Garras e Presas

19 Capítulo 19


Notas iniciais
Fala, meu povo! Tiveram um bom fim e começo de ano? Espero que sim ^^ Eu sei que demorou, mas finalmente, aqui estamos nós com o primeiro capítulo do ano! Boa leitura 0/

Quando Dawn saiu do gabinete real e zarpou pela escadaria abaixo em direção ao paiol de armas, a última pessoa (se é que essa era a definição adequada) que esperava encontrar era a Fada Açucarada.

— Alteza! Que surpresa encontra-la por aqui. – Ela comentou casualmente, embora não aparentasse surpresa nenhuma. Dawn queria questioná-la sobre ficar zanzando pelo palácio sem supervisão, mas não tinha tempo e nem cabeça para isso.

— Não posso conversar agora. Com sua licença. – Ela fez uma educada mesura antes de seguir em frente. Açucarada riu consigo mesma. Mesmo sob um enorme estresse, a menina não se esquecia de ter modos.

— Espere um minuto. Pretende deixar uma visitante para trás assim, sem oferecer uma explicação ou chazinho como pedidos de desculpas? Achei que isso fosse o protocolo usual entre membros da realeza. – Ela disse enquanto flutuava ao seu lado, acompanhando a velocidade de seu voo com facilidade. Dawn sacudiu a cabeça.

— Sinto muito, mas não tenho tempo para isso.

— Oh, eu acho que você tem. Seu pai saiu em uma importante missão e não há deveres que uma princesa precise cumprir quando o palácio se encontra praticamente às moscas. Então me diga, por que me priva de sua companhia?

Dawn parou no meio da escadaria, há apenas alguns metros de distância da porta que dava para a sala do trono, e voltou-se para sua acompanhante com impaciência.

— Sei o que está tentando fazer. A senhora está perdendo seu tempo.

— Juro que não sei do que está falando.

— Claro que sabe! A senhora está tentando me impedir de ir atrás de meu pai! – A princesa se voltou novamente para frente, saltando os últimos degraus de pedra e abrindo a porta para a sala do trono sem cerimônias. Açucarada a seguiu com uma expressão desinteressada.

— E por que eu faria algo assim?

— Eu não sei. Mas já a deixo de sobreaviso que nada do que a senhora diga fará com que eu mude de ideia.

— Entendo. Só me responda uma pergunta, Alteza, fazendo o favor. – Ela pediu num tom quase entediado, os olhos fixos nas unhas da mão direita – Por aquilo que pude perceber, seu pai ordenou que permanecesse no palácio enquanto ele resolvia o problema. O que acha que vai ganhar desobedecendo-o?

— Eu não sei! – Dawn repetiu em frustração enquanto abria os grandes portais com um estrondo, imediatamente disparando pelas escadas em direção aos estábulos – Mais tempo, talvez. Se eu conseguir falar com esses goblins, se eu convencê-los a manterem a calma e a repensarem suas atitudes-

— Você não sabe muito sobre goblins, não é, querida? Autoavaliação não é uma prática muito cultivada entre eles. Quando eles querem alguma coisa, eles simplesmente pegam, não importando o que precisem fazer. Você teve uma amostra disso com o seu querido cunhado, já se esqueceu?

— Não fale do Bog assim! Ele é bom, ele é gentil, ele é-

— Um goblin. Exatamente como esses que estão às portas do seu reino, provavelmente buscando os suprimentos que eles não conseguem encontrar no próprio habitat. – Açucarada suspirou ao se colocar na frente de Dawn, apoiando suas mãos gentilmente nos ombros dela – Você tem uma natureza muito amável, Alteza, mas isso não é o bastante para apaziguar o sofrimento e a raiva das massas, ainda mais uma massa de goblins. Eles estão exaustos, famintos e assustados. Eles acreditam tanto quanto os seus súditos nessas invencionices sobre castigos divinos. Não vão se interessar por nada do que a senhorita tenha a dizer, pois assim como seu povo os culpam pela crise, eles também culpam a vocês.

O coração de Dawn pareceu se alojar em seu estômago. Não fazia ideia de que as histórias sobre as supostas pragas dos deuses haviam se espalhado para o reino vizinho.

— Deuses, por que isso está acontecendo? – Ela balbuciou, engolindo em seco enquanto escondia o rosto nas mãos – Por que as pessoas preferem se agarrar a essas superstições ridículas a aceitar mudanças?

