você sabe.

— Eu sei. – Marianne assentiu apaticamente. Ela não duvidava dos sentimentos de Bog, assim como não duvidava dos próprios. Seria preciso muito mais que um surto bestial para fazer com que ela deixasse de amá-lo. Mas isso não mudava o fato de que ela o temera, mesmo que por um segundo insignificante. Aquilo não era certo. Não era normal ter medo da pessoa amada. Mas era bem verdade que havia muitas coisas sobre ele e goblins num geral que ela ainda não compreendia. Era um dos ônus de se estar em um relacionamento com alguém de uma espécie completamente diferente. – Mas ele ainda deveria ter vindo falar comigo. Ele pode estar perdido, mas eu estou tanto quanto. Nós podíamos estar enfrentando essa crise juntos. Mas ele preferiu me deixar de fora dos próprios problemas como se eu fosse uma criança. Você sabe como eu não suporto isso, Dawn. Já deixei que fizessem isso comigo uma vez e prometi a mim mesma que aquilo nunca mais se repetiria.

Dawn assentiu. Sabia o quanto a irmã era orgulhosa e valorizava a própria independência. Ter alguém decidindo as coisas por ela sem consultá-la deveria ser a pior das afrontas, especialmente se esse alguém era seu namorado. Naquele momento, ela sentiu que seria capaz de abrir uma exceção a sua política de não-violência e jogar alguma coisa bem pesada contra a cabeça de Bog.

— Entendo como você se sente. Mas essa não seria mais uma razão para você ir atrás dele? Vocês precisam conversar sobre o que aconteceu.

— Eu não quero mais saber de papo com ele!

— Deixe de ser mentirosa. Você sente falta dele.

— Não sinto nada!

Aquilo, é claro, era uma mentira descarada. A saudade a estava devorando por dentro, sua teimosia sendo a única coisa que a impedia de disparar voando para a Floresta Sombria, os predadores que deslizavam por cada canto escuro a espera de uma vítima desavisada que se danassem. E Dawn a conhecia bem demais para se deixar enganar.

— Pode negar o quanto você quiser. Está estampado na sua testa. Você está morrendo de saudades dele, e eu tenho certeza de que ele sente o mesmo. – Ela cutucou o nariz de Marianne com o dedo indicador – E deixe-me lembrá-la de que estamos a pouco mais de dois meses longe da emigração de inverno. Eu não quero partir por três meses sem ter feito as pazes com meu namorado. Você quer?

Droga! Ela tinha se esquecido completamente da emigração! Deveria mesmo estar muito concentrada em todos os seus problemas para se esquecer de um dos períodos mais importantes do ano para as fadas, cujas asas não suportavam o frio enregelante do inverno e precisavam de luz solar constante para se manterem funcionais. Partiriam para o sul, onde não havia neve ou ventos cortantes e só voltariam três meses depois, no início da primavera. Três meses inteiros sem ver Bog. E justamente quando estavam sem se falar.

— Oh, deuses... – Dawn suspirou dramaticamente, fechando os olhos e colocando as costas da mão direita na testa – É até um pouco romântico, se você parar para pensar. Que nem nas histórias que líamos juntas quando éramos crianças, lembra? A donzela pura e virginal se via afastada de seu amado por uma razão qualquer, incapaz de entrar em contato com ele, sendo obrigada a suportar um tempo incomensurável de solidão e lamentos. Quem diria que isso chegaria a se aplicar a nós...

Ela soltou uma fungadela teatral, deitando a cabeça no colo de Marianne e choramingando. A mais velha revirou os olhos e abriu um meio sorriso, sabendo que a irmã estava tentando levantar seu humor – Talvez se aplique a você, irmãzinha, mas não a mim. Não sou nenhuma donzela. – Ela soltou um risinho anasalado – E muito menos virginal-

Marianne percebeu tarde demais o que tinha acabado de dizer. Fechou a boca na mesma hora, o sangue gelando nas veias enquanto Dawn se erguia de um salto, encarando-a com os olhos quase saltando das órbitas.

— O que isso quer dizer? Não... – O queixo de Dawn teria ido parar no chão se isso fosse fisicamente possível – Não me diga que... que você e o Bog já...

