Garras e Presas

20 Capítulo 20


Notas iniciais
Parece mentira, mas não é! *risada nervosa* Antes de qualquer coisa, eu queria pedir milhares de desculpas por essa pausa tão longa. Eu tive muitos problemas ao longo deste ano, coisas sobre as quais não vale a pena falar, e consequentemente acabei me afastando um pouco desta história. Todo dia me lembrava de que ela estava inacabada e me sentia péssima por isso. Acho que foi essa uma das razões que me motivou a continuar. Isso e vocês, que nunca desistiram dessa história e continuaram a me mandar comentários de apreço e apoio. Agradeço do fundo do coração todos os comentários gentis, todo o incentivo, toda a ansiedade pelo próximo capítulo. E aqui estamos nós. Para terminar, quero agradecer à People Strange pela terceira recomendação nesta história e por todas as mensagens de carinho e incentivo que ela me enviou e que foram o último empurrão que faltava para me motivar a voltar a escrever. Dedico este capítulo a você por isso. Sem mais delongas, vamos ao vigésimo capítulo!

No que dependesse de Bog, ele teria esperado nunca mais ver olhares de desconfiança, temor e repulsa em toda a sua vida, especialmente não do povo que um dia seria liderado por sua companheira. E ainda assim, ali estava ele.

A caminhada do campo destruído na fronteira até para onde os feridos estavam sendo levados poderia ser considerada uma caminhada da vergonha. Sendo um rei, Bog se viu na obrigação de manter a pose altaneira, de cabeça erguida e olhar austero, procurando ignorar as centenas de pares de olhos pregados nele, cheios de medo e acusações. Os sons de seus acompanhantes não chegavam aos seus ouvidos: os gritos de agonia dos soldados feridos, seus companheiros tentando reanimar os desacordados, os lamentos, as perguntas sendo lançadas como bombas em sua direção. O Rei Dagda era levado numa maca, esbravejando e exigindo o mesmo tratamento para suas duas filhas. O pequeno Sunny procurava amparar Dawn, que se mostrava absolutamente inconsolável, balbuciando e se lamentando sobre um assassinato (de quem ou do quê, seu cérebro entorpecido não conseguiu registrar). O conselheiro Adrian e o elfo grandalhão arrastavam Roland para longe das vistas da multidão. Os goblins de sua comitiva, somados aos pertencentes aos outros clãs, levavam os invasores sob custódia, para longe da balburdia que se formava a medida que o povo do Reino das Fadas aparecia, tentando entender o que havia se passado. Bane e Arnica ainda estavam desacordados, ela com o rosto inchado e ensanguentado, ele com um enorme talho na testa que sangrava profusamente.

Bog cerrou os punhos, o ódio e a gana por homicídio quebrando sobre ele em ondas escaldantes. Ele devia ter matado Bane quando teve a chance, devia ter matado os dois, ai nada daquilo teria acontecido, nada-

— Majestade!

— Princesa Marianne! Princesa Dawn! O que houve na fronteira?

— Foram os goblins! Eles nos atacaram!

— Atacaram-

— Feriram os soldados-

— Monstros-

— Seus animais-

— Traição-

— Expulsem-nos daqui-

As palavras se sobrepunham umas as outras numa confusão de bramidos enfurecidos, punhos pequeninos se sacudindo no ar, a tensão se elevando como vapor sobre as cabeças de todos. Naquele momento, fadas, elfos, pixies e brownies pareciam tão ou mais selvagens que goblins.

— O que é que o Rei do Pântano está fazendo aqui?!

— Você não é mais bem vindo!

— Ninguém quer vocês aqui! Vão embora!

— SILÊNCIO!!!

Marianne estava rouca, perigando desmaiar de exaustão, mas conseguira reunir forças para fazer com que sua voz se elevasse até ecoar pelos campos. Fez-se o silêncio depois de alguns segundos, um zumbido ainda circulando por entre a multidão, todos os olhos pregados na herdeira do trono. Os dentes dela, ainda avermelhados por causa do sangue, estavam arreganhados, ferozes e implacáveis.

— Os goblins nos ajudaram! Eles pararam a invasão e salvaram seu rei, suas princesas e a Guarda Real! Não vou tolerar mais desrespeito com nenhum deles, estão me ouvindo?! Não vou tolerar!

Houveram alguns protestos indignados, mas não foram muitos. Respirando com dificuldade, os punhos cerrados e trêmulos, Marianne deus as costas à multidão antes de prosseguir.

— Amanhã, quando o sol estiver a pino, na praça em frente ao palácio, esta que vos fala fará um importante comunicado. Todos que quiserem ter suas dúvidas esclarecidas podem comparecer. Até lá, retornem às suas casas! Respeitem o toque de recolher e não incomodem os goblins! Ordens da sua princesa!

E sem dizer mais nada, ela acenou com a cabeça, ordenando silenciosamente que os goblins e soldados que carregavam o Rei Dagda e os feridos a acompanhassem. Ela passou os braços pelos ombros de Dawn e a guiou com alguma impaciência, ignorando o povo que voltou a clamar com força total, a gritaria agora se tornando completamente ininteligível.

Bog não tinha forças para admirar aquela demonstração tão régia de autoridade. Não tinha ânimo para retribuir o olhar de sua mãe, que o observava com uma expressão indagadora. O sol havia se posto, as primeiras estrelas surgiam no céu escuro e, naquele instante, ele desejou que o negrume lá em cima fosse capaz de traga-lo.

Aquela seria uma longa noite...

§ § §

Dawn estava tendo um ataque histérico.

Ela parecera bem no início, pelo menos na medida do possível. Os curandeiros, revezando-se para cuidar dos vários feridos que chegavam sem parar na enfermaria lotada, tiraram sua armadura e a examinaram a procura de ferimentos, mas fora uma pequena escoriação ou outra, ela saíra da batalha ilesa. Ela permanecera em silêncio durante todo o exame, os olhos opacos e a expressão desprovida de qualquer emoção, mas Marianne e Sunny só puderam sentir alívio ao terem a certeza de que ela não sofreria nenhuma sequela física.

E então fora aí que o choro e os gritos começaram.

— Dawn, por favor, tente se controlar...

— Não! Eu sou uma assassina! – Ela se lamentou, seu choro agudo ecoando nas paredes de pedra da enfermaria – Eu matei aquele goblin, atirei um escudo contra a cabeça dele, eu matei, eu matei-

— Ainda não temos certeza de nada, amor. Não fique pensando no pior. – Sunny murmurou gentilmente, dando palmadinhas na mão trêmula da namorada – Ele pode ter só desmaiado, no máximo ter tido uma concussão-

O choro de Dawn evoluiu para um guincho angustiado.

— Ou ele pode não ter tido concussão nenhuma! – Sunny se apressou em dizer, sacudindo as mãos freneticamente – Vai ver ele só ficou com um galo enorme na testa, nada muito grave! Ah, Dawn, por favor, não chore-

— Dawn, não fique assim! Você fez o que era certo a se fazer! Mais do que isso, você foi uma heroína! – Marianne exclamou, tentando sobrepujar o volume do choro da irmã – Se você não tivesse pensado rápido e agido, papai poderia estar morto agora! Você salvou a vida dele e de praticamente toda a Guarda Real! Você se portou como uma verdadeira guerreira!