— Por medo, minha cara. Medo do que é diferente. Medo de perder o conforto de uma certeza. E o medo de ser deixado para trás enquanto o resto do mundo segue em frente. Acredito que seja assim que o seu pai se sente.

Dawn fungou, as lágrimas cristalinas se dependurando em seus cílios inferiores. Ela nunca havia parado para pensar por aquele lado. Para Marianne e para ela era fácil aceitar mudanças. Elas estavam certas de seus benefícios. Para tantas outras pessoas, porém, transformações drásticas como as que os dois reinos estavam passando deviam se assemelhar a uma queda em um abismo onde não se podia divisar o fundo. Tantos séculos de silêncio, tantas crenças e tradições, toda a certeza de superioridade... Não eram conceitos dos quais a maioria conseguiria abrir mão facilmente. Seu pai parecia ter ciência disso e temia as consequências da perda de valores com os quais ele fora criado desde que nascera. Ele e tantos outros...

— Nós... Nós não queríamos assustar ninguém. Só queríamos melhorar a qualidade de vida para os dois reinos. Queríamos que nosso povo pudesse viver sem medo dos nossos vizinhos. Queríamos que todos pudessem viver em paz.

— Um sonho bonito, de fato, mas que não pode ser alcançado da noite para o dia. A destruição de velhos conceitos leva tempo e requer muita luta e perseverança, Alteza. E aqueles que os preservam não são necessariamente pessoas ruins. Eles apenas têm medo do que não conhecem. E o medo deixa as pessoas cegas e surdas.

— Então... Simplesmente pedir por calma e por uma conversar não resolverá?

— Não ao seu estilo usual. Goblins resolvem suas pendências de outras maneiras.

Ah, Dawn conhecia bem aquelas maneiras. Engoliu em seco, trêmula de medo ao imaginar o que poderia acontecer ao seu pai e à Guarda Real caso não correspondessem à ideia que goblins faziam de um acerto de contas.

— Ainda assim eu preciso fazer alguma coisa. – Ela decretou enquanto enxugava as lágrimas e retomava seu caminho com passadas mais decididas.

— Como o quê? Se sabe que conversar não resolverá, o que exatamente pretende fazer?

— Eu... Eu não sei. – Ela murmurou novamente, desta vez soando completamente incerta – Eu realmente não sei.

Ficaram em silêncio por um momento, ambas perdidas nos próprios pensamentos. Ao observar a expressão de absoluto desamparo da garota, Açucarada foi tomada por um desejo de tomar alguma atitude, o que era atípico dela. Seres como ela não se atinham a conceitos como moralidade. Imortais sempre acabavam por se afastar de normas que regiam o convívio social e acabavam por não compreender os sentimentos dos seres terrenos em sua totalidade. Era o preço a se pagar por ser livre da ilusão do tempo e do espaço. Mas tinha plena ciência de que estava testemunhando um evento que entraria para os anais da história, e se pudesse contribuir para que tal evento se desenrolasse favoravelmente e com a menor quantidade possível de sangue derramado, então talvez valesse a pena assumir uma posição parcial. Bem, qualquer coisa que fizesse aquela criatura parar de se lamuriar.

— Acho que tem algo que a senhorita pode fazer.

— Mesmo? – Os olhos dela imediatamente se iluminaram. Açucarada assentiu.

— Mesmo. Não é um método muito... ortodoxo, digamos assim, ao menos para os seus padrões. Você terá de ser bastante corajosa, meu bem.

— Eu faço qualquer coisa! A senhora só precisa me dizer o quê! – Dawn exclamou, pálida em receio, porém determinada.

— Bem, preciso primeiro que me responda uma pergunta. A senhorita já brandiu uma espada alguma vez?

— É claro que já.

— Uma espada de verdade?

Dawn mordeu o lábio inferior, subitamente incerta.

— Bem, era uma espada de madeira. Não é a mesma coisa?

Açucarada a encarou como se tentasse decidir se a garota estava falando sério ou fazendo troça. Os olhos grandes e inocentes dela a fizeram suspirar pesadamente.

— Isso vai ser um pouco mais complicado do que eu pensei...

— Por favor, Dona Açucarada, o que quer que seja, eu farei o que puder para acertar! Tudo bem, eu nunca peguei em uma espada de verdade antes, mas eu conheço ao menos o básico do combate armado. Minha irmã me ensinou algumas coisas. – Dawn assegurou, lembrando-se com certo arrependimento de sua impaciência com as neuras de Marianne, que teimara em lhe ensinar técnicas de defesa pessoal, ainda que ficassem só no campo da teoria. Se colocar em prática os poucos ensinamentos marciais de sua irmã era necessário para salvar seu pai e seu reino, ela o faria sem pestanejar. Açucarada viu essa certeza brilhando resoluta em sua expressão, o que acabou por convencê-la.