O rosto de Marianne ficou da cor de uma prímula.

— Marianne! – A caçula guinchou estridentemente. As aias a acompanharam com seus próprios gritinhos escandalizados.

— Argh, parem com esse escândalo! Não é nada demais, francamente. – Marianne tentou desconversar erguendo os braços numa pose defensiva, o rosto, o pescoço e as pontas das orelhas furiosamente vermelhos.

— É claro que é! É inacreditável! É surreal! – Dawn parecia prestes a ter uma crise histérica. Ela se levantou e saltou sobre a cama de Marianne, agarrando uma das margaridas que serviam de almofadas e enterrando o rosto nela, soltando outro guincho abafado. Marianne não sabia se caia na risada ou se sufocava Dawn com a almofada, ainda mortificada por ter deixado escapar um de seus maiores segredos.

— É por isso que eu não te contei. Sabia que você ia fazer um escarcéu. – Bufou, sentando-se na cama ao lado da irmã que ainda se sacudia como se estivesse tendo um ataque epiléptico – Na boa, Dawn, não é grande coisa. Ele e eu sequer tínhamos planejado. Simplesmente aconteceu.

— Quando? Como?!

— Durante minha última visita a Floresta, antes das duas semanas que antecederam o Festival da Colheita. – Deu de ombros, desejando estar conversando sobre qualquer assunto que não aquele – Estávamos explorando uma área aberta e não percebemos que o tempo estava se fechando. Tivemos que procurar abrigo quando a chuva começou a cair. Estava muito frio, eu estava encharcada, ficamos colados um ao outro para nos aquecermos... Uma coisa levou à outra... – Ela fez um gesto incerto com as mãos, vermelha como se estivesse sofrendo de insolação e se recusando a olhar Dawn nos olhos. Fechou os olhos com força e deixou escapar uma lufada de ar pelo nariz quando a irmã e as aias gritaram outra vez. Sentia-se em uma festa do pijama, rodeada de garotas adolescentes escandalosas.

— Bem, isso explica aquelas marcas de mordida! – Dawn conseguiu dizer em meio a risadinhas, deixando a irmã ainda mais constrangida enquanto esfregava um ponto em sua clavícula, o lugar onde Bog mais gostava de cravar os dentes – Eu não acredito, Marianne. Quem diria que você teria essa coragem! Quer dizer, nós somos princesas, fizemos votos de castidade...

— Argh, Dawn, me deixa! Eu não fico dando pitacos em sua vida amorosa com o Sunny, fico?

Dawn se calou na mesma hora, enrubescendo tão intensamente quanto a outra. Juntou as mãos no colo e ficou encarando as pétalas da enorme rosa, cabisbaixa.

— Sunny e eu tínhamos decidido ir aos poucos. Eu queria esperar até nos casarmos, sabe. Nesse aspecto eu gosto do procedimento tradicional. – Ela voltou a olhar para a irmã com um sorriso terno – Mas Bog e você nunca fizeram o tipo tradicional, não é?

Marianne riu também. O sorriso morreu instantes depois, porém. Falar de suas intimidades a fez se lembrar da distância que Bog pusera entre eles e, por um segundo doloroso, ela se perguntou se o momento que dividiram não significou para ele tanto quanto significara para ela. Dawn passou os braços por seus ombros mais uma vez, fazendo-a aconchegar a cabeça em seu ombro, e Marianne ficou grata em saber que sua irmã a compreendia e não a julgava por suas escolhas. Fechou os olhos e deixou que o silêncio se estendesse até a caçula voltar a chamar sua atenção.

— Agora mais do que nunca você não pode negar a falta que ele te faz. – Ela murmurou – E eu... Eu não quero mais ver você infeliz, Marianne. Você já se machucou muito por causa de uma pessoa que não te merecia. Você finalmente encontrou alguém que te ama e te respeita como se deve. Não deixe o que pode ser um mal-entendido ficar no caminho.

— Eu... Eu tenho medo do que vou ouvir caso vá atrás dele...

