Já era noite quando Gabriele chegou em casa, completamente esgotada. Já havia conseguido o lugar onde funcionaria a sua clínica pediátrica e já havia conseguido resolver todas as solicitações judiciais. Ela tinha uma amiga que iria ajudá-la na clínica. Andréia era

fisioterapeuta infantil e isso ajudaria, pois algumas crianças caem e ficam com sequelas logo ela seria perfeita para o serviço.

Gabriele só precisaria de mais um pediatra para ajudá-la na clínica e uma recepcionista, pelo menos. Mas isso ela poderia resolver no dia seguinte. Seu dia havia sido mais cheio do que ela havia previsto. Com o problema da dona Ilda resolvido ela tinha uma preocupação a menos, mas ainda estava pensando em Tomas. Ela havia sido grossa com ele, e ainda zombara de seus sentimentos. Deveria se desculpar por isso? Sim, mas não iria pois não era mais do estilo dela preocupar-se com quem a humilhou.

Depois do banho tomado, Gabriele só queria deitar e dormir. Deitou-se na cama pensando em Tomas, pensando em tudo sobre ele. Sempre pensava, por mais que não desejasse. Ele sempre tomava conta de seus pensamentos, aquele maldito traidor, a quem ela amava com toda a alma. Praguejava mentalmente quando seu telefone tocou. Era Andréia ligando para dizer que aceitava a oferta de emprego. Elas então começaram a conversar e trocar algumas ideias, tirando o rapaz dos pensamentos de Gabi por alguns minutos.

Tomas chegou em casa com a mãe e depois de deixá-la confortável em sua cama, correu para o chuveiro. Depois de um banho foi olhar pela janela do seu quarto e percebeu algo incomum, a janela do quarto dela estava acesa, e ela parecia sorrir ao telefone. Conversando até altas horas? Será outro cara? E se fosse? Ele suportaria? A luz enfim apagou e ele deitou inquieto, imaginando sua amada com outro cara.

Logo pela manhã Tomas nem comeu direito. Correu com um pão na mão, engolindo de vez. Quase se engasgou com tamanha pressa. Ele iria falar com ela o mais rápido que pudesse, ele explicaria tudo.

Tocou a campainha mas não obteve sucesso. Insistente, tocou novamente e dona Aura o atendeu novamente, sempre com um sorriso. Ele retribuiu mas a ansiedade não lhe permitia um sorriso mais largo, e ele disse:

— Bom dia dona Aura, a Gabriele está? — Perguntou com urgência.

— Sinto muito querido. Ela saiu bem cedo, ainda não eram 6:30 quando ela saiu. -Disse, mas sem o sorriso no rosto, ela trazia mais preocupação.

— E a senhora sabe onde ela foi? Foi se encontrar com alguém?

— Sim. Ela foi encontrar-se com o Anderson, mas posso deixar um recado se você precisa tanto falar com ela querido. -disse desejando ser prestativa.

—Ah, então ela foi encontrar-se com o Anderson. -disse distraído.

— Sim, um rapaz muito bom aliás. Quer deixar recado, amor?

—Não dona Aura, se precisar virei pessoalmente falar com ela. Mesmo assim, agradeço. -saiu desapontado sem ouvir mais nada que a mãe de Gabriele dizia. Naquele momento queria que o mundo acabasse, pois para ele o dele havia acabado com aquela notícia.

Ela tinha alguém então. Tomas resolveu que não iria trabalhar aquele dia, iria para casa. Iria se trancar e pedir para a mãe dizer que ele não estava em casa. Queria ficar só." Vou tentar seguir em frente, ela seguiu afinal."- pensou ele.

Gabriele estava em total êxtase, estava tudo correndo conforme ela estava desejando. A locação da clínica estava linda e ela queria que a mãe fosse ver, então decidiu ir buscá-la e ao chegar lá sua mãe a recebeu com muitas informações.