Aquilo não pareceu fazer com que a loirinha se sentisse melhor. Pelo contrário. Ela escondeu o rosto nas mãos e balançou a cabeça de um lado para o outro, balbuciando incoerentemente.

— Eu não devia ter ido atrás deles, não devia, não devia, papai se machucou, um monte de gente se machucou, tinha sangue pra todo lado, aquela goblin quis me matar, eu matei aquele outro, matei, matei...

Marianne e Sunny trocaram olhares desamparados. Não sabiam mais o que fazer ou dizer para melhorar o ânimo de Dawn, e temiam piorar ainda mais a situação ao continuarem trazendo aquele assunto à baila. Foi quando o curandeiro chefe empurrou o cortinado que cercava a cama de Dawn para o lado, trazendo nas mãos uma bandeja esterilizada com um copo e uma vasilha contendo uma pasta de coloração esverdeada, um unguento mergulhado nela.

— Aqui está, Alteza. – Ele disse em tom suave, apanhando o copo e estendendo-o para Dawn – É um calmante. A senhorita se sentirá melhor depois que o tomar.

— Eu não quero calmante nenhum! Eu quero ver o papai, onde ele está, eu quero ver-

— Papai está bem, Dawn. Tente se controlar, ficar nervosa assim não vai te ajudar em nada. Agora beba o calmante, por favor-

— Não, eu não quero! Essa coisa me dá sono! Eu não quero dormir, não quero ter pesadelos, não quero, não quero-

— Chega, Dawn! Deixe de ser teimosa! – Marianne gritou, erguendo-se de sua cadeira com tanta brusquidão que quase a derrubou no chão – Pare com a choradeira e tome logo a droga do calmante!

— Marianne!

— Alteza, por favor, não piore a situação-

— Você fez o que precisava ser feito! – A princesa mais velha ignorou os apelos de Sunny e do curandeiro chefe, agarrando a irmã pelos ombros e sacudindo-a – Devia estar orgulhosa de si mesma! Pare de se lamentar por um desgraçado que tentou matar nosso pai, que tentou destruir nosso reino! Quem liga se ele morreu?!

— Marianne, chega! – Sunny implorou, mas Marianne não o ouvia. Ela tremia quase tanto quanto Dawn, o rosto lívido de fúria e angústia. Seus dedos se enterraram mais nos ombros da caçula, fazendo-a soluçar ainda mais alto.

— Você foi incrível, está me ouvindo? Incrível! Estou orgulhosa de você e tenho certeza de que o papai também está! – Ela tentou sorrir, mas sua expressão atormentada fez com que o sorriso se parecesse muito mais com um esgar – Caramba, depois que isso tudo acabar, eu posso até te ensinar a lutar melhor! Não vai ser legal? As duas princesas batalhando lado a lado para proteger o Reino Das Fadas!

Dawn voltou a sacudir a cabeça, as lágrimas se desprendendo de suas pestanas e voando para todos os lados.

— Não, por favor, não, eu não quero mais, nunca mais!

— Dawn, pelo amor de-

— Agora já chega, Marianne!

Marianne se sobressaltou, virando a cabeça bruscamente para trás. Dagda apareceu pela porta que conectava uma ala da enfermaria à outra, amparado por dois curandeiros e acompanhado de três membros do Conselho Real: Sir Terrance, Sir Umber e Sir Wallace. Usava um pijama de botões e tinha sua perna direita firmemente enfaixada, um contraste gritante contra sua expressão tempestuosa.

— Pai, o senhor não devia ter saído de sua cama-

— Eu ainda sou o rei, mocinha. Posso fazer o que bem entender. – Ele decretou. Fez um gesto com a cabeça e os curandeiros o ajudaram a se aproximar – E como eu poderia continuar deitado enquanto ouvia você gritando esses absurdos para sua irmã? Veja o estado em que a deixou! Não se importa nem um pouco com o trauma que ela sofreu hoje?

— Eu só estava tentando ajudar! Estava tentando mostrar que ela não faz nada de errado, o quanto foi corajosa e que ela não deveria se importar se um maníaco genocida está morto ou não-

— Deuses, Marianne, você está se ouvindo?! Está exigindo que Dawn fique satisfeita com a possibilidade de ter tirado a vida de alguém! O que está pensando? Sua irmã não é nenhuma psicopata!

— Por favor, Majestade, Alteza, sem gritaria na ala hospitalar. – O curandeiro chefe pediu baixinho, mas foi sumariamente ignorado.

— E o que o senhor está insinuando? Que eu seja a psicopata da história?!

— Não, mas neste momento, você está falando exatamente como uma!

— Aqueles goblins tentaram matar a ela e ao senhor! Como esperava que eu agisse?

— Com algum respeito pela condição de sua irmã, no mínimo!

— E o que o senhor, que adora bisbilhotar a correspondência alheia, entende de respeito?

— Não me provoque, Marianne, estou lhe avisando!

— Parem de gritar um com o outro, por favor! – Dawn pediu lá de seu canto. Fungava com força e respirava com dificuldade, esfregando os olhos com os punhos fechados. Sunny afagava seu ombro, falando baixinho e docemente para ela, embora seus olhos estivessem fixos em Marianne e Dagda, um misto de receio e indignação mal contida perfeitamente visíveis neles. Pai e filha se calaram e ponderaram sobre suas ações por tempo suficiente para uma voz baixa e cavernosa se fazer ouvir mais atrás.

— Marianne. Estou de volta.

— O que é que você está fazendo aqui? – Dagda vociferou hostilmente ao ver Bog abaixando a cabeça para passar pelo arco da porta da enfermaria.

— Vim ver como Dawn está.

— Ela está ótima, portanto você não tem nada para fazer aqui. Pode ir se retirando-

— Bog... – A loirinha choramingou com uma expressão desolada de partir o coração – A... Aquele goblin... ele...?

Ela não conclui o questionamento, mas a intenção ficou implícita. Bog pôs a mão no ombro de Marianne rapidamente antes de caminhar até a cama de Dawn, ignorando a exclamação indignada de Dagda. Sunny imediatamente saltou da cama para abrir espaço para o Rei do Pântano, que se sentou defronte a garota. Ele segurou o rosto dela entre suas mãos enormes, enxugando as lágrimas com os polegares.

— Bane está vivo, Dawn. Você não o matou.

Ela soltou um som que era meio suspiro, meio soluço.

— De verdade?

— De verdade.

— Você não está... – Soluço –... falando isso... – Mais um soluço –... só para me proteger da culpa?

— Eu nunca mentiria para você.

Os soluços de Dawn voltaram a aumentar em frequência e em volume, mas sua expressão agora era de absoluto alívio.

— Oh, Boggy! – Ela chiou ao mesmo tempo em que atirava os braços ao redor do pescoço dele. Bog fechou os olhos e soltou uma lufada de ar pelo nariz, mas não fez caso com o apelido. Deu palmadinhas nas costas dela, fazendo sons reconfortantes. Dagda, o curandeiro chefe e os três conselheiros encaravam a cena completamente atônitos. Desde quando um goblin podia ser assim tão amável e paciente? Ainda mais um goblin como o Rei do Pântano...