— Tudo bem, então. Eis o que vamos fazer...

Cerca de dez minutos depois, as duas aliadas improváveis disparavam para fora do paiol de armas e voavam em direção à fronteira. Seguiam num ritmo mais lento do que gostariam, porém: a capacidade de voo de Dawn estava prejudicada pelo peso de todo o equipamento de proteção que carregava em seu corpo.

— Isso é mesmo necessário? – Ela perguntou enquanto ofegava, suas asas batendo loucamente com o esforço de mantê-la no ar, lutando contra o peso da armadura que a puxava de volta ao chão.

— Se quiser sair de um possível conflito inteira, sim. – A outra afirmou ao seu lado, uma mão sob o queixo enquanto analisava a qualidade do mais novo item de vestuário da princesa. Acabaram não podendo vesti-la com toda a parafernália requerida; Dawn não era forte o bastante para alçar voo com o peso de uma armadura completa. Limitaram-se ao básico: cota de malha, ombreiras, manoplas, coxotes e um elmo que era grande demais para a cabeça dela. Em seu flanco esquerdo, carregava uma bainha contendo uma espada leve e em péssimo estado, quase sem fio. Levava no braço esquerdo um escudo de madeira tosca, ainda em estágio de aperfeiçoamento. Nada digno de histórias de cavalaria, Açucarada concluiu, mas era o que havia para aquele dia.

— Ungh... Como é que nossos cavaleiros conseguem voar vestidos assim? Parece que me enfiaram em um pedregulho! – Dawn grunhiu, gotas de suor cintilando na sua testa e na ponta de seu nariz – E essa espada, então! Como é que a Marianne consegue brandir esse negócio?

— O que foi, Alteza? Vai desistir a essa altura do campeonato?

— É claro que não!

— Então não reclame, sim? Se quer parecer intimidadora e impor algum respeito quando estiver frente a frente com os goblins, vai ter que engolir esses chiados e manter a cabeça erguida.

— Tudo bem, já entendi. – A loirinha gemeu, o medo por seu pai e por si mesma fazendo sua espinha gelar e suas asas perderem momentaneamente o compasso. Ela não era uma guerreira, não importando o quanto tentasse se parecer com uma. Não sabia lutar, fosse com armas ou com os próprios punhos, e tinha absoluta ojeriza à violência, preferindo resolver conflitos o mais pacificamente possível. Não tinha a menor ideia do que faria quando chegasse ao seu destino, e precisava lutar contra o ímpeto de regressar ao palácio, se trancar em seu quarto e se encolher feito uma bola em sua cama ao pensar no que a aguardava.

— Tudo bem, vamos repassar o plano. – Açucarada disse, parecendo querer distraí-la – O que você fará quando chegarmos à fronteira?

— Anunciarei minha presença e me dirigirei aos dois líderes, ignorando os demais. – Dawn repetiu as instruções que a outra lhe passara minutos antes – Não abaixarei a cabeça e não me mostrarei intimidada ante as ameaças. Exporei minhas exigências de forma clara e em tom imperativo. Mostrarei que estou disposta a lutar caso não as acatem.

— Sim, muito bom. Eles obviamente não quererão escutá-la, mas você os manterá distraídos com o seu show. E quando chegar a hora...

— Darei o sinal que combinamos e a senhora atacará a frota dos goblins. E eu farei com que meu pai e a Guarda Real aproveitem a distração para contra-atacar.

— Isso, excelente! – Ela ergueu um punho no ar, tentando passar uma confiança que Dawn sabia que ela também tinha dificuldade em sentir – Vai dar tudo certo, Alteza. Basta que a senhorita siga o meu plano.

Mas o destino não estava particularmente favorável aos planos delas, como logo puderam perceber.

Dawn ouviu o som da batalha antes mesmo de vê-la. Gritos, clamores, rugidos, o tinido de armas brancas de chocando e de flechas cortando o ar. Sentiu seu estômago despencar – ela chegara tarde demais.

— Papai! – Gritou, fazendo Açucarada se sobressaltar ao seu lado – Oh não! Ele não conseguiu impedi-los!

