Garota Totalmente Liberal
2 O Ultimo Dia de Aula
Notas iniciais

— Com licença professora, posso entrar? – A professora estava sentada no canto falando com as ‘tops’ da sala. A sala estava uma verdadeira bagunça. Fiquei parada na porta esperando ela responder a minha pergunta, mas ela nem olhou para trás. Decidi aumentar o meu tom de voz. _ Professora, com licença eu posso entrar? Professora? Professora, eu sei que eu cheguei atrasada, mas será que eu posso entrar, por favor!!
— Gaby, entra logo! – Me virei para ver quem era. Era o Rafael. O Rafael é com certeza a melhor pessoa da minha sala, apesar de não ser uma boa companhia. Ele é considerado um dos mais bonitos aqui da escola, eu sinceramente não acho o mesmo, mas as meninas ficam loucas por causa dele, mesmo ele deixando bem claro que não tem uma vida muito correta, mas se bem que ninguém tem a vida correta nessa escola, alem do meu grupinho e eu é claro. Mas apesar dele exagerar no uso da maconha, ele é uma ótima pessoa, sempre gentil, nunca nega ajuda para os amigos e sempre esta lutando contra as ‘injustiças’ da escola, mesmo que para isso ele tenha que bater de frente com o diretor, nada importa pra ele! _ Para de ser tonta. Aproveita que ela esta distraída com as meninas e ainda não fez a chamada. Vai entra.
— Mas Rafael, isso não é certo.
— Para com isso Gaby, hoje é bem dizer o ultimo dia de aula vai. Anda logo. – Fiquei balançando a cabeça negativamente. Ele revirou os olhos e me puxou pelo braço me obrigando a entrar na sala com ele, logo em seguida colocou os braços ao redor dos meus ombros sorrindo. _ Viu, não aconteceu nada. Você entrou na sala e ninguém morreu.
— Ai Rafael! Isso não é certo. Eu estou mentindo e você sabe que isso não é certo. – Ele não deu a mínima pra mim e saiu andando como se nada tivesse acontecido.
Olhei ao redor procurando os meus amigos, até que os encontrei sentados no final da sala. A Victoria estava sentada na frente do Maikon e o Pedro estava sentado do lado do Maikon, mas ainda tinha uma cadeira vazia na frente do Pedro. Não pensei duas vezes e fui la, coloquei minha mochila em cima da carteira já pronta para sentar.
— Oi gente, tudo bem? – Quando fui me sentar, Victoria colocou os pés sobre a cadeira e ficou me olhando. Eu olhei para ela e depois para os pés dela, sem entender o que estava acontecendo. _ Victoria, você poderia tirar o pés pra eu sentar, por favor?
— Não! Pra começar a aula já começou faz tempo, caso você não saiba a aula começa as 7:00 hrs. Ninguém mandou você chegar atrasada. – Fiquei olhando pra ela, por que ela faz isso hein? Senti um nó na garganta e meus olhos encheram de água. _ O que foi? Vai chorar? Pode chorar, é só isso que você sabe fazer mesmo, se fazer de vitima para as pessoas terem pena de você!
— Victoria, coitada, deixa ela sentar. Olha la, ela vai chorar tadinha! – O Maikon disse, eles ficaram se olhando um pouco e a Victoria fez um ar de deboche.
— Victoria, por favor, me deixa sentar.
— Não. Se você quiser senta em outro lugar ué, você não vai morrer se não sentar aqui perto da gente. – Abaixei a cabeça e peguei a minha mochila, ela não vai tirar os pés de cima da cadeira mesmo. Olhei para os lados procurando uma cadeira, mas ainda ouvi os três cochichando baixinho e olhei pra trás. Estava bem óbvio que eles estavam falando de mim, eles não estavam nem disfarçando. Me sentei numa carteira vazia na mesma fileira, só que nas carteiras da frente. Abaixei a cabeça e fiquei la. Nesse momento fiquei me segurando para não chorar, sério que ela vai fazer isso comigo no nosso ultimo dia de aula?
— Gaby. – Ouvi alguém me chamando e olhei pra trás. Era o Pedro, ele estava meio que rindo. _ Gaby, pode sentar aqui vai. – Quando fui me levantar a Victoria colocou o pé novamente e ficou olhando para ele rindo e ele pra ela rindo também. Estava bem claro que eu estava fazendo papel de trouxa ali.
