Gênesis
24 Nami no Kuni – Evanescência.
Notas iniciais
Haku sentiu o seu cérebro congelando.
Quer dizer, se eles não iam o capturar… só restava uma outra opção… eles iam executá-lo. Como à um animal. Imediatamente, ele sentiu Naruto e Kakashi ficarem tensos, prontos a se moverem ao menor sinal de ataque. Mas ele sabia que, independentemente do quanto eles três fossem fortes, aqueles Shinobis estavam no mesmo nível que eles. E os Oinin eram cinco.
A sua saliva passou a ter um gosto amargo.
– E-espere um pouco… — Haku gaguejou, o rosto tão pálido e sem vida quanto o fantasma de Zabuza – Se vocês não vão me capturar… então vocês vão…
Kaminari não deu tempo para que ele terminasse.
– Te matar? – Mesmo que sentisse como se um cubo de gelo estivesse entalado na sua garganta, Haku assentiu. Kaminari fez um som estranho e exasperante por detrás da máscara, Haku supôs que fosse um suspiro — Fique calmo, embora eu adorasse, nós não vamos matar você…
Haku sentiu a sua cabeça rodar, e sentiu que o seu rosto provavelmente estava com uma expressão muito engraçada.
— E-espere… então, vocês não vão me matar? – Kaminari assentiu, friamente – Mas também não vão me capturar… então porque…
Kaminari o interrompeu novamente.
— Oh sim. – O oinin murmurou, remexendo nas suas vestes. Ele puxou um pergaminho azul-marinho — Digamos que… viemos negociar…
O oinin começou a caminhar, muito lentamente, até Haku. Naruto apertou os seus olhos. Tudo naquele Shinobi lembrava poder e frieza. Até os movimentos mecânicos do seu quadril. Havia um quê de perigo e graciosidade no seu andar. Lembrava um felino, silencioso, perigoso e predatório. As suas sandálias Shinobis, não emitiam um único som, quando em contacto com a grama quebradiça e amarelada. Fazer aquilo com tanta naturalidade, como se exalasse perigo de todos os poros… quão forte aquele Oinin era?!
Kaminari entregou o pergaminho nas mãos trémulas e suadas de Haku. Perante o seu silêncio, Naruto decidiu se pronunciar.
— Negociar? – Naruto perguntou, parecendo desconfiado — Negociar o quê?
O oinin o avaliou, pelo que pareceram ser minutos, antes de mover imperceptivelmente os braços, como se desse de ombros.
— Bem, digamos que Kirigakure deixou certos hábitos antigos… os mesmos hábitos que nos fizeram ganhar o nome de névoa sangrenta. A vila está passando por uma reforma. E a Godaime Mizukage frisou que precisávamos de Momochi Zabuza e do seu aprendiz…
Haku sentia a sua cabeça doendo com todas aquelas informações.
— Zabuza-sama está morto…
— Oh… eu sinto muito por isso – Kaminari murmurou, mas a sua voz gélida e indiferente indicava que não sentia absolutamente nada – mas, ao menos você está vivo… e ah, é mesmo: Onde está a Kubikiriboucho?
— Ela… — Haku suspirou — ela quebrou…
— Isso não é um problema… — ele murmurou. A boca mal se abrindo enquanto falava. Ele pareceu se controlar para não dar de ombros — nós conseguiremos concertá-la… então, você aceita voltar a Kirigakure?
— Eu… eu não sei se…
— Leia o pergaminho… — Kaminari falou, a voz gélida soando poderosa e um tanto autoritária – vai ajudar você a tomar a melhor decisão…
E só naquele instante Haku pareceu se lembrar do pergaminho em suas mãos. Ele engoliu em seco e quebrou o lacre. Pela caligrafia fina ele se apercebeu que fora escrito por uma mulher, provavelmente a Godaime Mizukage.
"Caro Zabuza, conforme o Kaminari-Kun já deve ter te contado (dê um abraço a ele por mim), Kirigakure mudou. A guerra civil e o extermínio dos Shinobis portadores de Kekkei genkai´s (motivos pelos quais você abandonou, covardemente, a vila) finalmente chegaram ao seu término. Yagura, o Yondaime Mizukage, está morto e eu, Terumi Mei, a gostosa líder da Resistência, fui eleita a Godaime Mizukage de Kirigakure no Sato. E eu, juntamente com os velhos e chatos conselheiros (queime esse pergaminho assim que terminar de ler), concordamos (em uma reunião muito chata) em reformar a vila. Pois, todos esses anos de guerra, reduziram as nossas forças pela metade, e raramente recebemos pedidos de missões, por isso precisamos da ajuda de todos os Shinobis de Kiri, nukenins ou não…e outra coisa, estamos pensando em recriar Os Sete Espadachins da Névoa. Por isso, precisamos de você e daquela sua discípula bonitinha… qual é o nome dela mesmo? Ah… Yuri Hana ou algo do género… já referi que ela é bem bonitinha?! Enfim, voltando ao assunto: O Shiren Shōkan se aproxima (e não, eu não estou brincando) e com ele, também se aproxima a oportunidade de chutar as bundas de uns tantos Shinobis, além é claro, de ser a esperança de revivermos os nossos dias de glória e blá…blá…blá… (eu acho que adormeci nessa parte da reunião) Nós, realmente, precisamos de você nessa porra de vila! "
Com amor, Terumi Mei, a primeira e mais gostosa Mizukage da história…
♥♥♥
Quando terminou de ler aquele estranho pergaminho, Haku só tinha um pensamento rondando a sua cabeça: Mas que porra de pergaminho é esse?! Isso foi realmente escrito por um Kage?!
A voz gélida de Kaminari interrompeu os seus pensamentos.
— Então…?
Haku piscou os olhos, como se estivesse despertando de um sonho.
— Ah… eu – Haku murmurou. Mas ele não tinha realmente ideia do que dizer. O seu cérebro estava superlotado de informações – eu preciso… eu preciso de um tempo para pensar…
O oinin apenas suspirou.
— Está bem. Você tem até o pôr-do-sol. Nessa mesma clareira.
Haku assentiu. Isso lhe dava cerca de três horas. O oinin se virou e começou a caminhar, muito silenciosamente, em direcção as escuras árvores. E então Haku sentiu uma pergunta aparecendo repentinamente na sua mente.
— Kaminari-Sama… — O Oinin parou de caminhar e olhou de soslaio para Haku — o que é o Shiren Shōkan?
Kaminari ficou em silêncio, pelo que pareceram ser segundos. Mas depois, ele apenas murmurou uma outra coisa.
— Escolha sabiamente…
E com um selo de mão, ele e os seus silenciosos subordinados se desmancharam em névoa, sem sequer um som. Nenhum cheiro ficou naquela clareira. Era como se nunca tivessem existido. Deixando para trás um irritado Haku. Um Naruto muito confuso. Um Kakashi pensativo, e um Tobirama mais pálido que um fantasma ( Hum… gostei, acho que vou anotar…)
Nem que se passassem mil anos, o Nidaime Hokage nunca se esqueceria daquilo… estava cravado a fogo e ferro na sua mente. Ele até agradecia o facto de actualmente não precisar de dormir, caso contrário ainda teria pesadelos com aquilo… o sangue, os prantos, as mortes e os gritos de agonia… nem mesmo o Edo Tensei provocava tanto sentimento de culpa em seu coração… ele sabia muito bem o que era o Shiren Shōkan, as Tribulações da Redenção… era a sua pior criação…
***
Tão logo eles voltaram para a casa do construtor de pontes, eles a encontraram muito fria e silenciosa. A atmosfera estava pesada e um tanto fúnebre. Era muito sufocante, quase como se alguém tivesse morrido. Eles encontraram Tsunami, Inari e Natsu sentados silenciosamente, na pequena mesa da sala de jantar.
Logo que eles entraram na sala, Natsu voou em direcção a Haku e pegou as suas mãos.
— O que foi que aconteceu?
Haku corou fortemente, ao ver o olhar intenso e preocupado no rosto de Natsu. Ele demorou um bom tempo para registar o que Natsu falara (é que o seu cérebro estava mais preocupado em registar como as mãos dela eram quentes). Haku murmurou alguma coisa, mas ninguém realmente entendeu.
— Natsu… solte ele. — Tsunami disse.
Quando Natsu se apercebeu do que estava fazendo, ela corou, e largou rapidamente as mãos de Haku.
— Então… — Tsunami murmurou, logo depois de Haku puxar uma cadeira e sentar – o que foi que aconteceu?
Haku contou tudo de forma resumida. Desde os chakras nojentos dos Oinins até o pergaminho da Godaime Mizukage.
