Gênesis

59 Cinzas Remanescentes - ATO FINAL I – Teia de Mentiras.


Notas iniciais
Capítulo quentinho do forno. A primeira parte do fim desse arco. Valeu meu nobre leão pelo comentário como sempre!

Com uma fluidez digna de uma dançarina, Satsumi mudou novamente a postura, apontando a Katana afiada e branca como marfim para El.

Meiton — Ni no Katachi – Yami Jajimento. (Liberação da Escuridão – Segunda Forma — Julgamento Das Trevas).

Da Névoa negra que circulava sua katana, uma pantera feita de raios completamente negros ruge, antes de sair galopando o ar em sua direção.

E tão rápido quanto um peixe deslizando na água, sua gigantesca boca elétrica envolveu o frágil dorso de El, a abocanhando como uma fera cruel.

A pantera elétrica arrastou seu corpo pela rua delapidada, como uma boneca quebrada, enquanto deixava um rastro vermelho incandescente no chão, como se houvesse lava escorrendo.

Olhando para a rua queimada, e a ausência do corpo carbonizado de Ni El, fez Satsumi virar seu corpo em uma velocidade anormal, quase quebrando seu calcanhar. Sua espada branca deixou um rastro prateado no ar, antes de atravessar silenciosamente a menina que apareceu nas suas costas, como se estivesse cortando o nada.

A expressão de Satsumi mudou. Era uma pós-imagem.

Instintivamente, Satsumi deu um passo para o lado, enquanto alguns fios de seu cabelo negro caíam no chão. Uma sensação de arrepio encheu seu corpo. Se ela se atrasasse um momento sequer, seu pescoço delgado teria sido atravessado.

A voz fria de El a tirou de seus pensamentos.

Jinton – Ichi no Katachi – Shadō Sutōka. (Liberação da Velocidade — Primeira forma — Perseguidor das Sombras)

El pareceu dar um único passo para trás, antes de desaparecer de seus olhos como um fantasma.

As mãos de Satsumi se apertaram ao redor do cabo da sua katana, enquanto seus olhos se estreitavam nas sombras da rua iluminada pela lua, como se temesse que elas ganhassem vida e a engolissem.

Sem hesitar, ela cruzou sua espada no peito. Um tinido metálico ecoou, enquanto uma adaga negra se chocava contra o fio da sua katana. Satsumi teve um vislumbre de um par de olhos felinos dourados, entre um rosto frio e bonito, antes de El desparecer novamente da sua visão.

Ni El, escondida nas sombras, tinha o cenho profundamente franzido. Como Satsumi ainda estava viva? El estava se movendo tão rapidamente que os olhos humanos mal conseguiam registrar suas pós-imagens. Não era exagero dizer que cada um daqueles ataques furtivos e rápidos teria matado a maioria dos Jōnnin.

Como ela estava se defendendo? Satsumi não era mais rápida do que qualquer um dos Jōnnin que El já havia matado. A única diferença era que ela parecia se mover antes de El sequer atacar, quase como se pudesse prever os seus movimentos.

A única maneira de Satsumi fazer isso seria se...

Decidida a tentar, a figura etérea de El apareceu repentinamente nas costas de Satsumi. Sua adaga se moveu como um borrão, apenas para ser parada por uma Katana branca.

Dessa vez, ao invés de desaparecer novamente, os braços esguios e esbeltos de El se moveram como uma pena, enquanto ela desferia uma série de golpes afiados e precisos.

Como se conseguisse ler sua mente, a espada de Satsumi se movia tão ágil como uma folha prateada, parando cada um dos seus golpes. Depois de alguns segundos, El desapareceu novamente no ar.

Como ela imaginava. Satsumi realmente estava prevendo seus ataques. Inicialmente, El estava confusa, até perceber as finas e minúsculas partículas negras que flutuavam pela rua. Partículas de Meiton (Elemento Escuridão).

Muito provavelmente, Satsumi as havia espalhados com o seu primeiro ataque.

A sua velocidade era a sua maior arma de assassinato. El se movia tão rápido que as únicas coisas que os olhos de seus oponentes captavam eram suas pós-imagens, e quando eles finalmente percebessem que eram cópias etéreas, El já havia cortado suas gargantas.

Mas havia uma fraqueza. Qualquer um com habilidades sensoriais conseguiria ignorar os ataques falsos, e defender os verdadeiros.