— Pronto, pronto. Está tudo bem agora, viu? Você não tem culpa de nada.

— Eu podia tê-lo matado...

— Mas não matou. Se acalme, sim? – Ele a afastou um pouco, erguendo o queixo dela com o polegar e o indicador e tentando sorrir – Agora seja boazinha e tome o calmante. Você vai se sentir bem melhor depois.

— E-Eu tenho medo de dormir. De ficar sozinha... de ter pesadelos...

— Esse calmante foi preparado com ervas usadas na Floresta Sombria. Elas te dão um sono tranquilo e completamente sem sonhos. E você não vai ficar sozinha. – Ele então se voltou para Sunny, sua expressão severa fazendo-o se sobressaltar – Elfo, faça companhia a ela. Não saia de perto da cama dela por nada neste mundo, entendeu?

— S-Sim, Rei Bog, senhor! – Sunny assentiu, batendo continência. Não que precisasse que lhe ordenassem que não saísse de perto de Dawn, de qualquer jeito. Saltou de volta para a cama ao mesmo tempo em que Dawn apanhava o copo que o curandeiro chefe lhe estendia e tomava um longo gole. Ela recostou a cabeça contra os travesseiros, segurando a mão de Sunny, e abriu um meio sorriso cansado para Bog.

— Obrigada, Boggy Woggy...

— Bog. E não tem de que, diabinha.

O curandeiro chefe cerrou novamente o cortinado depois de Bog passar por ele.

— O-Obrigado, Majestade. Pelas ervas e... pelas palavras de conforto.

Bog limitou-se apenas a assentir. Caminhou de volta até o grupo de fadas, ignorando as expressões abismadas e agressivas dos homens e se focando somente em Marianne, que o fitava com um misto de gratidão e ressentimento.

— Você conseguiu fazê-la se acalmar e cooperar com tanta facilidade...

— Eu fiz o que pude. Quando uma pessoa está tendo uma crise de histeria, o melhor a se fazer é não prolongar a situação que a esta causando.

A expressão de Marianne agora transbordava culpa.

— Eu... Eu fiquei insistindo no assunto, gritando e esbravejando com ela... – Ela pôs uma mão sobre a boca, arrependimento estampado em cada linha de seu rosto – Deuses, o que é que está acontecendo comigo?

Bog abriu a boca para dizer alguma coisa, mas foi interrompido por um pigarreio deliberado de Sir Wallace. Ele se voltou para os quatro velhos com aborrecimento.

— O que é?

— Agora que a situação foi abrandada, devemos passar para o tópico mais urgente no momento. Correto, Majestade? – Ele fez uma curta mesura a Dagda, mas o rei das fadas não respondeu de imediato. Continuava com os olhos pregados no cortinado fechado, as rugas acentuadas de seu rosto transmitindo o que ele não conseguia colocar em palavras: culpa, algum alívio e, ao voltar seus olhos cansados para o Rei do Pântano... Alguma coisa que nunca estivera nos olhos dele antes, se Bog não era capaz de decifrar.

— Majestade?

— Sim, eu já ouvi. – Ele respondeu numa voz roufenha, sem olhar para os conselheiros ou para a filha, que mantinha o semblante arrependido – Mestre Amos. – Ele chamou pelo curandeiro-chefe – Por favor, leve-nos até onde Sir Roland se encontra repousando.

Aquilo imediatamente chamou a atenção de Marianne, que ergueu a cabeça com brusquidão.

— Roland está aqui na enfermaria? – Ela praticamente rosnou, os punhos cerrados e trêmulos – Ele deveria estar acorrentado no calabouço, que é o lugar dele!

— Foram ordens de seu pai, Alteza. E um curandeiro de respeito jamais nega tratamento a um paciente, não importando sua conduta.

— Mas-

— Ele está com uma das asas quebrada, Marianne, e não é exatamente uma ferida recente. – O rei Dagda informou antes que o curandeiro-chefe pudesse voltar a falar – Se algo não for feito a respeito o mais rápido possível, a capacidade de voo dele poderá ficar permanentemente comprometida. E isso na melhor das hipóteses. Na pior, as asas dele terão de ser amputadas.

Isso fez Marianne se calar. Detestava Roland com cada fibra de seu corpo, mas a perda das asas era um destino que ela não desejaria nem para seu pior inimigo. Que seja, então. Cruzando os braços, ela se voltou para Bog, seu cenho franzido em desagrado acentuando ainda mais o inchaço em seu olho esquerdo.

— Você não precisa lidar com isso agora, se não quiser.

— Mas eu vou. Não quero mais adiar esse assunto.

— Mas você está cansado e faminto. Seu povo também precisa-

— Eles podem se virar por conta própria por uma ou duas horas. E o dever vem antes de tudo, Durona.

As respostas secas e desinteressadas dele deixaram-na confusa e desconfortável, mas decidiu ignorar aquilo pelo momento. Estendeu a mão para apanhar o unguento que o curandeiro-chefe agora lhe estendia, colocando-o sobre o olho inchado e silvando baixinho quando o frescor da pasta esverdeada provocou uma breve dor cortante. Deuses, aquilo era tão humilhante! Estava prestes a presidir uma discussão importantíssima, devia estar aparentando força e altivez, não fragilidade...

O curandeiro-chefe guiou o grupo pelas diversas alas da enfermaria que se conectavam através de portais de pedra. Todas as macas pelas quais passavam estavam ocupadas e a maior parte dos cortinados cerrada, enquanto os curandeiros e enfermeiras trabalhavam. Aqui e ali era possível ouvir gemidos agonizantes, às vezes até mesmo um grito de gelar a espinha, mas qualquer coisa era melhor do que o silêncio retumbante que indicaria que os esforços dos curandeiros haviam sido em vão. E ao fundo de uma das alas no extremo sul, deitado de bruços sobre uma cama e com os pulsos unidos por algemas de pedra, estava Roland.

Ele estava, se é que isso era possível, ainda mais pálido do que antes. Seus dentes brancos e perfeitamente alinhados estavam cerrados e arreganhados num esgar de intensa dor, os olhos fechados com força. Uma curandeira trabalhava na junção de sua asa quebrada, apalpando para averiguar a gravidade da fratura, movendo a asa para cima e para baixo enquanto testava o que restava de mobilidade no membro. Roland soltou um ganido e enterrou o rosto contra o tecido da maca, tentando puxar os pulsos para junto do peito num gesto automático e sendo restringido pelas algemas.

— Mais cuidado com isso! Você é uma curandeira ou uma açougueira? – Ele vociferou grosseiramente para a mulher, que o ignorou. Ela só ergueu a cabeça ao perceber seu rei e princesa se aproximando com os conselheiros, o curandeiro-chefe e o Rei do Pântano. Ela se encolheu ligeiramente ao pousar os olhos na figura intimidadora.

— Peço desculpas, mas neste momento estamos evitando a entrada de visitantes. Isso pode perturbar os pacientes...

