Garras e Presas

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Aqui está o segundo capítulo, um pouco mais cedo do que o esperado. É nele que os problemas começam. Boa leitura 0/

— BOGGY!

— Bog!

A correção aborrecida, soltada num rosnar, foi imediatamente sufocada quando os braçinhos finos de Dawn envolveram a cintura esbelta de Bog num abraço que provavelmente quebraria as costelas de uma criatura com compleição menos resistente. A voz morrendo com o choque, ele primeiro encarou a princesa mais jovem e logo depois a mais velha com um olhar de absoluto pânico, o que fazia Marianne se dobrar de rir.

— Dawn, querida, tenha alguma compostura. – Dagda quase implorou, ao que foi sumariamente ignorado. A loirinha ergueu a cabeça para o goblin, seus olhos muito azuis cintilando de contentamento, um sorriso que tinha a potência de centenas de raios de sol brincando em seus lábios.

— Nós já estávamos achando que você não viria mais. Que bom que estávamos errados! – Ela cantarolou, saltitando animadamente – Este festival não seria a mesma coisa sem você. Ou melhor, sem nenhum de vocês! – Ela gesticulou para os outros goblins, que pareceram encantados com a afirmação. Indicou então o enorme espaço à frente, fervilhando com a população que aos poucos enchia as ruazinhas – Nós escolhemos este tema pensando justamente em vocês! E então? Gostaram?

— Ah... – O rei goblin mudou seu peso de um pé para o outro, procurando nervosamente por palavras adequadas – Está muito... Interessante.

“Interessante” não era bem o que ele pretendia dizer, mas não conseguiu pensar em nada melhor ante sua enorme surpresa com a decoração. Pelo pouco que conhecia das comemorações que eram dadas por fadas e elfos numa base quase diária, ele estivera esperando algo bem mais colorido, chamativo e pomposo. O que Dawn mostrava a eles, porém, era o oposto. Todo o ambiente estava mergulhado nos mais variados tons de verde: plantas, arranjos florais, enfeites de mesa, o musgo que servia como toldo para as várias barraquinhas de comes e bebes, a iluminação, o grande palco para apresentações de música e dança. Aqui e ali havia pequenos focos em vermelho-vinho, amarelo-mostarda e roxo (um roxo que imediatamente o fez pensar nas asas de Marianne, o que suspeitava ter sido proposital), mas aquele verde tão familiar e selvagem predominava absoluto; muitas das plantas e frutos que ajudavam a compor o clima eram inclusive nativos de seu reino. Era quase como se de fato estivessem em uma área mais iluminada e espaçosa da Floresta Sombria, e uma parte considerável de seu nervosismo com o que o aguardava simplesmente evaporou.

Super interessante, não é? – Dawn bateu palmas alegremente – Marianne deu a ideia e Sunny e eu fizemos a execução. Sabia que ele inclusive foi fazer uma expedição pela floresta para conseguir captar o clima da melhor maneira possível? Ele é tão corajoso e dedicado! Deu um trabalhão, mas ficou tudo maravilhoso no final!

— De fato. – Bog assentiu. Ainda tinha suas ressalvas quanto ao pequeno elfo, mas precisava reconhecer que ele se superara desta vez. Para escapar a confissão, voltou-se para Marianne com um sorriso zombeteiro – Então a ideia foi sua, é? Não imaginava que estivesse disposta a explorar suas duvidosas habilidades de organização para me agradar.

— Não fique tão cheio de si. Fiz isso mais por eles. – Ela revirou os olhos, indicando os outros goblins com um aceno de cabeça – Assim se sentiriam mais à vontade e não precisariam suportar o mau-humor tenebroso de seu chefe pelo resto da noite.

— Dê as desculpas que quiser, meu amor. A verdade é que você é uma romântica em toda a sua essência.

Eu sou a romântica, é? – Ela sorriu atrevida. Voltou-se então para a irmã caçula – Dawn, você sabia que o Bog ainda guarda a flor de lapela que você fez para ele?

— Marianne! Não era para você contar isso! – Ele exclamou, o rosto se enrubescendo furiosamente enquanto as irmãs riam. Dawn voltou-se para ele e novamente o abraçou, desta vez mais gentilmente.

— Minha irmã metida à valentona tem tanta sorte de ter encontrado você!

“Não, diabinha. Quem tem sorte aqui sou eu”, ele pensou com um sorriso de canto. Apesar do constrangimento, dignou-se a dar palmadinhas amigáveis na cabeça dourada de sua pequena cunhada. Depois de toda a situação esdrúxula com a Poção do Amor, a bendita flor de lapela e a doçura que Dawn lhe dispensara, fora impossível não se afeiçoar definitivamente a ela. Por isso ainda guardava o pequeno presente que ela lhe dera, mesmo estando completamente despedaçado. Ainda assim, ele tinha uma reputação a zelar, então afastou a garota gentilmente com as pontas de seus dedos ao ver a maneira como seus subordinados procuravam esconder os sorrisos e como a expressão de Dagda se tornara tensa ao ver sua filha mais nova quase sumir no meio daqueles braços ameaçadores. Ele só esperava que a tensão não se acentuasse nas próximas horas; a conversa que precisava ter com Marianne e o rei das fadas não seria nada fácil.