— Isso vai deixar as coisas ainda mais problemáticas. Não acho que a Guarda Real terá alguma chance contra uma horda de goblins.

— Eles não podem lutar! Vão ser todos massacrados! – A respiração de Dawn saia entrecortada e rascante, seus olhos enormes de pavor – Papai não pode lutar assim, ele está muito cansado e fragilizado, ele... ele já não é mais jovem, ele pode... – Não quis concluir a frase, que pouco fazia sentindo com suas pausas para tentar respirar. Seu corpo inteiro tremia. O rosto mortalmente pálido, o pânico ameaçando todo o pensamento coerente, ela não ouviu as palavras seguintes de sua acompanhante.

— Precisamos seguir com o plano, Alteza, então não se apavore. Só temos que mudar a abordagem. É melhor que comecemos o ataque logo de cara, não nos darão atenção se tentarmos interromper o embate-

O súbito deslocamento de ar foi o único aviso que Açucarada teve antes de Dawn se impulsionar para frente na velocidade de uma flecha. O corpo armado da princesa trombou bruscamente contra o seu, empurrando-a para o lado e fazendo-a perder momentaneamente o prumo. Açucarada girou descontroladamente por alguns segundos, gritando e soltando impropérios indignos de um imortal. Quando enfim conseguiu se recompor, tudo o que ela pode distinguir foi a silhueta de Dawn se afastando rapidamente antes de disparar atrás dela, a paisagem se tornando um borrão ao seu redor.

— Alteza, não faça isso!

Dawn a ignorou. Zarpou em direção aos ruídos o mais rápido que suas asas permitiram, bufando com o esforço absurdo de se manter no ar com todo o peso do metal que vestia, os dentes trincados e os olhos mais uma vez inundados pelas lágrimas, pensando apenas em seu pai, em seus anos avançados, em suas asas incapazes de sustenta-lo...

“Eu já perdi a sua mãe. Não vou suportar se perder vocês também.”

Soluçou com força. Sem Marianne ao seu lado e com o seu pai arriscando a própria vida, ela se sentia completamente sozinha e perdida.

“É isso o que você ganha por ser tão fraca, tão dependente dos outros...”

Logo ela sobrevoava a fronteira, focando a atenção na cena de pesadelos que se desenrolava diante de seus olhos. A enorme horda de goblins lá embaixo, cruel e implacável, rugindo enquanto se chocava impiedosamente contra o que havia restado da Guarda Real. Muitos dos cavaleiros a serviço de seu pai jaziam inertes no chão; mortos ou vivos, ela não sabia dizer. Alguns tentavam fugir enquanto carregavam feridos, mas tinham seu caminho bloqueado pelos corpos escamosos de seus adversários. E no centro de tudo isso, destacando-se em meio aos caos como se a cena fosse iluminada por um holofote, confirmava-se o pior dos temores de Dawn.

O enorme goblin de punhos maciços e presas assassinas que segurava o Rei Dagda pelo pescoço sorria como se estivesse diante de um banquete. A mão livre dele agarrava a perna direita de seu pai e a puxava com brutalidade; em sua mente subitamente entorpecida, a cena lhe lembrou bizarramente a de uma criança birrenta tentando desmembrar uma boneca de pano. Dagda gritou, um som agudo e que a atingiu com a potência de um soco nas costelas. Então alguma coisa aconteceu.

Mais tarde, Dawn se perguntaria se alguma espécie de entidade feroz, tresloucada e absurdamente forte se apossara de seu corpo naquele curto espaço de tempo. Todo o pensamento racional se extinguiu e todas as suas terminações nervosas pareceram ligar, como se ela tivesse sido subitamente energizada por uma potente descarga elétrica. Instinto aflorava de cada poro de seu corpo. Naquele instante ínfimo, ela não pensou no que fazia e nem nas consequências que seu ato acarretaria. No poucos segundos entre o grito que Dagda soltou, a risada ladrada do goblin e as súplicas de Açucarada para que se controlasse, Dawn apanhou seu escudo de madeira com as duas mãos, impulsionou os braços para trás e, com um grito que seria capaz de fazer os mortos se levantarem de suas tumbas, atirou-o em direção ao solo com uma potência e precisão que ninguém lhe atribuiria.

