Gangster

3 Capítulo 3 - O mistério de cada alma humana


O mistério de cada alma humana, até mesmo a de Brian Crawford, é profundo. No caso dele, o que antes era um órgão vivo, um coração de carne, se transformou em pedra; uma rocha que vivia no casulo oco daquele corpo. Antes, a aparência externa era um reflexo do encanto e do esplendor interno. Agora, não passava de uma fachada em busca de um coração que deveria encontrar seu caminho sem auxilio algum, um astro moribundo, faminto dentro de seu próprio vazio.

Hunter entrou na sala particular de seu chefe, onde ele costumava dormir, descansar ou pensar na vida. Imaginou encontrá-lo sozinho, mas Brian estava esparramado no enorme sofá preto, acompanhado de duas garotas seminuas.

— Tá de brincadeira! — Hunter abriu os braços. — O que está fazendo?

— Não consegui me divertir no bar, então trouxe a diversão pra casa. — respondeu com a voz embargada.

Brian fumava em um bong, enquanto uma das garotas o beijava no pescoço, a outra mexia em seus cabelos.

— E o nosso plano? O assalto no banco é amanhã e você está aí...

— Relaxa irmãozinho. — Brian sorriu. — Senta aí, bebe um pouco. Você está precisando.

— E eu achando que a morena tinha mexido com seu cérebro. Parece que não. — Hunter se aproximou, tomando o objeto das mãos do amigo. — Levanta daí, você vai ter muito tempo pra se drogar. Talvez quando estivermos comemorando com o dinheiro do assalto.

— Você é um pé no saco, cara.

— Obrigado, agora vai tomar um banho. Está todo mundo te esperando pra reunião.

— Não preciso de banho. — Brian fez uma careta.

— A gente vai com você, docinho. — disse uma das garotas, sensualmente.

Brian sorriu e levantou, já tirando a camisa.

— Se é assim, vamos lá.

(...)

O vento serpenteava com força, do lado de fora das janelas de vidro. Jenny encolheu-se um pouco mais em suas cobertas, tentando apartar o frio que insistia em atormentar seus braços. Levantou-se impaciente, se aproximando da janela e encarando a árvore que fez parte de sua infância.

Costumava pegar maçãs com a ajuda do pai, sempre se queixando por ser fraca e pequena demais para alcançar a fruta. Ele lhe dizia que muitas pessoas também pensavam da mesma forma, pensavam que não poderiam ser altos e fortes. Dizia que a fraqueza só é fraqueza quando se pensa nela assim.

— Nunca, sob nenhuma situação, desista de sua superioridade. — dizia enquanto levantava a filha para pegar uma maçã.

Pensando nisso, ouviu alguém bater na porta. Sua mãe surgiu com uma bandeja de café da manhã.

— Oi querida.

Jennifer sorriu de lado.

— Adoraria ter vindo te ver quando você chegou, mas seu pai me impediu. Como sempre, ele disse que era coisa de adolescente. — a mulher pôs gentilmente a bandeja com pães, suco, bolo e geleias em cima da cama, aproximando-se da filha. — Agora diga-me, o que houve?

— Eu e Derick terminamos.

— Ah, meu bebê, sinto muito. — ela a abraçou. — Vocês se gostavam tanto...

— Ele me traiu, mãe. — disse séria, engolindo em seco para não chorar. — E eu vi.

Sua mãe não disse nada, apenas continuou a abraçando, consolando-a com a mão em seu cabelo.

— Tente esquecer isso. Você conseguirá superar.

— Espero que sim. — sussurrou mais para si mesma do que para a mãe.

Por volta das quatro da tarde, quando suas lágrimas já haviam cessado, mas sua mente ainda visualizava a cena da traição, o celular da morena tocou. O visor dizia: Charlotte.

— Amiga! Que bom que atendeu! — a voz aguda ecoou de forma dolorosa nos ouvidos de Jenny.

— Oi Charlie.

A ruiva do outro lado da linha surtou.

— O que houve com você? Que voz é essa?