— Está tudo bem, Madeleine. É um assunto sério que Sua Majestade precisa tratar com urgência, por tanto abriremos uma exceção – O curandeiro-chefe a informou antes de voltar os olhos para as asas de Roland – E como está a situação?

— Não muito boa. Os primeiros socorros feitos foram precários e a asa não foi posta de volta no lugar. E a fratura já está entrando em processo de calcificação. Se quisermos que a asa não permaneça torta, teremos que quebra-la novamente para coloca-la de volta no lugar.

— Que absurdo! Você aprendeu medicina nos fundos da sua cozinha, por acaso? – Roland exclamou, seus olhos esbugalhados de medo – Ninguém vai quebrar minha asa outra vez! Eu não vou deixar!

— Fique com ela permanentemente torta, então. Só não venha se queixar quando não conseguir mais voar corretamente. – Madeleine respondeu com desinteresse.

— Não importa, de qualquer jeito. Ele vai passar o resto da vida nos fundos de um calabouço, não vai precisar das asas para nada. – Marianne disse com uma expressão de selvagem triunfo. Roland finalmente ergueu a cabeça para contemplar o estranho grupo de visitantes. Sua expressão mudou de alarmada para calculista e para suplicante numa velocidade nauseante.

— Majestade! Ainda bem que o senhor chegou. Como pode ver, estou sendo tratado como um boneco de trapos. Isso vai contra a ética médica, não vai? Sou um enfermo, deveria estar sendo tratado com mais delicadeza, ainda mais considerando minha posição na corte-

— Cale-se.

A voz de Dagda estava carregada de inconfundível repulsa. Encarava Roland com um misto de desprezo e decepção que fez com que o loiro se encolhesse mais sobre a maca.

— Eu não quero ouvir nenhuma de suas falsas lamúrias. Estou aqui para obter respostas, e se você não dá-las, que os deuses me ajudem, Roland, eu vou fazer com que você se arrependa do dia em que resolveu entrar na Guarda Real.

Marianne encarou o pai com um espanto que o fez se sentir ligeiramente ofendido. O que, ela esperava que ele continuasse a se dirigir a Roland com o mesmo afeto quase paternal mesmo depois de tudo o que ele havia feito? Pensava tão pouco assim dele?

A expressão de falsa cortesia no rosto de Roland desapareceu na mesma hora. Seu olhar suplicante se tornou gélido.

— Quanta frieza, Majestade. Não tem sequer uma palavra mais amigável para dirigir ao seu ex futuro genro? Aposto que está se lamentando por não ter insistido mais para que Marianne me desse uma segunda chance. – Ele voltou os olhos para a dita princesa e seu companheiro, curvando os lábios num sorriso debochado – Apesar dos pesares, eu sou uma opção bem mais aceitável que esse monstrengo deformado.

Bog precisou segurar Marianne para que ela não avançasse contra Roland. Ela gritou palavrões que ecoaram pela câmara de pedra, escandalizando os conselheiros e deixando os dois curandeiros ainda mais nervosos.

— Alteza, por favor! Estamos na ala hospitalar, mais respeito com os pacientes!

— Me larga, Bog! Eu vou quebrar a outra asa dele, eu juro-

— Chega, Marianne! Se controle ou colocarei você para fora da enfermaria! – Dagda ameaçou antes de se virar novamente para Roland com pura aversão em seus olhos – Não se atreva a se dirigir a mim com tanta intimidade. Sempre lamentarei o dia em que empurrei minha filha para seus braços. Agora abaixe sua crista e coloque-se em seu lugar, antes que eu decida que você não necessita de cuidados médicos e o atire no calabouço.

Roland pareceu levar o aviso a sério, embora ainda houvesse deboche em suas feições. Os três conselheiros tomaram a frente, aproximando-se da maca com hesitação. Sir Wallace pigarreou antes de falar.

— Sir Roland, chegou ao nosso conhecimento as causas por trás dos ataques de animais e da crise de falta de alimentos. Houve acusações graves, porém, e precisamos ter certeza de que elas são verdadeiras antes de tomar algum curso de ação. Diga-nos, é você o responsável por toda a crise que este reino vem enfrentando no último mês?

— Para quê perguntar? É lógico que ele vai negar para tentar salvar a própria pele. – Marianne protestou com impaciência.

— Alteza, querendo ou não, precisamos seguir o protocolo. Toda história tem dois lados, afinal. – Sir Umber respondeu com uma impaciência condescendente, como se Marianne fosse uma criança lerda e teimosa. Bog deixou escapar um rosnado baixo.

— Que protocolo? Nós apresentamos provas e testemunhas! Ele é o culpado, não tem o que discutir!

— A senhorita está se deixando cegar por seu ressentimento pessoal para com Sir Roland. Ele tem o direito de apresentar uma defesa, então porque não se acalma e permita que ele-

— Não é necessário, meus caros. A princesa está falando a verdade. Eu sou o culpado de tudo o que aconteceu.

Todos se voltaram para Roland com expressões idênticas de perplexidade. Nem Marianne e nem Bog esperavam que ele fosse admitir culpa sem ser coagido a fazê-lo; tinham tido certeza de que precisariam arrancar a confissão dele na base da violência.

— Então você não nega? Foi de fato o responsável pela contaminação da nascente na Floresta Sombria, como as testemunhas oculares nos informaram?

— Fui eu sim. – Ele deu de ombros, aparentando uma estranha tranquilidade. Ainda meio aturdido pela surpresa, o rei Dagda procurou se empertigar.

— Se não vai negar, então trate de desembuchar como o fez. E não se atreva a esconder nenhum detalhe.

— Fique sossegado, Majestade. Não esconderei.

E ele de fato não escondeu. Marianne estava pronta para intervir caso ele tentasse romantizar a história ao seu favor, Mas Roland admitiu cada crime do qual fora acusado sem qualquer hesitação. Não deixou de fora nem mesmo a história de como ele e sua amada mosca se tornaram alvos do gato do mato, parecendo até mesmo se deleitar com as expressões de horror de Dagda, dos conselheiros e dos curandeiros. Terminou seu relato nesse gancho, bastante satisfeito por ser o centro das atenções naquele círculo.

— Então... vocês chegaram a topar com esse gato do mato enquanto estavam na Floresta? – O rei Dagda perguntou enquanto empalidecia, seus olhos percorrendo a sujeira e escoriações que cobriam o corpo de Marianne. Ela balançou a cabeça.

— Sim, mas meus ferimentos nada têm a ver com isso. E isso não é assunto para ser tratado agora, de qualquer jeito-

— Como não? Você ficou neste estado depois de ter ido se embrenhar naquele matagal! Se tivesse permanecido em casa como eu ordenei-

— Se eu tivesse permanecido em casa, eu não teria me reencontrado com o Bog, reatado com ele e não teria havido expedição nenhuma até a Floresta, o que foi a causa para enfim descobrirmos o que estava por trás da crise. Se as coisas não tivessem sido assim, ainda estaríamos tateando no escuro sem esperança de uma resolução.