Mais adiante, ao conferir uma última vez a funcionalidade da iluminação do palco, Sunny não conseguiu refrear um enorme suspiro de alívio. Tudo dera certo no final: os imprevistos foram contornados, a decoração ficara espetacular e o festival seria aberto dentro do prazo combinado, exatamente como Dawn prometera. O sucesso do primeiro evento organizado por ele era extremamente necessário, tanto para dar as boas-vindas aos goblins e estreitar as relações entre os dois reinos quanto para que ele enfim caísse nas boas graças do pai de sua amada. O rei Dagda ainda não o perdoara completamente por toda a confusão que ele causara na primavera, roubando uma Poção do Amor, atraindo os temíveis goblins para o Reino das Fadas e sendo indiretamente responsável pelo sequestro de uma de suas amadas filhas. Isso sem contar o preconceito velado; era sabido que relacionamentos amorosos entre seres de espécies diferentes não eram muito bem vistos nos Campos de Luz. Junções conjugais entre fadas e elfos não eram exatamente uma novidade, mas quando se tratava de uma das princesas do reino, a coisa mudava completamente de figura. Aos olhos dos tradicionalistas que ainda exerciam algum poder por aquelas bandas, ele jamais seria bom o bastante para Dawn. Mas ele estava disposto a tentar provar o contrário, e dar uma festa de arromba que ficaria marcada na história podia ser um ótimo primeiro passo.

Esfregando as mãos, Sunny saltou do palco para o chão e checou os arredores pela última vez com um sorriso satisfeito. Decoração? Confere. Iluminação? Confere. Arranjos e disposição das mesas? Confere. Pista de dança? Confere. O Diabinho roubando diversos frutos de uma barraca de comes e bebes próxima? Confere.

...

— EI, EI, EI!!! – Sunny guinchou, correndo em disparada na direção do pequeno demônio peludo, que aparentemente se aproveitara da ausência momentânea do funcionário responsável para surrupiar o máximo possível de comida – Largue essas frutas e erga as mãos onde eu possa vê-las!

Ele congelou, voltando-se para trás com uma expressão que era um misto de culpa e determinação. As patas dianteiras segurando firmemente o montante de frutos gordos e arroxeados, ele tentou correr para a mata, mas Sunny foi mais rápido. Jogou-se para frente e agarrou com firmeza a cauda de rato do Diabinho, levando-o consigo para o chão. Os frutos se espalharam pelo gramado, e o elfo segurou com firmeza os braços da criatura contra o solo para impedi-la de recolhê-los.

— Nem vem que não tem! Eu tive um trabalho danado para deixar tudo absolutamente perfeito e não vou deixar você estragar minha noite! – Grunhiu com o esforço de mantê-lo preso ao chão; o Diabinho parecia mais agitado que o de costume, contorcendo-se freneticamente para tentar se libertar. Seus olhinhos negros estavam esbugalhados, as patas dianteiras cavoucando o solo na tentativa de alcançar um dos frutos.

— Se quer comida tanto assim, espere o festival abrir oficialmente! Roubar não é nem um pouco legal! – Sunny o repreendeu, e por um momento se sentiu um hipócrita. Olhando os frutos com mais atenção, ele perguntou: — E por que quer justamente esses? Tem muita comida na mata de onde você veio, e totalmente de graça. Esses frutos aqui são especialmente para os goblins.

A criaturazinha virou a cabeça para ele, e Sunny se surpreendeu com seu olhar. Não havia qualquer traço de malícia ou zombaria ali. Ofegando pesadamente, ela enterrou as garras fininhas nas mangas de seu traje e o encarou como se implorasse. Ele hesitou por um mísero instante, mas sua convicção de antes foi rapidamente recuperada. Aquele era o maldito Diabinho que lhe tomara a Poção do Amor e saíra por aí espalhando o caos! Quem lhe garantia que aquele não era mais um de seus truques? Não seria feito de palhaço outra vez! Com esse pensamento, ele agarrou o animal por debaixo dos braços e o enxotou decididamente, colocando-o o mais longe possível dos frutos esparramados.

— Você não vai levar nada. Se quiser, eu te dou alguma sobra mais tarde, mas neste momento a comida fica.

E foi aí que a criatura se enfureceu. Guinchou tão raivosamente que Sunny quase caiu para trás na pressa de se afastar. Bateu com as duas patas traseiras no solo como uma lebre e sacudiu os punhos pequeninos para ele antes de se virar e disparar para o mato, desaparecendo em meio à folhagem.

Espantado com o que acabara de acontecer, o elfo se pôs a recolher os frutos, o pensamento ainda fixo no Diabinho. O que diabos havia de errado com ele?

— Sunny! Olhe só quem chegou!

A voz de Dawn o desviou de seus questionamentos. Erguendo a cabeça, ele viu sua adorada fada acompanhada de Marianne, do rei Dagda e da comitiva de goblins, liderados pelo Rei do Pântano. Pôs-se de pé num salto e correu para eles, ainda segurando os frutos nos braços.

— Majestade! Que prazer em vê-lo! – Ele fez uma profunda mesura e acidentalmente deixou que alguns dos frutos caíssem, o que arrancou risadas dos goblins e fez Dagda revirar os olhos.

— Sim, sim. – Ele sacudiu a mão direita, impaciente – Está tudo pronto, eu espero.

— Sim, absolutamente tudo! Chequei cada mísero canto para ter certeza de que nada estava fora do lugar! Tudo na mais perfeita ordem! Nos trinques! – O tom estridente e apavorado de Sunny fez Marianne sentir uma súbita pena. O desespero dele em aprazer seu pai era tão evidente que chegava a ser constrangedor, e o fato de Dagda estar encarando aqueles esforços com tão pouco caso não ajudava em nada. Olhou para Dawn para ver o que ela pensava da situação, mas sua irmã parecia tão enfeitiçada pelo clima festivo que provavelmente nem notara a sinuca de bico em que seu namorado se encontrava.