— Entendo… — Foi tudo que Tsunami murmurou.
— O que você vai fazer? – Naruto perguntou, tamborilando os seus dedos pela mesa de madeira. Ele tinha um brilho quase divertido nos olhos azuis-escurecidos, quase como se soubesse exactamente o que Haku faria… Mas Haku achou que era apenas fruto da sua imaginação.
— Eu não sei… — Haku murmurou, se controlando para não arrancar os cabelos — ainda estou pensando… mas eu acho que…
— Que o quê? – Natsu perguntou, com um olhar estranho no rosto. Preocupação?
Haku olhou atentamente para Natsu, apertando os olhos como se estivesse tentando se lembrar de algo, mas logo depois deu de ombros.
— Nada… eu só… – ele se levantou da sua cadeira – preciso ficar sozinho…
***
Haku observou o sol, muito lentamente, ser engolido pelo infinito mar, a medida que os minutos se transformavam em horas. Ele deu um singelo sorriso. Era verdade que ele podia fugir de muitas coisas, mas não do sol se pondo. Não do tempo. Haku fechou a sua mão ao redor da última pedrinha. Estava morna, nem muito quente e nem muito fria. Ele a jogou o mais longe que os seus braços cansados conseguiram jogar. A pequena pedrinha chapinhou na água do mar umas cinco vezes, antes de ser engolida pelas águas frias e escuras. Haku suspirou. Estava quase na hora, ele pensou. E ele já havia tomado a sua decisão.
Ele atravessou o campo gramado, sentindo a grama fria e quebradiça sob as suas sandálias Shinobis. Era fim de Setembro. E o ar começava a esfriar rapidamente, em breve as folhas das árvores iriam começar a morrer. E viria o Outono. Era meio triste e deprimente o Outono, ver as coisas definhando, muito lentamente. O fazia se lembrar do quanto o mundo era efémero… mas depois viria o frio Inverno… Apesar de ser um usuário de Hyouton, ele não gostava do Inverno. A neve… branca, o fazia se lembrar do rosto pálido da sua mãe… morta. Bem no meio da sala. Os olhos opacos e sem vida, com uma lança enterrada no estômago e a gargalhada insana de seu pai...
Haku interrompeu aqueles pensamentos tristes. Só tornariam pior o que ele estava prestes a fazer. Tentou pensar em coisas boas e positivas… depois de toda crueldade do Inverno, sempre viria a Primavera, e então o verão… brilhante, colorido e tão cheio de vida… Natsu… ele gostava do verão…
Os seus dedos se fecharam ao redor da fria maçaneta da porta. Ele hesitou, antes de abrir. Mas logo depois, ele tomou uma lufada de ar, para ganhar coragem. Ele se arrependeu. O ar frio magoou as suas narinas. Ele abriu a porta, e o chão de madeira rangeu quando os seus pés entraram na casa.
Como se para tornar aquilo pior, ele encontrou todos eles na sala. Naruto, Tsunami, Kakashi, Inari e… Natsu… e agora que parava para pensar, ele não havia visto Sakura. Mas depois ele se lembrou que Sasuke ainda estava inconsciente. Sakura provavelmente estava cuidando (na verdade, molestando) dele.
— Então…?
A voz monótona de Naruto interrompeu os seus pensamentos. Ele estava num canto da sala, tomando uma xícara de chá, enquanto um clone seu jogava um jogo de tabuleiro (cujo nome Haku esquecera) com um clone de Inari (ele sabia que era um clone devido a sua aparência pálida, além do mais, o original estava cabeceando num canto).
Com um suspiro profundo, Haku olhou atenta e tristemente para todas aquelas pessoas. Que estranhamente, em apenas um dia, se tornaram importantes para ele.
— Eu tomei minha decisão…
— É mesmo? – Kakashi perguntou, sem tirar os olhos do seu livro porn... educativo.
— Eu… — Por mais que aquelas palavras fossem as mais dolorosas que ele já havia proferido, Haku decidiu acabar com aquilo – vou com eles…
Houve um estranho período de silêncio. Naruto e Kakashi apenas olharam atentamente para ele, os olhos apertados, como se estivessem o analisando, mas depois assentiram e voltaram a se concentrar no que estavam fazendo. Inari teve um pequeno momento de lucidez e murmurou um:
— Vou sentir sua falta menino-garota.- E logo depois voltou a dormir.
— Você… tem certeza? – Tsunami perguntou, apertando os lábios de preocupação.
Haku assentiu, sentindo uma fagulha de empatia ao ver o olhar triste no rosto pálido de Tsunami. Ele sabia que Tsunami era um tanto maternal e tinha uma tendência estranha a tratar todo mundo como seu filho. Não era de todo mal. Mas ela se apegava muito facilmente as pessoas, desde que essas passassem certo tempo com ela. Ela gostava de coisas estáveis. Imutáveis. Mas Haku era precisamente como a neve, arrastada pelo vento, fluía livremente. Não conseguiria ficar ali e ter uma vida pacata.
Quer dizer, no momento, ele não tinha propriamente um lar, e não sabia por quanto tempo poderia ficar ali. E aquela proposta era muito boa. Ele poderia voltar para a sua vila e ter uma vida mais ou menos normal.
— Sim… eu vou com eles…
Tsunami assentiu e deu de ombros, como se não se importasse. Mas ela não conseguia enganar ninguém. Parecia estar segurando o choro.
— Haku-sama… — Natsu murmurou, com o rosto triste, como se toda sua felicidade tivesse sido sugada – podemos conversar?
Haku assentiu, sentindo os seus membros ficarem repentinamente rígidos.
***
Logo que chegaram do lado de fora da casa, antes que Haku sequer dissesse qualquer coisa, Natsu o prensou, violentamente contra a parede. Haku sentiu o céu cérebro bater contra o seu crânio e deixou escapar um pequeno gemido de dor.
— Você poderia ser um pouco mais-
— Me leve com você. – Natsu o cortou, com os olhos amarelos brilhando de determinação.
Haku apenas franziu as suas sobrancelhas.
— Do que você está falando?
— Eu quero que me leve com você.
— Ah… porquê?
— Porque… — ela mordeu o seu lábio inferior, e pareceu pensar um pouco – porque eu não me sinto bem aqui.
— O que você está dizendo?
— Não me entenda errado. – Ela murmurou, apertando Haku mais firmemente contra a parede — Eles são amigáveis e eu realmente aprecio a companhia de todos eles mas… mas eu não sinto que o Nami no Kuni seja o meu lar.
— E porque Kirigakure?
— Não é óbvio? Não me importa realmente o lugar… desde que… — Ela baixou o seu tom de voz, passando a um sussurro. Mas os seus narizes estavam tão perto um do outro, que na mesma Haku conseguiu ouvir — Desde que você esteja lá…
— O que você… — Mas depois Haku arregalou os seus olhos, como se entendendo todos os significados daquela simples frase – quando?
Ela deu de ombros, como se não importasse.
— Desde aquele dia. Quando você me salvou.
Haku fez uma expressão confusa, como se estivesse tentando se lembrar de algo. Mas depois os seus olhos se arregalaram. Os fios de cabelos ruivos, a pele bronzeada e os olhos âmbares… é, ele a conhecia…
— Entendo… então era você…
— É. Era eu. Então…?
— Eu… eu não posso.
— Porquê?
— Porque… porque… — mas ele realmente não fazia ideia do que dizer — é necessário realmente ter um motivo?
— É claro que é… — Natsu olhou pra ele, como se ele fosse louco. Mas depois relaxou os ombros — Esse país é uma lembrança constante do quanto a minha vida é… bem, inexistente e insignificante. Você sabe o que é isso? Se sentir como se… como se a sua vida não importasse?
Haku ficou em silêncio. É, ele sabia muito bem.
— Olhe, eu entendo as suas razões, — Ele falou, depois de um longo minuto de silêncio — mas porque exactamente eu? Tem aquele garoto, Naruto…
— Não me entenda errado. Eu até acho que ele é uma boa pessoa e tudo, mas… não gosto muito dele. Aquele seu olhar gélido e intenso me dá arrepios.
— É… a mim também. – Haku concordou, parecendo segurar um sorriso.
— Onde houver pessoas que você ama, esse é o lugar que você pode chamar de lar.
— O quê?
— Isso é algo que a minha mãe costumava me dizer. Costumava.
— Ela…
— Está morta. – Natsu murmurou — Assim como o meu pai.
— Como?
Ela deu de ombros. Como se não importasse realmente, embora os seus olhos tenham ficado tristes.