— Você nunca vai saber se não tentar. Vamos, a Marianne que eu conheço não foge da raia por medo das consequências. Ela é intrépida, durona e nunca recusa um desafio. É isso o que certo rei de certa floresta mais ama nela. – Beijou a bochecha da irmã mais velha carinhosamente – Eu não estou dizendo que você deve dar palmadinhas na cabeça do Bog e aceitar qualquer desculpa esfarrapada que ele der. Mas pelo menos dê a ele a chance de se explicar para então decidir se vale ou não a pena continuar esse relacionamento. Eu farei o mesmo com o Sunny. – Endureceu os ombros, tentando criar coragem – Também não podemos nos esquecer de que isso não diz respeito só a nós. Não podemos deixar que esses rumores preconceituosos continuem se fortalecendo. O bem estar do nosso reino depende disso. Precisamos dos goblins para combater os predadores e descobrir a real causa de todos esses problemas.

Marianne só assentia, sentindo seu peito se inchar mais e mais de orgulho a cada palavra de Dawn. Era impressionante o quanto sua irmã fora capaz de amadurecer naquele curto espaço de tempo. Vê-la tão determinada reascendeu uma parte do seu antigo vigor.

— Então temos trabalho a fazer. – Ela decretou, saltando para o chão e virando-se para Dawn com as mãos na cintura, outra vez a princesa imponente e destemida – Vamos atrás do papai para cobrar uma ação mais imediata. Ou ele concorda em enviar uma equipe diplomática para a Floresta Sombria ou eu mesma vou sozinha, quer ele aprove ou não.

Dawn assentiu entusiasmada. Pediram às aias que arrumassem a bagunça no quarto (Marianne teve a decência de se sentir envergonhada quando as três pixies lhe lançaram olhares aborrecidos) e, logo após checarem o corredor para se certificarem de que não havia guardas para atrapalhá-las, voaram em direção ao gabinete real.

Logo que chegaram, perceberam que algo estranho estava acontecendo. A porta do gabinete estava escancarada, e Dagda jamais a deixava aberta daquela maneira. Ambas se entreolharam nervosamente antes de espiar o interior do cômodo. Era uma saleta espaçosa e ricamente decorada. As paredes eram enfeitadas com pinturas a óleo: paisagens, frutos, flores e o maior quadro de todos, logo atrás da escrivaninha, que era um retrato da falecida rainha. As prateleiras estavam ocupadas por livros grossos, documentos e tratados. Havia uma bandeja sobre a escrivaninha, a xícara de chá nela ainda fumegando. Marianne foi a primeira a entrar, mas parou de chofre ao pisar em algo que fez um som semelhante a uma folha seca sendo amassada. Era um pedaço de papel. De fato, havia inúmeros outros, espalhados pelo chão atapetado do gabinete e por sobre a escrivaninha. Dawn entrou logo atrás dela, os olhos arregalados ao contemplar o desalinho.

— O que é isso? Vocês resolveram tirar o dia para virar tudo do avesso? – Ela quis saber, desacreditada – E onde está o papai?

— Não faço ideia. Mas é certo que ele estava aqui até alguns minutos atrás. O chá ainda está quente. – Marianne apontou para a xícara.

— Ele nunca deixa a porta do gabinete aberta. E muito menos é desorganizado desse jeito. – Dawn se abaixou para apanhar um dos papéis jogados no chão – E o que é essa papelada toda? Ele sempre deixa os documentos guardados nas gavetas, nunca encima da escrivaninha.

Dando de ombros, Marianne abaixou-se para recolher os papéis. Sentiu uma súbita pena do pai, tão atarefado com todos os problemas que haviam surgido no reino e possivelmente tão estressado que acabara deixando de lado sua costumeira obsessão por organização. Já estava carregando uma pilha de papéis nos braços quando Dawn, que havia aberto a gaveta sob a cristaleira num canto do cômodo exclamou: — Marianne! Encontrei sua espada!

Marianne derrubou a pilha na pressa de correr até a irmã. De fato, lá estava a sua espada, pousada sobre um aglomerado do que parecia ser ainda mais papéis. Debruçou-se e esticou o braço para apanhar a arma, ainda não acreditando no que estava vendo. Como sua espada viera parar no gabinete de seu pai? Ele mesmo a colocara ali? Ou ordenara a um dos guardas que a surrupiasse quando a filha não estivesse por perto? Ambas as possibilidades dizimaram qualquer réstia de piedade que pudesse estar sentindo por Dagda, dando lugar a uma indignação que fazia ressurgir sua natureza violenta.