As minúsculas partículas negras funcionavam de maneira semelhante. Suas pós-imagens, ao contrário do seu corpo, não tinham massa e eram atravessadas pelas partículas flutuantes, enquanto que seu corpo original, por ser uma massa sólida, seria coberto por partículas, sem que elas a atravessassem. Nesse caso, era só uma questão de Satsumi defender os ataques que possuíam uma “massa”.

Para uma Kunoichi que estava fazendo uma expressão de idiota há alguns minutos atrás, Satsumi estava longe de ser burra. Claro, era o esperado de uma sobrevivente do Shiren Shōkan.

Dentre as centenas de prodígios rigorosamente cultivados pelas Vilas Ocultas, apenas um pequeno punhado dos que entraram na arena havia sobrevivido. Cada um deles era a elite entre as elites. A nata da safra. Monstros que apareciam de cem em cem anos e com potenciais assustadores.

Era só que...o que eram monstros diante da herdeira de um demônio?

O corpo de El lentamente se materializou diante de Satsumi.

Jinton – Ni no Katachi – Mūn Ōka. (Segunda forma — Caminhante Lunar)

Muito silenciosamente, quatro cópias idênticas apareceram ao seu lado. Suas expressões eram frias, como esculturas de gelo, antes de desaparecerem em uníssono.

Sentindo um deslocamento de ar à sua esquerda, Satsumi se moveu como de costume, apenas para sua expressão facial mudar ao sentir quatro outras mudanças de ar ao seu redor.

Cada um daqueles ataques era sólido e era preenchido como uma intenção assassina que fazia seu corpo ficar pesado, como se estivesse sendo esmagado por uma montanha. Tudo aquilo só poderia significar uma coisa... cada um daqueles ataques poderia matá-la.

Quando as adagas estavam a um fio de perfurar a sua pele branca e pálida, e manchá-la com o vermelho do seu sangue, Satsumi inspirou profundamente, enquanto uma névoa negra e espessa saía dos selos negros no fio da sua katana branca.

Meiton – San no Katachi – Meiryū (Liberação da Escuridão — Terceira Forma — Dragão das Trevas).

A fumaça espessa e escura circulou rapidamente ao seu redor, como um furacão negro. Lentamente, um corpo longo e esguio a envolveu em um ninho, com escamas negras e escuras cobrindo cada centímetro do seu corpo.

Fagulhas faíscaram quando as adagas roçaram nas escamas do dragão negro que envolvia Satsumi como um protetor. Olhos vermelhos e cruéis se abriram na cabeça da forma escura.

Uma sensação de arrepio atravessou o corpo de El. Sem um segundo pensamento, ela e seus clones saltaram para trás. Mas a voz fria de Satsumi, escondida no meio do abraço protetor, apenas a deixou mais tensa.

Meiton – Yon no Katachi – Yami no maku. (Liberação da Escuridão — Quarta Forma — Cortina das Trevas).

O corpo sólido do dragão se desmanchou em uma nuvem de fumaça completamente negra, que se espalharam como uma tempestade. O corpo de El mal havia se distanciado, antes de ser engolido pela nuvem negra.

Ela assistiu, com olhos frios, enquanto seus clones ilusórios eram desintegrados em partículas finas.

El cortou a sua respiração. Ela não sabia se a névoa negra era venenosa ou não, mas ela nunca se arriscaria.

Olhando para o local onde os corpos dos seus clones desapareceram, ela franziu o cenho. Havia algo estranhamente perturbador naquela névoa negra que deixava seus músculos tensos. Era melhor ela escapar.

Muito lentamente, a espessa escuridão aumentou. Tudo à sua volta estava coberto de um negro profundo, tornando impossível sequer ver um palmo à frente do rosto.

Seus instintos afiados fizeram El se agachar, enquanto uma lâmina branca passava onde sua cabeça estava anteriormente. Os músculos das suas pernas se contraíram, enquanto ela se movia para o pescoço de Satsumi com duas adagas nas mãos.

A katana branca aparou o golpe, apenas para o corpo franzino de Satsumi ser empurrado alguns passos para trás pela força do ataque.

Vendo a postura desequilibrada dela, El ativou sua Kekkei genkai, inconscientemente concentrando chakra nos seus músculos, apenas para cambalear um momento depois, enquanto uma aguda sensação de fraqueza a consumia.

Ela olhou para a névoa negra que a cercava com o cenho franzido. Agora mesmo, ela sentiu cada pedaço de chakra que ela tentava concentrar ser absorvido pela escuridão ao redor. El se lembrou da pantera de trovão que Satsumi havia absorvido no início, e finalmente percebeu qual era a principal característica do Meiton... era absorção de chakra.