— Aconteceu uma coisa ontem...

— Prossiga.

— Derick me traiu.

— O QUE? — mais uma voz seus ouvidos doeram. — NÃO ACREDITO NISSO! QUE FILHO DA PUTA!

— Pois é, o peguei com outra. A cena foi mais horrível do que você pensa.

— Imagino. — a amiga suspirou. — Então tenho mais motivos para te fazer o convite.

— Que convite?

— Vou dar uma festa e quero você aqui.

— Sério Charlotte? Estou muito mal e sem qualquer ânimo para festas.

— Por isso mesmo. Você tem que mostrar para o Derick que pode muito bem viver sem ele.

— Não, não posso muito bem viver sem ele.

— Deixa de drama, garota! — os ouvidos mais uma vez. — Venha para cá e traga sua roupa mais sexy. Te ajudo a se arrumar para a festa e descolar um gatinho para te fazer esquecer o Derick pelo resto de sua vida.

— Obrigado amiga, mas não dá.

— Argh. — Charlotte resmungou. — Desce aqui e abre a porta para mim.

— Você está aí embaixo?

— É nessas horas que adoro ser sua vizinha.

(...)

Todos encaravam Brian Crawford como se ele falasse apenas atrocidades. E era exatamente isso que ele estava fazendo.

Hunter já não suportava as palavras sem nexo, um plano que nunca daria certo, mas que o amigo, bêbado e drogado, garantia que teriam sucesso. Clarisse, a única mulher de seu grupo, massageava as têmporas incessantemente. Logan coçava a nuca, Martin bocejava. Já houveram reuniões melhores.

— Entenderam? — perguntou Brian, encarando cada um deles.

— Posso dizer uma coisa? — Clarisse foi quem tomou uma iniciativa. — Você está completamente entediado, Brian.

Os garotos olharam para ela.

— Qual é galera, porque não levamos nosso chefinho pra se divertir? Frank acabou lhe dando muita dor de cabeça.

— Ela está certa. — afirmou Hunter.

— Prefiro beber quinze garrafas de uísque sozinho no meu quarto.

— E eu prefiro que você beba quinze garrafas de uísque em uma festa. — Clarisse cruzou os braços. — Vai rolar uma na casa de uma amiga. West Village. Topam?

Quando Clarisse citou “West Village”, Brian não imaginou que uma festa aconteceria ao lado da casa de Jenny, a garota morena que salvara da mira de Frank.

Luzes fortes em pontos estratégicos giravam aleatoriamente no enorme jardim da casa. Talvez servisse para algum camarada flagrar o amigo beijando sua namorada. Uma típica festa abarrotada de adolescentes problemáticos, todos cansados de suas vidas, todos cansados de rotina, bebendo como loucos e dançando como se suas vidas dependessem daquilo.

Hunter pegou a cerveja de algum idiota que passou por ele, tomou um gole e fez uma careta.

— Será que eles têm Green Dragon por aqui?

Brian riu e bateu no ombro do amigo, distanciando-se dele.

Varreu os olhos pelo lugar e quase foi atingido por uma enxurrada de vomito que um garoto liberou. Caminhou pelos arredores e estacou por um momento. Ela estava ali como imaginara. Tão bonita quanto na noite anterior. Seus cabelos loiros cintilavam quando as luzes passavam por eles, usava um vestido florido que lhe dava um ar angelical, e sua maquiagem poderia ser comparada a de uma estrela de Hollywood.

Brian não a conhecia. Não sabia nada sobre ela além do nome. Mas algo lá no fundo de seu coração de pedra saltitou, algo o alertou. E mesmo achando que era uma grande tolice de sua parte, Brian não tirou os olhos da garota nem por um minuto.

— Eu não entendo. — queixou-se Jenny para a amiga. — Tínhamos uma vida sexual ativa! Ele poderia ter sido um pouco menos desesperado.

— Ou um pouco menos ninfomaníaco. — completou Charlotte. — Quer saber amiga, vai ver que ele enjoou da sua cara, foi isso.