— Ele a estava escondendo de mim! – Rosnou furiosa, o punho sobre o cabo da espada trêmulo. Sentia vontade de brandi-la contra algum dos lustrosos móveis de madeira, talvez amontoar os papéis espalhados em montes elaborados e cortá-los, rasgá-los, transformá-los em tiras ilegíveis...

— Marianne...

Voltou-se para Dawn, ainda bufando em zanga. Estivera tão concentrada em seus pensamentos raivosos que não reparara que a irmã havia apanhado um dos papéis dentro da gaveta. Era um envelope, já aberto e deixado de lado, a cera que fora usada para lacrá-lo partida ao meio. Ainda assim era possível ver o símbolo carimbado ali: um longo cetro entremeado em vinhas e arabescos com uma pedra de âmbar na ponta. O selo real da Floresta Sombria.

— Eu... Eu acho melhor você ver isso. – Dawn murmurou novamente. Estava muito pálida. Marianne imediatamente tomou de suas mãos o que parecia ser uma carta. Reconheceu a caligrafia de imediato, seu estômago afundando enquanto passava os olhos pelo conteúdo. Terminou de ler sentindo sua garganta se fechar em um nó apertadíssimo. Sob os olhares nervosos de Dawn, foi apanhando mais e mais envelopes de dentro da gaveta, rasgando-os e lendo as cartas com uma voracidade quase alucinada. Todas possuíam o mesmo selo. Todas haviam sido escritas pela mesma mão, na mesma caligrafia inconfundível, às vezes tão trêmula que era difícil entender as palavras. Duas haviam sido endereçadas ao rei Dagda. Três ou quatro eram para Dawn. E todo o restante era endereçado a ela. Todas com frases que eram como punhaladas em seu peito.

“... Por favor, responda o quanto antes...”

“... diga-me se está tudo bem, se precisam de alguma coisa...”

“... temos uma receita de emplastro que pode ajudar...”

“... eu só quero saber como ela está...”

“... as coisas não tem sido fáceis, estou fazendo o que eu posso, mas eu preciso...”

“... as cartas são para ela, você não tem o direito...”

“... entregue-as a sua irmã, não deixe que mais ninguém...”

“... e eu sinto muito, nunca foi minha intenção...”

“... se não quiser mais que eu escreva, apenas me diga...”

“... eu não quero me impor. Se não quiser mais me ver basta responder...”

“... Marianne, por favor...”

“... Sinto tanto sua falta...”

Dawn fungou baixinho. Com os olhos cheios de água, ela viu a última carta ser amassada pelos punhos trêmulos de Marianne. Ela não estava chorando (ela quase nunca chorava), mas a expressão arrasada e enfurecida de seu rosto denotava todas as emoções que ela não conseguia colocar em palavras. E pela primeira vez, Dawn também não sabia o que dizer. O que poderia ser dito quando se descobria que seu pai, a pessoa em quem você mais deveria poder confiar, esteve esse tempo escondendo as cartas da pessoa que você ama, fazendo você acreditar que havia sido esquecida?

— Eu não acredito... Esse tempo todo ele esteve me escrevendo... Papai sabia e mesmo assim...

Dawn empalideceu ainda mais ao ouvir o tom com que Marianne proferia aquelas palavras. Não era uma simples indignação, uma raiva contida e maleável. Aquilo era uma fúria descomunal, e naquele momento ela desejou que não tivesse encontrado a espada da irmã. A lâmina cintilante parecia agora cem vezes mais ameaçadora.

O momento tenso foi interrompido por um estranho som retumbante, vindo de algum ponto fora do palácio. Por um instante Dawn acreditou se tratar de uma trovoada. O som se repetiu, mais intenso, desmentindo sua primeira impressão. As princesas se ergueram de imediato e correram para a janela, contemplando a paisagem a procura da origem do barulho. Parecia vir de algum ponto próximo ao vilarejo dos elfos...

— Os barris de pólvora! – Marianne exclamou, fazendo Dawn se sobressaltar – Eu sabia, sabia que isso ia acabar acontecendo!