Qualquer Ninjutsu utilizado seria absorvido pelo Meiton, e mesmo se ela concentrasse chakra nos seus músculos, eles seriam absorvidos pela névoa negra. Tendo em conta que a maioria dos Shinobis de elite além de utilizarem Ninjutsus, também reforçavam seus corpos com chakra, essa Névoa era assustadora demais.

Chakra não era só utilizado para fazer Ninjutsus. Quanto mais forte um ninja fosse, maior seriam suas reservas de chakra, e maior seriam as quantidades de chakra percorrendo seus tenketsus. Como isso era importante? Os tenketsus eram um sistema alternativo ao sistema circulatório, que conduziam chakra para o corpo inteiro. Cada parte do corpo de um shinobi era nutrido pelos tenketsus, e isso incluía os seus ossos, órgãos e músculos.

Por isso é que, mesmo um Shinobi de nível Kage especialista em combate à longa distância, se forçado à um combate corpo à corpo, seria capaz de esmagar um Jōnnin especialista em Taijutsu, simplesmente pela diferença abismal nos atributos físicos. Força, velocidade, reflexos, resistência, velocidade de pensamentos... tudo isso estava relacionado às reservas de chakra. Até algo como a inteligência, estava relacionada à nutrição dos tenketsus que irrigavam o cérebro.

Então, El finalmente percebeu como essa garota franzina de uma Vila fraca sobreviveu ao Shiren Shōkan. Depois de privar seus oponentes de chakra, Satsumi provavelmente utilizaria sua habilidade de Kenjutsu assustadora para decapitar seus oponentes. Ela era uma perfeita “assassina” de Shinobis.

Não importava se o oponente fosse um Shinobi nível Kage. O que poderia fazer sem poder utilizar chakra? Que diferença haveria entre eles e um civil indefeso?

Claro, não havia um jutsu perfeito nesse mundo. Enquanto observava Satsumi endireitar sua postura, El já havia conseguido pensar em duas prováveis fraquezas.

Primeira...

El ignorou a figura de Satsumi, e correu em uma direção. Como tudo, a névoa provavelmente tinha um alcance limitado. Se ela alcançasse a borda, El poderia utilizar seu chakra novamente. Ela podia sentir que, quanto mais tempo ficasse naquela cortina negra, mais fraco seu corpo ficaria.

A figura de El, atravessava a névoa com a agilidade de um felino. Quanto mais ela se movia nessa direção, mais fraca a concentração de névoa ficava. Quando ela finalmente pode ver a borda da Escuridão, um corpo magro estava à sua espera.

Um sorriso constrangido, dolorosamente falso, surgiu no rosto pálido e fantasmagórico de Satsumi.

—Gomen, El-Senpai... essa humilde kouhai não pode deixar você sair...

El não respondeu. Ao invés disso estreitou os seus olhos dourados. Com tantas partículas negras, rastreá-la na névoa era uma brincadeira de criança para Satsumi. Isso significava que a primeira fraqueza poderia ser descartada.

Então, no caso...El só poderia usar a segunda.

Como um borrão, seu corpo avançou em direção à Satsumi. Adagas e lâminas se cruzaram por um segundo. Sem um segundo de descanso, uma chuva de adagas negras caiu sobre o corpo de Satsumi.

El olhou para a expressão tensa de Satsumi, enquanto defendia a enxurrada de ataques. El conteve um suspiro. Como ela suspeitava. Assim como o oponente, Satsumi também não poderia mobilizar chakra na névoa, e dependia apenas do seu físico.

Essa era a segunda e mais fatal fraqueza desse jutsu. Se o oponente fosse alguém que treinasse seu próprio corpo físico ao extremo, e não dependesse exclusivamente de reforço de chakra para lutar, ainda haveria uma chance.

Claro, sabendo dessa fraqueza, e sendo uma especialista em kenjutsu, Satsumi obviamente treinou seu físico ao extremo, ao ponto de poder suprimir a maioria dos oponentes em um combate próximo.

El não era diferente. A linhagem dela aumentava exclusivamente a sua velocidade, mas ela não era tola. Então, ao invés de perder tempo treinando a linhagem, não era mais vantajoso que El aumentasse a velocidade natural de seu próprio corpo, para que a sua linhagem libertasse uma velocidade maior?

—Isso é...impossível. Como você ainda é tão rápida?