— Nós tínhamos uma vida simples sabe… não éramos ricos, mas éramos felizes… nós nunca passamos fome. O meu pai caçava na floresta, e eu ajudava a minha mãe na nossa pequena horta… quando chegava o inverno, e a nossa pequena plantação ficava coberta de neve, nós vendíamos, em uma aldeia vizinha, os produtos que havíamos colhido e, durante a fria noite, nós nos sentávamos na nossa pequena mesa e comíamos a carne que papai havia caçado, e mamãe havia carinhosamente preparado… — Ela ficou com um olhar nostálgico, inconsciente das lágrimas que começaram a escorrer pelo seu rosto, ela sentiu as lágrimas salgadas deslizarem para os seus lábios, e achou, por um instante, que fosse o sabor dos pratos que a sua mãe preparava – Nós éramos… realmente felizes… até aquele dia… eu estava em casa com a minha mãe. Ela estava me ensinando a tricotar um cachecol. Quando ouvimos um barulho na porta. A minha mãe sorriu pra mim, e foi abrir a porta, reclamando do quanto as botas do papai iriam sujar a casa com neve. Mas quando ela abriu a porta, não era o meu pai que estava por detrás dela. Mas sim dois assustadores homens. Eu me lembro de ouvir ela gritando para eu fugir, mas eu apenas fiquei congelada. Como uma idiota. Eu me lembro de ouvir eles dizendo que "haviam tirado sorte a grande e que ganhariam um bom dinheiro vendendo duas descendentes daquele poderoso clã"… enfim… eles agarraram a minha mãe pelos cabelos. Ela esperneou e gritou. Eles disseram para ela calar a boca e ela devia ter obedecido… talvez se ela tivesse obedecido… eles não teriam…
— Natsu, já chega… – Haku murmurou, colocando as mãos nos ombros de Natsu, a sua expressão estava triste, como se ele estivesse a ponto de chorar. Ela piscou os seus olhos âmbares, como se saindo de um transe, mas ela apenas balançou a sua cabeça.
— Eu gritei, até a minha voz ficar rouca… chamando pelo meu pai, mas eles apenas gargalharam e disseram que haviam cortado a cabeça dele. A minha mãe, eu acho que, provavelmente tentando vingar o meu pai, pegou a tesoura que estava por cima da mesa e enfiou na perna de um dos homens, ele urrou de dor, e a levantou, como se fosse uma boneca de trapos, e a arremessou, violentamente, na parede. Ela grunhiu algumas vezes, como um cachorro ferido, e não mais se mexeu... Eu imediatamente senti tanto ódio… tanta raiva… e os minutos seguintes realmente foram confusos… até hoje eu continuo não compreendendo o que realmente aconteceu… a única coisa de que me lembro, é do cheiro da morte e do sangue… a casa ficou completamente manchada de sangue. E o corpo dos dois homens, jaziam mutilados no chão, mergulhados em uma poça de sangue… eu corri. Corri até as minhas pernas incharem. Vaguei por dias. Confusa, sedenta, faminta e perdida. Antes de ser encontrada por uns outros homens, esses simplesmente me venderam para o nojento do Gatou…
— Natsu… eu sinto muito. – É a única coisa que ele conseguiu dizer.
Ela deu de ombros. Como se não importasse.
— Tudo bem… esse tipo de coisa… acontece… – Ela sorriu, tristemente. Mas depois pareceu se lembrar de algo – olhe… o sol já está se pondo…
***
Enquanto caminhavam em direcção a floresta do País das Ondas, Naruto e Kakashi não pareceram ficar surpresos com a presença de Natsu. Mas mesmo assim, Haku decidiu se explicar:
— Ela vai comigo. – Foi tudo o que disse, mordendo o seu lábio inferior, e colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, como costumava fazer quando estava nervoso.
Kakashi apenas estreitou os olhos e depois voltou a ler o seu livro pornô. Como se não se importasse. E Naruto apenas deu de ombros, com um sorriso estranho no rosto e os seus olhos… bem… Haku imediatamente se lembrou do que Natsu falara: Eles eram escuros e intensos. Como o céu nocturno, ou o mar em uma noite de inverno. De certa forma, assustadores. Ele parecia sempre saber mais do que aparentava. Quase como se espiasse dentro dos seus corações e extraísse todos os seus segredos e sentimentos…
Haku afastou esses pensamentos, quando chegou à escura e fria clareira na floresta do País das Ondas. O sol já há minutos se fora, e a floresta estava mais escura e fria que o costume. Uma leve e branca névoa pairava sobre as árvores, produzindo silhuetas escuras e pesadas. Tornando toda aquela cena mais assustadora e fantasmagórica do que, naturalmente, já seria. A figura de Kaminari, envolta por névoa, parecia muito mais assustadora que o costume.
— Você está atrasado. – A sua voz era gélida e possuía um leve tom de ameaça.
— Eu sei. – Haku murmurou — Me desculpe.
— Eu sou um homem muito ocupado, garoto. Odeio que me façam perder o meu precioso tempo…
— Ele já pediu desculpas… — Naruto murmurou, gélido como a névoa.
— Tsc, — Kaminari apertou os olhos por detrás da máscara, como se imaginando que gosto o chakra do loiro teria… – vamos logo ao que interessa: O que você decidiu?
— Eu vou com vocês… mas antes tem uma coisa que eu quero pedir…
— Tsc, além de atrasado, ainda tenta fazer exigências. Mas tudo bem. – Kaminari murmurou, a voz soando rouca e profunda pela máscara — O que é?
Haku apontou para Natsu, ela estava entre Kakashi e Naruto. Kaminari apenas apertou os olhos sob a máscara. Não tinha reparado na garota.
— Ela vai comigo…
O oinin estalou a língua.
— Você sabe que eu não posso permitir isso. Ela é…
— Ela é o quê? – Haku murmurou, com os olhos tão gélidos e duros quanto uma imponente montanha de gelo. Firme. Inabalável. Poderoso.
O oinin não pareceu se abalar.
— Uma desconhecida. Isso é o que ela é. Eu não posso permitir que ela entre na nossa vila. Lamento. Simples e chatos protocolos burocráticos.
— Oh… você vai deixá-la ir. Ou então, eu não vou.
— O quê? Não seja estúpido garoto.
— Eu li o pergaminho. A sua missão é me levar de volta para Kiri. Mas se por acaso eu recusar… bem…
— Eu podia muito bem matá-lo aqui sabe… eu podia sugar cada partícula do seu Chakra e cortar a cabeça do seu corpo ressecado…e dizer para a Godaime que já o encontrei morto, assim como o seu mestre. — Kaminari murmurou e pareceu realmente ponderar essa hipótese – Sim… eu podia fazer isso.
— Mas você não vai. – Naruto murmurou, com os olhos tão frios e escuros quanto o mar gelado e um sorriso no rosto, exibindo os seus caninos afiados e proeminentes – Você não vai. Não se quiser manter a sua ficha perfeita…
— É, eu não vou. – Ele murmurou, e pela primeira vez a sua voz parecia irritada – Tsc, você tem sorte garoto. Essas mudanças de políticas… se Yagura-Sama ainda fosse o Mizukage… mas nada é como queremos, né? Pois bem, ela pode vir…
Eles, naturalmente, sorriram aliviados. Natsu se virou para Naruto e Kakashi.
— Bem… então, eu acho que isso é um adeus não? – Ela sorriu, hesitante.
Kakashi assentiu e deu um breve sorriso, mas depois voltou a puxar o seu livrinho erótico.
— É… — Naruto murmurou, com uma voz rouca e profunda – é um adeus…
— Obrigado… — Haku murmurou – Naruto…
Naruto deu de ombros, com um sorriso no rosto. Mas depois ele pareceu se lembrar de algo.
— É mesmo… — Ele realizou um selo de mão e invocou um pergaminho. – Tome… nesse pergaminho está o que restou da Dantou Kubikiriboucho.
— Obrigado.
— É para isso que os amigos servem, não é? E já agora… — Naruto se virou para Natsu – como se chamava a sua mãe?
— O quê? – Ela perguntou, depois de segundos encarando Naruto.
— O nome da sua mãe…
— Uzumaki Tsuki…
— Entendo… — Naruto murmurou, e pareceu se controlar para não sorrir. Tobirama automaticamente arregalou os olhos. Mas decidiu não se pronunciar.
— Naruto, esse é… — Haku murmurou, surpreso. E até Kakashi desviou o seu olhar pra a conversa, mas depois voltou para a sua literatura pornô (a menos que todos naquela floresta tirassem a roupa, o seu livro era muito mais interessante).
— Sim… é o nome da minha mãe. – Naruto falou, com um aceno. — Então… isso nos torna mais ou menos parentes, não?