O escudo rodopiou loucamente a uma velocidade nauseante, uma massa cor de mogno voando imparável em direção ao seu alvo. Quando o goblin que segurava o Rei Dagda ergueu os olhos, alertado pelo som do deslocamento de ar, já era tarde demais. O escudo bateu violentamente contra sua testa, e a força do impacto foi tal que tirou seu corpanzil pesado do chão. O baque surdo resultante ecoou por toda a área. O goblin soltou Dagda antes de desabar feito um saco de batatas no chão, onde permaneceu completamente imóvel.

Levou cerca de cinco segundos para que os demais se dessem conta do que tinha acontecido. Os goblins abriam e fechavam as bocas em expressões quase idênticas de assombro, tentando assimilar o fato de que um de seus líderes acabara de ser nocauteado por alguma força que não conseguiram prever. Um dos goblins, uma fêmea, rugiu em alto e bom som:

— Bane!

E o pandemônio se instaurou.

Tão abismados quanto os goblins, mas mais rápidos em recuperar as composturas em sua preocupação em salvar seu rei, os cavaleiros da Guarda Real se aproveitaram da súbita distração para contra-atacar com tudo o que tinham, formando trios e quartetos para assaltar os goblins de supetão. O contingente inimigo, pego desprevenido, tentou revidar, mas o exército do Reino das Fadas estava se mostrando perfeitamente capaz de virar o jogo. E Dawn, ainda com a mente trabalhando a mil por hora, mergulhou em direção ao solo, seus olhos fixos na figura caída de seu pai.

Em seu estado de desvario, ela não foi capaz de pousar graciosamente. Suas pernas cansadas cederam tão logo atingiram o chão, e ela caiu com o peito chapado no gramado manchado de sangue. Ofegando e gemendo, ela conseguiu se arrastar até finalmente ser capaz de tocar o aço frio da armadura de Dagda. Abraçou-o pelo pescoço e enterrou o rosto em seu gorjal amassado, trêmula, quase não conseguindo puxar o ar para os pulmões.

— Papai! Papai, por favor, fale comigo! – Ela guinchou na orelha dele, o som da batalha parecendo esmorecer ao seu redor, seus olhos cegos de lágrimas – Por favor, papai, por favor, porfavorporfavorpapaiporfavor-

“Eu já perdi a sua mãe...”

— Papai, não me deixe! Não deixe a gente! Por favor, eu tô aqui com o senhor, a Marianne já vai voltar, por favor, por favor-

“Não vou suportar se perder vocês também.”

Mas e elas? Como Marianne e ela ficariam se o perdessem? O pai que tinha seus defeitos, que cometia suas injustiças, mas que nunca deixara de se preocupar com elas, de querer seu bem e sua felicidade, de amá-las –

“Acha que eu sou um péssimo pai?”

Chorando desconsolada, implorando aos deuses que não lhe tirassem uma das pessoas mais importantes de sua vida, Dawn demorou a perceber a suave pressão em seus cabelos. Uma mão pesada e gelada afagava seus cachos. Ergueu a cabeça rapidamente, soluçando, e deu de cara com os olhos verdes e gentis de Dagda fixando-a meio desfocados.

— D-Dawn? – Ele gorjeou, sua voz rouca e a expressão abobalhada de alguém que acaba de se recuperar de um desmaio – Eu... eu não disse... para não sair do palácio?

Dawn não respondeu. Com um uivo agudo, ela se atirou nos braços de seu pai, quase desfalecendo em alívio. Ele ofegou, tentando ampará-la, só então percebendo que ela estava usando armadura. Seu choque durou míseros segundos, porém. Dawn apoiou os joelhos na perna que o maldito goblin tentara arrancar, e seu urro de dor a fez se sobressaltar e pular para trás.

— Papai! O que foi?

— Minha perna! – Ele conseguiu balbuciar, o rosto totalmente branco. Suas mãos imediatamente apalparam sua coxa direita. A dor lancinante nos músculos daquela região quase o fez gritar de novo. Se sua perna já não estivesse quebrada, com certeza quebraria se a forçasse demais.

— Foi você! Foi você, sua fadinha desgraçada!

Dagda ofegou e agarrou Dawn pela cintura, tentando puxá-la para trás de seu corpo. A fêmea, Arnica, conseguira chegar até eles em meio ao caos da batalha. Havia sangue manchando sua pesada clava. Seus olhos amarelados estavam esbugalhados, tomados pela fúria.

— Você matou meu companheiro! Malditinha! – Ela rugiu, brandindo sua arma com furor enquanto avançava para as fadas apavoradas – Eu vou quebrar você no meio!

— Não! Deixe minha filha em paz! Se quiser matar alguém, mate a mim! – Dagda suplicou, ainda tentando empurrar a filha caçula para trás de si.

