Galhos Suicidas
12 Driano

Flashback
Os três irmãos Umbrana haviam prometido sempre andarem juntos. Naquela edição do Nodos, não se dispersariam. Seu pai havia sido claro: “Vocês só têm uns aos outros. Devem se proteger, se compreender. Não quero saber de ninguém brigando lá dentro. No Nodos, o mais importante é se apoiarem. Sabe-se lá o que vão aprontar nessa edição.”
E eles assim estavam, vagando por gélidos corredores do Nodos por um período de tempo que se assemelhava a dias — o que não poderiam afirmar com certeza. No interior do prédio não haviam relógios ou calendários. Todas as vidraças eram cobertas por vidro embaçado e enegrecido, impedindo a vista do lado de fora. Não se sabia se era noite ou se era dia. A única luz que os guiava era a artifical.
Poliana, Driano e Victriz estavam seguindo às ordens do pai à risca, “Não se desesperem”, “Não se distraiam”, “Demonstrem sensatez e clareza de raciocínio sempre”, “Não importa o quão ameaçadora seja a situação ou dolorosa a sensação, não passa de uma simulação, não é real” — embora a sensação de medo e ansiedade do que haveria por vir fosse sufocante.
Estavam andando os três em um corredor, até encontrarem a entrada de um salão. Animaram-se. “Finalmente, alguma coisa além de só corredor!” Exclamou Victriz, correndo até a entrada do salão.
Driano berrou: “Não, Victriz, espera! Pode ser uma armadilha!” Correram para tentar alcançá-la, mas era tarde demais. Ao atravessar o arco de entrada para o salão, desapareceu.
“Victriz!!” Exclamou Poliana. Os dois correram para dentro do salão.
Era grande e azulado. Tinha um formato circular. As paredes, o teto e o chão eram completamente de vidro — revelando uma vista magnífica à beira de uma montanha. Abaixo deles, uma cachoeira. Tinham a impressão de estar pisando nus cascatas, que desciam por quilômetros de precipício.
Definitivamente estavam dentro de uma simulação.
No final do magnífico salão, dois tronos medievais. Poliana e Driano olharam um para o outro.
Estavam com trajes medievais. Ambos de azul-claro e com coroas na cabeça.
“Mas o quê…?” Começou Driano.
“Esta deve ser a nossa prova Macro.” Sugeriu Poliana. “Vão nos fazer simular monarcas de verdade, em algum contexto que o sistema criou.”
Driano franziu o cenho. Cada participante do Nodos, em todas as edições, recebiam uma prova Macro e outra Micro. A Macro era diversa e variada — tratava-se do contexto que cada participante era submetido. Poderiam simular ambientes de guerra, escravidão, reformular outros momentos históricos ou até mesmo um universo paralelo em que o participante operasse como Deus. A prova Macro era destinada a cada participante de acordo com as potencialidades avaliadas em cada um.
Em um mesmo Nodos, poderiam ter milhares de provas Macro diferentes. Um mesmo participante pode ter mais de uma prova Macro em uma mesma edição do Nodos, dependendo de seu rendimento. Vários participantes poderiam estar em uma mesma prova Macro, de forma aleatória ou não.
Estas provas Macro, entretanto, poderiam não só se repetir na mesma edição com participantes diferentes, mas também em diferentes edições de Nodos. Eram previsíveis. Não eram a novidade aguardada por todos que acompanhavam o evento. A grande surpresa de cada Nodos era a prova Micro.
A prova Micro era submetida a todos os participantes do Nodos de forma igual, sem exceção. Tratava-se de alguma espécie de circunstância, fator que dificultasse o êxito dos jogadores nas provas Macro.
E Driano ainda estava tentando descobrir qual seria prova Micro daquela edição.
“Ainda bem que estamos juntos nesta prova, mas… Onde está Victriz?” Perguntou Driano.
“O sistema deve ter achado melhor submetê-la a outra prova. Sabíamos que corremos este risco.” Respondeu Poliana.
“Bravo.” A voz de Victriz ressoou ao longo do salão, junto ao som de palmas sarcásticas. “Vocês são geniais.”