— É… — Ela murmurou, com uma expressão muito engraçada no rosto. Choque. Surpresa. Alegria? Naruto não sabia dizer – Mais ou menos isso…
— Oe, crianças… se eu me importasse, eu acharia todo esse reencontro muito emocionante. Mas eu não me importo. Então… acho melhor me seguirem. Nós temos um horário a cumprir. – Kaminari murmurou, dando as costas e começando a caminhar para dentro da Névoa.
— Bem… — Natsu murmurou, sorrindo — digam adeus à Tsunami-Sama e ao Inari-Sama por mim, está bem? – Naruto assentiu. Natsu olhou para ele hesitantemente, mas depois deu de ombros e envolveu os seus braços no pescoço de Naruto, o abraçando. – Adeus… Naruto-nii.
Depois de dois segundos, Natsu o largou e sorriu, antes de correr em direcção a branca e espessa névoa. Haku e Natsu agitaram os braços algumas vezes, em um gesto de despedida, antes de desaparecerem, muito lentamente, por entre a espessa Névoa.
— Eu vou sentir falta deles… — Naruto murmurou, com um sorriso triste no rosto.
— Oh… você vai vê-los muito em breve… — Tobirama murmurou, e a Névoa tornou o seu rosto mais marcado, fantasmagórico, misterioso e sério do que o costume. Naruto apenas arqueou as suas sobrancelhas… mas depois deu de ombros…
"Shiren Shōkan, hein… — O loiro pensou, franzindo ligeiramente o cenho — isso é alguma espécie de Jutsu? "
***
O dia seguinte amanheceu cinzento, e o café da manhã estava sendo um tanto silencioso. A casa tinha um quê de adeus. E por mais que Naruto gostasse do País das Ondas, ele já estava com um pouco de saudades de Konoha. Mas ele decidiu não mencionar aquilo. Tsunami estava um tanto deprimida com tanta gente partindo.
Quando estavam terminando de comer, eles ficaram surpreso ao ver o Uchiha entrando na sala. Ele murmurou um bom dia, mas todo mundo estava demasiado chocado para lhe responder. Depois de uns segundos, todos pareceram acordar do transe.
— Sasuke-Kun! – Sakura gritou, voando no Uchiha. Em uma outra ocasião, Sasuke poderia até ter desviado. Mas ele ainda estava muito machucado. Ele só pôde observar, horrorizado, enquanto Sakura o abraçava, como se ele fosse um ursinho de peluche. O Uchiha gemeu de dor. E Naruto apenas segurou um riso.
— Sakura… me… solte… — Sasuke gemeu, parecendo a ponto de chorar.
— Gomen, Sasuke-Kun! – Ela o soltou, corando.
— Fale… mais… baixo… — Ele gemeu, colocando a mão na cabeça — parece que enfiaram uma Kunai no meu ouvido…
— Hai! – Ela gritou. E Sasuke ficou com lágrimas nos olhos.
— É… eu conheço essa sensação… — Naruto falou, assentindo, enquanto passava manteiga no seu pão. A manteiga derreteu quando em contacto com o pão tenro e quente. Naruto mordeu o pão e deu um gole no seu suco de laranja. Aquilo estava muito bom. Ele mastigou algumas vezes, antes de perguntar – como está se sentindo, Sasuke-Kun?
O Uchiha torceu o rosto, ao reconhecer o sarcasmo por detrás daquela frase. Mas ele apenas puxou uma cadeira e se sentou, decidido a não falar nada, só pioraria a sua dor de cabeça.
— Naruto-Sensei… — Inari murmurou, encarando sem vontade, o seu café da manhã – quando é que vocês vão embora?
Naruto olhou atentamente para Inari, antes de suspirar e dar uma mordida no seu pão.
— Amanhã… — Naruto murmurou, ainda mastigando – Amanhã.
Naruto sentiu os olhos de Sakura sobre si, e pela expressão irritada no rosto dela, ele sabia que ela estava se controlando para não fazer um comentário sobre os seus modos à mesa. Quem se importa?!
— Entendo… — Inari murmurou, com o rosto triste como se tivessem sugado toda sua felicidade.
E então a atmosfera ficou, novamente, pesada. Tsunami deu um sorriso triste, antes de empurrar a bandeja com pães para Inari.
— Coma… — Ela murmurou.
— Eu… não quero – Ele afastou a bandeja.
— Inari – Naruto falou, empurrando, novamente, a bandeja para ele – Coma…
— Hai – Inari murmurou, depois de uns segundos de silêncio. Ele deu uma mordida, tinha um gosto triste…
Quando todos terminaram de comer, Tsunami pediu pra Inari e Naruto recolherem a loiça. Depois de eles levarem a última pilha de loiça pra cozinha, Naruto perguntou:
— Ei, Inari, você quer fazer uma coisa divertida?
— Hai… — Ele murmurou, em um falso entusiasmo.
Assim, Naruto o levou para as traseiras da casa e lhe entregou um pequeno papel, antes que Inari perguntasse, Naruto lhe explicou que aquilo servia para determinar o elemento da pessoa. E Naruto não conseguiu evitar que um sorriso rasgasse o seu rosto, quando viu o papel se molhar. Suiton.
— Ele é igual a você… — Tobirama murmurou, invisível como sempre. E Naruto teve de se controlar para não assentir.
— Muito bem, Inari. – Naruto falou, afagando o cabelo de Inari — Esse é um bom elemento…
— É mesmo, Sensei? – Inari fez uma expressão engraçada de dúvida.
— Oh sim, sim. – Naruto assentiu, com um sorriso no rosto – É o meu elemento preferido…
E pela primeira vez naquele dia, Inari sorriu. Um simples e singelo arquear dos lábios. Mas era muito mais precioso e significativo que o maior dos sorrisos.
As horas seguintes se passaram tão rapidamente que até pareceram ser minutos, Naruto apenas se concentrou em ensinar alguns Jutsus básicos de Suiton para Inari e foi realmente surpreendente a velocidade com que ele aprendia, mas Naruto também dava crédito ao clima do Nami no Kuni, aquele País já era naturalmente muito frio e úmido e, ainda por cima, eles viviam sobre o oceano. Tinha todos os factores para treinar Suiton. Durante o treino, nenhum deles mencionou o evidente fato de que aquele era o último dia e quando eles se aperceberam, a leve brisa matinal fora substituída por uma névoa espessa ao ponto de gelar os ossos. Eles resolveram entrar. Mesmo a tempo do jantar.
***
Naruto não soube exatamente quando, ou como (ou porque), mas a próxima coisa que ele se apercebe, é que estavam na ponte recém-construída do Nami no Kuni. Como exatamente? Ele não sabia. Não o crucifiquem. Ainda eram sete horas, e estava muito frio e escuro, mas sobretudo frio. E ele ainda estava com sono (e um pouco lerdo). Mas não com fome, ele deve ter comido alguma coisa… embora não se lembrasse…Voltando ao assunto…
— Bem, obrigado por tudo… — O senhor Tazuna falou, sorrindo, o que acentuou as rugas do seu envelhecido rosto – sem a vossa ajuda nós não teríamos conseguido terminar a ponte.
Kakashi coçou a sua nuca, com um sorriso brincalhão nos olhos.
— Não precisa agradecer, Tazuna-san. Nós só estávamos cumprindo a nossa missão.
— Naa… — O construtor de pontes balançou a sua cabeça, ainda sorrindo — eu tenho certeza de que se fosse um outro time, eles provavelmente teriam abandonado a missão logo que soubessem que nós não tínhamos dinheiro… por isso, eu realmente agradeço…
O time sete assentiu. E então Naruto pareceu se lembrar de algo.
— Ah, já ia me esquecendo… — Naruto realizou um selo de mão e invocou um pergaminho. Sob o olhar atento dos presentes, ele quebrou o lacre e, em uma nuvem de fumaça, surgiu um baú de madeira – Eu encontrei isso no castelo de Gatou. Nele está todo o dinheiro que Gatou ganhou extorquindo e monopolizando os vossos fundos. Peguem é vosso…
O senhor Tazuna olhou para ele com lágrimas prateadas nos olhos.
— Naruto-San… eu… — Ele fungou, esfregando os olhos — eu estou sem palavras… você tem um grande coração… eu nem sei como agradecer…
Naruto sorriu timidamente, ao ver o olhar nos rostos marcados dos habitantes do Nami no Kuni. Nenhuma palavra do mundo poderia descrever todos aqueles sentimentos. Agradecimento. Amor. Admiração. Reconhecimento. E mais um milhão de outras coisas.