E antes que a caçula pudesse dizer qualquer coisa, Marianne abriu suas grandes asas cor de violeta, subindo no peitoril da janela e se impulsionando para fora, voando para longe a uma velocidade vertiginosa.

— Marianne, espere! – Dawn a chamou, disparando a toda atrás da irmã. Sempre fora a voadora mais veloz entre as duas, mas Marianne possuía mais estamina e força muscular, o que dificultava acompanhá-la – Por favor, se acalme! Seu ferimento ainda não sarou totalmente, ele pode abrir se forçar demais suas juntas!

Ela não pareceu escutá-la, surda como estava pela cólera. Voaram por sobre o riacho e o vilarejo dos elfos em direção aos postos de vigia próximos à fronteira, onde um grande aglomerado de soldados e trabalhadores circulavam. Todos corriam de um lado para o outro, alguns gritando, outros parecendo até superficialmente feridos. O cheiro de pólvora rescendia nauseante, fazendo as garotas tossirem. Isso não deteve Marianne, que virava a cabeça de um lado para o outro, procurando alucinadamente por uma pessoa em particular.

— PAI!!! – Ela rugiu, assustando algumas das fadas, elfos e brownies abaixo.

— Marianne, brigar não vai resolver nada! Vamos tentar conversar calmamente-

— Sai fora, Dawn! Desta vez ele passou dos limites! PAI!!!

Ela inspirou profundamente antes de disparar novamente, guiando-se pelo cheiro da pólvora. Voaram por mais alguns metros até chegarem ao que parecia ser a fonte do barulho que ouviram minutos antes. Agora era fácil perceber que havia se tratado de uma explosão. Havia dois grandes círculos negros no chão, cada um com vários metros de diâmetro, as plantas e flores dentro deles totalmente chamuscadas. Lascas de madeira estavam espalhadas para todos os lados, algumas fincadas firmemente no solo com a violência das explosões. Os soldados e os elfos que guardavam a divisa pareciam não ter sido diretamente atingidos, mas tampouco haviam saído completamente ilesos. Alguns ainda estavam atirados ao chão, gemendo de dor. Os que conseguiam andar se ajoelhavam sobre os companheiros caídos e gritavam por ajuda. Aquela visão pareceu fazer Marianne se esquecer momentaneamente de sua fúria. As duas pousaram a correram para os soldados mais próximos, que pularam de susto ao verem-nas se aproximando.

— Nós ouvimos as explosões! O que aconteceu? Alguém se feriu? – Dawn perguntou enquanto Marianne se ajoelhava junto de um dos elfos caídos, gentilmente ajudando-o a se erguer.

— N-Não gravemente, Alteza. – Um dos soldados se apressou em responder – Ainda não sabemos o que aconteceu. Estávamos fazendo as checagens de última hora para os primeiros testes com a catapulta quando um dos barris de pólvora simplesmente detonou. A primeira explosão nos pegou desprevenidos, mas conseguimos nos proteger melhor da segunda. Ainda assim recomendamos que as senhoritas fiquem longe daqui, outro barril pode detonar e vocês podem ser atingidas pelos estilhaços-

— Marianne, Dawn! O que estão fazendo aqui?

Dagda vinha correndo em direção as filhas, flanqueado por alguns membros da guarda com as armaduras imundas de fuligem. Ele não estava em muito melhor estado, sua barba e bigode espessos parecendo inclusive um pouco chamuscados.

— Quando chegaram aqui? Estão feridas? Foram atingidas por alguma das explosões? – Ele agarrou ambas pelos braços e as puxou para junto de si.

— Não, papai, estamos perfeitamente bem-

— Vocês não deveriam ter saído do palácio! Aqui é extremamente perigoso!

— Precisávamos falar com o senhor e fomos procurá-lo em seu gabinete, mas estava vazio e todo desorganizado-

— Eu precisei atender ao chamado dos vigias o mais depressa que pude. Fui pego desprevenido em meio ao meu brunch. Por alguma razão os barris de pólvora estão instáveis. Mas vocês não deveriam estar aqui, outras explosões podem acontecer, por isso voltem ao palácio imediatamente-

— Como é que o senhor pode?! – Marianne gritou, sobressaltando a todos. Ela estivera em silêncio até o momento, preocupada com os feridos e desconcertada com a aparição súbita do pai, mas parecera recuperar a voz quando ele dera início às censuras e comandos.

