Galanteia
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Colégio Caronte Gouveia Filho, sul do Brasil, abril de 1995.
Ela era a penúltima na fila de carteiras junto à parede oposta à porta de entrada da sua sala de aula.
Suas mãos suavam borrando as sílabas das extremidades da folha do seu trabalho manuscrito.
A apresentação bimestral de língua portuguesa já havia começado. Bianca se saíra bem e a professora em sua mesa, fazia as anotações quanto ao desempenho da colega de classe.
Era apenas uma apresentação, mas ela de sentia como designada a um pronunciamento presidencial. Caso esbarrasse numa entonação fonética errada, o mundo poderia ruir sob os seus pés.
Não era uma questão de se conseguir a nota ideal. A nota nunca importou. Mas sim as conseqüências de cada ato. Eram avaliadas por ela dentro do significado mais amplo do conceito “efeito borboleta”.
O retrato sobre o quadro negro, de feição fechada, do fundador da escola Dr. Caronte, a lembrava do destino de sua pobre alma caso falhasse em suas provações.
— Lia Mey!
Ao chamado da professora, Lia não pôde deixar de sentir o conhecido frio na barriga.
A professora Ofélia era uma respeitável senhora prestes a se aposentar no também respeitável colégio Caronte. Severa, mas estimada por todos, ela olhou por sobre as lentes dos seus óculos e da mesma maneira como pediria um prato do cardápio, pediu à franzina Lia, que apresentasse seu resumo do livro lido no mês, sem as trêmulas folhas em suas mãos.
“Górgona maldita” — foi o pensamento indignado da garota. Era tudo o que ela mais temia. Como ela poderia se expor daquela forma, sem o escudo protetor dos seus livros, cadernos e papeis?
Arrastando os pés, sentindo o peso se ser uma reles mortal, ela se dirigiu à frente da classe.
Seu livro era sobre a mitologia grega. De tantos personagens e enredos fantásticos, naquele momento, ela conseguiu lembrar apenas de um. Do escultor que se apaixonara por sua obra. Ele havia encomendado o melhor bloco de mármore e esculpido a mulher ideal de tal forma que acabara se apaixonando por ela.
O sentimento lhe dominou como uma obsessão a ponto de colocá-la em sua cama para dormir ao seu lado. A emoção de beijar seus lábios frios e rígidos fez com que o alvo de sua ardente paixão ganhasse vida. Galanteia, a estátua, tornou-se uma mulher de verdade e a sua companheira perfeita.
Relatou a história com a maior riqueza de detalhes possível, sem se importar com o sacrílego bocejo de tédio do colega a sua frente.
Ao término de sua apresentação, sem que a professora se manifestasse pró ou contra, voltou ao seu lugar. Ao passar por Teodoro, este lhe puxou a manga do casaco e com uma piscadela lhe falou a meia voz:
— Nada menos que magnífico!
Lia endireitou os óculos sobre o nariz e a coluna sobre seu prumo, sentando-se satisfeita.
.........
Ofélia sentia o cansaço dos anos em seus ossos e a fragilidade dos nervos. Eram trinta anos de labuta infernal na arte de lecionar. Apesar disso, pensava seriamente em escrever uma última tese sobre a relação existente entre a modernidade dos tempos e a indisciplina das crianças e jovens.
Com o fácil acesso a informação, os alunos simplesmente não aceitavam mais como regra o conteúdo curricular. Tudo sendo questionado com ceticismo ou descartado com irrelevância.
Contudo o ensino e a pedagogia são obrigados a se atualizarem. Tudo é empurrado à frente numa velocidade vertiginosa. “Tempo, bem mais precioso. Prejuízo maior! Somos anestesiados pela crença social de que a tecnologia garantirá a qualidade de vida de um tempo sabiamente empregado. Puro engodo! Tecnologia gerando competitividade. Acelerando ainda mais o tempo... Escravizados pelo Sistema, trabalhamos oito horas por dia e ficamos presos no trânsito por mais quatro horas diariamente.”
“Uso óculos e não enxergo a coerência em se viver.”
Nem a Sonata ao Luar de Beethoven, tocada no aparelho de som do seu carro, conseguia dissipar a angústia de Ofélia que desejava desesperadamente chegar em casa e sob uma ducha quente, lavar a alma de toda a infâmia.
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