Gênesis
38 Chuunin Shiken - EXTRA - Nous Sommes la pluie.
Notas iniciais
‟Eu sou as nuvens negras,
Que permeiam o horizonte cinzento.
Tu és as gostas gélidas,
Arrastadas pelo vento.
Portanto, NÓS SOMOS A CHUVA,
Que da grama, alivia o sofrimentoˮ
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Era uma noite fria. Estava escuro e ventava. Haviam grossas nuvens negras se formando. E, o pior, é que a tempestade era na sua cabeça.
Risa se sentia como se tivesse novamente cinco anos. Trancada no quarto, encolhida sob os lençóis da sua cama, enquanto chorava rios de lágrimas. Exatamente como agora.
—Melhorou?
Ela ergueu o seu olhar, encontrando o rosto gentil de Akai. Ele estava sorrindo para ela, e não parecia nem um pouco incomodado com o fato de ela estar chorando nos seus braços há mais de uma hora. Era para isso que amigos serviam, não? E Akai era o seu melhor amigo.
Risa assentiu, enquanto tentava esboçar um sorriso. Ela desistiu logo depois, não conseguia sorrir, nem mesmo falsamente.
—Você tomou a decisão acertada, Risa...-Ela ouviu Kabuto, sentado em outra pedra na entrada daquela caverna dizer, com a sua costumeira expressão de falsa preocupação- Não se martirize. Uma gennin da Grama e um gennin da folha...a escolha era óbvia...
—Já chega, Kabuto...-Akai o repreendeu com o olhar, era sempre assim, só o Yamanaka conseguia fazer Kabuto esboçar reações reais.
Kabuto apenas suspirou, e estava prestes a dizer algo mais, mas subitamente parou. Parecendo bastante surpreso, enquanto olhava para a entrada da caverna.
Seguindo o olhar, Risa e Akai finalmente entenderam o motivo da sua surpresa. Apoiado na entrada da caverna, usando nada mais do que uma cueca box negra, estava Uzumaki Naruto. Aparentemente, ele havia acordado há pouco. Ele tentou dar um passo, mas os seus pés falharam, e ele caiu de quatro no chão. Imediatamente, eles saíram do torpor e se moveram até ele.
Kabuto o ajudou a caminhar até um pequeno tronco que havia ali, e o deixou sentar. Risa ofereceu um cantil de água para ele, imediatamente voltando a se sentar ao lado de Akai, enquanto evitava olhar para o loiro.
—Obrigado...-A voz do loiro saiu rouca e profunda, depois de esvaziar o cantil, provavelmente pelos dias que ele havia feito sem falar.
Kabuto perguntou.
—Como você está se sentindo...?
—Estranho...como se eu fosse desmaiar há qualquer momento. E a minha cabeça ainda dói...
Kabuto afiou o seu olhar.
—Bom...você demorou bastante para acordar...acho que é uma questão de você descansar...
Naruto assentiu, mas depois o seu olhar mudou.
—Enfim...Risa-chan...Onde ela está...? A Karin...eu não a encontrei...
A azulada não conseguia olhar para ele, simplesmente encarava o chão gramado, como se fosse a coisa mais importante do mundo. Ela sentiu o seu corpo tremendo novamente.
—Risa...
—E-ela...-ela gaguejava, enquanto tentava conter as lágrimas, — ela se foi...Naruto...
Naruto olhou para ela confuso.
—Ela foi embora...?
Risa balançou a cabeça negativamente, enquanto soluçava. Akai colocou a sua mão sobre o seu ombro, aquilo pareceu dar forças para ela.
—E-ela...morreu, Naruto-kun. Morreu...bem nos meus braços.
Naruto sentiu a sua cabeça rodar, enquanto um som agudo, semelhante a um tinido, ocupava os seus ouvidos e piorava a sua dor de cabeça. Imediatamente, o seu olhar mudou.
Risa sempre achou os olhos dele como sendo frios e vazios, mas havia alguns pequenos pontos brancos, que emanavam um calor reconfortante se você olhasse por muito tempo. Mas...naquele instante, ela viu aqueles pontos de luz desaparecerem...e ele ser engolido pela completa escuridão.
—Ela...morreu, você diz...? A Karin...morreu...?
Risa assentiu, ainda encolhida.
—Hai...eu, inclusive, vi quando...quando...aquele selo apareceu sob o corpo dela...e ela foi teletransportada pelos ‟Organizadoresˮ -Um sorriso, muito lentamente, rasgou o rosto de Risa, como se ela se lembrasse daquele momento com toda a riqueza dos detalhes- Ela...estava tão linda. Envolta por aquela luz...parecia um anjo...
—Não fode! -Naruto finalmente se levantou, raiva nitída no seu olhar.- Como é que essa merda aconteceu?!