— Oh, pode ficar sossegado, velho imbecil! Você é o próximo!

— Não! – Dawn gritou de repente. Num gesto impensado, desembainhou a espada e se ergueu do solo, colocando-se protetoramente na frente do rei das fadas – Você não vai tocar em um fio de cabelo da cabeça do meu pai!

— Dawn, não!

— Ordene aos seus homens que abaixem as armas! Agora! – Dawn tentou evocar o tom de voz imperativo que sempre associara ao pai e a Marianne, o peito estufado, o queixo erguido. Mas suas pernas muito trêmulas e seus olhos marejados denotavam seu pavor em se ver diante de uma adversária tão maior e mais forte. Suas asas trepidavam com o impulso de alçar voo e escapar do perigo iminente. A espada em seus punhos parecia pesar meia tonelada, a lâmina quase sem fio um brinquedo inofensivo se comparada a enorme clava de sua oponente.

“ela vai me matar vai matar meu pai vai matar a todos nós socorro Marianne Bog Sunny alguém”

— ‘Tá tão afim assim de morrer, pirralha? Então eu vou te dar esse gosto! – Arnica bradou. Dagda gritou aterrorizado quando a goblin avançou, agarrando os braços de Dawn e desarmando-a com um safanão. A espada caiu para o lado, a lâmina se ficando no solo. A princesa gritou de agonia quando ela a empurrou em direção ao chão. Seu corpo inteiro chacoalhou dentro da armadura com o impacto, as juntas de suas asas protestando dolorosamente ao serem pressionadas impiedosamente contra o gramado, a mão enorme da goblin em seu tronco mantendo-a presa rente ao chão. Dawn viu a clava se erguendo no ar, uma silhueta ameaçadora contra a luz violeta do crepúsculo. Ouviu seu pai gritando mais uma vez, os soldados ao redor bradando em horror ao se darem conta da situação, Açucarada exclamar alguma coisa ao longe, enquanto a clava se aproximava cada vez mais. Fechou os olhos, trincou os dentes e esperou, esperou pelo impacto, esperou pela arma se chocando contra a sua cabeça e esmagando-a brutalmente, esperou sentir seus miolos escapando de dentro de seu crânio e se espalhando pelo gramado, esperou-

Então Arnica rugiu. Não fora um rugido de triunfo ou deboche. A pressão da enorme mão imediatamente desapareceu, e Dawn se pegou respirando descompassada, os olhos muito esbugalhados encarando o céu que escurecia, todo o seu corpo trêmulo e incapaz de se mover. Ela morrera ou não? Aquilo era o paraíso ou não? E foi então que ela ouviu.

— DAWN!!!

Se não fosse pelos braços de Dagda amparando-a, Dawn teria caído novamente de lado quando o som daquela voz pareceu despertar todos os seus nervos daquele torpor. Ouvia seu pai balbuciando e chorando, abraçando-a como se fosse se desprender daquele mundo caso a soltasse, mas só tinha olhos para a cena que parecia se decorrer em câmera lenta a sua frente.

Arnica rugia de agonia. Haviam três flechas firmemente cravadas em seu ombro direito, o sangue escuro vertendo das feridas e manchando todo o seu braço. Dawn viu mais flechas voarem certeiras pelos ares, atingindo os goblins invasores, o silêncio que se seguira sendo tomado por mais urros de dor. As flechas vinham do denso arvoredo que demarcava a fronteira. Ali, apoiados nos galhos ou marchando de dentro do mato rasteiro, estava mais uma imensa horda de goblins.

Por um segundo aterrorizante, ela achou que se tratava de reforços para o exército rival. Mas os goblins estavam avançando somente contra os invasores, soltando rugidos de guerra enquanto continuavam atirando flechas ou brandindo lanças toscas e porretes. O novo grupo se chocou contra o atual, metade procurando subjugar o inimigo, a outra metade correndo para amparar os soldados da Guarda Real. As fadas gritaram em temor, mas os goblins os ignoraram, agarrando os feridos e desmaiados e jogando-os por cima de seus ombros enquanto gritavam instruções.

— Abaixem as armas! Abaixem! Nós viemos ajudar!