— Olha, você está ajudando muito.

— Não quero ajudar! — Charlie segurou a amiga pelos ombros. — Quero que esqueça aquele crápula. Ele te traiu na cara dura e, Jennifer Paterson, nem pense na possibilidade de perdoá-lo. Traição é algo imperdoável.

— Eu sei.

— Mudando totalmente de assunto, — a ruiva olhou para o lado, franzindo a testa. — tem um cara que não tira os olhos de nós. Já estou ficando com medo.

— Onde?

Charlie apontou com o olhar discretamente e Jenny encontrou os olhos de Brian.

— Ah. Meu. Deus. — disse pausadamente, desviando o olhar para qualquer lugar que não fosse aquele garoto. — É o cara do bar.

— Cara do bar? Que cara do bar?

— Ah, eu me esqueci de contar a parte da historia em que eu quase morri. Pra você ver como o Derick mexe com minha consciência.

Charlotte estava boquiaberta, então sua amiga contou-lhe tudo desde o começo.

— Que barra. — estava chocada. — Tudo isso em um só dia? Você precisa é de um banho de sal grosso urgentemente.

— Nem brinca. Acho que foi o pior dia de minha vida.

— Está bem, não vamos mais falar de desgraças.

Dizendo isso, Charlotte sorriu largamente ao ver alguém se aproximando. Arrumou os cabelos e arregalou os olhos para a amiga.

— Quero que conheça uma pessoa. Ele está vindo para cá. Sorria e seja simpática.

— Ele quem?

A ruiva não respondeu. Um homem alto chegou ao encontro dela, dando um simpático “olá” e beijando sua bochecha. Jenny se prepara para sorrir, mas seu sorriso desmanchou-se assim que fitou a expressão sarcástica do homem a sua frente. As cicatrizes na cabeça raspada, o dente de ouro, tudo serviu de amostra para as lembranças. Lembrou-se que aquele homem fazia parte do grupo que a sequestrara.

— Olá. — ele disse sorridente.

— Will, esta é Jenny. — Charlotte o abraçou de lado. — Jenny, este é Will. Estamos... Nos conhecendo.

A morena cumprimentou-o com uma frase qualquer, tipo “muito prazer”. Ele balançou a cabeça e avaliou seu rosto como se estivesse diante de uma pintura moderna. Incomodada com seu gesto, Jenny disse que precisava ligar para a mãe e se distanciou o mais rápido que pôde. Precisava pensar em algo. Não podia deixar que um bandido se aproximasse da melhor amiga. Charlotte estava em perigo.

(...)

Em um estado de atordoamento, olhando para trás diversas vezes, Jenny esbarrou em alguém.

— Oh, desculpa, eu... — levantou o olhar e Brian a encarava meio perdido. — Ah, é você?

— Olá.

— Estou distraída mesmo. Na verdade estou com um problema. E acho que você pode me ajudar.

— O que houve?

— Aquele cara, o careca, que ajudou a me sequestrar... — Brian assentia já temendo pelo que viria. — Bom, ele está aqui.

O jovem suspirou e puxou a morena pelo braço até um lugar que ninguém os visse.

— Ele está atrás de você?

— Não... Quer dizer, eu não sei. Está de rolo com a minha melhor amiga.

Assentiu mais uma vez e se distanciou dela sem dizer mais nada.

— Espera, aonde você vai? — perguntou seguindo-o.

— Vou acabar com a festa.

Notas finais
Oi! Viva eu! Mais um capítulo para vocês... Está todo mundo querendo espancar o Will, e ele está merecendo, mas esperem, Brian não deixará barato ‘hahaha. E para não deixar dúvidas, quero deixar aqui o significado de Green Dragon, que o Hunter cita no 61º parágrafo. Green Dragon é uma bebida de alto teor alcoólico onde mistura maconha. Pensei que muitos não saberiam o que era, não imaginei meus leitores como um monte de drogados :D, mas quem já sabia, é só ignorar esse meu cérebro de doida. Beijos e até mais.