Kabuto se levantou, ajeitando os seus óculos como de costume, enquanto se colocava entre eles.
—Tenha calma, Naruto-san...Ela não teve escolhas. As curas...as curas que ela havia conseguido foram roubadas. Ela foi atacada, na verdade. A encontrei à beira da morte... Felizmente, eu tinha duas doses na minha posse...uma eu administrei no Akai-kun...e a outra...a Risa usou para salvar você. Ela teve que enfrentar uma escolha bastante difícil...
Imediatamente, a raiva nos seus olhos desapareceu, dando lugar a uma frieza assustadora. Ele se aproximou de Risa, que tremia feito uma vara...ele se agachou, até estar na mesma posição que ela.
—Isso...é verdade Risa-chan? –Ele usou um tom incrivelmente calmo e gentil, ela assentiu. Naruto passeou os seus dedos pela pele do rosto dela – Deve ter sido realmente difícil...-ela assentiu novamente, fechando os olhos enquanto aproveitava o carinho da mão do loiro- Desculpe não ter estado aqui para você. A propósito...esses cheiros que eu estou sentindo em você... são das pessoas que atacaram você...?
Ela pareceu bastante confusa, mas apenas assentiu.
—Entendo...
Naruto esboçou um curto sorriso, antes de voltar a se levantar, e começar a caminhar. Os outros três gennins da folha pareceram bastante confusos.
Kabuto, inclusive, se colocou diante do Uzumaki.
—Onde você vai...?
—Não é óbvio...? – O olhar no rosto do loiro provocou arrepios no garoto de óculos, eles estavam estranhamente negros, como dois poços sem fundo- Eu vou...cumprimentá-los...é claro...
—Você não pode fazer isso...é puro suicí-
—Saia da frente. Ou eu vou matar você.
Kabuto suou frio. Por que ele tinha a estranha impressão que ele não hesitaria em fazer aquilo?
—Não po-
Em um piscar de olhos, Kabuto estava suspenso no ar, com a mão de Naruto ao redor do seu pescoço. Ele colocou as suas mãos no braço do loiro, tentando fazê-lo soltá-lo. Mas ele não se movia. Kabuto começou a se debater, estava difícil levar ar para os seus pulmões.
O chakra do Uzumaki se tornou visível, como longas labaredas que o envolviam. E o pior, as labaredas eram completamente negras.
—Solte ele Naruto! –Risa gritou, mas o loiro não parecia ouvir. – Você vai matá-lo!
E aquilo realmente estava prestes a acontecer. Kabuto pareceu finalmente perder as forças, e os seus olhos estavam se apagando...
Akai fez a única coisa que podia. Aproveitando que o corpo do loiro estava parado, ele usou o hijutsu do clã Yamanaka, transferindo a sua consciência para o corpo do loiro. E o que ele viu o deixou chocado.
A consciência dele era como uma enorme sala cinza coberta por chamas negras, e tudo estava simplesmente fragmentado, como se fossem ecos de uma realidade diferente. As paredes, o piso de mármore e o teto. Tudo estava fragmentado, como se fossem feitos de vidro, e pelas frestas criadas, olhos negros espreitavam. Milhares, na verdade. Subitamente, todos os olhares negros se voltaram para Akai. Ele se sentiu paralisado.
Ele saiu de lá o mais rápido possível. Arfando pesadamente, no chão gramado daquela floresta, com os olhos completamente arregalados. Era confuso de colocar em palavras o que ele viu. Mas era como se ele estivesse encarando a própria insanidade. O abismo da loucura. E ela o encarou de volta.
—Risa...-ele falava pausadamente, os olhos completamente arregalados- ele enlouqueceu completamente...
Risa simplesmente arremessou uma kunai em direção ao braço do loiro. Mas antes que esta sequer o tocasse, labaredas negras o protegeram, derretendo completamente a Kunai. Mas assim que ele virou o olhar em sua direção, Risa gritou:
—Solte ele, Naruto! –As lágrimas deslizavam fortemente pelo seu rosto- Solte ele!
Os seus olhos se arregalaram. Ele pareceu ter um momento de lucidez, e afrouxou o seu aperto sobre o pescoço de Kabuto, o deixando cair no chão.
Risa correu até Kabuto, se agachando enquanto ele tossia compulsivamente.
As chamas negras a sua volta, subitamente confluíram para a sua mão direita, se acumulando em uma nuvem negra, até tomar a forma de uma Katana completamente negra. Aquela espada era...
Antes que Risa sequer dissesse algo, ela viu Naruto fletir ligeiramente as pernas, e em seguida, tomar impulso. Ele havia saltado para uma árvore.
—Vão! –Kabuto gritou, ainda tossindo compulsivamente- Parem ele!
