Garota Ideal
4 Ares, como o deus da guerra?
Notas iniciais
Era final de semana e, como em todos eles, Hugo se permitiu dormir até mais tarde. Levantou-se a contragosto, ainda estava um pouco sonolento quando foi até a cozinha comer cereal. Colocou em uma vasilha o nescau cereal e o leite. Então, caminhou, ainda de pijama, até a sala. A sua irmã estava jogando vídeo game com um garoto da mesma idade.
— O que estão fazendo? — resmungou, enfiando uma colherada na boca. — E quem é ele? — cochichou para a irmã.
Ela voltou o rosto para Hugo, como se só agora houvesse notado a sua presença ali.
— Jogando. — respondeu concentrada, fazendo a sua personagem no jogo pular sobre algumas pedras. — Ah, esse é o Ares. Mamãe pediu para fazer companhia a ele hoje, porque somos da mesma escola e também porque ela é amiga da namorada do pai dele. — explicou rapidamente. — Toma essa! — gritou quando sua personagem acertou um monstro que surgiu do nada.
— Boa! — gritou o garoto, atacando o mesmo monstro com seu próprio boneco. A tela estava dividida em duas, como ele e a irmã costumavam jogar. Hugo apenas concordou com a cabeça enquanto continuava a mastigar seu cereal. — Minha irmã vai nos vigiar mais tarde na piscina. — fez uma pequena careta.
— Sim, ela nos prometeu. Da última vez estava ocupada fazendo um trabalho da faculdade, ela não quis me mostrar. — fez um pequeno bico.
— Porque é irritante. — sugeriu o garoto.
— Não acho a sua irmã irritante. — retrucou, ainda com os olhos presos à tela.
— Ela é bem legal e conversa comigo sobre os filmes que vimos.
— Filmes de garotas. — ressaltou. — A minha irmã os adora, o que é um saco, porque eu prefiro ação.
— Mas nós vimos aquele de super-heróis, ela pareceu gostar.
— Ela tem muitas HQ’s, mas isso é porque gosta de desenhar. — argumentou.
Hugo notou que, ao que parecia, a sua irmã passava bastante tempo com os dois irmãos, quando era a primeira vez que ele encontrava o menino.
A sua irmã deu pause no jogo, parecendo animada em discutir sobre a irmã do garoto.
— Eu sei, ela me desenhou como uma super-heroína, ficou tão legal.
— Sim, disso não posso reclamar, ela me desenhou como todos os super-heróis.
Os dois engataram em uma conversa sobre desenhos e a irmã do garoto que ele nem ao menos sabia o nome, esquecendo-se totalmente da sua existência.
A sua mãe não demorou a aparecer.
— Hugo, vai colocar uma camisa ou uma roupa de banho, você podia acompanhar as crianças à piscina, para não largar toda a responsabilidade nas costas de Atena. — repreendeu.
— Atena, como na mitologia? — perguntou confuso.
— É. Na verdade, nós dois temos nomes mitológicos, mamãe adora e meu pai concordou, ele disse que eu parecia um pequeno deus da guerra no berçário, atiçando os outros bebês aos gritos.
Hugo não pôde deixar de rir.
— E a sua irmã?
— Levando em conta como ela ama livros, diria que minha mãe acertou. Ainda bem que não colocou Afrodite. — riu.
— A sua irmã combinaria com Afrodite, deixe de ser chato.
— Não ficaria muito legal serem Ares e Afrodite, já que os dois tinham um caso. — concordou Hugo.
— É, minha irmã falou o mesmo depois que leu Percy Jackson.
Ele apenas fez uma careta e continuou onde estava, largado, com preguiça de guardar a sua própria vasilha. A campainha tocou e a sua mãe foi atender. Não conseguia ver muito bem a pessoa na porta, só uma roupa branca, como uma bata de praia, e a pele exposta das pernas. Tentou esticar um pouco mais o pescoço, mas não conseguiu dar uma olhada na garota.
— Crianças, andem. — chamou a mãe.
— Oi, Atena! — exclamou a sua irmã.
— Olá, gatinha. Como andam os namoradinhos? — brincou.
— Não tenho nenhum. — disse encabulada.
— Sei... — riu. — Vamos, pirralhos, ainda tenho que afogá-los hoje.
A mãe apenas riu, enquanto os dois seguiam a menina insana.
— Você vai mesmo deixar eles irem com ela? — perguntou incrédulo.
— Atena é uma ótima garota, super responsável, ela só estava brincando. E você devia fazer companhia a ela. — incentivou a mãe.
— Não, tô bem aqui. — sorriu minimamente, fazendo a mãe revirar os olhos e sair da sala.
[...]
Um pouco mais tarde, Carlos passou animado pela porta, logo jogando-se na poltrona ao lado da cabeça do amigo.
— Fazendo o quê? — indagou.
— Vendo TV apenas. — fez pouco caso.
— Cadê minha futura noiva? — indagou, olhando para os lados atrás da moreninha que tinha uma paixonite por ele.
— Ainda deve estar na piscina com o namoradinho e a irmã dele.
— Minha namorada está me traindo? — perguntou teatralmente. — Vamos lá dar uma olhada nesse moleque. Você deveria estar em cima, é a sua irmãzinha!
— Ela está sendo vigiada pela irmã maluca do garoto. — riu ao lembrar dela ameaçando afogá-los.