— Ai, está tudo tão lindo! – Ela exclamou encantada – Você é o máximo, ursinho! Pessoal, este aqui é o cérebro por trás de todo o evento. – Ela indicou orgulhosamente seu amado para Bog e os outros goblins, que estavam fazendo um esforço gigantesco para não gargalhar com o “ursinho” – Se querem dar os parabéns a alguém, dêem a ele.

— Parabéns, ursinho! – Thang o cumprimentou inocentemente, olhando então confuso para seu rei e colegas de trabalho que tinham enfim sucumbido às gargalhadas. Até Marianne tinha começado a rir. Sunny olhava para o chão como se desejasse que ele o engolisse.

— Vamos nos acalmar, sim? – Dagda pediu, pigarreando – Agora que estamos aqui, imagino que seja hora para a abertura oficial. O que prepararam?

— E-Eu vou abrir o festival com o número clássico, não sem antes dar todos os créditos ao senhor pelo patrocínio. – O elfo fez mais uma mesura – Em seguida, Dawn e eu faremos um dueto. A banda vai tocar mais algumas canções e logo depois, todos ficarão livres para subir ao palco e soltar a voz. Nossos convidados de honra podem cantar também, se quiserem.

Os goblins rugiram em aprovação, erguendo os punhos no ar. Bog, porém, manteve-se sério.

— Ninguém aqui vai cantar. Esqueceram-se de que não vieram aqui para se divertirem?

Eles grunhiram desapontados.

— Nem uma musiquinha, chefe?

— Não vamos repetir o número da primavera?

— Não! – Bog foi categórico – Agora parem de me atazanar e assumam seus postos-

— Deixa a gente ao menos comer alguma coisa, chefinho! – Brutus implorou. Todos então se voltaram para Sunny com expressões famintas, e o pobre elfo empalideceu – Ei, pintor de roda-pé, o que é que você tem aí?

— Ah...

— Espere, eu conheço essas frutas. Onde você as apanhou?

— Você ta segurando a morte nos seus braços, cara!

— Sem grilo, é só a gente tirar as sementes e ta tudo certo.

— Passa essas belezinhas pra cá, ursinho!

— VOCÊS ESTÃO SURDOS?! – Bog rugiu, e todos os presentes num raio de quinze metros pularam com o susto – Vocês não vieram aqui para encher a pança! Têm trabalho a fazer, e se não assumirem seus postos agora, só deixarei que tenham as próprias pernas para comerem pelo resto da semana!

— Que horror, Bog. – Marianne o censurou – Quer que eles morram de fome? Deixe que eles ao menos peguem algo para comer durante a patrulha.

— Ta, ta! – Ele deu de ombros impacientemente, e os goblins deram graças aos céus por seu rei ter encontrado uma parceira capaz de fazê-lo comer na palma de sua mão – Peguem alguma coisa das barracas, mas não exagerem. E nada de bebida! Se eu pegar qualquer um de vocês enchendo a cara em seu posto, vão passar o mês inteiro lavando comadres nas masmorras! Menos vocês, Stuff e Thang. Preciso de alguém para segurar meu drinque.

— Bog!

— Argh, okay! Só fiquem aqui para manter os olhos no movimento e me avisar caso vejam algo suspeito.

Os dois goblins menores assentiram, enquanto os demais se afastavam resmungando. Sunny suspirou de alívio enquanto Dawn olhava para os goblins com um ar de piedade e Dagda encarava o outro monarca com uma expressão quase afrontada, como que indignado por ele estar despejando tantas ordens em seu território. Marianne se limitava a dar olhares aborrecidos para seu amante. O que diabos dera nele naquela noite? Ele sempre fora duro com os subordinados, mas nunca ao ponto de praticamente mandá-los passar fome. E como assim “não vieram aqui para se divertirem”? O objetivo não era justamente aproveitar o festival e matar as saudades dela?

Ele percebeu sua expressão descontente e relaxou um pouco em sua pose autoritária, lançando-lhe um olhar de desculpas.

— Foi mal, Durona. Sei que não parece muito justo, mas nas circunstâncias atuais, quanto mais pares de olhos vigilantes, melhor. Eu mesmo patrulharia se não precisasse conversar seriamente com vocês. – Ele então se virou para Sunny, curioso – E onde você conseguiu essas amoras de outono, elfo?

— N-Na Floresta Sombria, senhor. – Ele balbuciou – Eu e alguns amigos passamos a semana recolhendo flores e frutos. Estes aqui foram sugeridos pela senhora Griselda.

— Só podia. – Bog revirou os olhos à menção de sua mãe – Não sabe que esses frutos são um perigo? As sementes possuem uma toxina fortíssima. Já vi goblins com o triplo do seu tamanho estrebuchando no chão depois de comerem um desses por engano.

— Estamos cientes disso. – Dagda interveio antes que Sunny pudesse responder – Mas também é sabido que o sumo fermentado dessas amoras é uma aguardente muito apreciada em nossas terras. É preciso apenas cuidado extremo na hora do preparo. Retirando-se as sementes e garantido que a toxina não contamine a polpa, pode-se produzir uma bebida de muita qualidade. – Ele estufou a barriga proeminente com altivez – Meus funcionários cuidaram de preparar vários barris especialmente para este festival. Demora mais de duas semanas para fermentar, mas o sabor sem igual compensa todo o trabalho extra.