Risa e Akai se entreolharam, antes de assentirem. Akai se agachou e o colocou apoiado no seu ombro.
—Não seja idiota...nós vamos pará-lo...Nós os três.
No minuto seguinte, eles estavam correndo atrás do loiro. Não estava sendo realmente difícil. Apesar de ele ser extremamente rápido, Akai era um shinobi sensorial. Era absurdamente fácil seguir aquele chakra gigantesco e negro.
****
Touka estava com medo. Ela sempre estava com medo. E como não estar? Quer dizer, ela até tinha uma Kekkei Genkai adormecida, mas ela era uma das únicas do seu clã, que ainda não havia despertado. Ela era fraca, completamente fraca. A única coisa que sabia fazer, além de saber jogar mais ou menos algumas kunais, era curar. Talvez por isso o Sandaime Tsuchikage havia a escolhido para ser uma das representantes da Vila da Pedra. Ela queria negar, mas os olhos daquele velho homem eram assustadores. Então ela aceitou. Mas agora...vendo o quanto aquele exame era perigoso...ela começava a pensar que talvez teria sido melhor ter enfrentado o Tsuchikage. Ela estava cansada de ver tantas mortes...de ouvir tantos gritos de dores...Naquele momento, sentada diante daquela fogueira, era tudo o que ela pensava.
—Tudo bem, Touka-chan?
Ela olhou para Hijiro, sorrindo de forma gentil para ela. O mesmo sorriso gentil que ela amava. Ela corou, assentindo de uma forma que ela achava completamente idiota. Ela era idiota.
Hijiro apenas riu, e ela adorou ainda mais aquele som. Ele pegou um pedaço de pau e ficou cutucando a lenha daquela pequena fogueira que haviam feito para se aquecerem naquela noite fria. Os olhos negros de Hijiro pareciam ainda mais belos, quando refletindo as chamas douradas daquela fogueira.
—Eu sei que esse exame deve ser assustador para você...-ele começou a falar- Mas...eu vou proteger você...vou nos proteger...
Ela sentiu o seu coração falhar uma batida.
—N-nós?
Ele sorriu, dessa vez mais tímido.
—Sim...quer dizer... Eu gosto de você...e eu acho que você também gosta de mim...quer dizer, você gosta de mim né? –Ele pareceu bastante inseguro naquele momento, ela apenas assentiu timidamente- Ainda bem...quer dizer...então...quando esse exame acabar...você...namora comigo? –Devido o silêncio dela, ele achou que ela ia negar- Responda...por favor...
Touka sorriu, o abraçando naquele momento.
—Namoro sim...-lágrimas deslizavam fortemente pelo seu rosto- seu baka...
Os olhares deles se cruzaram. Verdes contra negros. E foram lentamente se aproximando, até cruzarem os seus lábios em um beijo tímido. Touka se sentiu no céu. Como se tivesse ido e voltado do paraíso, tudo nos braços daquele que ela achava que seria o amor da sua vida.
Quando se afastaram, eles colaram as suas testas, e ficaram olhando um para outro de um jeito incrivelmente apaixonado.
—Ne...Touka...
—Uhum...
—Quando esse exame acabar...você quer fugir comigo? –ela olhou para ele chocado- Quer dizer...essa vida de shinobi...eu não sei se realmente quero isso. Você sabe que eu detesto violência, assim como você. Além de que...eu não quero te perder. Então...a gente podia, sei lá...juntar um dinheiro...comprar um pequeno terreno...e poderíamos viver só de cultivo...e ter os nossos moleques ranhosos –ela sorriu nessa parte, ele fez um bico fofo- ei, não ria...
Mas depois ela o calou com um beijo.
—Aceito sim...seu bobo...
Hijiro a abraçou. Colando o seu corpo enorme ao corpo delicado e pequeno de Touka. Estranhamente, eles se encaixavam de forma perfeita. Eles passaram a simplesmente contemplar as estrelas naquela noite de lua cheia. Era uma vista simplesmente surreal. Ele queria congelar aquele momento e guardá-lo pela eternidade...
—A lua é...linda...
—Não mais que você –Hijiro disse, e ela se viu corando fortemente. Ela deu um leve soco no ombro dele, não doeu realmente, mas Hijiro simulou uma careta de dor- Uau, não sabia que você tinha tanta força...
Ela riu, entrando na brincadeira.
—Bom...há muita coisa que você simplesmente não sabe sobre mim...
Ela ficou surpresa quando sentiu o seu corpo sendo derrubado na grama fria, e o corpo de Hijiro ficar sobre o seu. Ela não pode deixar de notar que os seus olhos negros pareciam penetrar a sua alma.
—Então é só uma questão de eu explorar...
Ela se arrepiou, quando sentiu as mãos quentes de Hijiro, naquela noite extremamente fria, acariciando lentamente a pele do seu pescoço, enquanto ele baixava o seu rosto, com uma lentidão torturante...