Vendo a expressão repentinamente fria de Satsumi, foi impossível para El impedir que flashes piscassem na sua memória. A imagem de uma menina franzina no meio de uma jaula enferrujada, com o corpo pequeno e manchado de sangue sobre um cadáver moribundo, enquanto o barulho ensurdecedor de pessoas gritando enchia seus ouvidos. Mas o pior, era o cheiro espesso e metálico de sangue misturado com merda que emanava do corpo moribundo estendido no chão. Era o cheiro de morte.

Essas lembranças fizeram com que o aperto dos seus dedos ficasse mais forte, e os seus ataques mais ferozes.

Mas apesar de tudo, El ainda não era tão rápida quanto antes, então o máximo que podia fazer era acompanhar os movimentos requintados da lâmina de marfim de Satsumi.

Seus dedos esguios e finos moviam as adagas com a mesma delicadeza de um bardo dedilhando uma harpa, e com cada delicada nota atingida, um fino corte cobria a pele pálida de Satsumi. Individualmente, cada nota atingida era errática e confusa, mas juntas, formavam uma bela e mortal orquestra.

El ignorou os cortes finos que lentamente apareciam no seu próprio corpo. Se El fosse uma barda, então Satsumi e sua katana branca eram como um talentoso pintor e seu magnífico pincel.

Os finos filetes de sangue escarlate na sua pele negra, eram tão belos quanto a tinta fresca em um quadro recém-pintado. A cada segundo que passava, mais tinta escarlate manchava aquele quadro bonito.

Suas respirações logo começaram a se tornar ofegantes, enquanto a névoa negra ao seu redor lentamente se espalhava, como se não pudesse se manter por muito tempo. Os movimentos cada vez mais apressados de Satsumi apenas comprovaram isso. Isso mal se notava nos seus movimentos requintados, mas os olhos afiados e felinos de El notaram claramente a ligeira tensão nos músculos dela, e os singelos olhares de soslaio que ela dava para a névoa ligeiramente mais fraca ao redor.

Como El deixaria passar?

Depois de cruzarem suas armas novamente, faíscas incandescentes se acenderam na névoa, El a surpreende cuspindo uma Senbon oculta sob a sua língua. Os movimentos de Satsumi eram quase automáticos enquanto ela desviava para o lado, e nesse momento em específico, o veneno paralítico embutido nas adagas de El, finalmente fizeram efeitos na sua corrente sanguínea.

Não é que Satsumi não soubesse e sentisse que foi envenenada, mas seus antídotos estavam na sua bolsa Shinobi. Enquanto elas estavam se movendo à uma velocidade assustadora, com cada movimento coberto com intenção de matar, como Satsumi teria tempo de tirar um antídoto?

Seus músculos se enrijeceram, enquanto ela mal se esquivava da agulha. Antes que ela pudesse respirar, duas adagas negras estavam à centímetros do seu coração. Satsumi reuniu o que restava da sua força para inclinar ligeiramente o seu corpo. Ambas as adagas se fincaram no seu ombro. Satsumi mordeu os lábios para conter a dor aguda no seu ombro, enquanto sangue manchava seu quimono.

Um pé pesado se afundou no seu peito, enviando seu corpo rolando pela terra dura, até suas costas baterem na parede de uma casa.

Satsumi cuspiu sangue. Respirar era difícil como se estivesse inalando agulhas ao invés de ar. Pelo menos quatro costelas estavam fraturadas. Mas ela não tinha tempo para lamentar. Mordendo os lábios, ela rangeu os dentes, ignorando a dor absurda enquanto se levantava da parede quebrada.

O som de passos anunciou a figura de El, lentamente emergindo da Névoa negra.

Satsumi ignorou a rigidez dos seus membros, enquanto ela injetava uma pequena seringa com um líquido amarelado na sua coxa. Era um anti-paralítico básico.

Ni El apenas a olhou com seus olhos frios, mas havia uma pitada de pena nos seus olhos, enquanto eu corpo esguio se aproximava lentamente.

—Isso é inútil. Por que desperdiçar tanto esforço, se o seu destino é ser um cadáver?

Os olhos vermelhos de Satsumi brilharam de frieza por um momento. Antes de ela suspirar e esboçar um sorriso.

— Você tem razão, El-Senpai. Mas quanto a quem está lutando contra o destino...não tenho tanta certeza.

Foi nesse exato momento que El percebeu que a mão direita de Satsumi estava fechada, mas tremia freneticamente, apesar de seu aperto firme. Sentindo a aterrorizante concentração de chakra na sua mão, a expressão de El finalmente mudou, ela se moveu como um borrão. Mas Satsumi apenas aumentou seu sorriso manchado de sangue.