Os dois se viraram para a voz. Ali estava Victriz, também em trajes medievais. Esta, entretanto, não aparentava ser um membro real. Não tinha joias, coroa ou um penteado bonitos. Seu longo cabelo estava solto e despenteado. Seus ombros estavam curvos. Seu sorriso e olhos manifestavam insanidade.
Poliana deu um passo no intuito de dar-lhe um abraço. A mão de Driano em seu ombro a impediu.
“Driano, o que foi?” Poliana voltou a ele, estarrecida. Victriz inclinou a cabeça, dando uma gargalhada perturbadora.
“Essa não é a Victriz, Poliana.”
Victriz avançou em alguns passos, claramente intimidadores. Driano tirou a espada do estojo em sua cintura.
“Essa não é ela.”
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Driano sentiu calafrios quando pisou na ponte em frente à estrada principal do Nodos. Multidões se deslocavam na direção do prédio. Todas as memórias do que já havia vivido ali vieram à tona. Aquelas simulações enlouquecedoras pareciam lhe acompanhar em quase todos os sonhos, e também na maior parte de sua vida real.
E ali estava, para viver tudo de novo. Driano se perguntava se sua prova Macro seria a mesma da última vez. Surpreendentemente, gostava da ideia. Sentira saudades de seu reino, Bermânia.
Sentiu a mão de Poliana apertando a sua. “Imagina se voltarmos a ser da dinastia Trenossa?” Os dois riram.
“Estava pensando a mesma coisa.”
Flora, que estava ao lado e ouvia a conversa, acompanhou a risada. “Eu me lembro! Mamãe, você me contava essa história quando eu era criança. No dia em que descobri que na verdade a história era a simulação que vocês tiveram no Nodos e que vocês eram realmente os heróis da história, quase infartei.”
Poliana riu. “Sim, até pensei em escrever a história que vivemos e publicar… Mas o Nodos já é público, e todos os que querem ver a nossa prova Macro já assistem…”
A prova Macro de Poliana e Driano havia se popularizado. A história dos reis de Bermânia era um dos arquivos do Nodos mais baixados em todo o Sistema Solar. Em parte, foi responsável pela ascenção dos dois irmãos como celebridades da mídia.
Por outra parte, dava-se ao fato de serem irmãos da rainha Victriz. Muito chamavam-nos de “A tríplice coroa” ou “Os três reis”.
Tinham até mesmo fãs. Estes torciam para que o sistema reformulasse a prova Macro dos dois irmãos no mesmo contexto, para que a história pudesse ter uma espécie de continuação.
Flora comentou: “Se acontecer da prova Macro de vocês ser a mesma, quero estar perto. Quem sabe não viro uma princesa!”
Graco sorriu de canto. Se fosse o caso, também tentaria ao máximo entrar na mesma prova Macro deles. Temia ser ofuscado pelas grandes personalidades de Poliana e Driano, mas também seria uma forma de “eternizar seu legado” no Nodos, caso não fosse o vencedor.
E claro, queria estar próximo de Flora.
Glaura, que ouvia a tudo que diziam, fazia as mesmas notas mentais de Graco.
Algumas horas se passaram até todos os participantes se deslocarem para o interior do prédio do Nodos.
O prédio Nodos havia sido popularmente apelidado de “Grande Árvore” devido ao seu formato. Os andares se ramificavam de forma semelhante à copas de árvores. O prédio era suportado por uma grande estrutura metálica. Não havia cimento em sua constituição. O exterior era inteiramente coberto por vidro — e o interior (chão, teto, paredes) também eram ora de metal, ora de vidro.
Uma voz robótica ressoou em toda a Grande Árvore. “O sistema Nodos iniciará em…
5…”
Poliana apertou as mãos de Driano e Flora bem forte. “Não ousem se afastar de mim nem por um minuto.” Sussurrou.
“4…”
As vidraças enegrecidas começaram a baixar, cobrindo aos poucos a luz do Sol.
“3…”
Flora pegou a mão de Graco. “Boa sorte.”
“2…” O coração de Graco começou a disparar. Não soube ao certo exatamente porquê: por ansiedade ou pelo toque de Flora. Ele apertou sua mão.
“1…” Driano ofereceu sua mão em direção à Glaura. Surpresa com o ato, aceitou-a.
Escuridão completa.
Todos os murmúrios e gritos da multidão foram substituídos por silêncio.
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