Mas então...eles ouviram os gritos. Eles se levantaram assustados. Embora Hijiro parecesse um pouco irritado.
—Está vindo do acampamento...-Touka falou- O que será que aconteceu?
Eles se entreolharam nervosamente, antes de correrem em direção ao local onde os outros gennins da Pedra estavam. E, imediatamente, eles arregalaram os olhos.
Vermelho. Tudo estava vermelho e negro. As árvores estavam em chamas, chamas negras e havia tanto sangue espalhado pelo chão. Assim como os corpos dos seus companheiros. Muitos deles, eles haviam visto crescer, e se graduaram com eles.
Eles ouviram alguém tossindo. Hijiro correu até o corpo que estava caído no chão. Era o melhor amigo dele.
—Han! –Hijiro gritou, os olhos completamente em pânico, ele queria tentar estancar o sangramento, mas ele estava tão cortado, e sangrava de tantos sítios que ele nem sabia onde botar a mão- O que aconteceu aqui...?!
Han cuspiu sangue. Ele tentava falar algo, mas a sua garganta estava cortada, e jorrava bastante sangue. No fim, Hijiro teve que se agachar para ouvir uma simples palavra.
—Demônio...
E então o seu melhor amigo deu uma profunda tragada, como um último suspiro, e então morreu. Hijiro socou violentamente o chão.
—Merda, merda!
Touka tentou se aproximar, mas antes que o fizesse, Hijiro apanhou a espada de Han que estava largada ao lado do seu corpo, e seguiu em direção ao local onde se ouviam os gritos de dor.
—Espere, Hijiro!
Touka o seguiu. Quando eles chegaram na entrada da caverna que era o esconderijo deles, eles enfim, entenderam.
Tinha um estranho garoto loiro e semi-nu, envolto por uma aura negra e com uma katana na mão, que estava simplesmente fatiando todos os gennins de Iwa. Haviam cerca de três corpos no chão, e ele tinha a mão ao redor do pescoço de uma garota que ela havia esquecido o nome. Ela se debatia, mas não parecia que ele ia largá-la tão cedo.
Vendo aquela cena, Hijiro pareceu simplesmente perder toda a lucidez que lhe restava e correu em direção ao garoto, brandindo a katana de Han.
Touka viu, como se fosse em câmara lenta, os olhos negros do loiro seguirem os movimentos de Hijiro, e os dedos dele se tencionarem à volta da Katana em sua mão. Ela tentou avisar Hijiro, mas era tarde demais.
Largando a garota sem-nome no chão, com um simples balançar da sua mão, a cabeça de Hijiro foi separada do restante do corpo. Touka olhou, extremamente incrédula, a cabeça do amor da sua vida voar pelo ar, com uma expressão horrorizada no rosto, até cair no chão. Como se fosse um pedaço de merda.
A garota sem-nome tentou fugir, mas a lâmina se afundou no seu coração.
O garo...não, o demônio se virou em sua direção, e começou a caminhar lentamente até ela. Touka começou a tremer.
Ele sussurrou, a voz não passando de um sussurro profundo e rouco.
— Onde estão?
Ela tentou articular uma palavra. Mas a sua voz simplesmente não saía. Era difícil falar quando duas poças negras estavam a encarando.
—Você não sabe? Entendo...
Ele colocou a ponta da sua katana no peito dela, bem no coração, mas antes que ele a perfurasse, uma bola de fogo o acertou.
Touka estava próxima, então algumas fagulhas saltaram para a sua roupa. Imediatamente ela sentiu o seu rosto pegando fogo no lado direito.
Ela se jogou no chão, soltando gritos inumanos enquanto rolava de um lado para o outro, sentindo o seu cabelo e a sua pele derretendo completamente. Aquela era a pior dor que ela já havia sentido na vida.
Kurotsuchi se agachou ao seu lado, colocando uma manta ao redor da sua cabeça para apagar o fogo. As chamas se extinguiram, mas o seu rosto derretido estava doendo. Como se a sua pele tivesse sido arrancada e costurada de novo. Havia um cheiro enjoativo no ar. Carne humana queimada.
—Não se mova, Touka! Ouviu?! Não se mova!
A neta do Tsuchikage suspirou, afiando o seu olhar no garoto que estava há alguns metros de si. Tal como ela imaginava, a sua bola de fogo não havia tido efeito. Ela olhou ao redor em choque, constatando que, dos quinze gennins que a Pedra havia enviado para o exame, pelo menos seis estavam mortos. Mortos por aquele garoto.
Quando ele olhou para si, ela percebeu que os seus olhos eram incrivelmente negros e vazios.
—Você...O seu cheiro...entendo. Foi você, não foi?