— Não se preocupe. Eu não preciso desse dinheiro pra nada, além do mais… — Os olhos azuis-escurecidos de Naruto pareceram brilhar por um instante, como dois faróis, mas logo voltaram ao costumeiro azul-marinho – eu peguei uma outra coisa antes de destruir o castelo…
O senhor Tazuna assentiu, esfregando os olhos.
— Está bem… — Ele abriu o baú e quase desmaiou pela quantidade de ouro e dinheiro. Mais dinheiro do que ele alguma vez viu nos seus sessenta anos de vida. Ele teve a impressão de que, seria necessário ele renascer umas cem vezes para acumular metade daquele dinheiro. Por um instante, os seus olhos velhos e castanhos brilharam de malícia. Mas ele logo balançou a cabeça, como se espantando pensamentos ruins. — Por favor, tomem.
Ele jogou, ao todo, dez moedas de ouro no ar. Kakashi as pegou, com um olhar pensativo e distraído.
— É… essas moedas devem cobrir os custos da missão… — mas depois tratou de sorrir – obrigado, Tazuna-San.
Sasuke soltou um resmungo.
— Vamos logo…
Kakashi assentiu, e fez sinal para que os seus alunos o acompanhassem. Mas antes que eles dessem um passo sequer, a figura pálida e chorosa de Inari surgiu do aglomerado de pessoas.
— Naruto-Sensei! Eu… eu… — Inari murmurou, tropeçando nos próprios pés e com um trilho de lágrimas escorrendo pelo seu rosto – Obrigado…
Naruto sorriu, e colocou a sua mão sobre a cabeça de Inari.
— Eu é que agradeço… — Ele balançou a sua mão, afagando os cabelos de Inari em uma grotesca demonstração de afecto – foi bom conhecer você… tolo aprendiz…
Inari soluçou ainda mais.
— Na-Naruto-Sensei!
Naruto aumentou o seu sorriso, e remexeu as suas vestes, puxando um pequeno pergaminho.
— Tome… — Naruto estendeu o pergaminho para Inari – tem alguns Jutsus interessantes aqui… eu quero que você continue treinando…
Inari passou o seu braço sobre os seus olhos, enxugando as suas lágrimas, e recebeu o pergaminho, com um aceno.
— Hai… — O garoto murmurou, com um brilho intenso e determinado nos olhos vermelhos e inchados – eu prometo Sensei. E quando nos vermos outra vez, nós vamos lutar!
— É claro que sim…
— Oe, vamos logo! – Sasuke resmungou, novamente. Como era hábito, Sakura também assentiu, concordando.
— Bem… — Naruto murmurou, em um tom rouco, profundo e carregado de melancolia— adeus…
Inari assentiu. E então, ele pôde observar, com os olhos estreitados e ardendo, o time sete começar a caminhar, para longe da ponte, para longe do País das Ondas e, consequentemente, para longe das suas vidas…
— É mesmo… — O senhor Tazuna murmurou, com os olhos brilhantes e saudosos ainda fixos nas silhuetas longínquas do Time sete – qual será o nome da ponte?
Houve um burburinho entre os habitantes.
— Eu acho que… — Tsunami murmurou, com um olhar nostálgico e triste no rosto — sei lá, o nome deve nos lembrar porque razão nós lutamos tanto… esse garoto, Uzumaki Naruto. Ele se esforçou tanto por nós… e se a ponte se chamasse " A ponte do grande Naruto"?
Houve um burburinho de aprovação. Mas Inari apenas balançou a sua cabeça, e antes que se apercebesse, ele sentiu aquelas palavras saindo da sua boca.
— Não… — Ele corou fortemente ao ver que havia atraído toda a atenção para si, mas mesmo assim não vacilou — Naruto-Sensei odiaria esse nome…
— Então o que você sugere, Inari-Chan? – Tsunami perguntou.
— Eu acho que… — Inari pareceu pensar — A ponte do Deus do Trovão soaria bem melhor…
— Porquê? – Tazuna perguntou. Inari deu de ombros, e murmurou, com uma voz que não parecia ser sua. Era rouca e profunda, como se estivesse vindo das profundezas do infinito e gélido oceano.
— Não é óbvio? É porque nós fomos salvos por um Trovão… Um poderoso e dourado Trovão, deslizando por entre as nuvens cinzas do céu…
— É… é um bom nome…
***
Naruto parou de caminhar, e sentiu, muito lentamente, um sorriso nascendo no seu rosto. Mesmo à aquela distância, os seus ouvidos aguçados haviam capturado, aos sussurros, a conversa entre os moradores do Nami no Kuni.
"Ponte do Deus do Trovão, hein? – Naruto pensou — É… é um bom nome"
— Naruto… – Kakashi murmurou, com um olhar intenso e interrogativo sobre o gennin — porque você parou?
Naruto pareceu despertar.
— Ah, nada. Continuemos.
Naruto observou Kakashi olhar para ele por um instante. Os olhos intensos e estreitados, como se estivesse tentando ler a expressão desinteressada no seu rosto. Mas depois de apenas alguns segundos, Kakashi desviou o olhar, e voltou a caminhar (na verdade, estava mais para mancar) pela estrada de terra.
— Naruto você deve ter mais cuidado…
O loiro olhou de soslaio para Tobirama, flutuando sobre o seu ombro. Naruto apenas tentou transmitir pelos olhos, o que a sua boca não podia pronunciar: Do que você está falando, Sensei?
Tobirama pareceu ter entendido.
— É óbvio que ele está vigiando você. – O Nidaime murmurou, embora ninguém, além de Naruto, estivesse o ouvindo — Provavelmente à mando do Sandaime.
Naruto apenas deu de ombros, como se não se importasse. Embora um sorriso triste e pensativo tenha rasgado o seu rosto. Com que então, o velhote está de olho em mim…
— Vamos parar… — A voz grave de Kakashi o trouxe de volta à realidade. E Naruto imediatamente sentiu a sua mão ir até a sua bolsa Shinobi, pronto para sacar uma Kunai. Mas ele logo se acalmou. Não havia nenhum único Chakra nas redondezas. Tampouco inimigos à vista.
— O que foi Sensei? – Sakura perguntou.
— Eu preciso descansar… — Kakashi murmurou, parecendo ligeiramente constrangido — a minha perna está latejando.
E aquilo era realmente verdade. Ao longo do caminho, o rosto do Jounnin estava tenso e o seu andar um tanto mecânico e estranho. Era verdade que o médico do Nami no Kuni tinha feito um bom trabalho, mas aquele era um ferimento Shinobi. Um ferimento feito com chakra. Só um Ninja médico conseguiria curá-lo completamente.
— Está bem… — Naruto murmurou – mas eu não acho seguro nós ficarmos nessa estrada aberta… devemos ir para um local mais fechado.
Kakashi assentiu, e fez sinal para que eles o seguissem. Eles adentraram a floresta que os cercava e montaram um acampamento provisório em uma clareira. Eram dez horas. E o sol estava por detrás de pesadas nuvens escuras, levando o céu a um tom cinza. Tudo aquilo, somado ao facto de as copas das árvores cobrirem fortemente aquela floresta, fazia com que aquela clareira fosse mais fria e escura que o normal.
Kakashi se recostou em uma árvore e passou a respirar pesadamente.
— Nós devíamos ter ficado mais uns dias lá, Sensei… — Sasuke murmurou, o rosto pálido e inexpressivo. Ele não estava muito melhor que Kakashi. Tendo acordado de um ferimento fatal há apenas um dia.
— Não. – Kakashi murmurou — Nós já estamos muito atrasados.
— Atrasados para o quê, exatamente? — Sasuke resmungou. Kakashi não respondeu. Mas Naruto sabia. O Exame Chunnin estava prestes a começar.
Depois de apenas um minuto sentado, Naruto começou a se sentir inquieto. Ele queria se mover. Fazer alguma coisa. Correr pela floresta. Sentir o ar gélido batendo no seu rosto. Mas o gemido de Kakashi tirou esses pensamentos da sua cabeça.
Naruto fechou os olhos e respirou profundamente. Era fim de Setembro, e o ar estava realmente frio. Com os seus ouvidos aguçados, ele conseguia ouvir, perfeitamente, desde o som melodioso das folhas amareladas caindo dos ramos das árvores e sendo arrastadas pela gélida brisa de Outono, assim como o som das sandálias de Sakura quebrando a grama apodrecida e amarelada, a medida que caminhava, nervosamente, ao redor daquela clareira. Era um som irritante.
Sentindo que iria cometer suicídio se ficasse mais um tempo sentado, sem fazer absolutamente nada, Naruto se levantou e começou a caminhar até Kakashi.