— Não é pra tanto, pai. Pessoalmente, eu a acho doce demais. – Marianne fez uma careta.

— E eu sempre fico tonta depois de beber uma única taça. – Dawn se lamentou.

— Também não sou o maior fã desse tipo de bebida, mas se lhes serve bem... – Bog sorriu de canto para as irmãs antes de voltar a um semblante sério, desta vez dirigido a Sunny – De qualquer jeito, zanzar pela Floresta Sombria tão displicentemente foi de uma irresponsabilidade ímpar.

— E-Eu sinto muito, Rei Bog, senhor. Não era minha intenção trespassar...

— Não é disso que estou falando. Você e seus amigos correram sérios riscos com essa aventurazinha. Poderiam estar mortos agora, suas carcaças apodrecendo no ninho de algum predador.

— Que exagero, Bog. – Marianne revirou os olhos, enquanto o rosto de Sunny ficava ainda mais pálido.

— Desta vez não, Marianne...

— Sunny. – Uma voz baixa e tímida chamou. Pareh acenou indulgente para o grupo, parecendo não saber muito bem como prosseguir – Hnnn... Hã... Acho que já está na hora...

— Sério? Caramba, eu nem vi os minutos passando! – O rapazinho exclamou, despertando de seu estupor – Já vou indo, Pareh. Amor? – Ele estendeu uma mão para Dawn com uma reverência cavalheiresca, ao que ela riu e aceitou. Ele então lançou um olhar hesitante para Dagda – Se puder nos acompanhar, Majestade...

— Claro. – O rei das fadas ergueu o queixo com convicção. Virou-se uma última vez para Marianne e Bog – Vou caminhar um pouco pela pista depois da abertura, para socializar. Não quer vir comigo, filha?

— Eu estou bem aqui, pai. Tem uma vista boa do palco, e nós queremos ver o dueto da Dawn e do Sunny.

— Ah... sim, claro. – Ele murmurou, os olhos se estreitando. Bog sentiu uma vontade súbita de passar o braço pela cintura de Marianne e puxá-la para que se encostasse a ele; uma vontade que ele controlou por saber que era um impulso que poderia lhe custar caro. Sem contar que era pior ainda tratá-la como sua propriedade, coisa que ela definitivamente não era. Mas era bem verdade que já estava perdendo a paciência com os olhares desaprovadores do outro monarca.

“Aceite de uma vez que ela me escolheu, velho!”

— Vamos logo, papai! – Dawn chamou impaciente. Acenou uma última vez para Marianne e Bog – Nos desejem sorte! E por favor, tentem se comportar.

Ambos reviraram os olhos enquanto o trio se afastava, Dagda ainda se virando uma última vez para olhar para o casal, desconfiado. Marianne esperou que sumissem em meio à multidão para se virar para o goblin. Não sabia muito bem o que pretendera dizer, mas fosse o que fosse, foi interrompida quando a enorme mão pousou sobre a lateral de seu rosto e o puxou gentilmente para cima, seus lábios finalmente se tocando. Marianne ofegou pesadamente quando a língua áspera exigiu passagem, o que ela concedeu avidamente. Mal haviam se encostado desde que ele chegara, procurando não aborrecer seu pai, e agora que estavam enfim trocando um beijo, ela sentia a enorme necessidade de ser tocada por seu companheiro sendo enfim satisfeita. As garras dele mais uma vez a arranharam gentilmente na base entre suas asas, que se agitaram momentaneamente com o arrepio prazeroso que a percorreu. Ela retribuiu mordendo-o no lábio inferior, sorrindo ao ouvi-lo grunhir. Desta vez foram as asas dele que bateram freneticamente. Stuff e Thang olhavam para os lados deliberadamente, constrangidos com a demonstração pouco discreta de afeto, e não eram os únicos. Muitas das fadas e elfos presentes se afastavam deles com expressões de grande desconforto; ver uma fada e um goblin se cortejando não era, aos olhos da maioria, uma visão agradável.

Alheios a tudo isso, ambos enfim se afastaram com semblantes idênticos de satisfação.

— Queria ter feito isso desde que cheguei, mas não seria prudente arriscar causar um infarto em seu pobre pai. – Bog sorriu zombeteiro.

— Talvez tenha sido melhor assim. – Marianne riu, apoiando as mãos nas placas do peitoral dele – Quer ir para um lugar mais reservado depois do dueto?

— Hnn? E o que exatamente vamos fazer?

— O que você acha? – O tom de voz sedutor da fada arrancou mais um grunhido dele – Você está com seu cetro, eu estou com minha espada... Um bom duelo para aliviar o estresse seria ideal.

— Ah, então é isso. – Ele resmungou, o desapontamento em sua voz a fazendo rir ainda mais – Não acha a situação pouco oportuna?

— Eu não tive a oportunidade de treinar nessas semanas. Nenhum dos membros da Guarda Real quis ser meu parceiro de duelos.

— Talvez porque tenham amor às próprias vidas.

— E de qualquer jeito, nenhum deles representa um desafio real. Então, o que você me diz?

— Eu adoraria, mas infelizmente terei de recusar. Tenho um assunto sério para tratar com você. – O sorriso dele imediatamente se desfez, e ela percebeu que aquele era o momento para deixar as brincadeiras de lado – Você recebeu minha resposta ao seu convite, eu presumo.