Dawn reconheceu Brutus, o maior dos goblins ali, guiando o exército do Reino das Fadas para longe da zona de fogo. Reconheceu muitos outros, estes cercando a ela e a seu pai protetoramente. Mais vinham chegando da Floresta Sombria, muitos totalmente desconhecidos. Uma fêmea que lembrava muito Griselda, enorme, musculosa e chifruda, bradou em alto e bom som:

— Restrinjam o exército inimigo! Nocauteiem se for preciso, mas não matem ninguém! Ordens do Rei do Pântano!

E Dawn o viu. Quase não acreditava em seus olhos que voltavam a se inundar de lágrimas, desta vez de alívio e felicidade. Bog surgiu em meio a folhagem, altaneiro, escamoso e feroz, exatamente como ela se lembrava. Seu rosto anguloso estava retorcido num ódio tão homicida que a faz sentir um arrepio gelado descendo por sua espinha. E ao lado dele, estava a dona da voz que a despertara de sua letargia, parecendo tão enfurecida e mortal quanto seu companheiro.

Marianne havia voltado. Graças aos deuses, ela havia voltado.

A herdeira do trono e o Rei do Pântano trocaram um breve olhar intenso antes de avançarem, suas armas em punho e preparadas para o ataque. Bog abriu caminho em meio aos inimigos remanescentes, girando seu cetro e golpeando-os sem piedade, impedindo-os de revidar ou de avançar contra Marianne, que corria a frente o mais rápido que seus pés lhe permitiam. Ela saltou e atingiu a cabeça de um goblin maior com o pomo da espada, voejando rapidamente por sobre o corpanzil que caiu no chão com um estrondo, logo em seguida caindo de joelhos e deslizando pelo gramado, envergando o próprio tronco e passando por entre as pernas de outro atacante. Ela se endireitou e voltou a ficar de pé com uma graciosidade quase felina, os olhos castanhos fixos em Arnica, sua expressão assassina lhe dando um ar de pura selvageria. Arnica se retesou ao ver a fada armada se aproximando, ainda ofegando e gemendo em dor, mas seu rosto esverdeado subitamente se retorceu numa expressão de ira. Com um urro, ela avançou, a clava girando para um golpe fatal. A espada de Marianne fez o mesmo, rasgando o ar com um zunido, e as duas armas se chocaram. A lâmina afundou na madeira com um baque oco. As duas combatentes arreganharam os dentes uma pra outra.

— Então você é a fadinha do Rei do Pântano? Que oportuno! Assim mato dois coelhos numa só cajadada!

O tom debochado da outra pareceu fazer com que alguma coisa estourasse dentro de Marianne. O rosto dela ficou lívido, os olhos chamejando. Com um grito, ela forçou o cabo da espada num movimento incisivo. A lâmina deslizou para o lado bruscamente, cortando a clava de madeira em duas, a metade superior rodopiando para longe no ar.

— Eu não sou a fadinha de ninguém! – Marianne bradou e, com um brado de guerra, atirou-se contra o corpanzil de Arnica. Seu cotovelo estrategicamente posicionado atingiu a goblin nas costelas, e ela ofegou totalmente ser ar, os olhos saltando das órbitas. Dawn e Dagda gritaram quando as duas rolaram pelo chão, mas Marianne conseguiu rapidamente se colocar em posição dominante, aproveitando-se da dor que restringia os movimentos da outra. O punho direito dela desceu a toda velocidade e se afundou violentamente no nariz de Arnica.

— Nunca mais! Nunca mais! – Ela gritava em cólera, esmurrando o rosto da adversária repetidamente, impedindo-a de revidar – Minha irmã! Meu pai! Nunca mais! Encoste! Neles! NUNCA! MAIS!!!

— Marianne, chega!

Bog rapidamente interviu, agarrando Marianne por debaixo dos braços e puxando-a para longe de Arnica. Ela rosnou, debatendo-se, mas o rei goblin a segurou firmemente junto ao peito.

— Chega, Durona! Dawn e seu pai estão bem! Já restringimos os invasores! Está tudo bem agora!

Marianne ainda rosnava e resfolegava, mas seu corpo relaxou junto ao de Bog. Arnica jazia quase inerte no chão, gemendo baixinho, seu rosto ensanguentado e inchado. Ainda muito trêmulos, Dawn e Dagda percorreram com os olhos o campo de batalha. O contingente do Rei do Pântano, somado às forças unidas do clã dos rochedos e dos outros cinco alfas, conseguira impedir o avanço dos goblins inimigos. Açucarada, o Diabinho e uma Griselda muito sorridente acenaram para eles, os dois últimos montados no lombo de Lizzie. Bane ainda se encontrava imóvel, e Dawn se viu incapaz de deduzir se estava vivo ou morto. Um horror paralisante a tomou ao enfim se dar conta de suas ações anteriores. Ela havia atacado alguém, ela podia muito bem tê-lo matado, ela era uma assassina, assassinaassassinaASSASSINA-

— Dawn!

