Harpócrates Sideral, resort lunar, outubro 2025.

Sempre gostei de admirar as estrelas, divagar diante da imensidão cósmica, mas nem nos meus mais loucos desvarios, poderia imaginar que um dia estaria admirando esse mesmo cenário de uma perspectiva inversa. Não mais do pequeno planeta azul. E sim tendo ele, esse doce e amado orbe, diante dos meus olhos. Em primeiro plano, a destacar-se no fundo escuro pontilhado de cintilâncias.

— Senhorita Lia Mey, seu visitante chegou.

A voz no interfone interrompe meu agradável devaneio. Percorro os poucos metros da janela à porta do aposento madrepérola em que me encontro. Estou no resort lunar há três semanas e ainda não me acostumei ao condicionamento gravitacional do lugar. A sensação de caminhar no ar a alguns centímetros do chão exige certa concentração pra manter o equilíbrio.

Confiro minha apresentação no grande espelho do hall de entrada. Meus 40 anos passariam despercebidos se não fosse pelos meus longos cabelos brancos. Meu corpo continua firme e esguio. A estilista do resort é realmente talentosíssima. Esse vestido moondress tem um corte e acabamento impecáveis.

Ajusto meu sintonizador lingüístico sublabial, imprescindível às relações interplanetárias. Entre tantos modelos no mercado atualmente, optei por esse de safira, facilmente confundido como um simples piercing.

Respiro fundo. Faz algum tempo que não o vejo e lembro do frio visceral que senti a primeira vez que o vi. Depois de tudo o que aconteceu o que mais ainda estaria por vir?

— Paz e benção Mestre Higgs!

— Abençoada seja caríssima!

— Como vão as crianças em Betheguel?

— Poderia sentar-me primeiramente? Não tenho mais idade pra viagens, mesmo as de teletransporte...

— Claro! Desculpe minha indelicadeza... Posso lhe servir alguma coisa? Trufas lunares? Descobri que são deliciosas!

— Aceito uma xícara de chá de ervas de Selene, obrigado!

Mestre Higgs é o único sobrevivente de uma das mais antigas e sábias raças da galáxia. Sua genética foi aperfeiçoada em laboratório para a sobrevivência física em qualquer ambiente. Não necessita de alimento, pois absorve involuntariamente fluído cósmico. Estágio supremo da cadeia alimentar. Porém, diplomaticamente confraterniza com os povos compartilhando de seus hábitos alimentares.

A primeira impressão que tive dele foi a de um quelônio centenário, desprovido de casco. Traja-se com túnica e sandálias rústicas, prendendo seu cabelo cinza esverdeado numa única e longa trança.

Mas os seus olhos são os mais belos que já vi. Grandes, brilhantes e de íris lilás, que mudam de cor conforme o seu estado de espírito. Durante os dois últimos anos, cheguei a ver muitas dessas mudanças, inclusive para o vermelho-irado. No entanto, apenas seus olhos sugerem o sentimento em seu ser. O conjunto de suas ações e palavras sempre foi de equilíbrio, paz e sabedoria.

O caráter pacífico de sua raça culminou em sua extinção. Os atalantianos foram dizimados e seu planeta, Ortro, teve seus recursos reduzidos à míngua pelas hostes bárbaras de nômades interestelares... Sem eu saber, no entanto, que destino similar estava reservado a Terra.

Vim, a saber, destes fatos por meio de outras fontes. Espero um dia, poder saber ou ser digna de saber sua história, contada por ele mesmo, o próprio Mestre Higgs.

— Seus filhos estão muito bem. Estão com saudades. Mandaram beijos, abraços e lembranças... Que devem estar em algum lugar no meu embornal de viagem.

Quase um minuto de impaciência se passou até o Mestre localizar no grande saco os presentinhos mencionados.

— Aqui estão: fotos, pedriscos de cristais das praias de Esculária, bombons com creme de melange e cartas.

A cada lembrança um enorme prazer de contentamento. Há alguns anos li uma definição poética sobre o amor, que nesse momento me veio à memória: “amar é mudar a alma de casa”. É como me sinto, com meus queridos longe de meus olhos, fora do alcance de minhas mãos...

— Eles estão bem... Confie!

Mestre Higgs notou meus olhos marejados pela emoção contida.

— Eu sei e agradeço por todo o cuidado e amparo oferecido pelos betheguelianos.

No entanto, pensei, confio, mas não entendo o porquê de eu estar aqui. Por que da privação de contato e comunicação. Sinto-me reclusa, como uma foragida...

Agitada, sem me dar conta, comecei a esvoaçar como uma libélula prateada. Quando notei que o olhar do Mestre mudou do lilás para o azul profundo. Era hora de sentar-me e ouvir “a história”.