—É tarde demais... Já concentrei todo meu chakra restante nesse jutsu.

Ela lentamente abriu a mão. Havia uma minúscula esfera negra na sua palma, tão pequena quanto o tamanho de uma unha. Mas era tão densa e negra, como se toda a escuridão do mundo fosse concentrada em um único lugar, e nem um único pedaço de luz podia escapar ou se infiltrar.

Mas apesar do seu tamanho, a quantidade de chakra contida nela, emitia uma pressão aterrorizante.

A esfera negra lentamente flutuou pelo ar, como uma borboleta infantil em seu primeiro voo.

A mão de El, segurando uma adaga estava à um fio de cabelo do pescoço delgado de Satsumi, mas ela, assim como tudo ao seu redor, pareceu parar de se mover, enquanto a esfera lentamente subia ao ar.

Depois de alguns segundos, que mais pareceram uma eternidade, a esfera pareceu parar de subir, ficando flutuando firmemente alguns metros acima de suas cabeças.

Os olhos vermelhos como sangue de Satsumi encaram calmamente Ni El, que permanecia congelada diante de si, com uma expressão grave no rosto.

—Eu vou mostrar para você... o que é um Ninjutsu de verdade...

Satsumi fez um selo.

Meiton Hijutsu — Mukō hanten (Técnica secreta da Liberação da Escuridão — Reversão do vazio)

O corpo de El, assim como os telhados das casas mais próximas lentamente começaram a flutuar, como se a gravidade deixasse seus corpos.

A esfera negra pulsou lentamente, como um coração batendo, e então...o mundo mudou.

A pequena esfera negra emitiu uma terrível força de sucção, como se um vórtice escuro se abrisse no meio do céu. A força de atração era tão forte que até os pisos de madeiras das casas próximas eram sugadas pelo vórtice negro.

El, cujo corpo era sugado como uma boneca de trapo, arregalou os olhos. Ela olhou para a terrível esfera negra que lentamente crescia de tamanho diante dos seus olhos. Aquele vazio negro era tão insaciável quanto um buraco negro.

Inconscientemente, uma pantera elétrica deslizou das suas mãos até a esfera negra, apenas para serem engolidos como pedrinhas caindo na superfície do mar.

Esse era o seu fim? Era assim que ela iria morrer? Seu corpo esmagado e enterrado sob um monte de pedras?

A escuridão cobriu completamente sua visão.

Os joelhos de Satsumi caem completamente no chão, enquanto ela ofegava pesadamente. A dor de suas costelas quebradas a invadiram de uma só vez, enquanto ela tentava sugar mais uma lufada de ar. Mas foi impossível um pequeno sorriso não cobrir seu rosto, enquanto ela olhava para a pequena esfera rochosa flutuando silenciosamente acima da sua cabeça. Sua superfície era coberta com os destroços das casas que estavam mais próximas da esfera negra.

Havia uma pequena cratera, de não mais que cinquenta metros no meio daquela rua, onde antes existiam algumas poucas casas. Felizmente, a escala daquele jutsu não era tão ampla, devido ao tamanho reduzido da esfera negra, ou todo quarteirão teria sido engolido.

Satsumi arrastou seu corpo quebrado e esfarrapado, se apoiando nas paredes das casas restantes. Não demorou muito para ela parar ao pé do pequeno lago de sangue, onde os olhos sem vida de Natsuki a encaravam no meio de um cadáver flutuante.

Ela pareceu pensar por alguns segundos, antes de fincar a sua Katana no chão.

Satsumi vasculhou a sua bolsa shinobi, antes de achar um pequeno embrulho dentro dele. Ela o desdobrou, tirando um espeto de dangos. Solenemente, ela o colocou sobre o corpo dela.

—Eu vinguei você. Descanse em paz.

Ela juntou as mãos, antes de fechar os olhos e se curvar.

Ela ficou assim por alguns segundos, ignorando a dor absurda das suas costelas quebradas. Um filete de sangue escorreu da sua boca. Satsumi finalmente abriu os olhos, e olhou para a menina sem vida com seus olhos escarlates repletos de sentimentos complicados.

—Que cena bonita.

Satsumi sentiu seus músculos se encherem de horror. Aquela voz desprovida de calor a fez paralisar. Aquilo...não era possível.

Quando ela se virou, e viu aquele rosto esculpido em uma expressão gelada, apenas confirmou que aquilo era verdade. O sentimento de pavor em seu corpo lentamente se transformou em raiva, e antes que ela percebesse, ela apertou os dedos na Katana, antes de concentrar chakra nas suas pernas e avançar.

