Galanteia
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Machu Picchu, Peru, maio 2005.
A trilha percorrida a pé de Ollantaytambo ao santuário de Machu Picchu seria um caminho iniciático. Um ritual de passagem do idealismo da juventude ao duro realismo da maturidade.
Toda sua vida fora tragada do colorido mundo dos sonhos e das idéias fantásticas, pelos seus pais, pela escola, pela igreja, pela mídia, pela sociedade enfim, a assentar-se no preto e branco da rotina diária.
Não mais resistiria. Assumiria o simulacro da perfeição imposta. Terminaria a faculdade, trabalharia para pagar as contas do mês, casaria, teria filhos, educando-os na mesma loucura aceita como padrão de normalidade.
Mas antes disso: Machu Picchu. Pela última vez sentiria a conexão com o Universo, o seu perfeito encaixe na teia da vida.
Lia Mey acordou cedo. O soroche, mal das montanhas, típico da aclimatação às alturas, diminuiu consideravelmente depois de uma boa noite de sono.
A Pousada Mamacita Tierra era muito acolhedora. Chegara ao anoitecer do dia anterior com forte dor de cabeça e sangramento nasal. Não pudera apreciar as peculiaridades do local.
Um cheiro bom de tortilhas de milho vinha da cozinha, convidando ao bom humor e a leveza de espírito tão presente ao modo de vida dos quíchuas, os descendentes dos incas.
Entretida com os efeitos da luz do sol infiltrando-se pelas janelas, Lia Mey não percebeu o olhar conhecido, ansioso por estreitá-la num saudoso abraço.
— Vênus suprema!
Era Teodoro, o amigo de infância. Para ele, a visão de Lia acariciada pelos feixes de luz solar entre as partículas cintilantes de poeira em suspensão, poderia ser o da própria Mama Ocllo, emergindo das águas do Titicaca.
— Ted?! Teodoro Francisco Xavier! É você mesmo? Ou melhor, é você mesmo por aqui?
Mas as palavras de reencontro se perderam numa festa de abraços, tapinhas, empurrões, beliscões e cócegas.
Nada podia ser melhor do que ter Ted ao seu lado neste momento específico de sua vida.
......
Ao término do colegial, Teodoro saiu do Brasil com seus pais para morarem nos Estados Unidos. Seu pai fora transferido da unidade brasileira para a matriz da Corporativa de Energia Eletromagnética das Américas, a CEEA, responsável por abrir o mercado de rápida ascensão dos sensores gravitacionais veiculares.
O condomínio de luxo em Baltimore estava à altura da euforia dos seus pais. Era como se tivessem tomado o sumo da erva do esquecimento. Desde o primeiro dia não falaram mais do Brasil e ignoravam qualquer comentário de Teodoro a respeito.
Mas ele se recusava a compartilhar da beberragem do deslumbramento pela nova vida em solo americano. Seu coração criara raízes na terra natal onde desde os sete anos de idade era regado pela abundância fértil do sorriso de Lia Mey.
Ainda podia sentir em seu pescoço a pressão angustiada das unhas dela, quando em seus braços prometeu que não ficariam um dia sequer sem se falarem.
Mesmo cumprindo a promessa, o distanciamento dos corpos fez com que outros corpos se aproximassem de suas vidas. E nos anos seguintes ambos descobriram as artes sensuais e os jogos eróticos de Afrodite.
Não compartilhavam mais a inteireza de seus mundos e intuíam o porquê das lacunas cada vez mais freqüentes.
Teodoro cursava astrofísica na Universidade de Yale e naquele ano fora chamado para ingressar como assistente no projeto de implantação da primeira colônia em Marte. Compartilhava seu mérito com Lia nas suas chamadas holográficas. O PHP, Projetor Holográfico Portátil, era um aparato de última geração que revolucionou o setor de telecomunicações nos últimos dois anos. Permitia projetar a imagem tridimensional do interlocutor em qualquer espaço em tempo real.
Mas naquela semana, o assunto principal era a viagem de Lia Mey ao Peru. Queria surpreendê-la. Estar ao seu lado e sentir o cheiro de seus cabelos misturado ao ar da montanha.
Tudo poderia ficar suspenso por quatro dias, menos sua urgência por Lia.
......
Mochila às costas Lia e Teodoro iniciaram a trilha guiados por Hernandez, alcunhado pelos porteadores como El Brujo. Porém a princípio, nenhuma característica peculiar o diferenciava dos demais integrantes da equipe de apoio aos trilheiros. A não ser, talvez, o seu cajado, adornado por quipos, guizos e folhas de coca.
Ao transporem a ponte sobre o rio Urubamba, Hernandez ergueu seu cajado agitando-o em saudação às entidades protetoras do leste, oeste, norte e sul. Anunciando em voz sonora que ecoou pelo vale, que estavam ultrapassando o domínio da grande serpente.
A indagação quanto ao que foi proferido ficou na mente dos trilheiros, já que ninguém ousou questionar tal afirmação mística. Pelo menos não naquele momento.
À medida que subiam, as palavras eram economizadas no intuito de poupar a respiração cada vez mais exigida pelo esforço da caminhada em rápido aclive.
A última parada ao fim da tarde do primeiro dia foi acolhida com alívio e satisfação. O local do acampamento já estava preparado para o pernoite. As barracas resistentes montadas em círculo ao redor da fogueira central. Na tenda cozinha foi servido o jantar. Sopa de aspargos com pães tostados e milho cozido.
