Graco era um estagiário do Parlamento. Aquela semana estava sendo extremamente agitada para todos no gabinete. Como se já não bastasse toda a burocracia com que estava tendo que lidar — questionamentos de líderes de outros planetas, manifestações populares e o próprio procedimento do julgamento em si — estava preocupado com a situação de sua amiga Ismália, com a qual não podia contactar. Estava ansioso para perguntar a sua situação para seu mentor, Driano — tio de Ismália, irmão da rainha Victriz e membro do Parlamento — mas este parecia estar muito ocupado. ‘Nada mais natural, com a situação como está.’

Ravi era outro estagiário, com o qual tinha que conviver com desagradável frequência. Ele era protegido de Jade, o Ministro de Relações Interplanetárias do Parlamento. E para a sua tristeza, era pai de Ismália. Graco também não desfrutava de grande simpatia com Jade — achava-o… Metido demais.

Tal mentor, tal protegido.

Em um dia de trabalho, Ravi foi até Graco. “Nós faremos um interrogatório público de Ismália daqui a cinco dias; comunique ao seu mentor.”

Graco ergueu a sobrancelha, abismado. “Espero que tenha o atestado do psiquiatra da princesa em mãos.”

“O psiquiatra encaminhou o caso para o Ministro de Saúde, que alega que ela está em condição legal de responder.”

“O Ministro da Saúde nem é médico!” ‘E duvido que tenham chegado a analisar Ismália! Estão querendo se aproveitar dela… E o que levaria o psiquiatra a “encaminhar o caso…?”’ Completou com o pensamento.

“E você, é? Para poder julgar a situação dela?” E foi embora. Conteve o punho para não socá-lo.

E pensar que Jade — aquele insensível, que trata a filha como lixo — provavelmente havia permitido tal interrogatório… Compreendia a necessidade, claro… Mas ainda sim. Ele sempre colocava o trabalho acima da própria família.

Isso o enojava.

Seu olhar se intensificou. ‘Vou ter todas essas pessoas… Na palma da minha mão.’

Afinal, não era ele que tinha a péssima mania de ser manipulador? Era o que Ismália tinha alegado, na última vez em que se encontraram. Ela estava… Péssima.

Ela já apresentava ataques de pânico antes mesmo de todas as acusações serem levantadas contra a rainha Victriz. O quadro estava piorando nos últimos meses. Não aparecia em público há um tempo.

“Sabe que, se eu fosse um pouco mais esperta, teria me fingido de doente há muito tempo para não ter que ir naqueles eventos da Corte.” Disse ela, deitada e enferma.

Graco sorriu. “Você não ia aguentar.”

Ismália ergueu a sobrancelha. “Claro que ia. É tudo o que eu quero na vida!”

“E deixar a Glaura lá, puxando o saco da sua mãe?”

A expressão de Ismália fechou. “Não me fala daquela lá. Eu mereço descanso.”

Graco sabia que Ismália nutria uma intensa antipatia de Glaura, a filha do herói Ivan Clarson. Glaura era uma figura muito popular na mídia. Também estagiária no Parlamento, era carismática e bonita. Seu pai morrera na Guerra contra Vênus. Quando era criança, Glaura foi vítima de um ato terrorista de um venusiano: arrancaram-lhe a orelha direita, que hoje em dia cobria com seu espesso cabelo ruivo.

Glaura estava estudando diplomacia, era outra protegida de Jade. Graco achava-a legal e simpática; sabia que a implicância de Ismália devia-se a, exclusivamente, inveja. A sua amiga sempre teve a pressão de ser exposta ao público por ser filha da rainha Victriz, mas nunca havia se sentido confortável com isso. Glaura tinha essa mesma exposição, mas lidava extremamente bem a ela. Destacar-se era natural.

Jade era amigo íntimo de Ivan Clarson. Comprometeu-se a ser tutor de Glaura, desde quando ela ainda era uma criança desamparada com a família inteira executada. A família Clarson tinha uma longa tradição com diplomacia.

Ismália, portanto, desenvolvera esse complexo em relação à Glaura provavelmente porque esta recebia mais atenção de Jade do que ela própria… E odiava isso. “A impressão é a de que eu só aceitei ser protegida da minha mãe para poder irritar Glaura de alguma forma. Eu sei que ela morreria para ser protegida dela.”

“Nada impede a sua mãe de acolher a Glaura também, sabe.”

“Por isso eu faço questão de dar tanto trabalho: para que ela não o faça.” Tentava se convencer. Riram.

“Você vai mesmo se prender a essa vida só pra infernizar a Glaura? Você tem que se declarar pra ela logo!”

Ismália revirou os olhos. “Claro que não. Assim que eu melhorar, vou fugir pra Plutão. De lá não saio mais.”

“Sua mãe jamais deixaria.”

“Ela não tem que deixar. E se implicar, eu ameaço fugir pra Vênus.”

Graco negou com a cabeça. “Você não teria coragem.”

Ismália sorriu, provocante. “Você não sabe de nada.”

O rapaz suspirou. “Você me deixaria te visitar, não é?”

A garota abriu a boca para soltar um “Claro!”, mas preferiu usar a oportunidade a seu favor.

“Depende.”

“Depende do quê?”

“Se você largar de tentar sempre dar em cima da Glaura, talvez eu te dê a permissão de me ver.”

Graco revirou os olhos. “Eu não dou em cima dela.”

“Ah, não dá.” Ironizou. “Aposto que o motivo de você implicar tanto com o Ravi é porque ele tem a oportunidade de trabalhar coladinho nela…”

“Eu não vou com a cara dele porque ele é um nojento. A Glaura é uma pessoa incrível, e eu acho que você devia dar uma chance pra ser amiga dela, mas ela não faz o meu tipo.”

Ismália ergueu a sobrancelha. “E o que faz o seu tipo?”

Graco imediatamente pensou em Flora. Outra estagiária no Parlamento. Prima de Ismália. Alegre, colorida. O trabalho nunca ficava estressante quando ela estava por perto.

Mas não falaria isso com Ismália. Ela já tinha síndrome de rejeição o suficiente para uma vida só.

“O meu tipo é trabalhar.” Respondeu, levantando-se.

Ismália suspirou, após um longo silêncio. “Graco…”

“Sim…?”

“Se eu te perguntar uma coisa… Você promete ser honesto comigo? Por favor.”

“Claro.”

“Eu… Vejo você sendo todo esperto e manipulando todo mundo quando precisa… Sempre garantindo seu espaço. Você… É meu amigo só pela influência? Ou é mesmo meu amigo?” Seus olhos estavam profundamente devastados.

O psiquiatra de Ismália avisou-lhe que ela precisaria de muitas repetições, pois tenderia a desconfiar de tudo e de todos.

Não que Graco achasse ruim desconfiar de tudo e de todos. Era essencial para a sobrevivência.

“Ismália… Que tipo de influência eu conseguiria fingindo ser seu amigo? No clube pirigótico?”

Ela lhe arremessou um travesseiro. “Você é um falso, isso sim. E você gosta da Glaura.”

O psiquiatra entrou no quarto, avisando que era hora de Ismália tomar um remédio para dormir. Graco levantou-se e foi em direção à porta.

“Se vocês se casarem… Prometa me convidar ao casamento.” Ela disse, como despedida. “Eu adoraria arruinar tudo.”

“Pode deixar.” Respondeu, com um sorriso triste.