Galhos Suicidas
13 Lenora

Brianna estava sentada em sua cama, conversando com o avatar de Lenora projetado na tela da parede. Ela estava encantada com o cabelo rosa do personagem virtual.
“Quando eu crescer, vou pintar o meu cabelo de rosa.” Comentou.
Lenora ergueu a sobrancelha. Suas expressões humanoides eram tão espontâneas que chegavam a ser assustadoras. O gráfico da imagem era de alta qualidade; o avatar assemelhava-se a um ser humano real.
Tão diferente de sua forma robótica real, que era um design completamente prateado… Mas Brianna gostava mais da versão virtual de Lenora.
“Tenha certeza de perguntar a Driano antes. Creio que ele não vai gostar de saber que você se inspirou em mim.”
Brianna riu. Ismália e Lenora haviam saído para passear, mas a última lhe fazia companhia via rede.
“Lenora…”
“Sim?”
“Você tem aí os arquivos do outro Nodos? Aquele que o meu pai participou… E era o rei de Trenossa!”
Lenora sorriu. “O Nodos está começando agora. Não quer que eu te mostre a transmissão?”
“Nããão. Eu tava vendo até agora, mas tá muito chato. Só tem um bando de comentarista falando. Quero assistir o de antes! Meu pai nunca me deixou ver…”
“Deve ter um motivo pra isso, não?”
“Ah… Por favooor! Por favor, por favor, por favor, por favor!”
Lenora cruzou os braços. Brianna continuou a insistir. “Ele não pode me esconder isso pra sempre!”
Suspirando, Lenora resolveu transmitir a prova Macro de Driano no Nodos anterior. De forma editada e comentada, claro.
Ao longo que assistia, Brianna franziu o cenho. “Por que a tia Victriz está má…?”
“Ela não é a sua tia, Brianna. É a sua projeção. O seu ID materializado. Essa havia sido a prova Micro daquele ano: lidar com a materialização da pior versão de si mesmo. Essa daí é o dela.”
“Ah, tá… Papai tinha me comentado alguma coisa disso… Do lado ruim… Mas… Cadê a Victriz de verdade? Porquê ela não tá aparecendo?”
Lenora sorriu de leve. “Ela só apareceu no final da prova Macro. Pelo menos, pros seus irmãos.”
“Hm.” Brianna assentiu. “E cadê o mau do papai? E da tia Poliana?”
“... Vou te mostrar o da sua tia.”
E buscou entreter a garota, para que ela não mais perguntasse sobre o desafio Micro de seu pai.
—----
Ismália estava em um restaurante, acompanhada de Lenora. Ela estava se sentindo muito feliz, com uma tranquilidade que até então desconhecia. Andava pelas ruas pouco movimentadas de Plutão sem grande alarde. Não havia excesso de informação, luzes…
Como gostaria de poder ter vivido ali a vida inteira. Mal conseguia se lembrar dos problemas da Terra. Tudo lhe parecia tão distante… E realmente assim estava.
Mas é claro, nada poderia ser perfeito. Os hologramas de todo o restaurante se ligaram, passando a transmitir o Nodos.
Ismália soltou um palavrão. ‘Não adianta, vai me perseguir até o inferno.’
Ela inclinou sua cabeça, apoiando-a em sua mão. Assistiria, de qualquer forma. Estava disposta a gargalhar daquilo, lembrar-se da sorte que era não estar ali. De não estar se sujeitando a mais uma situação de extrema exposição.
Sorriu levemente.
Viu os visores de vidro de Lenora analisarem-a intensamente, lendo suas expressões para interpretar suas emoções. Fazia isso com frequência.
As telas transmitiam o início do Nodos. As multidões de participantes avançando aos poucos para o interior da Grande Árvore. Muitos acenavam para as câmeras.
Mas é claro que a mídia estava focada nos principais participantes.
A polêmica família Umbrana. Ouviu alguns comentaristas falarem sobre Ismália, até mesmo especulando o que poderia ter acontecido com ela para não estar participando do “espetacular” Nodos.
‘Quaanto sensacionalismo.’
Seus tios, Driano e Poliana, estavam vestidos de preto. Para seu estranhamento, Flora também. Talvez estivessem tentando passar a imagem de uma família unida, ou estivessem prestando respeito à Victriz de alguma forma.
Ismália bufou. Era bom que estivessem assim no início do Nodos, pelo menos. Pelo o que havia assistido dos arquivos do Nodos anterior — aquele marketing gratuito e manipulado de família perfeita que seus tios haviam projetado, e que lhe rendera a pressão para manter o papel de filha/princesa exemplar a vida inteira — sairiam dali lucrando muito, se por ventura o Nodos continuasse com a história dos Trenossa em suas provas Macro.