A dor aguda de suas costelas fraturadas perfurando seus pulmões quase a fez paralisar no meio do caminho, mas ela cerrou os dentes e moveu a sua katana com o pouco de força que restava em seus braços.

A espada a atravessou como se ela fosse um fantasma. Era outra pós-imagem?

A garota pareceu ler os pensamentos de Satsumi.

—Não se preocupe. Sou eu de verdade.

Sua voz era calma e serena, como uma mãe gentil. Com seu rosto atraente e seus olhos dourados hipnotizantes, Satsumi quase relaxou. Quase. Aquilo apenas a fez atacar El como se estivesse possuída.

Sua katana se movia fluidamente, mas não importava o quanto ela rangesse os dentes e atacasse, El simplesmente estava aí parada como um fantasma, enquanto os golpes a atravessavam.

Suas costelas quebradas perfurando seus pulmões enchiam seu corpo com uma dor agonizante, mas mesmo assim, ela ignorou o sangue escorrendo no canto da sua boca, e continuou atacando, enquanto se perguntava como era possível El ter escapado?

Genjutsu? Não era possível. Então como?

Satsumi respirou profundamente, ignorando a dor aguda de cada inspiração. Isso clareou um pouco os seus pensamentos e ela finalmente se afastou de El com um salto, antes de olhar para ela atentamente. Sua expressão estava fria como sempre, e tirando as feridas cobrindo a sua pele, ela parecia composta. Mas o que realmente fez Satsumi arregalar os olhos... era que haviam alguns arcos elétricos pulsando de vez em quando ao redor do corpo dela.

Aquilo era... a forma embrionária da Raiton Yoroi. O mais aterrorizante, porém, era a cor...os raios pulsavam em arcos elétricos de um vermelho violento.

Liberação da velocidade associada com a Raiton Yoroi...apenas....quão rápida ela era naquela forma?

A Reversão do Vazio de Satsumi emitia uma força de sucção assustadora. Nada poderia escapar do seu campo gravitacional, uma vez cruzada uma certa distância. A menos que a velocidade de El fosse-

Seus olhos vermelhos se encheram de choque. Uma pitada de reconhecimento brilhou nos olhos frios e dourados de El.

—Isso mesmo. Nós estamos em mundos completamente diferentes. Você nem pode me tocar, mesmo se eu ficar o dia inteiro parada. Infelizmente, eu posso te atacar...desse jeito...

E então, ela ouviu El pronunciar aquelas palavras.

Jinton — Desu Ōku. (Caminhada da Morte).

Ela começou a se aproximar com passos aparentemente lentos, mas seus movimentos exalavam uma graciosidade assustadora. Cada movimento dos seus quadris era suave e gracioso como de uma princesa, mas a aura afiada e assassina ao seu redor era como de uma fera selvagem, cujas garras haviam dilacerado uma centena de cadáveres.

Os braços de Satsumi inconscientemente baixaram, como se se recusassem a atacar.

Ni El se movia com uma calma estranha, mas havia algo visceralmente perturbador na forma como seu corpo magro e ágil se movia.

Era como olhar uma pantera se agachando entre a grama, enquanto um jovem e inocente cervo passeava gentilmente pela grama.

Seus dedos esguios lentamente se esticam em direção ao seu rosto, mas apesar da lentidão aparente de El, o corpo de Satsumi mal se movia, como se correntes invisíveis envolvessem seu corpo. Os dedos estendidos de El estavam à um fio do rosto de Satsumi, e quanto mais se aproximavam, maior era a sensação de frio no seu corpo, como se a morte estivesse se aproximando, com seu bafo gélido sussurrando nos seus ouvidos. Os dedos de El afundaram através do seu rosto, como se fossem feitos de névoa translúcida.

Satsumi mordeu a língua com tanta força que ela quase foi cortada ao meio, mas a sensação de dor pungente a despertou do frio intenso paralisante, enchendo seus músculos com um calor desconhecido.

Ela salta para trás. Logo em seguida caindo de joelho. Ela estava ofegante como se tivesse lutado por semanas. Aquele simples movimento a exauriu de cada grama de força restante no seu corpo. Seus músculos latejavam de dor, como se tivesse lutado sem parar por dias.

Então ela percebe que um lado do seu rosto estava negro...ela olhou na mão de El, que ainda permanecia estendida no ar. Havia uma coisa branca e ensanguentada na sua mão... aquilo era...seu olho.