— O Tomas veio aqui falar com você, me parecia bem angustiado. Então eu falei que você tinha ido se encontrar com o Anderson, ele ficou meio chateado e foi embora.

— Que estranho mãe, o que ele queria? A senhora sabe dizer?

— Não querida, ele estava todo exasperado. Até me assustei um pouco. Mas quando falei sobre o Anderson ele ficou pensativo e depois triste.

— Mãe, você disse que o Anderson era o meu advogado?

— Não querida, achei que ele soubesse... Ah meu Deus, se ele achar que o Anderson... então estamos numa enrascada por que eu disse que o Anderson era rapaz muito bom.

— Mamãe, não acredito. Não quero me importar com o Tomas entende? Mas me importo, a senhora sabe disso. Eu o amo mãe, não quero ceder a esse sentimento, mas não consigo evitar amá-lo. E agora preciso concertar o que a senhora disse.

— Me desculpe amor, vá então.

Gabriele saiu da casa da mãe correndo. Graças a Deus que as casas não distantes uma da outra. Já foi chegando e tocando a campainha urgentemente e dona Ilda abriu a porta com cara de espanto.

— Gabi querida, posso ajudar?

— Pode, o Tomas está dona Ilda?

— Oh sim, ele pediu para dizer a todos que não estava, mas para você posso dizer a verdade não é?

— Obrigada dona Ilda.

— Ah querida, eu quem devo agradecer a você e seus pais por terem me socorrido naquele momento tão difícil ontem.

— Pois não agradeça, eu faria novamente pela senhora...

— Ou por qualquer um não é mesmo?

A voz vinha das escadas. Uma voz sarcástica, nada amigável e também muito triste. Quando Gabriele levantou a cabeça e o viu com o semblante triste, soube que era culpa do que a mãe havia dito e que não havia sido intencional o que ela dissera.

— Isso mesmo Tomas. Faria por qualquer pessoa dona Ilda, por que devo ajudar a quem precisar, não é?

— Claro que sim, querida.

— O que faz aqui Gabriele? — Disse Tomas.

Aquele tom na voz dele quase a fez retrair-se, mas ela continuou firme.

— Vim aqui resolver um mal entendido, minha mãe fez você entender que o Anderson e eu somos namorados e...

— E não é verdade? Você não passa horas acordada, falando alto e rindo com ele ao telefone? Vocês dois não foram se encontrar ontem e hoje?

— Não, passo horas acordada tentando convencer uma amiga a me ajudar na clínica, e se minha risada incomoda eu irei diminuir a intensidade, eu prometo. E sim, ontem e hoje fomos nos encontrar...

— Aí está! Vocês sentem algo e você se nega a aceitar por não querer e não permitir que as pessoas penetrem neste seu coração que ficou petrificado, além disso....

— Você não vai mais me interromper!- ela exclamou, um pouco alto. Já estava cheia de tudo aquilo. -Não devo nenhuma satisfação para você, mas quero que minha imagem esteja limpa diante de todos. O Anderson é o meu advogado, e terei que me encontrar com ele por várias vezes. Mas como já disse a você, não devo explicações para você. Se você acha que meu coração está petrificado, muito bem. Continue assim. Obrigada por me ouvir, agora preciso ir. Tenha uma boa tarde.

O rosto de Gabriele estava fechado. Ela olhava para ele séria e Tomas não sabia identificar se era raiva ou tristeza. Então afinal ela estava livre, mas não disse se estava interessada em alguém. Ele a queria para ele, como antes. Só que mais uma vez, um mal entendido os distanciava. O celular de Gabriele apitou com uma mensagem nova quebrando o silêncio.

— Ah, amanhã será o encontro de alunos. — Ela guardou o aparelho no bolso, olhou para ele e falou:- Até mais Tomas.

— Eu não vou para esse encontro.- Disse Tomas, com decisão.

— Tudo bem, escolha sua.

Gabriele depois de ter dito isso saiu porta a fora, deixando ele na tristeza de não saber se ela iria, se teria motivos para estar lá ou não.