Ela não fazia ideia do que ele estava falando.
Mas...reparando no rosto dele, ela se lembrou quem ele era. Uzumaki Naruto. Ela havia visto a foto dele no BINGO BOOK. Seu avô, inclusive, havia pedido para Kurotsuchi que, caso eles se encontrassem, ela devia matá-lo. Mas...ela podia ser muitas coisas, menos tola. Como ela mataria um monstro?!
Ela olhou para a cabeça de Hijiro, jogada no chão. Ela suou frio. Nenhum dos seus companheiros eram tão fracos assim. Eles eram gennins da Vila da Pedra. Quase todos eles estavam em um nível equivalente ou acima de chunnins de outras vilas...mesmo assim...mesmo assim...ele havia matado todos.
—Não faço a mínima ideia do que você está falando...
—Não fode comigo! –Ele rosnou- Foi você. Você. Você. Você.
Aquele garoto estava...louco. Completamente louco. Kurotsuchi sentiu a terra ao seu lado ondular, enquanto a cabeça de Satsu saía da Terra. Ela soltou o ar que havia prendido, sem perceber. Ela nunca havia ficado tão feliz por ouvir aquela voz nojenta.
—Minha senhora...acho que sei o que está acontecendo... –Ela olhou para ele curiosa- Esse garoto...é companheiro da garota azulada. Eu roubei as curas. Provavelmente...alguém morreu. Ele...está se vingando. Embora eu não entenda o motivo.
—Entendo...-foi tudo o que ela murmurou- É triste mas...Entendo.
O olhar do loiro pareceu ficar ainda mais enegrecido ao ver Satsu. Ele começou a se mover.
Os seus passos eram lentos, suaves até. A sua espada, produzia um som agudo, ao ser arrastada na grama apodrecida pelo sangue.
Satsu emergiu completamente do chão e, não esperando qualquer ordem, atacou.
Kurotsuchi viu tudo acontecer lentamente. Quando nada mais do que centímetros os separavam, Satsu sacou duas lâminas nas mangas do seu uniforme. O loiro ainda permanecia com a mesma postura desinteressada. O olhar vago e a Katana apontada para o chão. Mas então, aquilo aconteceu...
Em um rápido movimento, Sastu afundou na terra, emergindo nas costas do loiro, ele afundou as duas lâminas no dorso do loiro, sentindo elas penetrarem camadas de carne.
Quando ele viu os músculos deles se tensionarem, como se estivesse prestes a reagir, Satsu se afastou com um salto mortal, deixando as duas lâminas fincadas.
Naruto simplesmente arrancou as duas lâminas com a mesma expressão calma e vazia que mantinha há minutos. Ele jogou-as de volta. Logo que elas caíram na grama abaixo de Satsu, ele viu as feridas simplesmente se fecharem à uma velocidade absurda, emitindo um vapor negro no processo.
—Isso foi...decepcionante... pegue, quero ver você tentando de novo...
Quando se agachou para apanhar as lâminas, ele arregalou os olhos ao perceber que Naruto havia quebrado a distância e estava diante de si.
Em um lampejo, a perna de Naruto se afundou no queixo de Satsu, o mandando para trás. Ele fez um giro no ar, e caiu em pé há alguns metros.
Naruto estreitou os olhos. Ele teve a impressão de estar chutando uma rocha de tão duro que estava o queixo dele.
Satsu atacou de novo, balançando freneticamente as suas lâminas gémeas, tentando perfurar o loiro, mas, por mais rápido que ele fosse, todos os seus ataques foram interceptados pela katana amaldiçoada.
Depois de apenas trinta segundos, Satsu suava bastante e estava ofegante, tamanho o esforço que tinha que fazer para se mover à mesma velocidade que o loiro. Seus músculos estavam doloridos por absorverem os choques e os seus braços pareciam pesar toneladas. Enquanto Uzumaki Naruto continuava com a mesma expressão. Ele era um monstro, sem dúvidas.
Ele viu, claramente, quando o fio da lâmina amaldiçoada começou a se mover para o seu pescoço, mas ele sabia que não conseguiria mover nenhuma das suas lâminas à tempo, então, ele fez a única coisa que podia fazer. Ele ativou sua kekkei genkai.
Naruto estava certo que aquela lâmina iria se afundar no pescoço daquele garoto mas, para sua surpresa, uma camada de cristal o revestiu, fazendo a sua katana ricochetear inutilmente. O loiro se afastou com um salto, olhando para ele afiadamente.
O cristal foi se alastrando, até o corpo daquele garoto ficar inteiramente revestido.
—Essa é a minha kekkei genkai...nunca imaginei que, nesse torneio, haveria alguém capaz de me forçar a usá-la...
—Entendo...naquela hora que eu chutei o seu queixo...