— Não Pedro, deixa quieto vai. – Ele ficou falando alguma coisa pra ela baixinho e ela respondendo baixinho também, ou talvez com a gritaria do pessoal não deu pra ouvir mesmo. Os três riam sem parar, com certeza da minha cara. Abaixei a cabeça de novo na carteira, depois de uns cinco minutos, senti alguém me cutucar, olhei para trás e para minha surpresa, era o Pedro.
— Oii – Ele disse sorrindo. _ Bom, já que a Victoria não deixa você sentar la, eu sento aqui. – Imediatamente sorri e ele sorriu de volta. _ Olha só que ótimo amigo você tem esta vendo, agradeça a Deus por me ter na sua vida.
Começamos a conversar, ele como sempre começou a me contar coisas sem sentido e totalmente hilárias, não parava de rir nem um minuto. Em cinco minutos chegou o Maikon.
— Aí Pedro, o que você esta falando pra minha namorada hein? – Ele nunca para com essas brincadeirinhas de namorada não é mesmo? _ Fica ai dando em cima da namorada dos outros. – Eu apenas sorri. O Pedro ficou apenas olhando e não disse nada, apenas abaixou a cabeça rindo. Maikon ficou de joelhos no chão e me abraçou por trás.
— Maikon, para com isso. – Dei uma risadinha e empurrei ele, mas ele segurou a minha mão e começou a beija-la, eu apenas sorri. Ele nem imagina o quanto isso é constrangedor. Não demorou nem cinco minutos e a Victoria me chamou.
— Gaby, vem ca. – Olhei para o Pedro e o Pedro olhou pra mim.
— Victoria agora não da, eu to aqui com o Pedro. – Ela revirou os olhos e continuou me chamando.
— Gaby, vem aqui. Eu quero falar com você!
— Gaby vai la se não ela vai ficar brava com você, você sabe disso né. – Disse o Pedro. Dei um sorriso, me levantei da cadeira e ele se levantou junto. _ Vamos la ver o que ela quer. – Fui la e me sentei do lado dela, na cadeira que estava sobrando.
— Ai, você já foi fazer a inscrição naquela escola que eu te falei? – Balancei a cabeça que sim. _ Ah que bom, vê se não vai perder a hora da prova viu, é meio dia em ponto. Aquela é uma das melhores escolas daqui da nossa cidade, é bom você passar pra não me deixar sozinha. – Eu dei uma risadinha, espero que eu passe nessa prova porque todos os meus amigos vão pra la, quer dizer menos o Pedro, mas ele não conta porque mesmo que eu fique aqui na escola, ele não vai ficar comigo na hora do intervalo, ele vai ficar com o primo dele e os amigos dele, ou seja, de qualquer jeito eu vou ficar sozinha.
Eu nunca ouvi falar dessa escola na minha vida, mas tudo indica que ela é uma das melhores. Parece que a minha tia e a minha prima estudaram la. Eu fui la esses dias para pegar uma prova do ano passado para poder estudar, e ela é linda. Quer dizer eu já estudei naquela escola quando eu era pequena, mas era uma outra escola, ai a escolinha que eu estudava se mudou e formou essa escola que é agora. Um pouco confuso né, mas acho que deu pra entender.
Ficamos a aula toda falando sobre essa nova escola. A Victoria colocou a escola nas alturas. Pelo que ela falou até armário a gente vai ter, olha que demais. Deve ser tipo escola americana. Já amei só por isso. O sinal bateu pra gente mudar de sala, as duas aulas passaram bem rápido. A próxima aula era matemática, mas a gente não fez nada, ficamos apenas conversando, a professora decidiu contar um pouco da vida dela, de novo, sabe eu tenho um pouco de dó dela coitada, ela ja sofreu tanto. Teve o intervalo que como sempre ficamos sentadas conversando, é que tem dias que a Victoria não gosta muito de andar, e hoje foi um desses dias. Voltamos do intervalo e fomos para a sala de historia, mas como sempre o professor faltou então voltamos para o pátio novamente. A próxima aula vai ser de geografia, onde vamos ter prova, ainda bem que é em dupla, porque eu não estudei nada. Sei que isso é errado, mas eu estava cansada, ninguém merece prova no ultimo dia de aula. Colocamos nossas mochilas no palco e sentamos para conversar. E então do nada o Pedro tem a maravilhosa idéia de brincarmos de pega-pega. Claro que o Maikon e a Victoria aceitaram na hora, eu aceitei também, mas foi só porque eles aceitaram, afinal por que não né?! E então começamos o jogo.