— Marianne?

— O senhor escondeu a minha espada! – Ela sacudiu a arma furiosamente diante de seu rosto, sentindo uma satisfação selvagem ao ver os olhos de Dagda se arregalando – Tirou-a do meu quarto sem pedir permissão e meteu-a na sua escrivaninha! Tinha esperanças de que eu nunca mais a encontrasse, é isso?!

— Quê? Não! Eu só... – Ele sacudiu as mãos nervosamente – Eu queria evitar que você escapulisse para sair brandindo essa coisa quando precisava ficar em repouso. Eu ia devolvê-la a você depois...

— É mentira! – Ela voltou a rugir. Não queria saber se ele estava sendo ou não sincero, não queria de maneira alguma que sua fúria justificada fosse apaziguada por desculpas – Você só tem mentido para mim esse mês inteiro!

— Maneire o tom de voz, mocinha. – Ele a avisou ameaçadoramente – Eu não lhe dou o direito de falar assim comigo. Em primeiro lugar eu não menti-

— Oh, não mentiu? Então como é que o senhor explica isso?! – Ela meteu a mão dentro da gola de sua túnica, tirando uma bolota amassada de papel e atirando-a contra a armadura lustrosa de Dagda. Ele apanhou o projétil desajeitadamente, espantado, encarando a filha que ainda esbravejava – Como é que o senhor explica as mais de vinte cartas que Dawn e eu encontramos no seu gabinete, escritas pelo Bog e endereçadas a mim e somente a mim?!

O rosto do rei das fadas ficou da cor do leite azedo. Ele abriu e fechou a boca repetidamente, parecendo incapaz de juntar duas palavras para formar uma frase coesa. Olhava da bolinha de papel na palma de sua mão para sua primogênita com um temor que teria enternecido Marianne se ela não estivesse tão irada.

— Isso... Não é o que você está pensando...

— Como é que o senhor pode?! – Ela repetiu – Como o senhor pode esconder o fato de que ele esteve me escrevendo esse tempo todo? Essas cartas eram para mim, o senhor não tinha o direito de escondê-las!

— Eu não as estava escondendo! – Ele se apressou em explicar, também alteando a voz – Essas cartas começaram a ser entregues do nada e eu não sabia o que fazer com elas!

— Não sabia? Pois eu digo o que o senhor devia ter feito com elas. O senhor devia ter as entregado a mim, a destinatária! Eu sou uma fêmea adulta recebendo cartas do homem com quem ela está se relacionando, não uma garotinha adolescente ganhando bilhetinhos de um paquera! O senhor não tinha o direito de decidir se eu devia recebê-las ou não! Não só as minhas, mas também não entregou as da Dawn! O senhor andou as lendo para decidir se mereciam ou não nos ser entregues?

— Não! Eu não abri nenhuma delas! – Ele jurou, e Marianne sabia que era verdade: as cartas estiveram todas lacradas. Mas ela não queria saber, não queria favorecer a lógica, não quando estava tendo a oportunidade de ventilar todas as suas frustrações no pai que cometera tamanha injustiça. Dawn tremia dos pés à cabeça, olhando do pai para a irmã mais velha com os olhos temerosos e cheios d’água. Os guardas e elfos encaravam a família real com os queixos caídos, parecendo completamente perdidos ao verem a herdeira do trono gritando desaforos para o rei que nunca parecera tão minúsculo e fragilizado.

— Esse tempo todo eu pensei que o Bog tinha se esquecido de mim. Pensei que ele tinha dado as costas a mim sem sequer pensar em dar satisfações. Nunca imaginei que era o meu próprio pai quem estava fazendo parecer que eu tinha sido abandonada, só para eu não poder entrar em contato com a pessoa que mais tem me feito falta só porque ele não aprova! Era isso o que o senhor pretendia? Me separar definitivamente dele por omissão de correspondência?