A forma fantasmagórica de Tobirama flutuou atrás de si, com um olhar confuso no rosto fantasmagórico.
— Kakashi-Sensei, mostre. – Naruto murmurou, encarando o Jounnin. Kakashi olhou para ele, confusão nítida em seu rosto. – As moedas de ouro.
Kakashi franziu o cenho e depois fez uma expressão concentrada. Os seus olhos negros acenderam intensamente, como carvão, a medida que Kakashi encarava o rosto inexpressivo de Naruto. Mas depois de apenas três segundos, com o que Naruto julgou que fosse um suspiro de desistência, Kakashi remexeu a sua bolsa e entregou o pequeno saco com as moedas para Naruto.
— O que você vai fazer com elas?
Naruto deu de ombros.
— Nós estamos próximos da fronteira do País do Fogo. E se eu bem me lembro, há um posto de cobrança nas redondezas. Eu vou…
— Entendo. Você vai reclamar o prémio pelas cabeças daqueles dois nukenins de Kiri, literalmente.
Naruto arregalou os seus olhos. Ele havia se esquecido completamente daquilo. Mas ele disfarçou, com um aceno de cabeça.
— É verdade. E também aproveitarei para trocar essas moedas por notas de Ryou.
— Está bem. – Kakashi murmurou, com um rosto pálido e pensativo – Mas, por favor: Tenha cuidado. Esses postos de cobranças costumam ser bem traiçoeiros.
Naruto acenou, e entregou uma Kunai para Kakashi.
— Qualquer coisa, é só infundir Chakra nessa Kunai.
— É. Eu sei… – Kakashi murmurou, com os olhos apertados, saudosos e analíticos no estranho selo cravado no cabo na Kunai aparentemente comum nas suas mãos – Eu sei…
Naruto colocou o saco com as moedas de ouro no bolso do seu moletom e deu um sorriso, antes de desaparecer, em um flash verde e dourado.
Ele correu. Correu, tão veloz, ao ponto de as árvores se tornarem apenas borrões esverdeados. Ele sentiu um sorriso animalesco rasgar o seu rosto e os seus olhos acenderem, brilhantes como o céu. A sensação do ar gélido batendo no seu rosto… era simplesmente indiscritível e rejuvenescente… e na sua opinião, apenas comparável à visão do céu alaranjado enquanto o sol se punha sobre o mar. Enquanto o ar do Nami no Kuni era salgado e tinha o sabor da triste melancolia, o ar do País do Fogo tinha um cheiro e sabor diferente. Algo que o lembrava à orvalho e cinzas. Esse cheiro começava, muito lentamente, a se impregnar na sua pele, como um perfume. Não… era melhor do que qualquer perfume. Naruto aspirou, profundamente, o ar. Era o cheiro de casa.
Depois do que pareceu ser apenas um minuto, ele viu a construção de concreto se erguendo no horizonte esverdeado da floresta.
Tinha uma forma rectangular. Tamanho médio. Nem muito grande, mas também nem muito pequeno. As paredes eram feitas de um concreto cinza-escuro e pareciam ser um tanto deterioradas e antigas. Não era uma construção nem um pouco complexa. Era simples e muito monótona.
— Eles podiam remodelar esse lugar…
— É. – Tobirama murmurou, e Naruto quase levou um susto. Ele às vezes se esquecia que Tobirama era (muito) mais rápido e silencioso que ele.
— Hum… vamos.
Naruto circundou o edifício com passos silenciosos, não havia nem uma única janela. Os seus olhos se apertaram quando ele viu o que devia ser a porta. Era tão monótona quanto o resto do edifício. Ele apertou os seus dedos ao redor da maçaneta. Estava muito gélida e magoava os seus dedos, como se estivesse segurando um cubo de gelo. Naruto rodou a sua mão e ouviu-se um click indicando que a pesada porta de metal estava aberta.
Logo que Naruto entrou por aquela porta, ele sentiu os seus pêlos se eriçando sob o seu grosso moletom. Estava frio, como se estivessem no interior de um congelador. Ele sentiu os seus músculos ficarem rígidos e o seu olhar escurecer ao ponto de ficar quase negro. A sua mandíbula se cerrou, formando uma fria linha entre os seus lábios. A medida que os seus pés se arrastavam pelo longo e escuro corredor, ele sentia que o ar esfriava cada vez mais.
Naruto afrouxou os seus passos. Estava diante de uma outra porta. Ele olhou sobre a sua cabeça. O fantasmagórico Tobirama assentiu, como se estivesse o incentivando. Com a mão tremendo pelo frio, Naruto empurrou a porta. Era uma escada.
Quando os seus pés se afundaram no primeiro degrau daquela escada de metal enferrujado, ela rangeu agudamente, e a porta atrás de si se fechou, provocando um barulho que ele achou que se ouviu por todo edifício. Naruto se controlou para não praguejar.
— Quem está ai?!
Naruto tremeu, involuntariamente, quando ouviu aquela voz grave e profunda. Mas ele logo deu de ombros. Não é como se ele quisesse entrar despercebido. Com esse pensamento, ele terminou de descer as escadas. Rodou os seus olhos pelo local. Ao que tudo indicava, ele estava numa espécie de morgue. Tinha um cara grande e careca, usando um jaleco e uma máscara branca e com um bisturi na mão, dissecando, o que parecia ser o corpo de um homem.
— Quem é você? – O homem perguntou, olhando fixamente para Naruto. O seu olhar era duro e penetrante.
Pela voz, Naruto reconheceu que aquele era o cara que havia gritado. Ele demorou um bom tempo para entender que ele sequer tinha falado, o seu olhar ainda estava fixo no corpo aberto sobre a mesa fria e de metal.
— Quem é você?! – O homem, perguntou novamente. E dessa vez Naruto sentiu um leve traço de irritação na sua voz.
— Uzumaki Naruto… — Ele murmurou, não queria irritar aquele homem. Ele devia ter um pouco mais de 2 metros de altura e era duas vezes mais largo e forte que um homem comum, além do mais, Naruto sentia que ele tinha um chakra mais ou menos poderoso. Não que Naruto estivesse com medo, longe disso, apesar de aquele homem parecer um pouco forte, não daria muito trabalho arrancar a sua cabeça. Seria uma luta, no mínimo, interessante. Ele só não queria prolongar a sua estadia naquele edifício. Muito deprimente e frio para o seu gosto.
Ele observou o homem pousar o seu bisturi na mesa e arrancar a sua máscara. E Naruto desejou que ele a colocasse de volta. O seu rosto era entalhado de cicatrizes grossas e profundas, e o que devia ser a sua boca era um emaranhado confuso de cicatrizes e pontos, e faltava um pequeno pedaço do seu nariz. Naruto sentiu uma pequena fagulha de respeito por aquele homem. Para escapar de todos aqueles ferimentos — que certamente deveriam ser fatais — quão forte devia ser a vontade de viver daquele homem?!
— Uzumaki… — Ele murmurou prazerosamente, com os seus lábios grotescos repuxados no que devia ser um sorriso insano. E Naruto teve a plena certeza de que ele sabia sobre o seu clã. – Bem… a que se deve essa honra?
Naruto levou um bom tempo para responder, o seu cérebro ainda estava pensando no tom incrivelmente doentio na voz daquele homem.
— Eu quero trocar umas moedas de ouro – O homem assentiu, com os olhos brilhando de malícia – e também… reclamar a recompensa pela cabeça dos irmãos demónios…
— Os Nukenins de Kiri? – Naruto assentiu, com uma expressão de desinteresse que, certamente, deixaria Kakashi bastante orgulhoso — Certo… mas só pra você saber, é necessário ter alguma espécie de prova de que você realmente os matou. Isso se você tiver, é claro.
Naruto fingiu não notar a descrença na voz daquele homem, e apenas tratou de repuxar os seus lábios, exibindo os seus caninos fortes e proeminentes, no que ele sabia ser o seu melhor sorriso frio, e ele quase festejou ao ver o olhar daquele homem tremer pelo que pareceu ser apenas um segundo, antes de voltar ao costumeiro olhar penetrante.
Naruto realizou uma rápida sequência de selos, e em uma nuvem de fumaça branca, surgiu um pergaminho.
— Onde? – Naruto perguntou, a voz saindo em um sussurro profundo e frio. Ele gostou do quanto soava poderoso.
O homem arrastou uma outra gélida mesa de metal até o centro da morgue.
— Aqui…
Naruto colocou o pergaminho sobre a mesa, e o abriu. Com um único selo de mão, surgiram as duas cabeças decepadas dos Irmãos demónios.