— As coisas poderiam ter sido resolvidas de maneira mais diplomática e menos desastrosa! Esse reino quase foi destruído por uma horda de goblins, e até agora você não pronunciou uma única palavra a respeito! – Ele voltou-se acusador para Bog. Sir Wallace assentiu.

— De fato. Isso é no mínimo suspeito, não acha, Rei do Pântano?

— Não se atrevam a acusar o Bog de algo que ele não podia controlar! E foi ele quem liderou o exército de contra-ataque e salvou a todos, deveriam estar mais agradecidos! – Marianne exclamou antes de também se voltar para o companheiro – Você não pode deixar que eles sejam tão injustos! Por que não está se defendendo?

Bog não respondeu, parecendo absolutamente exausto e alquebrado. Ele suspirou, esfregando os olhos com o indicador e o polegar da mão direita, e Marianne sentiu vontade de esmurra-lo. Como ele podia ficar calado e deixar que aqueles velhos supusessem tais absurdos? Desde quando ele era assim tão passivo?

— Bem, devemos tomar seu silêncio como uma confissão?

— De jeito nenhum! Vocês estão sendo uns ingratos! Bog salvou a todos vocês!

— Quanto a isso, Marianne, eu infelizmente terei que discordar de você. – Roland comentou lá de seu canto. Marianne cerrou os dentes.

— É melhor você calar essa sua boca antes que eu-

— Não. Deixe-o falar. – Bog disse de repente, encarando Roland com uma expressão estranha que Marianne não conseguiu identificar – Diga, seu lixo. Do que você discorda?

— Da última afirmação dela, sendo bem específico. – Ele deu de ombros outra vez, inspecionando deliberadamente as próprias unhas – Marianne afirmou que você salvou a todos, mas por quanto tempo isso ira durar?

— Nós já sabemos quais são as causa da crise e como combatê-las, é uma questão de tempo até que-

— Não é a isso que me refiro. – Ele interrompeu, os olhos verdes faiscando maliciosos – Vocês tem outros problemas além de um mero envenenamento de habitat. Mais imediatos e mais mortais, inclusive, considerando a situação-

— Para de tagarelar e desembucha! – Bog rosnou, agarrando Roland pela gola da camisa e puxando-o para mais perto com tanta força que a maca fez um som estridente ao ser arrastada pelo chão de pedra – Do que é que você está falando?

Roland, trêmulo, os olhos fixos nas presas afiadas a centímetros de seu rosto, balbuciou:

— O gato do mato. Ele não vai desistir de mim ou da Frida. Ele seguirá meu cheiro para onde quer que eu vá. E ele me encontrará aqui. No Reino das Fadas.

Bog largou Roland como se sua mão tivesse sido escaldada. Deu dois passos para trás e quase trombou com Marianne, mas nenhum dos dois registrou esse fato.

Era como se ela tivesse sido mergulhada em um lago de água congelante. Todos os seus membros ficaram entorpecidos, formigando. Seus ouvidos zumbiam, registrando apenas vagamente a confusão que se seguiu às palavras de Roland.

— Um gato do mato? Aqui, no Reino das Fadas?! – Sir Wallace exclamou, pálido como um cadáver.

— Deuses, isso é um desastre! – Sir Terrance tremia tanto que parecia prestes a se desmontar.

— Majestade, o que devemos fazer? Declarar estado de calamidade? O povo precisa ser informado!

— Enlouqueceu, Sir Umber? Quer ver o pânico se instaurando?

— O que você sugere então? Não podemos fingir que está tudo bem, que nada de grave acontecerá nos próximos dias! Majestade, por favor, diga alguma coisa!

O rei Dagda, assim como sua filha, encontrava-se mudo pelo terror. De todas as desgraças que poderiam desabar em sua cabeça, aquela era a única que ele não poderia ter previsto.

— Se querem uma sugestão... – Roland ofereceu de repente, sorrindo como um carcaju que se prepara para atacar uma colmeia – Deixem que eu parta. O gato do mato me seguirá e ficará bem longe do Reino das Fadas.

— Para você sair impune? Não mesmo. – Marianne tentou bradar, mas sua voz saiu fraca e trêmula. Suor frio salpicava sua testa, nariz e pescoço. Ele gemeu de dor, seu corpo começando a sucumbir ante a exaustão de tantas pancadas consecutivas ao longo do dia. Roland quase riu, assistindo com satisfação a princesa valentona murchar e se fragilizar.

— Não é como se vocês tivessem muita escolha. Se eu ficar, não ira demorar muito para o gato do mato me encontrar. E o que ele vai fazer quando chegar aqui e ver tantas fadas, elfos, pixies e brownies indefesos? Ele, assim como tantos animais na Floresta, está faminto. Vai ser um verdadeiro banquete. – Ele enfatizou a última palavra, sorrindo mais – A segurança do reino é a prioridade da família real, não é? Punir um pobre diabo não deveria estar em primeiro plano, não com um problema tão sério se aproximando no horizonte.

Marianne tremia. De dor, de cansaço, de fúria, de medo; tantos sentimentos ruins girando dentro dela como um redemoinho destrutivo e incansável, deixando-a paralisada. O pior era que Roland tinha razão: enquanto ele estivesse ali, a ameaça do gato do mato seria uma certeza. Mas ele não podia sair impune por seus crimes. Ele já se safara de muitas represálias, sempre achando que poderia agir como bem entendesse sem nunca ser apanhado, destruindo o espírito dela e de quem sabe mais quantas mulheres e ainda sendo levado em alta conta dentro da corte, protegido por seu charme e posição social. Ele sempre se safava de todo o mal que causava, e Marianne não podia mais suportar aquilo calada. Mas se ele ficasse ali, o gato do mato viria atrás dele, e quem sabe quantos de seus súditos inocentes pagariam com as próprias vidas por seu prazer frívolo de ter a sua vingança.

Ela se sentia presa. Engaiolada. O ar parecia se recusar a entrar em seus pulmões. Inspirou com força, ofegando, os olhos esbugalhados e a pele enregelada pelo suor. Ela não conseguia respirar, não conseguia, não-

Roland ainda falava de algum lugar distante demais para seus ouvidos captarem, triunfo impregnando seu tom de voz, mas ele foi subitamente interrompido. Um grito estrangulado cortou o ar, acompanhado de exclamações de choque e da voz esganiçada de Madeleine, que parecia implorar. Marianne foi trazida de volta a realidade com brusquidão, vendo com clareza a situação a sua frente: seu pai, os conselheiros e os curandeiros cercavam a maca de Roland, gritando para Bog, que apertava o pescoço do loiro em seu punho maciço como se estivesse pressionando o gargalo de uma garrafa de champanhe para fazer a rolha saltar. Os olhos verdes dele estavam esbugalhados de pavor.

— Rei Bog, por favor, não faça isso!

— Solte-o!

— Você vai mata-lo desse jeito!

— Não vou tolerar essa brutalidade em meus domínios! Solte-o ou eu vou-

— Eu só direi isso uma vez. – Bog grunhiu num tom baixo e ameaçador. Seu rosto estava lívido, mas seus olhos estavam plenamente lúcidos – Reze. Reze para que esse gato do mato não dê as caras por aqui. Porque se ele der, eu vou fazer você desejar ter sido devorado por ele.