Quem começou foi o Pedro, correr daquele menino é difícil pra caramba. Mas, no meio da brincadeira acabo encontrando uma pessoa indesejada. Luiz Diego. Assim, até que ele é legal, mas ele sempre acaba estragando tudo.
— Gaby, Gaby. – Olhei pra trás e vi ele correndo atrás de mim.
— Oii, que foi?
— Oi, eu to na aula de educação física. Será que da pra gente conversar? – Ele ficou me olhando com uma carinha de cachorrinho sem dono, mas infelizmente no momento o mais importante era os meus amigos, mas eu também não queria que ele ficasse chateado comigo. Fiquei olhando para ele e tive uma idéia.
— Então, depois a gente conversa, pode ser? – Sorri e sai correndo, ele apenas sorriu de volta. Bem acho que ele não ficou chateado, eu espero.
Ficamos brincando disso por um bom tempo, até que a Victoria cansou e foi conversar com a Nathy, eu fui fazer o mesmo, mas como sempre, o Pedro estragou meus planos. Enquanto eu caminhava tranquilamente a caminho do palco com as meninas ele veio correndo e pegou a presilha do meu cabelo e assim, vai eu correr atrás dele implorando pra ele devolver a minha presilha. Mas no meio do caminho encontrei novamente o Luiz Diego, eu já estava estressada e ai acabei falando demais.
— Gaby, será que da pra gente conversar agora?
— Olha Luiz Diego, me desculpa, mas eu não falei que eu estou ocupada agora? Depois a gente conversa ta bom? – Ele foi falar alguma coisa, mas eu cortei antes. _ Olha na próxima aula vai ter prova de geografia, eu não estudei nada, e só para piorar o Pedro pegou a minha presilha e esta correndo pra la e pra ca com ela e eu não consigo pegar de volta, e tem a Victoria ainda. Então olha me desculpa, mas enquanto eu não pegar a minha presilha, a gente não vai conversar. – Ele ficou me olhando por um tempo e logo saiu.
Fiquei sentada nos bancos da cantina esperando o Pedro dar algum sinal pra eu poder pegar a minha presilha. E deu certo, vi o Pedro vir em minha direção com a presilha na mão. Quando eu fui começar a falar ele me cortou muito irritado.
— Ta aqui a sua presilha Gaby, você não precisava reclamar com o seu amigo pra ele vir falar comigo. – Fiquei olhando sem entender nada, do que ele estava falando? _ O seu amigo da outra sala, veio falar pra mim que você esta super irritada porque eu peguei a sua presilha. Caramba não precisa de tudo isso, eu só estava brincando com você. Toma aqui a sua presilha. – Fiquei olhando um pouco assustada, chateada e com raiva, afinal o que ele tinha que falar isso para o Pedro? Tudo bem que ele me deixa louca, mas o Pedro é o meu melhor amigo, eu não quero que ele fique bravo comigo. Fui andando em direção ao palco, a Victoria estava la com o Maikon.
— Oi gente, o que vocês estão fazendo? Posso ficar aqui com vocês? – Imediatamente a Victoria fechou a cara.
— Nossa Gabriele, será que você não pode ficar nem um minuto sem encher o nosso saco. Como você é chata garota! Por que você não vai ficar correndo atrás de outra pessoa e desgruda da gente. – Fiquei olhando pra ela em choque. Tinha um monte de gente no pátio e ela estava gritando. _ Sai daqui menina, a gente não quer você aqui. – Sai o mais rápido possível sem saber o que fazer ou pra onde ir. Me sentei no banquinho perto da quadra e fiquei la vendo as pessoas da outra sala jogarem vôlei. Até que o Luiz Diego apareceu com a Nathy, e então eu me lembrei que ele queria falar comigo. Me levantei rápido para poder conversar com ele, com certeza ele deve estar cansado de esperar, e mesmo que ele tenha feito aquela idiotice, ele só queria ajudar.
