Garasu No Namida
7 VI- I see the dark clouds comin’ up again.
Notas iniciais
Título: Fragmento de Monsoon, Tokio Hotel.
[ Kaya's POV ]
O céu amanheceu encoberto. Mais do que apenas uma mudança de clima, aquele céu refletia meu coração. Completamente nublado.
Levantei-me morto de preguiça, haveria um pequeno show naquela tarde e eu não estava no pique. Na verdade, tudo o que tinha em mente era Mana e nossa relação a ponto de solidificação, passando da água para o gelo em apenas quatro meses de um namoro que nenhum de nós sabia com que propósito havia começado. Parecia bom, parecia... Vivo. Mas, naquela manhã, eu sentia que o tempo não havia mudado só porque a natureza ordenou. Procurei o celular debaixo do travesseiro mandei uma mensagem de texto para Hizaki: “Há algo errado comigo hoje.”
Nervosismo pelo show, ele deve ter pensado, e imagino que você também. Se soubesse que não era isso a que eu me referia... Mesmo em pouco tempo de contrato com a gravadora de Mana, a vida dos palcos já não me era tão assustadora quanto era nos tempos de pequenos clubes e casas noturnas. Cantar e encantar fazia parte de mim, eu havia nascido para encantar e gostava de pensar que não devia aquilo a Mana ou a qualquer outra pessoa que fosse. Era um dom, pertencia a mim e a mim somente. Egoísta e orgulhoso, eu? É, talvez um pouco. Toda manga boa tem um lado que apodrece primeiro.
Voltando ao show, eu realmente não me importava com ele. O que me chateava era o fato de não ter conseguido terminar aquela composição graças à qual conheci meu produtor e namorado, tinha certeza de que seria um ponto marcante tanto para minha carreira quando para surpreender Mana, e isso contava como o plano para resgatar o... Ficaria muito clichê se eu dissesse “calor da paixão” entre nós? Que seja, você entendeu o que eu queria fazer. Chamar a atenção de todos os meios viáveis, inclusive comprar uma fantasia que jamais usaria se não estivesse desesperado.
[ / Kaya’s POV ]
A apresentação foi um sucesso. Kaya, empenhado em fazer seu plano de sedução dar certo (apelando para uma tentativa de causar ciúmes), acabou se excedendo nos fanservices com os dançarinos que foram selecionados para “incrementar” seu show. Ao final deste, ainda fez o favor de anunciar — sem dar qualquer aviso prévio a Mana — que uma nova música estava sendo feita e se comprometeu publicamente a terminá-la e cantá-la em sua próxima apresentação. De longe, podia ver no outro os olhos azuis arregalados a sua expressão se retorcer num misto de curiosidade e raiva por ele estar tomando decisões sozinho. Só não esperava que, descendo do palco, ao invés de levar uma bronca para sentir que seu plano de chamar a atenção tinha dado certo, recebesse de Mana um convite a conhecer o inimigo.
– Camui também veio – Disse ele totalmente despreocupado, não notando a repentina lividez no rosto do companheiro. – Já mandou mensagem dizendo onde está, vamos encontrá-lo.
Relutante, Kaya o seguiu. Sua surpresa ao deparar-se com o dito Gackt Camui era absurdamente maior do que a que podia ser lida em seus olhos. O coração bateu descompassado diante da beleza do homem, e os braços cruzados frente ao tórax só indicavam uma tentativa quase falha de não avançar no namorado que o abraçava com um carinho que ele, Kaya, não recebia.
“Mana, solta ele... Solta logo...”
O fato de haver um rapaz acompanhando Camui não diminuía seu desconforto. Ao ver o amigo, Mana pareceu se esquecer de toda e qualquer coisa ao redor, inclusive do próprio namorado. Mana e ele conversavam tão empolgados sobre assuntos que só os dois entendiam que o vocalista e o namorado de Camui (Hyde, como Kaya ficaria sabendo depois) ficaram literalmente sobrando. Mana não percebeu que seu pequeno havia ficado ainda mais grudento depois daquele pequeno encontro. Indo direto para casa depois daquele momento de tensão, Kaya não conseguia desgrudar do corpo do maior que, com a cabeça cheia de planos e esquecendo-se até mesmo do sermão que passaria no outro pela história da música, entendeu aquilo como um convite para o sexo.
Após passarem uma deliciosa tarde se amando no sofá da sala e repetirem as “brincadeirinhas de casal” durante a madrugada, a relação pareceu voltar ao que era no começo. Um período de cumplicidade e felicidade absoluta que impulsionou Mana a colocar em prática o que há dias vinha maquinando.
– Kaya, você acha que quatro meses são muito tempo? – Perguntou ele numa hilária noite onde Kaya inventou de se fantasiar como um sensual oficial de polícia.
Foi a vez de Kaya arquear uma das sobrancelhas em estranheza à pergunta.
"Que conversa é essa, Mana-Sama? Ah, céus... Ele vai terminar comigo agora!"
– É que... Kaya... Eu...
De um dos bolsos foi tirada uma caixinha de veludo negro. Aberta perante o moreno, a dita revelou em seu interior um belíssimo anel.
– Kaya, você quer se casar comigo?
[ Kaya’s POV ]
As lágrimas turvaram minha visão. Todo meu ar foi levado e tudo o que pude fazer foi cobrir a boca com as mãos, encarando a bonita pedra azul e branca que adornava a aliança.
– Mana, eu...!
Ele me pediu em casamento, ótimo, isso não parece nada ruim, não é? Onde estão as nuvens negras? Um mês depois de chorar e me descabelar aceitando tal pedido, tudo o que essa tal de “união estável” prometia veio abaixo como uma tempestade.
É isso mesmo. No mês seguinte, o noivado acabou. Por alguma estranha obra do destino, Camui terminou com o namorado poucos dias depois... E eu, aguentando o peso de ver Mana quase todos os dias e ter de enxergar nele nada além do que um produtor musical.
Um maldito produtor musical que destruiu minha carreira da maneira mais covarde possível.
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