— Ah, sim! – Marianne retirou sua espada da bainha, procurando a carta que havia metido ali dentro. Desamassou o papel e o abriu – Você disse que havia coisas estranhas acontecendo nos confins da Floresta Sombria...

— Eu não podia especificar por carta. É minha obrigação tratar desse assunto pessoalmente, de um rei para outro rei e sua herdeira, mas como seu pai não se encontra no momento...

Naquele instante, a iluminação da festa se concentrou no grande palco. Todos os presentes irromperam em estrondosos aplausos quando Sunny subiu ao centro com o rei Dagda. O elfo pigarreou antes de começar a discursar: — Boa noite a todos, e sejam bem-vindos a mais um Festival da Colheita! Foi um ano muito cheio e cansativo para todos nós, e obviamente estão todos muito ansiosos para começar a festejar. – Ele pausou por alguns segundos para deixar a platéia manifestar sua aprovação – Mas antes que caiamos na gandaia, nosso estimado rei gostaria de expressar todo o seu contentamento. Por favor, uma salva de palmas para ele!

Dagda sorriu enquanto seus súditos o saldavam animadamente, ao mesmo tempo em que todos se curvavam em reverências. Ele juntou as mãos sobre a barriga volumosa e pigarreou.

— Obrigado, obrigado. É uma honra estar aqui por mais um ano, na companhia tão agradável de meu amado povo. Antes de tudo, queria agradecer enormemente a todos vocês por terem tornado mais este festival uma realidade. Estou ciente de como o trabalho na lavoura é exaustivo e estressante, mas garanto que sem os seus esforços, não haveria uma fartura tão grande que valesse a pena ser comemorada. Vocês contam com minha mais profunda estima.

Ele abriu os braços para receber mais uma onde de aplausos.

— Este ano, porém, será um pouco diferente. Afinal, contamos com a ilustre presença de convidados muito especiais. – Ele então se voltou na direção de Bog e Marianne – Quero dar as boas vindas ao Rei do Pântano e a toda sua comitiva, que tão gentilmente aceitaram nosso convite para tomar parte na comemoração. Esperamos que isso seja um sinal da prosperidade e harmonia que aguarda nossos reinos. Que a nossa mais nova relação amistosa possa durar por um tempo infindável.

— Que assim seja. – Bog assentiu sem sorrir. Os aplausos que se seguiram foram menos calorosos.

— Bem, não chatearei vocês com mais discursos maçantes, não agora que estamos prestes a nos regalar com esse banquete. Os deuses sabem como também espero ansioso por ele. – Ele sorriu ante as inúmeras risadas – Declaro oficialmente aberto o Festival da Colheita!

Todos gritaram e aplaudiram alegremente. Dagda fez um aceno de cabeça para Sunny, que imediatamente chamou a banda com animados acenos.

— É isso aí, pessoal, som na caixa!

A música imediatamente se fez ouvir, enquanto todos os presentes se punham a dançar. Sunny cantava com mais vontade do que nunca, sorrindo e acenando para Dawn, exibindo seus elaborados passos de dança com a graça de um acrobata. Marianne sorriu e virou-se para Bog, querendo comentar a cena, mas seu sorriso se desfez ao ver a expressão preocupada de seu acompanhante.

— Bog? Qual é o problema?

— Eu não sei bem como começar...

Ele colocou as mãos atrás das costas, o cetro firmemente apertado entre os dedos. Stuff e Thang se entreolharam nervosamente, e o próprio Bog pareceu ponderar, como se não quisesse tocar naquele determinado assunto.

— Diga, por favor. – Ela pediu, olhando-o fundo nos olhos. Ele então respirou fundo.

— Bem, eu serei direito. A Floresta Sombria está passando por uma grave fase de inanição.

— Inanição? – Marianne repetiu, confusa. Ele assentiu, então desatou a falar.

— Começou há pouco mais de duas semanas. Um grupo de goblins das áreas pantanosas veio até minha corte para se queixar a respeito de mortes sem explicação dos animais das redondezas. No início eram apenas animais pequenos, como roedores. Depois, animais de maior porte. Todos os cadáveres foram encontrados na beira de córregos ou nas proximidades.

— O grande problema é que muitos desses animais eram nossas caças constantes. – Stuff interveio antes que a princesa pudesse dizer algo – A senhorita deve saber que goblins são onívoros, mas carne continua sendo o principal constituinte de nossa dieta. As mortes inexplicáveis têm aumentando sem parar nos últimos dias, e o povo está ficando sem alimentos.

Os olhos castanhos de Marianne se arregalaram.

— Vocês estão passando fome? Por que não disseram nada antes?!

— Foi tudo muito repentino. Estive durante todo esse tempo atendendo a chamados de todos os vilarejos nas proximidades do Castelo Sombrio. Por isso não pude entrar em contanto com você mais cedo. – Bog murmurou em tom de desculpas.

— Mas... Mas o que vocês têm feito a respeito disso?

— A gente está tendo que usar o estoque de suprimentos que estávamos guardando para o inverno. – Thang murmurou tristemente – Estamos dando tudo o que pudermos para os que estão passando fome, mas já não é mais o bastante. O que quer que esteja matando os animais acabou se alastrando pela maior parte da Floresta.

— Mas o que é que está matando esses animais? Não há algum rastro, pista, nada?

— Nada. E já enviei incontáveis grupos expedicionários atrás do que quer que esteja causando isso, mas andar a esmo pela Floresta está ficando a cada dia mais perigoso. – A expressão de Bog se tornou sombria – Afinal, não somos apenas nós que estamos ficando sem caça.