— Oi, então desculpa atrapalhar a conversa de vocês, mas é que o Luiz Diego falou pra mim que queria conversar comigo. Então agora da pra gente conversar. – Os dois ficaram olhando na minha cara.
— Olha Gaby, quando eu queria falar com você, você não deu a mínima pra mim, e agora que você esta sozinha você lembra que eu existo?
— Não, é que eu vi você e ai lembrei que você queria falar comigo, só isso.
— É mas agora a Nathy já conversou comigo, obrigado viu. – Eles saíram andando sem falar mais nada e eu fiquei apenas olhando. O que esta acontecendo com as pessoas hoje?
O sinal bateu e eu entrei na sala. Quando cheguei la a Victoria já estava sentada na mesa arrumando o seu material para fazer a prova. Fui me sentar do lado dela mas ela colocou a mochila no lugar.
— Não Gabriele, eu não vou fazer a prova com você, eu vou fazer com o Maikon.
— Nossa Victoria.
— Nossa o que? Eu quero tirar uma boa nota. E pra isso acontecer eu tenho que sentar com alguém inteligente, e com certeza essa pessoa não é você. – O Maikon chegou na sala e ela logo abriu um sorriso enorme falando pra ele se sentar do lado dela. Eu sai de perto e me sentei na primeira na carteira e fiquei esperando alguém. Não demorou muito e o Pedro entrou na sala. Ele ficou olhando pra mim, procurando alguém, acho que a Victoria e o Maikon. Fiz sinal pra ele fazer a prova comigo, ele sorriu e fez que sim com a cabeça ja se sentando do meu lado. Ufa, ainda bem que ele não esta bravo.
— Ué, a Victoria não quis fazer a prova com você?
— É, não.
— Ah mas de boa, eu faço com você. Você estudou alguma coisa?
— Sinceramente? Não! Ai assim eu sei que isso é errado mas sei la, eu esqueci, me desculpa de verdade.
— Gaby, de boa. Acontece ué. Mas eu só faço a prova com você, se você me pagar um salgadinho depois, beleza? – Fiquei olhando pra ele sem acreditar naquilo. Mas aceitei. Fizemos a prova em meia hora, fomos uns dos primeiros a sair da sala. Você deve estar pensando, nossa como eles são inteligentes. Não, chutamos tudo. Eu fui contra, mas o Pedro insistiu falando que era o ultimo dia de aula, e ai ele insistiu tanto que, eu acabei deixando ele fazer isso.
Saimos da sala e já liberaram a gente da escola, é, pois é essa escola não tem nenhuma regra. Fui comprar o tal salgadinho que ele tanto queria, não demorou muito para encontrarmos o Maikon e a Victoria na frente da escola. Sentamos os quatro na frente da escola e começamos a conversar e comer salgadinho de presunto,. A Victoria não parava um minuto de falar com o Maikon e o Pedro, me excluindo totalmente da conversa, então decidi ficar na minha. Comecei a jogar no celular e então percebi que o Pedro estava me olhando. Ele se aproximou de mim e se sentou do meu lado.
— Que foi que você ta quieta ai? – Dei um sorriso sem graça.
— Ah, eu sou quieta, você sabe disso.
— O que você ta vendo ai no celular de tão interessante?
— Nada, só to jogando. – Sorri novamente mostrando o jogo pra ele. Ficou um silencio novamente. Olhei pra ele e ele estava olhando pro horizonte muito concentrado. Eu não sabia o que fazer, então abaixei a cabeça e comecei a mexer no cordãozinho da minha blusa. Ele se virou rapidamente e ficou olhando na minha cara, mas logo em seguida abaixou a cabeça, eu continuei fazendo o que estava.
— Gaby... – Ele deu uma pausa mas logo continuou. _ Quer tomar um sorvete comigo? – Olhei pra ele sorrindo.
— Sim, mas a sorveteria fica muito longe daqui. – Ele revirou os olhos
— Sim, mas a gente não vai na sorveteria né. To falando pra gente tomar um picolé ali na praça. É mais perto. – Fiquei olhando pra ele sorrindo.
— Ta bom, mas e a Victoria e o Maikon?
— Ah deixa eles ai, eles estão entretidos no papo ali. – Eu continuei olhando pra ele sorrindo.
— Ah então ta. Vamos!
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