Ela foi tirada de seus pensamentos atormentados por uma das vozes que mais amava naquele mundo. Sunny vinha correndo em sua direção, suado e um pouco sujo, mas seus olhos brilhavam de alívio e amor por ela.

— Oh, Sunny! – Dawn conseguiu balbuciar, ainda lutando contra o pânico, mas desesperada pelo conforto dos braços dele. Trocaram um abraço apertado antes de se beijarem como se aquele fosse seu último beijo antes do fim do mundo.

— Você está bem? Aquela goblin machucou você? E por que você está usando armadura?

— Não, eu... eu estou bem. A armadura é uma longa história. E você, como está? Parece tão cansado...

— Eu tô ótimo, amor, não se preocupe. – Ele assegurou, dando-lhe uma última bitoca antes de se voltar para o Rei Dagda, tentando não fazer caso de sua expressão abobada e chorosa – E-Eu trago notícias, Majestade! – Fez uma reverência atrapalhada, engolindo em seco – A expedição que partiu para a Floresta Sombria retornou com notícias animadoras. Encontramos a Princesa Marianne, descobrimos a causa de toda a crise e conseguimos convencer o Rei Bog e alguns dos clãs da Floresta Sombria a considerarem uma possibilidade de aliança.

— Ora, esse é o meu trabalho! – Adrian, que ajudava os cavaleiros feridos junto a Pareh, Ricard e Edwin exclamou indignado. Dagda não se dignou a ouvi-los, porem. A enxurrada de informações era demais para seu cérebro ainda entorpecido pelo choque e pelo pavor de perder a filha processar...

— Dawn... Pai...

Bog havia soltado Marianne, que parecia enfim ter conseguido se controlar. Caminhou para eles a passos cambaleantes, exaustos. Sunny se afastou para abrir caminho para ela, e foi só então que o rei das fadas e Dawn repararam no estado de suas roupas, no sangue seco ainda manchando seu rosto, em seu olho roxo e muito inchado.

— Deuses, Marianne, o que-

— Eu explico depois. Agora não. Agora...

Ela caiu de joelhos diante deles. Seus olhos haviam perdido o chamejar furioso e agora transbordavam apenas culpa, alívio, abatimento...

— M-Marianne... – Dagda gaguejou, as mãos muito trêmulas se estendendo para tocar o rosto da filha mais velha – Marianne, eu... Eu sinto muito, querida, eu-

— Agora não, pai, por favor. – Ela conseguiu dizer, o lábio inferior se projetando para frente, seus olhos subitamente inundados pelas lágrimas – Eu ainda estou furiosa com o senhor. Ainda têm muitas coisas que o senhor merece ouvir. Mas não agora. Agora...

Ela caiu para frente, e Dawn e Dagda a ampararam com exclamações de alarme. Mas ela não havia desmaiado ou perdido o equilíbrio. Os braços dela rodearam os pescoços dos dois, puxando-os para junto de seu tronco. Ela tremia tanto que parecia prestes a se arrebentar. Logo eles ouviram os soluços.

— Eu tô tão aliviada... de ter chegado a tempo. Tão feliz... por vocês estarem bem... tão...

Ela não conseguiu dizer mais nada, o choro obstruindo qualquer outra palavra que pudesse tentar proferir. Dawn também recomeçou a soluçar, retribuindo o abraço da irmã e escondendo o rosto na curva do pescoço dela. Dagda queria dizer alguma coisa. Um consolo, uma bronca, qualquer coisa. Mas não conseguiu evocar nada. As lágrimas escorrendo por seu rosto e se embrenhando em sua barba desgrenhada, ele puxou suas duas filhas para seus braços.

Bog e Sunny observaram a cena sem interromperem, meio sorrisos ternos surgindo timidamente em seus rostos. Afastaram-se para dar alguma privacidade para as amada e seu pai. Ainda havia problemas a serem resolvidos, mágoas a serem expostas, tratados a serem discutidos. Mas não agora.

O sol enfim sumiu por trás da Floresta Sombria, as últimas luzes do dia dando adeus enquanto a família real chorava, se abraçava e procurava não pensar no amanhã.

Tudo aquilo podia esperar.