— Outros predadores também estão. – Marianne concluiu a frase por ele, a voz enrouquecida pelo choque – Mas eu pensei... Você não disse que a maioria dos predadores na Floresta evita sua gente?

— Se tiverem escolha. – O rei passou a mão direita por seu rosto num gesto cansado – Mas como estão ficando sem suas caças habituais, começaram a atacar goblins. A guarda real já se esgotou de ficar atendendo pedidos de socorro. E se as coisas continuarem como estão, a Floresta Sombria pode não ser mais o suficiente para eles.

Foi como se uma pedra de gelo escorresse pela espinha de Marianne. Jamais teria imaginado que a razão para o silêncio vindo da Floresta era uma grave crise de falta de alimentos. Pensou em Bog, em Griselda, em Stuff, Thang, Brutus e todos os goblins a serviço no Castelo Sombrio, em todos os goblins que viviam nas redondezas e mais além. Pensou em como estavam sofrendo com a inanição, tendo que contar com os suprimentos de inverno e consequentemente acabando com a reserva que garantiria sua sobrevivência durante a estação mais severa do ano. Pensou em todo o pavor que estavam sentindo, vendo-se atacados por predadores desesperados e famintos.

— Por que você não me disse nada? Por que não me avisou? – Ela agarrou os braços dele, trêmula. A expressão dele tornou-se culpada.

— Me perdoe, Marianne, mas eu não sabia o que dizer. Isso já não é apenas sobre a situação de meu povo. É também sobre a do seu.

E então ela se lembrou da última frase dele.

“... a Floresta Sombria pode não ser mais o suficiente para eles.”

Sua mente conjurou imagens aterradoras: aves de rapina, serpentes e gatos-do-mato impelidos pela fome esmagadora, invadindo os Campos de Luz e atacando fadas, elfos, pixies, brownies... Criaturas que não sabiam como se proteger desse tipo de perigo, de animais que se escondiam nas sombras noturnas para atacar, tornando-se alvos vulneráveis e fáceis... Isso explicava a preocupação de Bog e seus modos ríspidos com seus subordinados, sua insistência em fazê-los patrulhar...

— Marianne. – Ele a chamou, a voz rouca de preocupação – Marianne, por favor, diga alguma coisa.

Naquele momento, a música mudou. Dawn subiu ao palco para seu dueto com Sunny, acenando feliz para a platéia. Marianne não se lembrava de já ter visto o olhar de sua irmã se iluminar tanto, não da maneira como se iluminou quando ela segurou as mãos do elfo, ambos se olhando amorosamente enquanto cantavam.

You've got a cute way of talking

You got the better of me

Just snap your fingers and I’m walking

Like a dog, hanging on your lead

Os olhos dela escrutinaram a platéia discretamente até encontrarem os seus. O sorriso dela se ampliou. Ela ergueu a mão direita de Sunny e o fez rodopiar, fazendo-o rir com prazer.

You make me feel like dancin'

You make me feel like dancin'

Oh, you make me feel like dancin'

I feel like dancin', dancin', dance the night all way

I feel like dancin', dancin', dance the night all way

Dawn sempre fora um espírito alegre, mas naquela noite ela estava especialmente radiante. E Marianne definitivamente não queria ver aquele sorriso que tanto amava se apagar.

— Nós temos que fazer alguma coisa. – Ela decretou, voltando-se para Bog com uma expressão determinada. Ele assentiu vigorosamente.

— É claro. Esse é o principal motivo que me fez vir até aqui. Não é fácil para mim engolir meu orgulho como goblin e rei e fazer apelos, mas a situação chegou a um ponto insustentável.

— Nós vamos ajudá-los no que pudermos! Então, o que precisam?

— Primeiro de doações. – Stuff disse, puxando um guardanapo de uma mesa próxima e empunhando um pedaço de carvão – O povo necessita de alimentos urgentemente.

— E também queremos permissão para caçar nos Campos de Luz! – Thang exclamou enquanto Stuff fazia anotações. Bog rosnou para os dois.

— Não vão fazendo uma exigência atrás da outra. Não é assim que acordos entre reinos funcionam.

— Mas o senhor mesmo discutiu os termos do acordo com Lady Griselda, Majestade. – Stuff respondeu, confusa – Disse que inclusive pediria voluntários do exército do Reino das Fadas para ajudar nas expedições e no combate a predadores...

— Meu pai concordará com toda a certeza. Ele jamais deixaria pessoas inocentes sofrerem dessa maneira. – Marianne garantiu. Bog balançou a cabeça.

— Em um acordo entre reinos, deve haver um dar e receber em igual instância. Não posso fazer pedidos ao seu pai sem oferecer algo em troca.

— Mas vocês não estão em condições de oferecem algo, precisando sobreviver com tão pouco!

— Daremos nossa contribuição aos poucos. E já vou começar entregando um presente de bom porte. – Ele se voltou para seus dois ajudantes – Vão apanhar o embrulho.

Stuff e Thang assentiram e correram por entre os convidados, desaparecendo de vista. Marianne tomou a mão direita de seu companheiro com força, mordendo o lábio inferior.

— Você não precisa mesmo fazer isso. Quero poder te ajudar no que precisar, com ou sem presentes.

— Eu sei. – Ele acariciou seu rosto com a ponta de uma garra – Sempre soube que poderia contar com você, Durona. Mas isso se trata de um acordo de diplomacia, e eu preciso seguir o protocolo. E estou certo de que seu pai também preferirá assim.