— É gata? — indagou curioso.
— Não consegui ver, mas Bella parece gostar dela.
— Vamos lá para baixo ver como ela é. — animado, pulou do sofá. — Vamos, Hugo, vamos logo!
A contragosto, levantou-se e foi ao quarto trocar a calça de pijama por uma bermuda e vestir uma camiseta. Apanhou os óculos escuros, calçou os chinelos e seguiu o amigo até o elevador. Carlos, como sempre, estava animado.
— Não vamos chegar muito perto, senão Isabella vai acabar nos alugando. — resmungou quando chegaram à área da piscina.
Não demoraram a avistar a sua irmã em uma das espreguiçadeiras. Ela conversava com uma garota que estava deitada em outra, um livro tampando seu rosto e boné. As pernas longas estavam com os tornozelos cruzados. Ela tinha pernas lindas, Hugo teve de piscar algumas vezes para desviar os olhos. Lembrou da garota da barca e sentiu como se a traísse ao se permitir olhar daquela maneira para uma desconhecida — o que era ridículo, já que eles não tinham nada.
— Quente. — salientou Carlos. Hugo não pôde deixar de concordar, quase se sentiu compelido a chegar mais perto e ver como ela era. Mas se segurou. Se
Carlos desconfiasse de sua fraqueza, arrastaria-o até as meninas, e ele não queria isso. Não quando tinha tanto a pensar sobre a garota da barca. — E cadê o pequeno pivete que está cantando a minha namorada? — revirando os olhos, Hugo apontou para Ares, que mergulhou na piscina graciosamente, feito um profissional.
— Precisamos pôr medo nesse moleque.
— Ele só tem 12 anos, Carlos! Não é como se os dois agissem amorosamente, são amigos. — respondeu cansado.
— Isso é, até você encontrar o pequeno bastardo de agarramento com a sua irmã.
— Vamos, idiota, vamos fazer alguma coisa.
Carlos, muito a contragosto, seguiu-o de volta ao apartamento.
[...]
— Carlos! — gritou Isabella ao vê-lo.
— Namorada! — gritou de volta, abraçando-a. — O que andou fazendo? Espero que não me traindo... — fingiu mágoa. Isabella apenas revirou os olhos azuis, iguais aos de Hugo. — Quem era o garoto com quem estava na piscina?
— Ares? Ele é do colégio, somos apenas amigos. — explicou. — Quando vocês foram à piscina? Não os vi.
— Não ficamos muito tempo. — Hugo fez pouco caso.
— Ares, como o deus da guerra? — perguntou malicioso. — Você estava conversando com uma garota, quem era?
— Atena, a irmã mais velha do Ares. Sabia que ela faz artes plásticas na mesma faculdade em que vocês estudam? — indagou.
— Não.
— Vocês provavelmente já devem ter se cruzado, embora Atena discorde. Mas ela não sabe como vocês são, eu só disse a ela que meu irmão era bem parecido comigo, alto e que deveria fazer a barba. Ela me respondeu que lá tem vários garotos iguais a você. Acho que você devia conhecê-la e namorá-la. — respondeu animada.
— Meu Deus! A menina daqui a pouco estará casando-o. Fuja, irmão. — avisou Carlos. — Hugo já está enfeitiçado, coisinha.
— É? Por quem? — indagou cabisbaixa, ela provavelmente tinha gostado de se comportar como uma casamenteira. — Como ela é? Duvido que seja como Atena, ela é demais!
— Ela é toda baixinha perto do seu irmão, cabelo castanho, magrinha e com olhos grandes. — tentou Carlos.
Mas Hugo achou que ele fez um péssimo trabalho! Não explicou que ela tinha o tamanho perfeito para abraçar e seus cabelos castanhos pareciam brilhar em dourado quando no sol. Os seus olhos não eram simplesmente grandes, eram lindos, castanho-claros que, ao sol, podiam ser confundidos com verdes. E os lábios, rosados e convidativos quando abriam em um sorriso, era capaz de deixá-lo sem fala. O seu corpo não era só magro, era perfeito, com as curvas nos lugares certos.
Mas ele não diria isso a sua irmã. Ela estava ocupada fantasiando com ele e a irmã mais velha de seu amiguinho.
— Não escute o Carlos. — resmungou Hugo.
— Isso é muito vago, Carlos. — ela reclamou. — Ainda prefiro a Atena! — teimou. — Ela é delicada como uma bailarina. Seus olhos ao sol ficam verdes e brilhantes e o cabelo bate no ombro e, como seus olhos, também se transforma, colorindo-se de vários tons. Não é como o nosso, que é simplesmente preto; o dela fica castanho, loiro e ruivo. É muito legal. Ela é divertida, engraçada e pode desenhar qualquer coisa que você pedir. E aposto que ela seria uma ótima namorada, é uma pena que vocês não enxerguem isso. — chateada, saiu da sala.
— Nossa, a sua irmã estava fazendo um esforço enorme para que você se interessasse pela menina. Se não tivesse dito que ela desenha qualquer coisa, eu começaria a achar que ela canta com os bichinhos da floresta e usa vestidos de princesa.
Hugo não pôde deixar de rir tenso: tirando a parte fantasiosa, tinha certas similaridades entre as duas garotas, embora ele não soubesse qual era o curso da sua garota. Mas achava impossível que as duas fossem a mesma pessoa. Onde ele teria tal sorte?
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