— Eu já disse, essas cartas foram chegando uma atrás da outra e eu não sabia o que fazer! – Ele gritou de volta – Pelos deuses, Marianne, isso vai muito além do seu caso com o Rei do Pântano! Você sabe que eu não posso sair tomando decisões a torto e a direito sem o aval do conselho. A maioria deles se recusa a aceitar o auxílio dos goblins ou mesmo a estender a mão a eles. E então esse montante de cartas foi sendo entregue e eu sabia que, no instante que você recebesse a primeira delas, você ia disparar para a Floresta Sombria sem pensar em seu estado fragilizado ou nas consequências que isso acarretaria. Eu não podia arriscar sua segurança, não podia arriscar perder o apoio do conselho, você sabe da extensão da influência que eles exercem. Eu precisava pensar, precisava bolar alguma solução, e nesse meio tempo as cartas tinham que ficar em meu poder-

— Por quê?! Por que o senhor decidiu assim? Sem nos consultar, sem querer saber o que pensávamos de ter nossas correspondências roubadas? – Marianne apontou para si mesma e depois para Dawn, que parecia querer afundar no chão e desaparecer de vista – Pro inferno com o conselho, isso não muda o fato de que não cabe ao senhor decidir se meu relacionamento merece ser sacrificado para manter um bando de velhos bajuladores satisfeitos! Já não bastam essas histórias horríveis que estão espalhando? Não podemos contar sequer com o seu apoio?

— E como você quer que eu apóie um absurdo desses? Como quer que eu fique feliz vendo minhas duas filhas se relacionando com os piores tipos de pretendentes?

— Não! O senhor não vai colocar o Sunny no meio disso! – Dawn finalmente se manifestou.

— Um ladrão e um animal descontrolado! É isso o que vocês duas consideram adequado!

— O Sunny não é um ladrão! Roland o manipulou! E ele está arrependido do que fez, há meses ele faz o que pode para se redimir e obter sua aprovação!

— E por que o senhor acha que Sunny não é adequado para Dawn, pai? – Marianne indagou venenosa – Por causa do que ele fez no passado? Ou simplesmente por ele ser um elfo?

O rosto de Dagda passou de um branco doentio para um vermelho escaldante. Ele rangeu os dentes e estufou a barriga proeminente, tentando recuperar a pose régia e evitando deliberadamente encarar os elfos mais atrás, que o encaravam indagadores.

— Isso não tem nada a ver! Não há nada de errado em ser um elfo, mas sim com as atitudes de Sunny como indivíduo! Ele não só invadiu uma zona proibida e roubou de um monarca como falhou em suas obrigações como homem! Ele deveria ter protegido Dawn durante o Festival da Colheita, mas não o fez!

Dawn ofegou e deu um passo para trás.

— Não é obrigação de um homem ser babá de uma mulher! – Marianne vociferou – Era eu quem estava protegendo a Dawn, Sunny não precisava-

— Deuses, Marianne, você quase morreu naquela noite! Tudo por culpa da insensatez do Rei do Pântano que te enxerga como alguém da espécie dele e ignora suas limitações. E não pense que eu me esquecerei do que ele fez durante o festival! Ele atacou sua irmã! Ele tentou morder meu braço! Ele tentou devorar você!

— O senhor não pode afirmar! Nós não sabemos o porquê de aquilo ter acontecido, não saia fazendo acusações sem antes ter certeza-

— Eu não preciso de certezas, eu vi! Eu tento, Marianne, eu tento colocar algum juízo em sua cabeça, mas você está completamente cega! Você arrisca sua vida a cada vez que sai para se embrenhar no meio daquele matagal selvagem, indo se encontrar com uma criatura que provou que pode perder o controle a qualquer momento e fazer de você a janta dele! Você está tentando alterar a ordem natural das coisas, mas a verdade é que não importa o quanto você negue, ele é o predador e você é a presa! Assim é a natureza e nada vai mudar isso, nada! Uma besta é e sempre será uma besta! Pare de achar que você pode mudar tudo, Marianne, porque você não vai conseguir, não vai, não...