—Hai...esse cristal é feito de um mineral chamado quartzo...-Satsu continuou- é mais duro que aço...a sua lâmina não conseguirá me machucar...esse combate acabou...
Ele afundou novamente na terra, desaparecendo por alguns segundos. Em um lampejo, Satsu emergiu na grama sob o loiro, o corpo completamente revestido e as duas lâminas na mão. Ele moveu as lâminas em direção ao coração. Não importava o quão boa fosse a sua regeneração, um golpe no coração seria fatal. Estava na hora do seu golpe final.
Ele arregalou os olhos. Achava que tinha se movido rápido demais, mas os olhos negros de Naruto acompanharam cada um dos seus movimentos. O loiro o cortou.
Itto-Ryu – Kiriotoshi.
Ele caiu no chão, com o seu tronco separado das suas pernas por um corte limpo e horizontal através das camadas de cristais.
Ele cuspiu sangue.
—Impossível...
Naruto se agachou ao seu lado, olhando para ele de forma vazia. Satsu arregalou os olhos...aqueles olhos eram...
—Você parece ter entendido errado...-a sua voz não passava de um sussurro- eu cumpro minhas promessas. Eu disse que iria te matar. Então...a única coisa que resta para você, é morrer.
Satsu desviou o seu olhar para uma assustada Kurotsuchi que o olhava completamente chocada. Ela parecia bastante surpresa com aquilo tudo.
—Kurotsuchi-sama...fu-
Ele não terminou, a espada do loiro se afundou no seu pescoço, separando a sua cabeça do restante do corpo. O loiro pegou a cabeça e jogou aos pés de Kurotsuchi.
—Só falta vocês...
Ele começou a se mover em sua direção. Os olhos completamente sem vida. Um único pensamento passou pela mente de Kurotsuchi. Ela ia morrer, definitivamente. Ela sabia aquilo.
Porém... ela viu aquilo acontecer. Três estranhos Shinobis apareceram entre ela e Naruto. Estreitando os olhos, ela reconheceu Risa e o garoto quatro-olhos que estava com ela naquela clareira, o outro ela não fazia a mínima ideia de quem era.
Os três arregalaram os olhos quando sentiram o cheiro de morte e viram o tanto de corpos espalhados ao redor. Aquele cheiro estava se impregnando nas suas peles, como um perfume. Eles sabiam que nunca esqueceriam aquela cena.
Risa olhava chocada para a pessoa diante de si. Não importava o ângulo que ela analisasse, aquele não era o garoto que havia feito chá para ela. Não era o garoto que havia sorrido para ela, e prometido preparar uma torta para ela, quando o exame terminasse. Não era o garoto que havia entrado na névoa tóxica para salvá-la e a Karin. Aquele demônio, desprovido de emoções, não era Uzumaki Naruto.
Ela deu um passo.
—Naruto! -Ele apenas continuava caminhando, como se não estivesse ouvindo- Pare com isso, por favor.
—Saia...ou eu mato você...
Ela sentiu um arrepio que deixou os seus pelos eriçados. Mas ela não iria desistir, iria salvá-lo. Assim como ele a salvou. Ela deu mais um passo. Lágrimas deslizavam pelo seu rosto.
—Por favor.... A Karin não-
Ele parou por um momento e olhou para si. Não havia nada naqueles olhos.
—Karin? Quem é essa? –Ele inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, como uma raposa curiosa. Ela arregalou os olhos. — Eu só...quero matá-los, nada mais... Saia.
Ela cerrou a sua expressão e simplesmente continuou parada à sua frente.
—Eu não vou sa-
Antes que ela terminasse, ela viu a lâmina negra se movendo em sua direção. Ela fechou os olhos, aguardando a dor. Mas esta não veio.
Quando ela abriu os olhos, ela gelou. Akai estava à sua frente, com os braços abertos e um enorme corte no tronco.
—Akai!
Ela amparou o seu corpo, antes que tocasse na grama. O seu rosto estava pálido e o seu ferimento sangrava sem fim. Mas...ainda assim, ele tinha aquele sorriso idiota no rosto.
Os olhos de Naruto se alargaram, como se finalmente percebesse o que tinha feito. Ele sentiu a sua mão tremer.
—E-eu não-
Aproveitando o choque do loiro, Kabuto surgiu nas suas costas e o golpeou num ponto de pressão na nuca, com a sua mão revestida por um chakra azulado. Os olhos de Naruto foram perdendo o brilho, até ele cair na grama, inconsciente.
Kabuto se moveu até Akai e arregalou os olhos ao ver a gravidade do ferimento. Mas ele decidiu não falar nada, ou caso contrário as lágrimas de Risa aumentariam.
Ele concentrou o chakra esverdeado nas suas mãos e colocou sobre o ferimento de Akai. Mas algo estava errado. Por mais que ele tentasse, o tecido simplesmente não fechava.
