Galhos Suicidas
2 Crystal

Crystal sentou-se na lanchonete em que mais se sentiu confortável — ou seja, na menor e mais discreta que conseguira encontrar na Capital.
Tentava se servir se forma educada e normal, como se não estivesse surpreendida por cada pequeno aspecto daquele lugar. Aquela cidade. A Terra. Tudo era definitivamente tão mais avançado do que tudo que já havia visto em Mercúrio…
Apesar de nunca ter sido necessariamente a pessoa mais estudiosa de sua escola, fizera questão de revisar cada pequeno detalhe de seu livro de história. ‘Engraçado… Acho que não vi nenhum livro com páginas de papel desde que cheguei aqui.’ Normalmente espera-se de qualquer civil do Sistema Solar saber noções históricas básicas de relações interplanetárias, mas Crystal tivera uma criação muito conservadora. Seu pai participava de uma pequena organização ultranacionalista de Mercúrio, que buscava se isolar ao máximo de qualquer forma de tecnologia oriunda da Terra. Não que isso fosse completamente possível, lógico. Mércúrio não tem condições naturais de suportar a vida humana sem um pouco de interferência tecnológica.
Crystal repetia mentalmente para revisar: ‘Terra é a Sede Principal da União Interplanetária Solar. Os outros integrantes são submissos a essa Sede. Seus participantes oficiais devidamente habitados além da Terra são Mercúrio, Marte e Plutão. Júpiter apresenta alguns satélites dedicados exclusivamente para a atividades turísticas. A pequenina população estabelecida nas proximidades de Saturno dedicam-se à atividade extrativista. A ocupação de Urano ainda está em andamento — não com muito êxito — e Netuno, por enquanto, não é de interesse da Sede Principal. Dizem que os criminosos se aproveitam disso para negociar em Netuno… Alguns chamam Netuno de “o planeta pirata”. Vênus… Foi o único planeta isolado da União Interplanetária Solar, após se rebelar da Terra e proclamar independência.’
Os primanos — forma que os participantes que o grupo de seu pai se autointitulavam — visavam seguir os passos de Vênus futuramente. Recusavam-se a se intitularem de mercurianos. “Mercúrio é um nome que veio de herança da cultura terráquea! Não somos terráqueos, não vamos nos chamar assim! Somos os primeiros, o planeta mais próximo do Sol!”
Crystal orgulhava-se muito de seu planeta — e achava que a teoria primana tinha ali um fundo de verdade. Não podia negar, entretanto, que o fanatismo de seu pai não raras vezes a constrangia. O Estado de Mercúrio obrigava seu pai a matriculá-la na escola — se não fosse por isso, sabia que sua educação seria feita em casa — e havia optado por não explicitar tanto atrito ideológico com seu pai. Mas sabia que, dali a alguns anos, quando estivesse em idade universitária e expressasse sua vontade de viajar pelo Sistema Solar, corria o risco de ser renegada e deserdada.
Estava cada dia mais disposta a correr o risco.
Aproveitou um feriado para viajar para a casa de uma amiga que morava em outra cidade. De lá, aproveitou para viajar rapidamente para a Terra por via teletransporte.
Se seu pai desconfiasse que Crystal se submeteu a se desmaterializar para se materializar novamente em outro planeta, teria uma síncope nervosa.
E ali estava. Jovem rebelde. Tomando alguma coisa que não sabia o nome, mas era muito gostosa, em um lugar que parecia estar séculos à sua frente.
Não que Mercúrio fosse completamente arcaico no ponto de vista tecnológico. Tinham muitas das tecnologias — se não a maioria das — também presentes na Terra, mas tudo na Capital era de última geração. Possivelmente a impressão que passava isso era o design cada vez mais ousados para os mesmos objetos. Não eram as funções que pareciam mudar, e sim suas embalagens.
Uma chamada na tela de notícias chamou a sua atenção. A rainha Victriz havia sido presa.
Crystal arregalou os olhos e abriu a boca. ‘O quê?!’
A barulhenta megalópole, por um segundo, pareceu se calar. Todos nas ruas pareciam estupefatos. Escandalizados. Ninguém conseguia acreditar no que tinham acabado de ouvir.
‘Como? Como?! É impossível!’
Crystal franziu o cenho, buscando no fundo de suas memórias alguma explicação plausível. ‘Os reis terráqueos, aqueles soberanos responsáveis por governar não apenas a Terra como, basicamente, todo o Sistema Solar — são “escolhidos” através do evento Nodos. Nodos, que ocorre em uma megaestrutura e tem a tecnologia suficiente para analisar e testar a personalidade e o inconsciente de cada um dos participantes, até apontar um vencedor: alguém ideal para governar, sem maiores instabilidades, equívocos e riscos de corrupção. É um sistema tecnológico fechado e altamente complexo, gerenciado por uma extensa comunidade anônima; o que evita a possibilidade de interferência de interesses próprios. Por séculos, o Nodos funcionou com êxito e mostrou eficiência em apontar os melhores governantes. Todos confiam no Nodos. O Nodos é infalível.’
Mas… A rainha Victriz foi presa. Cometeu um crime. O que só a fez deduzir algumas opções:
1) Nodos falhou.
‘Não. Está fora de questão.’
2) A rainha Victriz agiu certo e a Justiça, cujos membros são eleitos democraticamente assim como no Parlamento, foi corrupta.
‘Definitivamente. A rainha Victriz é uma pessoa correta, sensata. Jamais arriscaria o que tem.’
Muitos pareceram seguir a mesma linha de raciocínio de Crystal, ao vaiar os membros da Corte (nome dado ao conjunto de Justiça e Parlamento) e demonstrar apoio à rainha Victriz.
Crystal coçou a testa. Seu pai e os outros primanos deviam estar soltando fogos de artifício por agora. Uma Sede em crise possibilitaria outra independência. Seja como fosse, a garota julgou que não era uma boa ideia ficar na Terra por muito tempo.
A loira correu em direção ao Teleporto o mais rápido que pôde. As notícias ecoavam ao longo das ruas: a rainha já estava sendo encaminhada à Lua, a prisão com o maior nível de segurança em todo o Sistema Solar.
As entradas do Teleporto estavam abarrotadas de pessoas igualmente desesperadas. Após alguns minutos, nos quais os fiscais do Teleporto empurraram a multidão para fora do estabelecimento, foi anunciado no auto-falante: “Por motivos de segurança, as viagens interplanetárias estão momentaneamente suspensas.”
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