Galhos Suicidas
10 Brianna

Brianna estava de mãos dadas com Flora.
“Estou feliz que vou ver Ismália! Ela já sarou?”
Flora sorriu, ajoelhando-se ao seu nível. “Quase lá, Brianna. Ainda não é 100%. Seu pai te explicou como você tem que se comportar?”
‘Se é que ele já não faz isso sempre?’ Acrescentou Flora, mentalmente.
“Sim sim. Eu tenho que me controlar. Não posso gritar, correr, ou pular. Nem abraçar muito forte nem puxar muito a Ismália.” Brianna assentiu enquanto falava.
“Isso mesmo. Veja bem, Brianna… Ismália vai estar um pouquinho diferente desde a última vez que vimos ela…”
“Como você sabe disso, se da última vez que a viu ela estava diferente?” Na verdade, a estagiária já havia a visto no Julgamento. Mas não sabia até quanto Driano havia contado para Brianna, então achou melhor não se estender neste assunto.
Flora riu, graciosamente. “Detalhes. O que quero dizer, é que ela vai estar mais magra, mais pálida, com o cabelo curto…”
“Cabelo curto?! Ela tinha o cabelo maior que o seu!” Exclamou a criança. “Ela ficou bonita?”
“Eu achei que sim. Combinou mais com ela, exclusive.” Flora sempre achou que Ismália usava aquele cabelo longo e impecavelmente sedoso como uma forma de armadura, de se reafirmar. “Eu sou a princesa e sou imbatível.” Manter aquela aparência que só quem não a conhecia acreditava. “Mas enfim, Brianna… O olhar dela pode estar um pouco disperso, a mão dela pode tremer um pouco, ela pode estar fraca… Pode não querer abraçar a gente, pode não sorrir muito. Mas não leve a mal, está bem? Está sendo um momento muito difícil pra ela.”
Brianna deu de ombros. “Eu entendo. Não se preocupe, vou ser boazinha.” Flora se levantou, colocando a mão em sua cabeça. “Você sempre é.”
As portas do elevador se abriram. As duas entraram no apartamento, onde Driano, Jade e Poliana já as esperavam.
Eles haviam subido antes sem elas para que os presentes coubessem no elevador.
Ou melhor, o presente de Poliana. A embalagem brilhante e chamativa deste parecia ocupar o mesmo espaço de um homem obeso mórbido.
“Mamãe, você é muito exagerada…” Comentou Flora, olhando para o presente mais uma vez.
Poliana mostrou a língua. “Eu faço o que eu quiser. Sou uma mulher forte e independente.”
Driano ergueu a sobrancelha. “Só cuidado para não deixar a Ismália claustrofóbica com esse… Filhote de mamute.”
Poliana deu um tapinha no braço de Driano, que riu. Eles eram gêmeos, e haviam nascido antes de Victriz. Ao lembrar-se de Victriz, o coração de Flora pareceu apertar.
A robô foi até eles. “Sejam bem-vindos. Ismália está pronta para recebê-los.”
Flora segurou a respiração quando ouviu a exclamação de surpresa e alegria de Brianna. Quando olhou para a prima mais nova, seus olhos estavam brilhando e esta estava batendo palmas de êxtase.
“Papai, por que eu não posso ter um robô só pra mim?!” Flora segurou o riso. Já era tarde demais.
Driano olhou para a filha com um olhar reprovador. “O que eu falei sobre gritar, Brianna?”
Poliana riu, abraçando Brianna. “Por que você não precisa, meu bem. Esta robô é enfermeira, está cuidando de Ismália. Inclusive… Qual o seu nome?”
“Minha paciente ainda não me deu um nome, senhora.” Respondeu a robô.
“Por favor, não me chame de senhora. Sou Poliana. Ora, mas temos que te dar um nome! O que acha, Brianna? Que nome damos para ela?”
“Não cabe a vocês dar um nome, Pol…” Interviu Driano. Poliana o interrompeu:
“Eu faço o que eu quiser, Driano! Para de ser velho!” Flora e Brianna definitivamente não conseguiram segurar o riso. Driano revirou os olhos.
“Lenora! Vamos chamar ela de Lenora!” Brianna exclamou, pulando. Driano enterrou a testa na própria mão.
Poliana e Flora trocaram olhares questionadores. “Por quê Lenora?” “De onde você tirou esse nome?”
Brianna olhou para o chão. “... É um nome que eu vi em um livro que o papai está lendo…”
“Quantas vezes já falei para não mexer nos meus arquivos, Brianna?” Questionou Driano, com as mãos na cintura.
“Desculpa…”
“Eu acho Lenora um ótimo nome.” Disse Ismália, encostada à porta. “Pode ser o nome da robô, agora.”
Ismália estava surpreendentemente… Bem. Melhor do que todos ali esperavam. Não haviam olheiras. Ela estava sorrindo.
“Mas… O que é isso?” Ismália riu ao ver a grande embalagem. “É meu aniversário e eu esqueci?”