Ela assentiu. É claro que também sabia disso. Antes de ser serem seu pai e amante, respectivamente, Dagda e Bog eram reis. E como tais, havia exigências que precisavam cumprir nas relações entre si. Era um fato que inclusive precisava se lembrar para quando se tornasse rainha.

Bog sorriu uma última vez para ela antes de esticar uma mão e agarrar uma taça de sumo de amora da bandeja de uma fada garçonete próxima, que ficou branca como uma folha de papel e se afastou o mais rápido possível. Ele respirou fundo, ergueu a taça e deu fortes petelecos no vidro com as pontas das garras do dedão e do indicador. O tinido produzido não foi alto o bastante para chamar a atenção dos demais convidados, mas o intento foi alcançado quando a taça se partiu com a força do peteleco seguinte. A música parou e todos se voltaram para sua princesa e o rei goblin, que encaravam de olhos arregalados os pedaços de vidro que se espatifavam no chão. Bog então pigarreou e ergueu a cabeça.

— Ah... Desculpem a interrupção, mas tenho um importante comunicado a fazer. – Ele anunciou com sua voz trovejante – Gostaria mais uma vez de agradecer ao Rei Dagda por seu convite e parabenizar a todos por sua... hã... festinha tão interessante. – Ele gesticulou amplamente com a mão, salpicando os presentes mais próximos com sumo de amora – De fato, ficamos tão lisonjeados com o convite que decidimos trazer um presente como prova de nossa gratidão. Uma iguaria única em nossa floresta e que certamente incrementará seu banquete.

Marianne tinha quase certeza de que a ideia fora de Griselda, considerando o tom de discurso ensaiado, mas não fez comentários. Viu como seu pai, parado junto a um grupo de fadas de famílias nobres, sorriu abertamente com lisonja afetada, e imediatamente se sentiu esperançosa quanto ao rumo da situação. Se Dagda gostasse do presente, um acordo ficaria infinitamente mais fácil. Naquele mesmo momento, a multidão se partiu para abrir caminho para Stuff e Thang, que voltavam trazendo o enorme embrulho. Pararam no centro da pista de dança, ofegando. Todos se aproximaram com curiosidade, inclusive os músicos.

— Ora, não havia nenhuma necessidade, meu caro Rei do Pântano. – Dagda comentou com uma modéstia ensaiada – Sua presença é um presente por si só.

— Por favor, eu insisto. – Bog resmungou, tentando esconder a impaciência – Aceite como a promessa de uma relação amigável e duradoura entre nossos povos. A promessa de uma união definitiva, vinda do vínculo que compartilho com sua filha, a Princesa Marianne, e a promessa de que poderemos sempre contar com o apoio mútuo, haja o que houver.

— É claro. – O rei das fadas procurou conter uma careta à menção do vínculo entre sua filha e o goblin. Marianne viu como Dawn vibrava de empolgação, e ela também já estava bastante curiosa. Sorrindo de canto para ela, Bog estufou o peito e pigarreou uma última vez.

— Stuff, Thang. Abram o embrulho.

Os dois pequenos goblins agarram as pontas das cordas que prendiam o embrulho e puxaram com força. O toldo de musgo se afrouxou e cedeu, caindo em ondas para o chão e enfim revelando seu conteúdo.

— E então? Impressionante, não acham? – Bog comentou com convicção, sorrindo abertamente.

Ninguém respondeu. O silêncio que se seguiu à abertura do pacote era sepulcral, abismado, como se todos tivessem se esquecido momentaneamente de como respirar. A cor havia sumido do rosto de Dagda, seus olhos se esbugalhando a proporções quase cômicas. Marianne só conseguiu encarar a cena em frente com o queixo caído, o choque a impedindo de assimilar de imediato o que via. Um segundo se passou. E então os gritos histéricos começaram.

Ali, parada no meio da pista de dança, estava a cabeça decepada de uma serpente.

— MAS O QUE SIGNIFICA ISSO?! – O rei das fadas rugiu, encolerizado, correndo para trás com tanta rapidez que quase tropeçou nos próprios pés. As fadas, elfos, pixies e brownies irromperam em exclamações de choque e horror, voando ou correndo para longe da cena aterradora. Dawn cobriu a boca com as mãos, aterrorizada. Sunny parecia prestes a desmaiar, encarando a enorme cabeça como algo saído de seus piores pesadelos. E o sorriso de Bog se desfez, dando lugar a uma expressão aturdida.

— Como assim? É o nosso presente! – Ele falou como se fosse algo óbvio – Uma legítima Cobra Rato, caçada hoje cedo. A maior que vimos nos últimos cinco anos, devo dizer.

Isso é o seu presente?! – Dagda gritou, seu rosto se avermelhando de fúria e aversão – É isso o que você considera adequado dar a um reino com o qual pretende formar uma aliança? Um maldito cadáver?!

— Isso é um troféu! – Bog exclamou, totalmente confuso com aquela recepção tão pouco calorosa – Um verdadeiro achado! Faz alguma ideia de como é difícil rastrear e matar uma serpente sem ser devorado no processo? Deveria estar lisonjeado pelo risco que minha comitiva e eu corremos para lhe aprazer.

— Aprazer?! Você está falando sério? Ou isso é a ideia que a sua gente faz de uma piada? – O rei mais velho avançou para o mais jovem, sacudindo o dedo indicador da mão direita furiosamente – Por que se for, não estou achando a menor graça!

