Garasu No Namida

8 VII- Bittersweet


Notas iniciais
Título do capítulo: Música de mesmo nome de Apocalyptica ft. Lauri Ylönen e Ville Valo.

[ Mana's POV ]


Agridoce. Único adjetivo que encontro para definir o que minha relação com Kaya se tornou após o término do noivado. Pela responsabilidade de produtor, eu tinha de vê-lo sempre, mas algo dentro de mim dizia que continuar com aquilo não estava sendo bom para nenhum de nós. Pior para mim do que para ele. Estava se tornando um carma ter de vê-lo com aquela cara de cachorrinho abandonado pelos cantos da gravadora. Podia ter sido mais fácil, mas quem disse que ele facilitava? Ora, mais cedo ou mais tarde ele precisaria superar. Tinha que superar! Eu estava ficando de saco cheio de sempre parecer o culpado. Não sou do tipo que gosta de errar. Se eu havia terminado com Kaya, tinha motivos muito bons.


Percebi que, antes da paixão arrebatadora, não tivemos tempo de nos tornarmos amigos. Com o fim do namoro, restou apenas uma dupla de desconhecidos trabalhando juntos. Ele devia me agradecer por pelo menos ainda ter um trabalho.


Foi quando eu notei que a disposição de Kaya começou a declinar.


Conta pra mim, quando é que um produtor fica feliz em chegar à gravadora e encontrar sua estrela morta em vida, com o trabalho incompleto e saindo de uma maneira totalmente diferente do que eu conhecia por "essência de Kaya"? Ele estava se esforçando, eu via, mas seu trabalho já não era mais o mesmo. Parecia mais fúnebre e assustador do que de costume. Sem falar nas indiretas... Meu Deus, as indiretas. Tudo o que Kaya dizia era entendido por mim como um "viu o que você fez?".


Foi aí que meti na cabeça que tinha tomado a melhor decisão de todas ao terminar com ele. Além de sermos diferentes ao extremo, não era o que eu queria para mim. Se ele estava se destruindo, a culpa não era minha.


[ / Mana's POV ]





[ Kaya's POV ]


Agridoce. Uma palavra tão bonita para algo tão desprovido de beleza.


O que eu vivia com Mana, se antes tinha sido a entrada do Paraíso, passou a ser um inferno na terra. Encontramo-nos algumas vezes fora da gravadora. Nossas conversas eram mais papo de enterro, eu queria saber da vida dele, mas as coisas que ficava sabendo nunca me agradavam — sem contar que ele não demonstrava o mesmo interesse na minha rotina sem graça. Em sua face era possível ler “Kaya, não quero conversar. Sei que vai falar alguma merda sobre eu ter terminado com você”. Pensado e concretizado, o assunto declinava com uma frase dolorosa e terminava com algum dos dois indo embora. Por vezes chegamos a trocar carícias tímidas e duas ou três vezes acabamos por nos beijar. Algo rápido e cheio de mágoas, mas para mim todo e qualquer contato íntimo que Mana me proporcionasse já me era suficiente. Ora, o ser humano é fraco. A carne é tentada, o coração oscila e a mente perde a função... Para que pensar quando se pode simplesmente estender o braço e tocar em seu objeto de desejo? Para que se fazer de difícil quando se pode ser fácil e ter mais uma noite de amor com aquela pessoa que você não consegue esquecer?


Então, em um dia qualquer, recebi uma mensagem de Mana. Tinha algo importante a me dizer, e pedia para que nos encontrássemos em um restaurante um pouco distante da gravadora. Inocente, enchi-me de esperanças e me arrumei o mais rápido que pude para que pudesse ir a seu encontro.


Nenhum abraço ou um aperto de mão que fosse. Evitava me olhar nos olhos e parecia preocupado com o horário. Apesar da tranquilidade do local, Mana denotava desconforto em seu modo de agir e falar e, por um segundo, levantou-se fazendo menção de ir embora. Sentindo-me desprezado por ter vindo com tanta expectativa para depois ir embora sem conseguir nada relevante, segurei-lhe o pulso e, apostando na vontade alheia de manter nosso encontro em sigilo, sugeri que conversássemos em outro lugar.


– Seu apartamento? – Disse ele.


– Você que sabe – Sorri pequeno, tentando reprimir minha empolgação. A partir dali, eu sabia como seria...


Ou pelo menos pensava que sabia.


Pedi para que não reparasse na bagunça. Mais que uma frase feita de quem recebe visita, era um pedido verdadeiro, o lugar estava mesmo uma zona e se Mana tivesse dado dois passos a mais teria visto uma cueca no corredor. Devo admitir, fiquei totalmente desleixado quando meu namoro terminou, afinal, se Mana não me visitava mais eu não tinha qualquer motivo.


Ele tomou seu lugar de costume no estofado vermelho, e eu me sentei a seu lado.


– Então...? O que queria me dizer?


Os dígitos quentes tocaram meu rosto em uma carícia delicada, depois descendo por meu braço até tocar minha mão e segurá-la com ternura.


Minhas mãos suavam, meu coração pulava dentro do peito. Os olhos fixos nos lábios tingidos de preto aguardando pela sentença. Estava tudo saindo melhor que a encomenda!


Uma frase, e tudo se acertaria.


– Kaya, eu...


“Sim, Mana...?”


Um suspiro, e sua mão se desprendeu da minha.


– Estou saindo do país. Vou embora com Camui.


... Não. Não era isso o que eu esperava ouvir!