Só então ela percebeu uma dor aguda onde ficava seu olho direito. Sangue espesso manchou metade do seu rosto. Havia um buraco negro e vazio onde seu olho direito costumava estar.

—Que surpreendente...você conseguiu reagir. — Os olhos frios e dourados finalmente mostraram uma pitada de interesse. — Se você tivesse demorado um segundo...seu cérebro estaria na minha mão...assim... — El esmagou seu olho em uma polpa sangrenta- Agora... onde nós estávamos?

Foi tudo que ela sussurrou, antes de uma intensão avassaladora de matar enchesse a rua. Era como se o céu desabasse e o inferno se abrisse, Satsumi viu hordas de cadáveres caminhando em um mar espesso de sangue, enquanto gemiam de forma gutural. Apenas...quantas pessoas ela havia matado?

Era como se um demônio tivesse aberto as portas do inferno.

Quando o demônio estava prestes a atacar, El olha para o horizonte com uma expressão grave. E então, o céu volta a ser azul escuro novamente, enquanto a ilusão desaparece, como se nunca tivesse existido.

—Foi divertido. Uma outra hora.

Ela se despede, antes de desaparecer.

Satsumi cerra os dentes, e deixa o seu corpo finalmente cair de joelhos no chão áspero. Sua cabeça se virou em direção ao cadáver de Natsumi.

Ela colocou sua mão sobre o lado direito do seu rosto. Até a mínima brisa de ar fazia a sua órbita agora vazia arder como se tivessem jogado ácido. Inúmeros pensamentos estavam passando na sua cabeça enquanto olhava para o corpo sem vida com seu único olho.

—Eu perdi um olho por sua causa...minha dívida agora está paga.

Ela suspirou, antes de forçar suas pernas exaustas a se levantarem e cambalear fracamente até as paredes, começando a se mover em direção ao abrigo.

***

O corpo de El desabou pesadamente no telhado, enquanto sangue espesso e negro saía da sua boca, com pedaços de alguns órgãos flutuando no meio. Ela ficou deitada, enquanto sua consciência turvava e manchas negras manchavam sua visão.

Todo seu corpo doía. Respirar doía. Viver doía.

Era como se cada pedaço do seu corpo tivesse sido arrancado e costurado de volta de forma errada.

Se alguém olhasse para o seu corpo naquele momento ficaria chocado ao ver a enorme quantidade de sangue que cobria seu corpo. Ela tinha sangue saindo de todos seus poros. Boca, olhos, ouvidos, nariz...um sangue espesso e negro se acumulava na sua pele.

Seus órgãos internos estavam em frangalho, seus músculos e tendões rasgados e todos seus ossos estavam quebrados em pó. Mesmo estando deitada, a dor era inimaginável.

Jinton — Voidō ōka (Caminhante do Vazio).

Esse foi o jutsu que ela havia usado para escapar daquele vórtice negro. Cada célula do seu corpo estava sendo estimulada por pura eletricidade. Se ela combinasse esses estímulos com o seu Jinton, cada molécula do seu corpo vibrava em uma frequência tão acelerada, que, além de ela se mover à velocidades assustadoras, ela poderia fasear suas moléculas através de outras matérias.

Manipular o corpo de tal forma... As consequências eram terríveis. Seu corpo não era forte o suficiente para aguentar à força aplicada ao seu corpo se movendo à tais velocidades. Ela tinha apenas quatorze anos, seu corpo ainda estava se desenvolvendo. Nesse estado, ela nem sequer poderia respirar. Depois de se exaurir só para poder escapar do campo gravitacional da esfera negra, seu corpo já estava quebrando por dentro. El mal havia se movido quando apareceu diante de Satsumi. O problema era que Satsumi estava muito assustada por ter seu jutsu quebrado, que mal parou reparar nisso.

Mesmo ficando para diante de Satsumi, a dor que preenchia seu corpo era inimaginável. Cada passo que El dava nessa forma, era como se milhares de agulha atravessassem seu corpo. Se ela tivesse ficado nem que fossem mais cinco segundos naquela rua, seu corpo estaria ferido além da imaginação.

Se ela estivesse em condições perfeitas, porque é que simplesmente não decapitaria Satsumi, ao invés de perder tempo conversando? Mesmo algo tão simples quanto arrancar o olho dela, já era o máximo que El poderia fazer.