Ele então largou Roland com brusquidão. A maca fez aquele mesmo som estridente ao ser arrastada para trás, inclinando-se perigosamente para o lado antes de voltar a se firmar no chão com um baque metálico. Roland se sacudiu sobre ela como um saco de batatas, tossindo e ofegando enquanto tentava normalizar a respiração. Os curandeiros imediatamente correram para atendê-lo enquanto Dagda e os conselheiros se voltavam para Bog com expressões que eram um misto de indignação e temor.

— Que truculência desnecessária! – Sir Terrance exclamou – Mostre algum respeito para com o réu, meu senhor, ele ainda tem direito a-

— Argh, cale essa boca! – Bog rosnou impaciente. Sir Terrance e os outros dois conselheiros soltaram gritinhos de terror e tentaram se esconder atrás do rei Dagda. Bog encarou-os com uma expressão enfezada antes de bufar e dar as costas ao grupo.

— Não tenho mais cabeça para essa estupidez. Vou me retirar por hoje. Espero ver essa questão resolvida amanhã, sem falta.

E antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa, ele marchou para fora da enfermaria.

Marianne só ficou paralisada por alguns segundos. Ver Bog dar as costas ao problema, somado a toda a sua passividade durante o interrogatório fez com que alguma coisa estourasse dentro dela. Raiva escaldante se alojou nos fundos de suas entranhas, o que era muito bem vindo no lugar do quase ataque de pânico e de todas as frustações que ele acumulara ao longo do dia. Bufando, ela atirou o unguento no chão e disparou atrás de Bog, ignorando as expressões incrédulas de seu pai e dos demais.

O palácio estava silencioso enquanto ela percorria os corredores de pedra, procurando por sinais da passagem de Bog. Ouviu o zumbido distinto de asas de vespa mais adiante, se aproximando dos portais de entrada, e bateu as asas com mais força para conseguir alcança-lo; raiva era mesmo um combustível e tanto. Encontrou Bog a poucos metros dos portais e não fez questão de esconder sua aproximação. Ele se voltou para trás com uma expressão colérica que imediatamente suavizou ao ver de quem se tratava.

— Você devia ficar na enfermaria. Precisa tratar do seu olho e de suas outras feridas. – Ele disse num tom preocupado que em nada ajudou a abrandar seu furor. Pelo contrário.

— O que foi aquela palhaçada de agora a pouco? – Ela questionou num rosnado. A expressão gentil de Bog foi imediatamente substituída por uma de confusão.

— Palhaçada?

— Você sabe do que eu estou falando.

— Ugh. Se é sobre aquele imbecil, eu sei que não deveria ter passado dos limites daquele jeito. Não consegui me conter, ok. – Ele esfregou as têmporas com os dedos, os olhos fechados com força – A última coisa que eu preciso no momento é você me dando um sermão-

— Não é isso! – Ela o interrompeu com impaciência – Estou falando desse seu comportamento esquisito! Você está assim desde que chegamos a algumas horas. Não responde direito quando falo com você, parece distante e desinteressado e ainda por cima está deixando meu pai e os conselheiros falarem o que bem entendem sobre você sem tentar se defender. O que é que deu em você?

O rosto de Bog parecia muito pálido sob a luz fraca que entrava pelas janelas do corredor. Ele deu as costas a ela.

— Não é nada com que você precise se preocupar.

— Como não? Nós estamos com problemas sérios para resolver e você fica aí nessa passividade como se nada disso fosse do seu interesse! – Marianne exclamou, soando mais acusadora do que pretendia. Não conseguiu corrigir seu tom, porém. Bog arreganhou os dentes para ela.

— Está insinuando que eu não me importo com o que pode vir a acontecer?

— Eu nunca disse isso! Eu só-

— Não quero mais falar desse assunto. – Ele decretou com irritação, abrindo os portais e descendo rapidamente as escadarias de pedra. Marianne soltou uma exclamação indignada e disparou atrás dele.

Era noite de lua cheia outra vez. A luz prateada se derramando sobre o cenário fazia com que a vegetação ao redor deles parecesse ter sido desprovida de cor; um mundo preto e branco. Marianne estremeceu com a brisa gelada e cortante, mas não permitiu que isso a interrompesse suas passadas decididas. Agarrou o pulso de Bog antes que ele conseguisse alçar voo.

— Nós temos que conversar.

— Eu não quero conversar agora. – Ele grunhiu em tom de aviso, mas ela o ignorou.

— Você vai me deixar aqui plantada então, outra vez louca tentando descobrir o que é que tem de errado com você?

— Não há nada de errado comigo!

— Não minta para mim! Você nunca age assim se não houver algo te perturbando. – Ela o puxou com mais força quando ele tentou dar as costas a ela outra vez – Droga, Bog, você prometeu que não faria isso outra vez! Vai faltar com a sua promessa comigo?

— Você não tem moral nenhuma para me censurar. – Ele rosnou para ela de repente, agora definitivamente zangado – Você encheu minha cabeça com aquela conversa de que precisamos manter a calma e priorizar a segurança dos nossos povos neste momento, mas logo em seguida foi se engalfinhar com a Poppy sem nem considerar o seu estado! Eu não sou o único aqui que falha em cumprir promessas!

Marianne travou, as palavras dele a apunhalando com força, fazendo-a se lembrar das frustrações e dúvidas que vinham perturbando-a desde a tarde, deixando-a infeliz e irritadiça. Mas ao invés de deixar as coisas por aquilo mesmo, ela usou cada um daqueles sentimentos negativos como combustível para sua raiva, que ia se tornando mais intensa a cada segundo daquela conversa.

— Ah, então nós vamos falar de mim agora? Deve ter sido muito frustrante para você, não é? Me ver apanhando e chegar à conclusão de que eu não sou tudo aquilo que você pensava!

— Hein? Eu nunca disse isso! – Ela exclamou, chocado e indignado, mas Marianne não parou por aí.

— Ou talvez aquele tenha sido o resultado que você estava esperando, não é? Por isso todo aquele desespero, não é mesmo? Você sabia que a sua fadinha ia ser feita de saco de pancadas antes mesmo de a luta começar!

— Meu desespero foi por causa da sua inconsequência! Você sabe que não está bem de saúde, então por que-

— Não venha me acusar de inconsequência! É você quem não tem moral aqui para isso! – Ela gritou, vermelha de raiva, apontando para ele acusadora – Aquele gato do mato poderia ter te matado, e ainda assim você hesitou!

— Ah, é lógico. O culpado sou eu. Sinto muitíssimo, Alteza, que você precise estar lidando com as consequências do meu momento de covardia. Sinto muitíssimo que o seu reino esteja em perigo mortal por minha causa. – Ele fez uma reverência zombeteira, trêmulo de fúria mal contida, e Marianne sentiu vontade de gritar e arrancar os próprios cabelos.

— Eu nunca disse que a culpa disso tudo é sua! É exatamente essa sua pose de coitado que está me deixando louca!

— Você está dizendo que eu sou um coitado?!