Perguntou-se se Olga teria alguma forma de controle quanto e isso — e que, se tivesse, se faria a vontade do público de oferecer uma “continuação” da prova Macro anterior no caso deles. Não sabia interpretar Olga muito bem, e isso a angustiava. Ismália sempre fora infalível em interpretar pessoas… Um dos poucos orgulhos dos quais conseguia ter.
Normalmente duvidaria da possibilidade. “O Nodos é imprevisível.” Com certeza os irmãos Umbrana não seriam lançados novamente em um mesmo contexto que os favorecesse… Será? Talvez, exatamente por ser imprevisível, o Nodos quebraria com a expectativa de fazer algo diferente fazendo… A mesma coisa?
O paradoxo deixou Ismália com dor de cabeça. Não perderia mais tempo tentando raciocinar aquilo. Dali a pouco todas as suas respostas seriam respondidas, de qualquer forma.
Do lado de sua família, estavam outras personalidades famosas. Glaura, insuportavelmente simpática e carismática. ‘Claro que ela não perderia essa oportunidade.’ Graco também estava por perto. Ainda que soubesse que seu amigo tivesse intenções não tão puras ao se aproximar da atenção dos Umbrana e da Clarson, sorriu. Queria poder chamá-lo para uma visita. Queria poder arrastá-lo para Plutão com ela, se pudesse.
Mas ele definitivamente era ambicioso demais para se satisfazer com uma vida pacata.
Ismália gostava de pensar nos dois como opostos — embora tivessem muito em comum. Enquanto Ismália havia nascido com todas as oportunidades para ser uma figura de destaque e almejava fugir dos holofotes, Graco era de origem simples e faria de tudo para ser notado.
A jovem Umbrana tentava se perdoar por não estar ao lado de Graco naquele momento. ‘Melhor assim. Acho que o Nodos iria expor o pior de mim para ele… E arruinaria tudo.’
Ismália franziu o cenho. Não encontrou Ravi, aquele rapaz irritante do Parlamento, protegido de Jade, em lugar algum. Muito provavelmente também não havia tido coragem de participar do Nodos.
Revirou os olhos ao se lembrar dele, e da forma insistente e desagradável que Ravi a seguia para todos os cantos quando ainda era estagiária. Patético.
Jade também estava ali, rindo ao comentar algo com Poliana. ‘Não é possível que vai tentar se engraçar com a minha tia também.’
Mas em um ato inesperado, Jade acenou para as câmeras como alguém que se despede. Virou as costas e passou a andar contra a multidão.
Ismália franziu o cenho. ‘Como?’
Ouviu as vozes de alguns comentaristas distantes afirmarem coisas como: “O Nodos mal começou e já estamos com reviravoltas emocionantes!”, “Surpreendentemente, o Ministro de Relações Interplanetárias não vai participar do Nodos!”, “Jade simplesmente se despediu com uma continência charmosa e está se distanciando, como se nada estivesse acontecendo! Até a multidão abre espaço para ele passar! Que homem!”, “Já estou vendo virar meme! Ninguém esperava por isso, deixou todos os mundos de boca aberta!”, “Isso que é sair com estilo!” e até mesmo “Será que é uma forma de protesto? Jade está explicitamente tomando partido de Victriz, e dando uma esnobada na Olga em rede interplanetária? Ou será que é uma jogada de marketing Mas o que que é isso, eim?!”.
“Me diz aí, princesa.” Um homem sentou-se ao seu lado, puxando assunto. “Qual desses aí está certo?”
Ismália virou o pescoço em direção ao homem em um movimento brusco, ainda surpreendida pelo susto. O homem riu, erguendo as mãos em sinal de rendição.
“Estou em missão de paz.” Ele disse, rindo. “Não quis te assustar.”
Ismália não sabia bem como reagir. Aquele homem poderia tê-la reconhecido, chamando-a de princesa por saber de quem era filha e perguntando-lhe o que achava que seu pai, Jade, estava fazendo. Ou poderia ser só alguém aleatório flertando.
Olhou para Lenora. Normalmente era ela quem reagia por Ismália. Por ver a face da robô fixada da direção do homem, sabia que o estava analisando.
Ismália aguardou alguns segundos. Já que Lenora não reagira, interpretou aquilo como uma não-ameaça.
Ismália suspirou, relaxando os ombros. “Olha… Eu não faço a menor ideia. Essas pessoas da Capital são meio loucas.”
O homem sorriu. A jovem permitiu-se analisar um pouco mais suas feições. Tinha olhos claros, cabelos longos e negros… Inegavelmente bonito. Reparou que seu sotaque não era terráqueo.
“Não poderia concordar mais.” Respondeu ele, após alguns segundos a mais de silêncio. Ele aparentemente também tinha se dado à liberdade de analisar as feições de Ismália, agora que estava mais próximo. Ela sentiu seu rosto esquentar.
“Eu sou o Kai.” Ele disse, estendo a mão em um ato cordial. “É um prazer te conhecer.”
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