Se Satsumi não tivesse ficado em choque, poderia ter desviado daquele ataque. Mas ao longo da luta que tiveram, a velocidade de El deixou uma profunda sombra psicológica nela, então Satsumi estava constantemente pensando que era inútil fugir, sendo que eu poderia alcançá-la facilmente. Às vezes, as pessoas mais inteligentes eram as mais fáceis de enganar.

Se Satsumi a seguisse...ela poderia ter matado El nesse exato momento.

“Mas mesmo assim...que menina assustadora...”

Ela moveu sua mão quebrada e fez alguns selos de mão, ignorando a dor que a invadiu com aquele simples movimento. Ela reuniu o pouco chakra se sobrava no seu interior, antes de bater fracamente a palma da sua mão.

Em uma nuvem de fumaça, uma pantera negra do tamanho de um cavalo apareceu ao seu lado. Seus pelo liso e negro era tão escuro, que pareciam ser feitos de sombra. Os olhos dourados e felinos da pantera a olhavam com uma pitada de preocupação, enquanto ela a cutucava gentilmente com seu focinho.

Um raro sorriso apareceu no canto da sua boca manchada de sangue.

—Estou bem. Não se preocupe. Me passe meu estojo.

Sua voz era rouca e arrastada, como se suas cordas vocais fossem se quebrar a qualquer momento. A pantera assentiu silenciosamente, antes de cuspir uma pequena bolsa Shinobi ao lado da paralisada El.

Ela tateou com seus dedos esguios, antes de abrir a bolsa e engolir quatro pílulas medicinais ao mesmo tempo. Qualquer ninja médico que a visse fazendo isso a olharia com horror, como se ela estivesse cometendo suicídio.

Uma energia intensa como um vulcão surgiu no seu núcleo de chakra, ameaçando queimar todo seu corpo por dentro. El fez apenas um selo de mão.

Ninpou Jinton — Kasoku saisei (Arte Ninja da Liberação da Velocidade – Regeneração acelerada).

A energia avassaladora se espalhou pelo seu corpo, enquanto suas células aceleravam sua mitose à uma taxa assustadora. Cada fragmento de energia proveniente das pílulas servia como suprimento energético para o metabolismo acelerado. Uma fumaça espessa começou a emanar dos seus ferimentos, enquanto eles se curavam à uma velocidade assustadora.

Quando às quatro pílulas se esgotaram, a velocidade de regeneração diminuiu, até que as feridas finalmente pararam de se fechar. Ignorando a dor latejante, El se levantou com passos fracos, antes de analisar seu corpo.

Pelo menos metade dos seus ferimentos haviam sido curados. Ainda havia uma dor aguda quando ela fazia alguns movimentos, mas pelo menos ela não estava à beira da morte. Era preciso saber que seu corpo estava à beira da destruição antes que ela começasse a se curar.

Ela estava exausta, e ainda tinha alguns ferimentos, mas pelo menos já não corria risco de vida e a dor que sentia era aguda, mas tolerável. Ela conseguiria usar cerca de vinte por cento da sua força.

El cerrou os dentes enquanto se sentava no dorso da enorme pantera negra. Ela engoliu a última pílula na bolsa, enquanto sentia suas reservas de chakra sendo ligeiramente restabelecidas.

Ela olhou para o horizonte, onde ela podia ver um branco profundo cobrindo tudo, como se um inverno terrível tivesse passado. Aquilo era... Hyouton. Ela conseguia sentir a assinatura de chakra de Kei e o outro provavelmente era...Uzumaki Naruto.

Ela inspirou profundamente o ar, que estava estranhamente gélido, enquanto seus dedos de afundavam no pelo macio da sua pantera. A pantera olhou para ela confusamente, seus olhos inteligentes cheios de perguntas. Ela a acariciou ligeiramente, com um pequeno sorriso.

—Não é nada. Vamos. Siga o cheiro do Kei.

Seus olhos ficaram frios. Ninguém sabia o que ela estava pensando.

A pantera assentiu, antes de mergulhar na sombra mais próxima, como se tivesse se fundindo com a sua escuridão.

Elas se moviam em uníssono com as sombras, como se fossem um único ser. Quanto mais se aproximavam, maior era a sensação gélida que enchia os seus corpos, como se estivessem sem roupa em uma noite de inverno. Alguns minutos depois, El finalmente chegou na beirada de uma rua delapidada, com um branco intenso cobrindo tudo com neve e gelo, como uma terra congelada.

Seus olhos dourados se arregalaram ao ver o corpo frio estendido no chão, manchando a neve branca com um vermelho intenso.

Notas finais
Obrigado por ler! Até o próximo. Sai sábado!