— Não! Disse que você está se portando como um, e isso não se parece em nada com você! Eu não suporto te ver agindo dessa maneira tão miserável, Bog! Você não está considerando como isso me faz infeliz! – Ela apertou os punhos contra o peito para se impedir de partir para a violência.

— E você não considerou nem por um segundo em como eu ficaria ao te ver sendo espancada sem poder fazer nada para te ajudar, mas isso não te impediu de ir trocar socos com a Poppy para tentar provar alguma coisa! Falta de consideração por falta de consideração, estamos quites! – Ele acusou, aproximando seu rosto do dela, a expressão de absoluta ira retorcendo suas feições e fazendo-o parecer ainda mais predatório. Marianne não se intimidou. Ergueu a cabeça para encará-lo nos olhos, a raiva e a mágoa com as palavras dele impelindo-a a continuar gritando.

— E você considerou como eu ficaria sendo deixada para trás enquanto você ia bancar o macho protetor, me impedindo de ir enfrentar o gato do mato ao seu lado? Quem você pensa que é para decidir por mim o que eu posso ou não fazer?!

— Eu estava tentando proteger você!

— Eu não preciso que você me proteja!

— Eu sei! Eu sei disso melhor do que ninguém, e ainda assim eu não consigo evitar! – Ele gritou, jogando os braços para cima e enterrando as garras no escalpo, e Marianne sentiu o corpo inteiro ficar gelado quando lágrimas grossas começaram a empoçar nos olhos dele – Eu não consegui proteger nem você e nem ninguém do gato do mato! Deixei-o fugir e agora ele pode acabar dando as caras por aqui, pode acabar matando a todos nós, e a culpa de tudo isso é minha! Eu falhei com você, falhei com tudo mundo, eu não queria me descontrolar e me transformar num monstro de novo, eu não consigo...

Ele não conseguiu continuar a esbravejar. Ele viu a expressão incrédula de Marianne, viu como ela ficara assustadoramente pálida, e isso fez com que sua voz morresse. A raiva em seu rosto desvaneceu-se na mesma hora, dando lugar ao horror e ao remorso.

— Oh, deuses, eu... eu não queria ter gritado desse jeito, eu... eu assustei você?

— O quê? – Marianne disse, abismada de que ele tivesse chegado àquela conclusão – Não! Você não me assustou, eu só...

— Me perdoe. Eu sinto muito, muito, eu nunca quis- eu não- – Ele piscou para dispersar as lágrimas – É que... eu estou tão cansado de tudo, com tanto medo, eu-

Ele se calou na mesma hora, percebendo tarde demais o que havia admitido. Balbuciou algo ininteligível, o rosto enrubescendo violentamente, humilhação evidente em cada linha de expressão, e Marianne finalmente entendeu.

Era por isso que ele parecera tão frio e distante de tudo na ala hospitalar. Era por isso que ele permitira que seu pai e os conselheiros falassem absurdos e não tentara se defender. Era por isso que ele tivera uma reação tão violenta ante as revelações de Roland.

Culpa. Medo. Sentimentos que ela conhecia tão bem, mas que não costumava associar ao seu companheiro. Em especial o segundo. Ela não parara nem um segundo sequer para pensar em como tudo aquilo deveria estar afetando-o, como tantos incidentes sucessivos deveriam estar se amontoando numa pilha sufocante dentro dele e fazendo-o duvidar de si mesmo, fazendo-o agir sem pensar, desespero fazendo-o se sentir desgarrado de tudo, inclusive dela.

Sua fúria evaporou. Ela agora experimentava o mesmo horror e remorso que ele devia estar sentindo.

— Oh, Bog. Eu sinto muito, eu não devia ter gritado daquele jeito, não devia ter dito aquelas coisas... – Ela cobriu a boca com as mãos, ao que ele balançou a cabeça.

— Não, Durona, eu também gritei, eu também perdi a cabeça. Eu prometi para mim mesmo que nunca mais ia dar motivos para você me temer e ainda assim-

— Você não me assustou. É que eu nunca esperei ver você assim, eu fiquei sem saber como reagir, eu... – Ela fechou os olhos com força – Não é certo descontar minhas frustrações em você, você não tem culpa do que aconteceu comigo, eu...

Ela escondeu o rosto na mão direita, a exaustão quase a vencendo, fazendo a grama úmida sob seus pés parecer muito convidativa. Sentiu os dedos longos e ossudos de Bog tocarem-na gentilmente no braço esquerdo, hesitantes como se ele temesse que ela rechaçasse seu toque. Ergueu a cabeça. Não queria nunca mais que ele duvidasse dos rumos do relacionamento deles, que ele achasse que era só uma questão de tempo até que ela o mandasse ir embora e nunca mais voltar, que duvidasse dele mesmo quando estava ao seu lado.

— Vem cá. – Ela chamou fracamente, abrindo os braços. Bog devia ter visto alguma coisa em seu rosto: medo, uma fragilidade comparável a sua, um anseio por um amparo que ele também precisava desesperadamente; fosse o que fosse fez com que ele não hesitasse nem por um segundo. Ele cortou a distância entre eles numa passada, envolvendo sua cintura com os braços e puxando-a para um abraço apertado. Ela passou os braços pelo pescoço dele, fazendo com que ele se abaixasse e apoiasse a testa na junção entre seu pescoço e seu ombro, e ele soltou um suspiro longo e trêmulo.

— Me desculpe, eu não queria ter gritado com você, não queria...

— Não foi só você quem gritou. Eu sinto muito, muito mesmo. – Ela beijou-o na mandíbula – Eu só queria que você conversasse comigo, Bog. Eu quero entender o que está te perturbando, quero ajudar você de alguma maneira, mas não vou conseguir se nós não conversarmos.

Os braços dele apertaram-na com mais força, fazendo com que Marianne só conseguisse enxergar o peito escamoso, e ela sabia que ele estava tentando esconder o rosto.

— Bog, por favor...

— Eu...

Ele estava começando a tremer. Marianne afagou as costas dele, a base entre as asas, seus dedos tentando desfazer os pontos de tenção, tentando transmitir algum conforto. Encostou a cabeça no peito largo, ouvindo o coração dele batendo descompassado. Depois do que pareceram horas, ele finalmente disse, quase num sussurro:

— Eu estou com medo.

Ela permaneceu em silêncio, ainda afagando as costas escamosas, sinalizando que não sairia dali. Ele continuou.

— Quando o gato do mato apareceu na Floresta, eu estava preparado para dar cabo dele. Mas aí eu... eu me lembrei do que aconteceu no Festival da Colheita. Lembrei-me do meu surto. Lembrei-me de como assustei a você e a toda aquela gente com meu descontrole. Eu... – Ela o ouviu trincar os dentes, outro tremor atravessando sua espinha – Eu fiquei com medo daquilo acontecer de novo. Medo demais. E na minha hesitação... bem, você viu o que aconteceu. Eu não sei se consigo passar por aquilo outra vez, Marianne. Eu não sou eu quando fico daquele jeito. Eu... eu fico fora de controle. É assustador não ter controle sobre você mesmo.