— Pai, se acalme! – Marianne pediu, colocando-se entre ele e Bog. Também se horrorizara com a visão da cabeça decepada, mas as expressões chocadas de Stuff e Thang e o total aturdimento de seu amante lhe mostravam que o que acontecia ali não passava de um tremendo mal entendido – Eles não tiveram a intenção de ofender, tenho certeza disso!

— Não se intrometa, Marianne!

— Não fale assim com ela! – O goblin rosnou numa ameaça.

— Falo com minha filha como quiser! É inacreditável que ela esteja tentando defendê-lo, mesmo depois desta verdadeira afronta! – Ele praticamente cuspiu – Exijo uma explicação para este absurdo, e se não a tiver, considerarei esta monstruosidade como uma declaração de guerra!

— Pai, pelo amor dos deuses! – Marianne gritou, abismada com o rumo que as coisas haviam tomado – O senhor não pode chegar a uma conclusão dessas sem ouvir o que eles têm a dizer! Isso é tudo um mal entendido, se você deixá-los explicar-

— E qual é a explicação? Empanturram-se com o restante da maldita serpente e decidiram trazer a cabeça como aperitivo? Não conseguem controlar seus impulsos carniceiros nem em um evento decente?

Bog respondeu com um rosnado medonho, suas asas batendo loucamente, suas presas arreganhadas num esgar monstruoso. Dagda pulou para trás, atemorizado. O rompante de raiva do Rei do Pântano chamou a atenção dos goblins próximos, que responderam com seus respectivos rugidos. Os convidados gritaram de pavor, encolhendo-se e amontoando-se num círculo protetor. Marianne, sentindo o pânico ameaçar dominá-la, socou o peito de seu amante com força o bastante para fazê-lo perder momentaneamente o equilíbrio.

— Bog, se controle!

A voz da fada pareceu alcançá-lo em seu estado raivoso. Os olhos azuis perderam parte do chamejar furioso e sua expressão se suavizou. Ele a encarou num misto de choque e culpa.

— Marianne... Sinto muito, eu não queria-

— Que ultraje! Como ousa ameaçar a mim, minhas filhas e meus súditos com essa demonstração animalesca de descontrole?! – Dagda agarrou o braço de Marianne, ignorando seus protestos enquanto a puxava para trás de si. Bog voltou a rosnar, indignado por estar sendo separado de sua parceira. Sunny, vendo a situação se agravar a proporções alarmantes, desvencilhou-se da mão de Dawn e correu para o centro da pista.

— Pessoal, pessoal, vamos nos acalmar! – Ele implorou, tentando sorrir apesar de seu desespero. O evento que preparara com tanto cuidado e dedicação estava indo para o buraco bem diante de seus olhos, e ele seria louco se não tentasse impedir o desastre iminente – É como a Princesa Marianne disse, tudo não deve passar de um mal entendido! Então que tal nos sentarmos, tomarmos uma boa taça de sumo de amora e conversamos civilizadamente?

— Não existe nada de civilizado em criaturas tão selvagens.

— Pai! – Marianne e Dawn exclamaram juntas.

— Digo o mesmo da recusa de um presente sincero. Esperávamos mais decoro de alguém que gosta de se portar tão pomposamente.

— Ora, seu...

— Já sei! – Sunny gritou, o pânico tornando sua voz esganiçada como a de uma gralha – Vamos cantar todos juntos, então tudo ficará bem! Don’t worry about a thing! ‘Cause every little thing gonna be alright-

— SILÊNCIO!

O elfo gorgolejou pateticamente antes de se calar.

— Eu não sei o que pretendia com esse show de horrores, Rei do Pântano, mas garanto-lhe que isso lhe custará muito caro. – Dagda estreitou os olhos, ameaçador – Terá muita sorte se eu sequer permitir que minha filha se despeça de você.

— Está senil se pensa que vou deixar que tome essa decisão por ela. – Bog respondeu, as placas em seus ombros se salientando com a fúria.

— Parem de falar como se eu não estivesse aqui! – Marianne se desvencilhou do pai e novamente postou-se entre os dois, furiosa – Não vou mais aturar essas ameaças ridículas! Exijo que se acalmem, que se sentem e discutam o problema como dois reis, não como zangões enraivecidos, ou eu juro que-

Não pode concluir a frase. Um som pavoroso tomou o campo, agudo e lúgubre, ecoando no súbito silêncio que caiu sobre o festival. Todos imediatamente olharam para os lados, espantados. Quase ninguém se lembrava de já ter ouvido algo parecido, e uma atmosfera de temor tomou o local.

— O que foi isso, papai? – Dawn murmurou, trêmula. Dagda não soube responder, ainda paralisado pelo susto. Marianne engoliu em seco, a mão firme no cabo de sua espada, os olhos fixos na mata á frente. Olhou de lado para Bog, querendo perguntar se ele sabia do que se tratava, mas ele não encarava a mata. Seus olhos estavam erguidos para o céu, arregalados em total descrença.

— Ta de brincadeira...

E todos viram: o vulto gigantesco, momentaneamente iluminado pelo luar, suas enormes asas jogando sombras sobre o vilarejo dos elfos. O som agudo e fantasmagórico se repetiu.

E então o grito apavorado de Thang cortou o ar da noite como uma faca.

— CORUJA!!!

Notas finais
Pronto, aí está. Ficou enorme, mas eu nunca fui muito boa em escrever capítulos curtos xP. O próximo deve sair na semana que vem. Até lá 0/ P.S.: Para quem ficou curioso: a música que Dawn e Sunny cantam é "You Make Me Feel Like Dancing", do Leo Sayer.