— Hum… — O homem murmurou, cutucando e analisando as cabeças dos nukenins, com um olhar intenso e concentrado – devo dizer que as cabeças estão em um excelente estado de conservação… o cheiro e a consistência, muito bons… — ele abriu a boca de uma das cabeças e tocou a ponta da língua – … rigidez muscular deveras avançada…
Tobirama bufou.
— Esses médicos… loucos. Simplesmente loucos.
Naruto deu um quase imperceptível aceno de cabeça.
— Então…? – Naruto perguntou.
— Ah, sim… tudo está em perfeitas condições. Eu só tenho que ir buscar o dinheiro. Espere aqui.
Naruto assentiu. E pôde observar, com os olhos apertados, aquele homem abrir uma outra porta de metal, no fundo da morgue, e desaparecer das suas vistas.
— Eu odeio esse sítio. – Naruto murmura. – É muito frio, escuro e cheira a morte.
— Você está certo. Porém…
— Porém o quê?
— Ah, nada. – Tobirama murmurou, os olhos estreitados, como se estivesse tentando lembrar alguma coisa — É só que… eu não consigo deixar de pensar que tem alguma coisa errada aqui.
— É. Eu concordo com você. Eu sinto medo, só de pensar nas coisas macabras que eles fazem com os corpos. – Os seus olhos, automaticamente se moveram para o corpo dissecado sobre a mesa de metal – Simplesmente nojento.
Cerca de dois segundos depois de Naruto ter falado aquilo, a porta se abriu, e por ela saiu o grandalhão e mais dois outros homens.
— Onde está o meu dinheiro? – Naruto perguntou, com a sua voz soando mais desconfiada e irritada do que ele pretendia.
— Ah, sim… sobre isso. Tem uma coisa que eu quero perguntar… — Murmura, um dos outros homens. E Naruto imediatamente sentiu que aquele era o chefe. Como exatamente? Ele não sabia. Mas isso era algo que aquele homem simplesmente transmitia. Ele era alto, esguio e magricela. Tinha cabelos castanhos e lustrosos, e penteados para trás. Os seus olhos eram liláses e o seu rosto pálido poderia ser considerado atraente, se não fosse os lábios pintados de roxo-brilhante. Ele parecia um peixe fora de água, com o seu terno branco e os seus sapatos luxuosos e brilhantes, tudo nele gritava que não devia pertencer àquele ambiente decadente. Ele apontou um dos seus dedos longos e finos, para as cabeças dos nukenins — onde você roubou isso?
— Perdão? – Naruto sentiu os seus olhos se estreitarem.
— Tsc, você acha que eu sou idiota? – O cara de dois metros deu um passo em frente, com o rosto desfigurado demonstrando fúria — Esses dois eram Shinobis nível Chunnin. É impossível que um garotinho como você tenha os decepado.
— Shhh… Boku-Chan, se acalme… — O chefe murmurou, os lábios roxos se repuxando num sorriso lascivo – Não queremos assustar o nosso convidado, pois não?
— S-Sim Satori-Sama… — Se desculpou o grandalhão, que Naruto agora sabia que se chamava Boku. Era realmente estranho ver um cara grande como aquele tremer diante de um cara menor e, aparentemente, menos forte do que ele.
— Conforme eu ia dizendo… — Satori murmurou e estalou os dedos. Antes que Naruto entendesse o significado daquilo, ele ouviu Tobirama gritar: cuidado! E no mesmo instante em que o outro subordinado desapareceu, ele sentiu a ponta de uma espada ser pressionada nas suas costas — …onde você roubou?
Naruto cerrou os dentes, se controlando para não gritar de raiva. Ao que tudo indicava, ele ia ficar mais tempo ali. Ele suspirou, e rodou os seus olhos pelo local. Ele poderia muito bem, simplesmente matar o cara que estava atrás de si e usar a sua espada para decepar a cabeça do grandalhão. Mas ainda sobraria o chefe… ele não tinha muita certeza sobre ele, não conseguia sentir qualquer poder vindo dele. O que o deixava com duas teorias: Ou ele era simplesmente um cara rico e sádico, ou… era poderoso o suficiente para esconder o seu chakra. O que o tornava ainda mais perigoso. Naruto decidiu se explicar:
— Eu não roubei ninguém. Eu matei esses dois nukenins. E agora eu vim reclamar o que me é devido…
Satori soltou um suspiro exasperado e olhou, como se fosse a coisa mais importante do mundo, para os dedos da sua mão, e distraidamente, pôs-se a rodar o anel de caveira no seu dedo indicador. Quando ele pareceu se aborrecer, fixou o seu olhar no rosto inexpressivo de Naruto, com os seus lábios roxos se esticando, sinuosamente, em um sorriso de deboche.
— Olhe, você realmente espera que eu acredite que um garotinho bonitinho como você, decepou as cabeças de dois Nukenins de nível Chunnin? – Ele puxou a rosa que tinha no bolso do seu terno e a inspirou profundamente, com os olhos fechados em falso prazer — Se eu não me engano, você ainda deve ser um gennin.
— Sim, eu sou. Mas isso não interessa. Eu manchei as minhas mãos com o sangue desses inúteis. Eu quero a minha recompensa. E eu já estou começando a ficar irritado. E, confie em mim. Você não vai querer me irritar.
Satori gargalhou, como se estivesse rindo de uma piada realmente engraçada.
— O que um garotinho bonitinho como você pode fazer? Fazer birra até que nós o paguemos? – Os seus olhos liláses se estreitaram, como uma cobra.
Naruto suspirou.
— Confie em mim. Você não vai querer me irritar.
— Hum… eu queria acreditar em você. Eu realmente queria. Mas eu não acredito. Por isso, apenas te darei um conselho: Deixe os assuntos sérios para os adultos. Deixe as cabeças desses nukenins, e volte para casa. Caso contrário… bem, os meus subordinados não são nem um pouco gentis.
— É suposto isso ser uma ameaça? – Naruto inclinou a sua cabeça para o lado, em um gesto desdenhoso, e queimou os seus olhos.
— Talvez… — Satori murmurou, parecendo não se abalar pelo olhar brilhante e assustador no rosto de Naruto.
Como se a fala daquele homem fosse um sinal, Naruto suspirou profundamente, e deixou os seus ombros caírem, sentindo os seus músculos relaxando como gelatina… ele sorriu ferozmente, antes de desapareceu em uma nuvem de fumaça.
— Onde é que ele… — O espadachim murmurou, confuso e atordoado. Mas antes que ele sequer terminasse, Satori apontou o seu fino e pálido dedo para cima, onde Naruto estava com as sandálias coladas ao teto, de cabeça para baixo.
Ele sacou uma Kunai e caiu em direcção ao espadachim, com a ponta da Kunai apontada pra baixo. O espadachim colocou a sua espada diante do rosto, e um som irritante ecoou pela morgue quando o metal se chocou contra metal, provocando fagulhas incandescentes.
— Não o mate… — Tobirama murmurou, parecendo um pouco entediado. Naruto apenas sorriu, e usou o contacto das armas como impulso para se afastar.
Mal os seus pés tocaram o chão frio, o espadachim já estava o atacando, balançando a sua espada freneticamente, e Naruto apenas desviava, com movimentos tão suaves, confiantes e graciosos, que até beiravam o ridículo.
Em um movimento repentino, o espadachim tentou cortar o seu ombro, e Naruto simplesmente inclinou o seu corpo para o lado, desviando novamente. Mas quando a espada tocou a mesa que estava trás de si, a lâmina atravessou a mesa de metal como faca quente cortando manteiga.
E então Naruto reparou que a espada tinha um brilho esbranquiçado. Provavelmente, a espada estava revestida com Fuuton.
Uma nova tentativa de corte interrompeu os seus pensamentos. Mas Naruto desviou novamente. Está bem, ele tinha que admitir que aquele cara era bom. Porém, ele era muito mais lento que Zabuza, ou Haku.
— Onegai, fique parado. – O espadachim murmurou — Eu quero cortar você.
O sorriso macabro no rosto daquele espadachim certamente deixaria muitos assustados, mas Naruto apenas abriu um sorriso. O que fez com que aquele espadachim ficasse com um olhar irritado.
Naruto observou, o espadachim dar uma estocada, e a ponta afiada da Katana ficar há centímetros do seu coração. Naruto não desviou. Ele apenas parou o golpe, fechando a sua mão ao redor da ponta afiada da espada.
— M-mas o que… — O espadachim murmurou, horrorizado e surpreso. Ele tentou forçar a espada, mas Naruto apertou ainda mais a sua mão, não se importando com os cortes e com o sangue quente.