Flora foi até ela e lhe deu um abraço apertado. Ismália retribuiu com honestidade. “A gente sentiu a sua falta.”
Ismália apertou os olhos para não chorar. “Umas férias de mim faz bem.”
Poliana foi a próxima a se aproximar das duas em um abraço de urso. “Ah, Ismália, não repare. Eu só precisei trazer um presentão. Foi mais forte do que eu.”
“Que isso, tia, que isso.”
Driano já estava em posição de segurar Brianna se ela tentasse pular nelas para se juntar ao abraço. Viu que não precisava, entretanto, ao reparar que sua filha estava entretida o suficiente com a rob… Lenora.
“Que engraçado, você não ter pés! A maioria dos robôs que eu já vi tem pés com rodas, para variar dependendo da situação, mas você só tem uma roda! Isso é tão legal! Você lembra da fábrica que foi feita? Você quer ser minha amiga? Eu te dou o meu celular, aí a gente se fala! Como é o seu avatar virtual?”
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A tarde foi muito agradável para todos. Ismália parecia estar muito mais saudável do que sua última aparição pública.
Todos já haviam ido embora, menos Jade. Eles estavam conversando, sentados na sala.
Fazia muito tempo desde que… Conversaram. Ismália estava disposta a parar de gastar tanta energia detestando o próprio pai por não ser como ela queria. Apenas aproveitaria sua companhia enquanto a tinha, e deixaria de sofrer tanto com isso.
Pelo menos era o que o seu terapeuta havia recomendado.
Ismália também tinha se esforçado um pouco para manter as aparências. Precisava que Jade confiasse nela para permitir o que estava prestes a propor.
“Pai.” Começou. “Eu estava… Com uma ideia. Queria ver o que você acha dela.”
“Diga.” Ele se inclinou para frente.
“Eu… Como você pode ver, estou melhorando muito. Me submeti a esse tratamento por meses. O psiquiatra até já me deu permissão para sair se eu quisesse… Para lugares tranquilos e acompanhada, lógico, mas ainda sim é um progresso.”
“Sim, e todos estamos felizes com isso.”
Ismália assentiu com a cabeça. “Você conhece essa minha vontade de morar em Plutão que eu tenho há muito tempo.”
Jade abriu a boca para rebater, mas Ismália continuou: “Não estou falando que quero interromper o tratamento, de forma alguma. Apenas acho que um lugar mais calmo como Plutão iria inclusive me ajudar. Só a ideia de poder andar ao ar livre sem ter receio de repórteres é libertadora. Lenora ficaria comigo, eu faria as minhas sessões com o terapeuta via transmissão ou a gente pagaria o teletransporte dele…” Ismália levantou-se e então se ajoelhou em frente a seu pai, pegando em sua mão. “O que eu quero dizer é… Que isso pode funcionar.”
Jade olhou para Ismália. Sua mente parecia travar uma batalha interna.
Pelo menos ele estava considerando a possibilidade.
Jade abriu a boca. Pensou em negociar. Em ceder o que ela estava pedindo em troca de sua participação no Nodos.
Mas então… Olhou para ela.
E ela estava tão bem.
Não com aquela pomposidade e arrogância que usava para se camuflar normalmente. Não com crises de ódio. Apenas ela, sua filha, pedindo uma chance para melhorar.
Lá no íntimo, julgava egoísta Ismália querer se afastar.
Mas será que estava errada em querer isso, devida às circunstâncias?
Não tinha a coragem de pedir que Ismália se submetesse ao Nodos. Um sistema que te expõe contra você mesmo. Literalmente, exterioriza seus piores medos e faz com que cada participante lide com eles.
Lembrou-se da edição que já havia participado quando mais jovem — na edição em que Victriz havia vencido. Naquele ano, o desafio havia sido a materialização do ID de cada participante.
Todos dentro do Nodos basicamente tiveram seus cérebros escaneados — e tiveram que lidar com um ser fisicamente idêntico a si próprios, mas com seus mais profundos desejos e medos à mostra. Sem ego. Sem super ego. Sem controle.
Tendo que lidar com a pior parte de si.
O nível de intensidade das provas do Nodos eram assim.
Ismália conseguiria fazer o mesmo, ainda mais com sua trajetória sendo transmitida publicamente?
Não. Era covardia.
Após um longo silêncio, Jade concluiu. “Vou conversar com seu psiquiatra e… Pensar no seu caso.”
Ismália abriu um grande sorriso.
“Obrigada, pai.”
Jade então lembrou-se de uma conversa que tivera mais cedo com Driano. “Então, Jade… Já que, pelo visto, Ismália não tem a mínima disposição de participar do Nodos… Estava pensando em deixar Brianna com ela e a robô enquanto nós estamos no Nodos, então. Ainda que alguns lunáticos levem os próprios filhos pro evento, não é um lugar recomendado para uma criança. E aquela robô tem uma alta capacidade de ação e raciocínio, conseguiria cuidar de um batalhão se eu pedisse. Ela vai conseguir cuidar das duas tranquilamente.”
Pelo visto, Brianna teria um pequeno passeio em Plutão...
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