Com o cair da noite o frio se fez sentir forte e todos se acomodaram ao redor da fogueira ao som das flautas peruanas dos simpáticos porteadores.
Entre o riso e a conversa descontraída, a jovem italiana ao lado de Lia perguntou a Hernandez a respeito da grande serpente a que ele se referiu no início da trilha.
El Brujo, após um instante estratégico de silêncio, explicou que segundo a sabedoria antiga, o mundo inferior, dos instintos, é representado e governado por uma serpente. A subida da montanha sagrada é um caminho de ascensão, conduzindo o ser humano do seu estágio primário de evolução, passando pelo estágio intermediário, o ego, representado pelo puma e chegando ao pico, ao objetivo final, o domínio espiritual, representado pelo condor. Lembrando que não somos seres físicos destinados a uma experiência espiritual, mas sim, espíritos experienciando o aprendizado por meio da condição física.
Em seguida ficou de pé, erguendo o cajado e a mão direita os abençoou:
— Que a montanha vele por seus sonhos e Mama Quilla os acolha em sua morada astral! Buenas noches amigos!
Depois de Hernandez, cada qual se retirou a sua respectiva barraca num buenas noches coletivo.
Em sua barraca, Lia não conseguia dormir apesar do cansaço pela caminhada. Sentia frio e uma incômoda inquietação.
Assim, cruzou o acampamento sob a luz do luar e os pios da noite, infiltrando-se silenciosamente pela barraca de Teodoro.
Aninhou-se ao seu lado. Teodoro reconheceu o aroma familiar da sua presença e permaneceu imóvel, mesmo quando ela passou a mão fria por entre os botões da sua camisa de flanela. Para ele era um instante mágico que ao mínimo movimento poderia se dissipar.
Lia sentiu no peito nu do amigo, o pingente em forma de cavalo esculpido em madeira de carvalho que Ted trazia preso no pescoço por um cordão. Era igual ao seu, sendo no entanto, esculpido em madeira marfim.
Lembrou do dia em que Teodoro os comprara numa feirinha hippie durante um passeio escolar. Ele lhe disse que eram Xantos e Bálios, os cavalos falantes e imortais da mitologia grega. Disse-lhe que assim como eles, Lia e ele estavam destinados a passar a eternidade juntos. Tinham doze anos e desde então, carregavam os pingentes junto a si.
A lembrança feliz e o calor do corpo do amigo a acalmaram envolvendo-a num sono profundo. Ao notar a mudança da respiração de Lia, Teodoro apertou a mão dela em seu peito e dormiu saboreando o momento.
— Amigo! Amigo! Era Benito um dos porteadores, chamando para o café da manhã.
Teodoro acordou só em sua barraca. Encontrou Lia na tenda cozinha bebendo uma caneca de piña quente. Sentou-se ao seu lado dando-lhe um beijo de bom dia em sua testa.
Ela lhe respondeu com um meio sorriso, perguntando-lhe se dormiu bem.
— Muy bien! Sonhei com uma princesa inca sussurrando palavras de desejo em meu ouvido!
— Seu bobo! — respondeu Lia radiante, mesmo usando aquele gorro peruano nada elegante.
Nisso, Hernandez pediu que se apressassem para reiniciarem a marcha por “el camino”.
Hernandez também acordou muito bem humorado. Durante a caminhada daquele dia, pararam muitas vezes para ouvi-lo contar sobre os feitos gloriosos de dias antigos testemunhados pelas ruínas emergentes.
À noite, em torno da fogueira, a chicha passava de mão em mão. Lia experimentou, mas não se atreveu a perguntar sobre do que era feita aquela bebida suspeita. Intuía que não iria gostar de saber. El Brujo continuou contando diversas histórias utilizando-se de muitas figuras no discurso.
Quando o acampamento silenciou, Lia esgueirou-se novamente para a barraca de Teodoro. Naquela noite compartilharam mais do que o calor dos corpos.
Na manhã seguinte Teodoro acordou sentindo-se completo, suficiente e plenamente feliz.
E na manhã do quarto dia chegaram a Machu Picchu. De mãos dadas percorreram o santuário registrando cada detalhe e usufruindo ao máximo daquela experiência.
Ao fim da tarde, ao passarem por um bloco de rocha talhada, notaram a escrita da palavra SEMPITERNO. Não conseguiram chegar a uma conclusão satisfatória de como aquilo foi feito e por qual motivo.
Estavam a algumas horas andando sozinhos e tinham se afastado do seu grupo. Sentaram de pernas cruzadas sobre a pedra em postura de meditação. A sensação de leveza, ou porque não, levitação, foi instantânea assim que fecharam os olhos. Ficaram assim por alguns minutos enquanto a névoa preenchia o lugar, limitando a visão do todo.
Houve então, um zunido agudo e quando Lia abriu os olhos não viu Ted ao seu lado. Sobre a palavra sempiterno estava o cordão com um de repente solitário Xantos.
O instante pareceu durar uma eternidade e quando a névoa se ergueu Teodoro não foi encontrado.
Organizou-se uma equipe de busca e numa cafeteria em Águas Calientes, um atendente disse ter vendido uma água para um sujeito com as descrições fornecidas por Lia a momentos antes e ele havia perguntado pelo horário de saída do trem que descia a montanha.
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