— Eu imagino. – Ela murmurou gentilmente – Eu não sabia que você ainda se sentia tão perturbado por isso, mesmo depois da nossa conversa... mas eu devia ter imaginado. Não é uma coisa que suma assim, de uma hora para outra.

— Não deveria ser assim. – Ele balbuciou, afundando mais o rosto em seu ombro – Eu sou o Rei do Pântano, sou a coisa mais perigosa em toda a Floresta Sombria, eu não devia sentir medo, não devia hesitar desse jeito, eu-

— Pare com isso, Bog. Você não tem que ser inabalável o tempo inteiro. Se continuar assim, uma hora ou outra você vai arrebentar com a pressão. – Ela disse num apelo – É normal sentir medo, é normal ter um momento de fraqueza, é...

Sua voz foi morrendo, ficando áspera e sussurrante. Era como se ela estivesse falando mais consigo mesma do que com ele. Engoliu em seco, sentindo o estômago ficar gelado e pesado.

— Eu... Eu também tenho momentos assim. – Concluiu antes de tomar o rosto dele nas mãos, fazendo-o erguer a cabeça. O semblante perturbado de Bog passou para preocupado ao ver sua expressão intensa de temor – Eu queria perguntar a você... você pega leve comigo quando duelamos?

— Hein? De onde isso saiu? – Ele indagou com uma surpresa sincera, e Marianne rangiu os dentes.

— Não fuja da pergunta. Você pega leve comigo ou não?

— Não. Nunca. – Ele afirmou sem pestanejar, mas Marianne estava achando difícil de acreditar.

— Como não? Você é um goblin, droga! Você é muito mais forte e resistente do que eu. Deuses, você conseguiu erguer um crânio de cervo inteiro nos seus braços, mesmo que só por alguns segundos! Como você não poderia pegar leve comigo, como-

— Combate com armas brancas é diferente de combate corpo-a-corpo, Marianne. Eu não preciso usar força bruta se posso manusear corretamente uma arma de longa distância, como meu cetro. Agilidade, precisão e flexibilidade já bastam, e nisso você e eu estamos empatados. Por que você pensou que... – Ele subitamente se calou, parecendo enfim perceber o que a atormentava. Seus olhos pousaram no olho esquerdo dela, roxo e muito inchado – Oh. Você ainda está pensando no que aconteceu com a Poppy.

Marianne encarou o chão, encolhendo os ombros em desconforto.

— Ela pegou leve comigo. Ela disse isso na minha cara. Foi... foi humilhante demais. – Ela rosnou entre indignação e frustração – Eu não senti que fui respeitada como guerreira. Eu me senti usada, como se eu fosse uma cobaia.

— Ah. Eu sinto muito por isso, Durona. – Ela disse com sinceridade, tocando-a no braço – Infelizmente eu não posso responder pela Poppy, já que eu mesmo fiquei bem surpreso com as reais intenções dela. Ela é a única que pode tirar essa dúvida dos seus ombros. Mas eu quero que você saiba que eu nunca te enxerguei assim, nem por um instante. Quando eu te impedi de participar da batalha contra o gato do mato... eu não estava querendo dizer que não confiava na sua força, eu estava-

— Preocupado com meu estado e tentando impedir que eu me machucasse ainda mais. – Ela completou a frase por ele, sorrindo meio encabulada – Eu entendi. Eu entendo sua preocupação. Mas aquela deveria ter sido uma escolha minha.

— Eu sei. Me desculpe. Prometo que não farei isso de novo.

— Obrigada.

Ambos sorriram um para o outro, ainda exaustos e amedrontados, mas com os corações um pouco mais leves. Marianne abaixou a cabeça e encostou a testa no peito dele.

— Eu nunca tinha perdido uma luta antes. Foi um golpe duro no meu ego.

— Eu sei como é a sensação. – Ele disse gentilmente, voltando a abraça-la – Se sentir fraco e impotente...

— Você não está acostumado com isso, não é?

— Não. Eu... eu nunca me permiti sentir assim, ou pelo menos não demonstrar isso na frente de outros. Eu não podia. O Rei do Pântano precisa ser sempre o goblin mais capaz, o mais feroz, o mais destemido. Se outros vissem esse meu lado, a confiança em mim seria totalmente perdida. Mas com você... é diferente. – Ele contemplou com um quê de surpresa – Eu... sinto que posso falar dessas coisas com você e não me sentir um idiota.

— Eu também. – Ela concordou com igual admiração.

Ela sempre associara força à estoicidade. A capacidade de aguentar as pancadas que a vida lança em sua direção com uma determinação inquebrável. Mas ela, como recentemente descobrira, não era feita de material indestrutível. E constatou com espanto que Bog também não era. Mesmo criaturas como eles, guerreiros natos que encontravam alívio de constantes intempéries num punho cerrado ou no aço de uma lâmina afiada, não poderiam se manter permanentemente sólidos como rochas. Uma hora ou outra necessitariam de algum apoio para que não desmoronassem. E descobriram que eles haviam encontrado esse apoio um no outro.

Aquilo, concluíram, era o tipo de companheirismo e entendimento que só se encontrava uma vez na vida. Não precisar fingir quando não se quer fingir, não precisar se manter de pé quando não se tem mais forças. Poderiam encontrar o consolo de suas tristezas e frustrações ali, num simples abraço, num beijo, numa singela troca de palavras. Bog se abaixou e roçou a ponta de seu nariz no dela, e Marianne fechou os olhos, sentindo o peso do mundo ser momentaneamente varrido de seus ombros.

— Eu estou com medo. – Ele disse, tremulo. Ela assentiu.

— Eu também.

— Eu não sei o que eu vou fazer...

— Vamos descobrir juntos. Vamos encarar isso lado a lado. Minhas frustrações, seu medo de si mesmo... vamos bater de frente com eles.

— Mas o que vai acontecer quando esse momento chegar? – Ele perguntou, erguendo-se um pouco para encará-la, e o coração de Marianne doeu ao vê-lo tão transtornado em desamparo – Se eu não conseguir me conter, se eu surtar daquele jeito outra vez-

— Então eu vou estar aqui para parar você.

Ele travou, empalidecendo.

— Não, Marianne, eu não posso deixar você se arriscar assim, não por minha causa, não-

— Minha escolha, lembra? – Ela o cortou – Se eu consegui parar você daquela vez, talvez consiga numa próxima. Eu quero tentar. Você não vai poder continuar ignorando esse seu lado para sempre. Temos que confiar que isso dará certo.

Ele suspirou, passando a mão pela testa, sabendo que não conseguiria dissuadi-la. Puxou-a novamente para si.

— Eu quero confiar. Quero acreditar que tudo acabará bem. Mas o futuro é incerto, Durona, o que torna tudo isso assustador.

Aquecida pelos braços dele, sentindo-se preparada para o combate apesar do medo, Marianne se ergueu na ponta dos pés para murmurar no ouvido dele:

— Eu sei. Mas as melhores aventuras geralmente são as mais assustadoras.

E Bog riu, ainda pálido, mas menos incerto do que os aguardava. Curvou-se para beijá-la, e Marianne se deixou levar, ambos duas silhuetas negras que se dobravam e se fundiam, entrecortadas pelo brilho etéreo da lua.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.