—O que está acontecendo, Kabuto?!
Ele suou.
—Não sei...essa ferida simplesmente não fecha...
—Claro que não...-eles ouviram uma voz dizer, era Kurotsuchi que havia se aproximado- Ele foi cortado por uma lâmina amaldiçoada. Esse ferimento...vai ficar cada vez maior...e maior...e maior...E eventualmente ele vai...
Eles arregalaram os olhos. Risa sentiu o seu mundo girar.
—E não há nada que possamos fazer?!
Kurotsuchi balançou a cabeça negativamente.
—Chamam de lâmina amaldiçoada por um motivo... Sinto muito.
Akai cuspiu sangue.
—I-isso não é nada...
—Gomen...-Risa murmurou, apertando a sua mão- se eu não tivesse ficado congelada...
Akai esboçou um sorriso.
—Deixe de ser tola...você queria salvar um companheiro. Exatamente como eu.
—Não adianta...- Kabuto passou o cotovelo na testa, limpando o suor depois de minutos tentando. — Não importa o quanto eu tente essa ferida simplesmente não se fecha... acho que terei que fazer à moda antiga...
Ele revirou a mochila nas suas costas, tirando um estojo médico. Assim que o abriu, ele calçou um par de luvas, para evitar contaminar ainda mais a ferida, e colocou uma solução antisséptica em uma gaze. Ele olhou para Akai, como se pedisse desculpas.
—Isso vai doer...muito...
O Yamanaka apenas assentiu, como se o incentivando. Ele se arrependeu. Quando Kabuto começou a limpar a sua ferida com aquilo, ele sentiu uma dor de outro mundo, ao ponto de ranger os dentes para não gritar. Risa se sentiria pior se ele gritasse.
Quando Kabuto terminou, ele suspirou de alívio. Mas durou pouco. No minuto seguinte, ele se concentrou em suturar aquela enorme ferida. Akai não aguentou, e acabou por desmaiar.
No final, Kabuto enfaixou todo o tronco de Akai.
—Ele...vai ficar bem?
Kabuto apenas olhou para a sua companheira. Ele balançou a cabeça, enquanto retirava as luvas.
—Honestamente?! Eu fiz o melhor que posso no momento, mas...-ele parou, quando viu a expressão de Risa, ele mentiu- bom, as chances são altas...
Ela suspirou aliviada. E ele apenas sorriu fraco.
—Quatro-olhos...-Kabuto apenas franziu o cenho, olhando para Kurotsuchi- você pode dar uma olhada na minha companheira?
Kabuto estava prestes a negar, quando viu Risa olhando para ele. Ele entendeu aquele olhar. Ela continuava sendo boazinha demais.
Kabuto se aproximou da garota inconsciente da Vila da Pedra, e quando retirou a manta que cobria o rosto dela, imediatamente sentiu o cheiro de carne humana queimada invadindo as suas narinas. Ele torceu a expressão ao ver a extensão das queimaduras. Todo o lado direito do rosto dela estava derretido pelas chamas. Ele colocou a mão sobre o rosto dela. Imediatamente, a sua expressão suavizou.
—Eu posso reduzir a extensão das lesões, mas...-ele olhou seriamente para Kurotsuchi- ela ainda assim ficará com cicatrizes horríveis...
Kurotsuchi apenas assentiu.
***
Quando Naruto abriu os olhos, e viu os longos canos metálicos nas paredes, ele logo soube onde estava. Seu subconsciente. Mas algo estava estranho...diferente até.
Ele se levantou, mas sentiu a sua visão embaçar. Teve que se apoiar na parede. A sua cabeça doía como nunca e ele via tudo borrado. O que estava acontecendo?!
Ele atravessou o corredor lentamente, se apoiando nas paredes para não cair, até chegar naquele local e, imediatamente seus olhos arregalaram.
A água que havia sob os seus pés estava completamente negra e havia uma estranha névoa negra permeando o local, o fazendo se sentir sufocado. Mas, algo o deixou ainda mais perplexo.
A branca e colossal raposa das nove caldas sempre havia parecido majestosa para os seus olhos. Mas não naquele momento.
Ela estava encolhida na sua enorme cela, e a sua linda pelagem branca estava repleta de enormes manchas escuras.
Ignorando a sua tontura, ele simplesmente correu em direção à raposa, mas acabou por cambalear e tropeçar no meio do caminho. E, enquanto estava submerso nas águas negras, mergulhando na inconsciência, ele enfim se perguntou: O que havia acontecido com ela?
Antes que ele fosse mais fundo, ele sentiu algo se enrolar ao redor do seu corpo e trazê-lo para cima. Olhando para a maciez da estrutura que havia o levantado, Naruto percebeu que era uma das caldas da raposa. Ela o colocou em pé.