— Chega de brincadeira… — Naruto murmurou, e aproveitando o facto de que o espadachim estava atordoado, ele enterrou, violentamente, o seu pé no queixo do espadachim. Naruto sentiu a mandíbula daquele cara se quebrando, e o corpo dele levantar alguns metros do chão, antes de cair em uma mesa de metal. Inconsciente.
Naruto afrouxou o seu aperto na lâmina, e segurou o cabo com a outra mão. Ele observou os estragos. Os cortes e retalhos na sua mão esquerda já estavam se fechando, mas ela continuava ensopada de sangue. E seria muito pior se ele também não tivesse revestido a sua mão com chakra Fuuton. Naruto fixou o seu olhar no fundo da morgue, onde Satori o observava analiticamente. Havia um quê de interesse no seu olhar frio e lilás.
— Tsc, eu vou matar você… — Boku murmurou, e embora sorrisse, havia um brilho de fúria no seu olhar negro e insano.
— Ah, me desculpe. – Naruto murmurou, sorrindo provocativamente – Aquele era o seu namorado, não?
Boku trincou os seus dentes, com a cabeça enorme e deformada vermelha de raiva. Ele usou as suas gigantes mãos para pegar uma mesa e arremessá-la para Naruto. Mas ela apenas atingiu o chão duro e frio da morgue.
— Onde… — Antes que ele sequer terminasse, ele sentiu algo duro e pequeno, como um punho cerrado, colidir com o seu rosto. E o gosto metálico do sangue veio logo depois. Ele levou as suas mãos grandes para o nariz, tentando estancar o fluxo de sangue. Aquilo se provou um enorme erro…
Antes que Boku sequer percebesse, ele sentiu a ponta de uma espada se afundar na sua coxa. Ele urrou de dor e caiu de joelhos.
— Seu filho da puta! – Ele forçou os seus olhos a enxergarem ao redor, tentando ver alguma coisa. Mas ele só via tudo borrado e vermelho – Onde você está?!
Dessa vez, ele conseguiu enxergar quando Naruto surgiu diante de si, com o lado cortante da lâmina vindo em direcção ao seu pescoço. Mas ele sabia que não conseguiria desviar. Ele só pôde fechar os seus olhos e dar um sorriso triste. Então é assim que tudo acaba. Depois de sobreviver contra Jounnins, eu serei morto por um gennin. Um fim irónico. Mas foi realmente uma honra servir você, Satori-Sama.
Ele esperou o seu fim. Mas nada aconteceu. Ele decidiu abrir, lentamente os olhos, temendo encontrar a escuridão. E o que ele viu apenas o deixou muito confuso. Primeiro: a sua cabeça continuava ligada ao resto do seu corpo. Segundo: Satori estava diante de si, os braços abertos como se estivesse abraçando o nada. Terceiro: Naruto estava há alguns metros, esfregando as mãos na barriga, enquanto se levantava.
E então ele compreendeu. Satori o salvou. Provavelmente chutando o garoto.
— Isso doeu… — Naruto murmurou, parecendo irritado. Embora um sorriso divertido estivesse rasgando o seu rosto – Não é justo. Você devia esperar a sua vez. Mas tudo bem, eu consigo cuidar dos dois…
Naruto estava prestes a fazer um movimento, quando Satori baixou os braços e deu um passo em frente, com um sorriso forçadamente polido no rosto pálido.
— Uzumaki-San… — Ele falou, soando assustadoramente calmo – Julgo que não é necessário usarmos… à força.
Naruto franziu o cenho e apontou a espada para o rosto de Satori.
— Você me ameaçou…
O sorriso polido nos lábios roxos de Satori falhou por um instante.
— Peço que me perdoe por minhas acções anteriores. Como todo humilde homem de negócios, eu sou vítima de constantes esquemas. Por isso vivo na desconfiança. E, com todo respeito, a ideia de um simples gennin ter matado dois Chunnins era demasiado difícil de se acreditar. – Ele acrescentou rapidamente, ao ver o olhar ofendido no rosto de Naruto — Mas agora eu acredito. O Zero-chan é um antigo Chunnin de Suna e o Boku-Chan era um Jounnin em Iwa. E mesmo assim, você conseguiu derrotá-los com uma facilidade assustadora…
Naruto continuou a apontar a espada pra Satori por mais alguns instantes, mas depois soltou um suspiro, e abaixou a espada.
— Está bem. Mas eu quero o meu dinheiro… Em notas de cinquenta ryou e com juros pelos meus… ferimentos.
— Oh sim, sim. – Satori deu um aceno e voltou a cheirar, prazerosamente, a rosa no bolso do seu terno — Penso que isso é deveras… aceitável. Boku-Chan, por favor, vá buscar o dinheiro do Uzumaki-San…
— Hai Satori-Sama…
Naruto ficou realmente surpreso ao ver Boku se levantando. Quer dizer, ele tinha perfurado a coxa dele. E apesar de estar mancando, tecnicamente, ele não devia conseguir ficar em pé. Mas ao estreitar os olhos, Naruto viu que a ferida na coxa dele agora era nada mais que uma grossa cicatriz e o seu nariz tenha parado de sangrar, embora continuasse torto e ensopado de sangue. Era realmente intrigante…
Quando Boku saiu, Satori passou a rodar o anel no seu dedo como se fosse a coisa mais importante do mundo, enquanto assobiava uma música. A melodia era triste e um tanto fúnebre. Algo que cantavam durante os funerais no País do fogo.
Naruto apenas dividiu o seu tempo entre mirar os seus olhos no espadachim inconsciente – que agora ele sabia que se chamava Zero – e encarar Satori curiosamente…
Novamente, Naruto não conseguia sentir absolutamente nenhum poder vindo dele. Mas no instante em que Satori o chutou… Naruto conseguiu sentir, por uns instantes, o chakra dele explodir… num segundo ele estava parado e noutro estava o chutando… ele era rápido, e muito forte. O seu abdómen ainda doía pelo chute... Mas ele agora estava apenas curioso e intrigado. Quem era aquele homem?!
Ele olhou para Tobirama. Mas o seu Sensei, assim como ele, também tinha os olhos, fantasmagóricos e vermelhos, cravados naquele homem…
Naruto voltou à realidade quando ouviu o som da porta de metal sendo aberta. Boku estava de volta, e carregava consigo uma maleta de dinheiro.
— Coloque aqui, por favor. – Satori apontou para a mesa onde estavam as cabeças dos nukenins. Quando Boku colocou a maleta sobre a mesa, Satori a abriu e empurrou para o outro lado da mesa, onde Naruto estava – Pode conferir…
— É. Está certo. – Naruto falou, depois de contar — Dois milhões e meio.
— É claro. — Satori sorriu, forçadamente polido. Embora os seus olhos possuíssem um leve brilho irritado — Dois milhões pelas cabeças dos nukenins, e mais meio milhão como juros.
— Foi um prazer negociar consigo… Satori-San… — Naruto falou, fechando a maleta com um sorriso cruel no rosto.
— Oh, sim, sim. – Satori retribuiu o sorriso – Volte sempre.
Naruto deu um aceno, antes de desaparecer em uma nuvem de fumaça.
— Esse garoto… — Boku murmurou, com olhos furiosos – eu não gosto dele… mas enfim, o senhor conseguiu?
Satori deu um sorriso frio.
— Oh, sim. – Os seus olhos lilases foram perdendo o brilho, até se tornarem verdes – Eu consegui analisar as suas habilidades…
— Esses seus olhos são assustadores Satori-Sama… conseguir analisar as habilidades de um Shinobi só com um simples olhar… simplesmente assustador…
Satori aumentou o seu sorriso.
— Uzumaki Naruto-Kun, hein? Ele é um espécime deveras… — Ele mordeu os seus lábios roxos — tentador. Os seus olhos… o seu cheiro… a sua pele…o seu chakra. Tudo nele é… prazeroso. Eu adoraria ter o seu corpo nu em cima da minha…mesa de operações… Boku-chan, o líder da ANBU de Iwa ainda é seu amigo, não é?
— Hai, Satori-Sama…
— Pois bem, eu quero que você lhe peça para anotar um novo nome no bingo book…
Um sorriso insano rasgou os lábios grotescos de Boku.
— Com todo gosto Satori-Sama…
— Uzumaki Naruto… - Satori pensou, sorrindo friamente – eu vou ter o seu corpo…
Naruto espirrou e quase caiu da árvore.
— O que foi? – Tobirama perguntou.
— Ah, nada. Alguém deve estar falando de mim…
— Impossível. Isso não passa de idiotice.
Naruto deu de ombros. É… Tobirama devia ter razão.
Fale com o autor