—MÃE!- Gritou Tomas.

Dona Ilda correu para ver o que estava errado.

— O que foi Tommy? Está tudo bem?

— Mãe, não estou em casa tudo bem? Para ninguém.

— Sim querido, só achei que vocês dois precisavam se resolver o quanto antes...

— Você não viu que não há nada a ser resolvido? Ela não quer nada comigo, e eu a amo. Mas não vou impor amor, não vou exigir isto também. Vou para o quarto, me chame se algo muito importante acontecer e apenas para isso.

— Claro amor. Vá deitar-se.

Depois desta calorosa conversa Gabriele se sentia irritada. Já estava em casa, mais especificamente em seu quarto.

"Ele não tem o direito de me confrontar! Quem ele pensa que é? Eu posso estar com quem eu quiser, quem for do meu agrado..."- uma Gabriele raivosa pensava, indo de um lado para o outro.

Todos esses pensamentos a estavam deixando maluca quando de repente, ouviu uma voz grave e suave, vindo da porta acompanhada de sua mãe. Desceu as escadas e sorriu ao reconhecer o dono:

— Pedro? Ah meu Deus, que bom ver você!

Pedro era lindo. Dono de belas orbes azuis, cabelos castanho escuro, e de um rosto que parecia ser de um homem mais novo do que ele realmente era. Embora a primeira vista parecesse ser bem sério, era bem moleque e adorava zuar.

Tomas sempre teve ciúmes deles dois, mas sempre foi somente amizade entre eles. Pedro estava para se casar e veio convidar Gabriele e família, principalmente Gabriele, que sempre foi sua melhor amiga. Mesmo estando em Londres eles sempre mantinham contato, e ela sabia de tudo sobre Pedro e não deixava ele de fora de nada sobre sua vida.

— Ah que bom vê-lo meu amigo, que saudades.

— Não, você não sentiu saudade de mim, se estivesse mesmo, teria ido a minha casa para me visitar.

— Seu bobo. Você sabe que eu queria muito ir vê-lo, mas tenho corrido tanto desde que cheguei, minha mãe é quem sabe.

— Então me conte tudo sobre a clínica, e me diga, como estão as coisas com o Tomas.

— As coisas da clínica estão indo de vento em polpa, graças a Deus, mas com o Tomas... podemos falar de outra coisa? Sobre ele falamos depois, por mensagens.

— Tudo bem, claro. Você vai para o encontro não é? Já é amanhã e estou querendo ver todos.

— Sim, sem entusiasmo, mas vou sim. Não tenho vontade de ver nenhum deles. Só você.

— Você vai, e vou levar a Ana para você conhecer pessoalmente.

— Sim, como ela está? Conseguiu o emprego?

— Ela está bem Gabi, mas não conseguiu.

— Ela não quer trabalhar comigo? Preciso de uma recepcionista lá na clínica.

— Acho que iria adorar. Vou perguntar para ela depois.

A conversa fluía bem, eles realmente sabiam bastante sobre o outro e esse amor era como se fossem irmãos, amigos para todos os momentos. Tomas estava melhor, depois da notícia de que ela não tinha um namorado, mas eles ainda não tiveram a chance de conversar de fato. Ele queria desabafar, explicar tudo. Será que ela receberia uma mensagem dele?

"Oi, podemos conversar? Eu tenho algo para dizer a você e..."

— Isto não está bom.

"Gabi, você pode me receber? Podemos conversar?"

— Tudo bem, vou enviar.

Algum tempo se passou depois de enviada a mensagem, e nada de Gabriele responder. Ele já havia sentado, ficado em pé, já havia deitado e nada. O celular permanecia em silêncio, até que um vibrar leve fez ele correr até o aparelho.

"Sim, pode vir"

Ela havia respondido. Ainda de forma bem curta, é verdade, mas havia. Tomas tratou de se controlar, respirar fundo e ordenar as ideias. Não podia estragar tudo, outra vez. Tinha que parar de dar tanta mancada.