A voz dele foi morrendo a medida que contemplava a expressão das filhas. Dawn soluçava abertamente, tentando enxugar as lágrimas com as costas das mãos. Marianne, inacreditavelmente, parecia a ponto de chorar também. Aquilo foi como um balde de água fria no fogo que queimava furioso em seu peito. Elas mereciam ouvir certas verdades, sim, mas nunca quisera fazê-las chorar, nunca quisera vê-las sofrendo. Marianne, mais do que magoada, parecia ferida. As palavras dele tinham sido como facas, cortando fundo em seu orgulho. Os olhos castanhos pareciam brasa, incandescentes.

— Talvez eu não possa mudar tudo. Mas não é o senhor quem vai me impedir de tentar. – Ela rosnou, afastando-se para trás – E eu não estou cega, pai. Eu enxergo. Enxergo bem até demais.

O desprezo na voz dela o atingira como uma punhalada.

— Marianne, Dawn...

— Não. Eu não quero ouvir mais nada do que o senhor tem a dizer. Nada. – Ela decretou. E com isso, abriu as asas e disparou para o alto, dando as costas ao grupo e zarpando para longe.

— Não! Marianne, eu-

— Eu também não quero ouvir! – Dawn gritou, sobressaltando-o. Suas asas cor-de-rosa estavam trêmulas, dificultando seu vôo, mas ela também se apressou em plainar para longe deles, indo na direção oposta a da irmã.

— Dawn! Volte aqui! – Ele tentou segui-la, batendo suas asas furiosamente e conseguindo levantar uns poucos centímetros até uma violenta pontada de dor na juntas obrigá-lo a pousar. Apoiou as mãos nos joelhos, ofegante e desesperado. Deuses, o que ele fizera?!

— Guardas, façam alguma coisa! Vão atrás delas, impeçam-nas-

— Protejam-se! – Um dos elfos gritou de repente, cobrindo a cabeça com as mãos e correndo para longe – Outro barril está queimando! Vai explodir!

O barril em questão trepidava violentamente, fumaça negra escapando pelas frestas na madeira. A Guarda Real só teve tempo de flanquear seu confuso rei antes do inevitável.

Marianne ouviu a explosão, mas nem isso a deteve. A fúria, a mágoa e a sensação nauseante de traição a impeliam inexoráveis. Lutando contra as lágrimas que a cegavam, ela deixou que seu instinto a guiasse. Tinha que sair dali e ir para longe, bem longe, para um lugar onde ninguém a achasse, um lugar onde não se sentisse tão sufocada e oprimida, onde não precisaria lidar com o fato de que fora apunhalada nas costas pelo próprio pai, um lugar onde se sentisse segura e livre para pensar, para remoer, para extravasar a raiva, para parar por um instante e tentar decidir o que faria de sua vida a seguir...

E antes que percebesse, como acontecera há quase dois anos em uma distante primavera, ela estava cruzando a fronteira e se embrenhando na Floresta Sombria.

Pousou desastradamente quando se viu cercada pelo arvoredo denso e escuro. As videiras espinhosas que fechavam o caminho como cortinas a espetaram nos braços e nas asas, obstruindo sua passagem. Com um rugido furioso, sentindo que enlouqueceria se não ventilasse todos aqueles sentimentos negativos, ela brandiu a espada em todas as direções, golpeando as plantas e cortando-as com violência. Não soube dizer quanto tempo ficou naquilo, concentrando-se apenas na sensação catártica de se estar no poder, sob controle de si, mas sentiu um intenso arrepio percorrer sua espinha a ouvir uma voz baixinha alcançá-la dos fundos da mata.

— Marianne?

Quem a havia seguido? Fosse quem fosse, ia experimentar uma dose de seu descontentamento. Voltou-se em direção a voz, já se preparando para soltar uma torrente de palavrões, quando viu que a criatura que se aproximava em meio ao matagal cerrado não poderia ser uma fada. Ou um elfo. Ou qualquer coisa pertencente ao Reino das Fadas.

— Oh, graças aos espíritos da Floresta! Achei que você nunca apareceria!

Uma juba de grossos cabelos cor de cobre surgiu no meio da folhagem, sua dona exibindo um enorme sorriso de dentes gastos. E o queixo de Marianne caiu.

— Griselda?

Notas finais
Não posso prometer que o próximo capítulo sairá tão rápido quanto esse, mas juro que farei o possível. Até lá 0/