Os dois se olharam. Jinchuuriki e Bijuu. Olhos azuis nos olhos azuis. E ambos pareciam estranhamente cansados.
—Gaki...
A majestosa voz da raposa não passava de um sussurro.
—O que...aconteceu aqui?
A Raposa deu um fraco sorriso.
—Eu fui envenenada...me desculpe. Não consegui curar você...
Naruto olhou para ela chocada.
—Envenenada? –ela assentiu fracamente- mas isso é...impossível...
—Bom...eu estava tentando te curar daquela doença. Eu sempre consegui te curar de todo e qualquer ferimento mas...dessa vez...tinha algo diferente no teu corpo...os teus anticorpos estavam simplesmente enlouquecidos, e começaram a atacar as tuas células saudáveis, ao invés das infectadas pela doença.
—Algo...diferente...?
Ela não pareceu ouvi-lo.
—Me desculpe. Eu tentei, mas...ela simplesmente não me deixava...
Naruto olhou para ela, completamente confuso. A raposa entendeu o seu olhar, e fez um gesto para que ele olhasse à sua direita.
Naruto se sentiu ainda mais tonto.
Havia uma estranha silhueta o encarando intensamente. Parecia ser feminina. E um par de olhos completamente brancos o encaravam entre aquela forma negra e humanoide.
Antes que ele percebesse, aquelas palavras saíram da sua boca.
—Quem é você?
Subitamente, ele viu aquela figura desaparecer diante dos seus olhos, e estranhos braços negros o envolverem. Ele sentiu um arrepio, quando aquela voz vazia sussurrou no seu ouvido.
—Como assim, Naruto-kun? –Ela soltou uma risada- Você me acolheu. E eu matei por você...
—Muramasa? –ela ouviu aquela voz rindo ainda mais, ele tomou como um sim- Mas como...?
Ele ouviu a voz da Raposa.
—Por isso eu te avisei que essa espada era muito perigosa...ela possui consciência. É que nem um parasita...e ela está infestando você...
Naruto continuou estático.
—O que você fez...?
—Eu coletei o preço por aquelas mortes...Naruto-kun...esse foi o nosso acordo.
Naruto cerrou os punhos.
—Então...é você que está fazendo isso com meu corpo? É você que está fazendo isso com a Kyuubi?
Ela riu ainda mais, envolvendo ainda mais os seus braços à volta do loiro.
—Bom...eu tenho que tornar o nosso corpo agradável para mim...então sim...eu vou tirar tudo de você...seus olhos...sua sanidade...seus amigos...sua raposa...seu corpo...tudo.
Ele se desvencilhou daquele abraço frio. Quando ele olhou para ela, os seus olhos estavam frios.
—Não se eu me livrar de você...
Os contornos da boca daquela escura silhueta se esticaram em um enorme sorriso.
—Se livrar de mim? Nós fizemos um acordo de sangue. Nossas almas estão ligadas...para sempre...
A Kyuubi balançou a cabeça.
—Ela tem razão gaki...Mesmo parar de utilizá-la é impossível...ela é como uma droga, sussurrando sempre no seu ouvido para usá-la...e você, no caso, é um viciado.
—Você... –Naruto se virou para a raposa, ignorando a silhueta que apenas sorria feito louca- Não pode fazer nada?
—Eu perdi a maior parte do controlo do seu corpo...e o pouco que tenho, estou tentando curar você...desculpe.
Subitamente os olhos de Naruto se estreitaram.
—Mas...e se eu a selar...?
—Teoricamente... pode funcionar...
O sorriso no rosto do espectro murchou.
—Não brinque moleque! –ela sorriu, dessa vez meio nervosa- Você precisa de mim! E além disso, você não é tão bom em fuuinjutsu...
Naruto afiou os olhos.
—Você se esqueceu de algo importante. Aqui é a minha consciência.
Ele moveu o braço, e uma jaula com barras completamente brancas apareceu ao seu redor, a fechando. Naruto caiu de joelhos pelo esforço.
—Essas barras estão infundidas com Yôton (Estilo Luz). Nem que passem mil anos, você não vai conseguir sair. -Naruto olhou o mais frio que podia para ela,- E não, eu não preciso de você...
A Muramasa apenas esboça um sorriso enorme, dentro da escura cela.
—Isso é o que você pensa...Você virá até mim pequeno herdeiro...
Naruto travou, olhando de forma arregalada para aquela lâmina amaldiçoada. Nos estranhos sonhos que ele estava tendo nas últimas semanas...aquela estranha esfera dourada também se referia à ele utilizando aquele título. ‟Pequeno Herdeiroˮ.
Aquela espada...sabia de alguma coisa. Ele tinha que ter aquela conversa urgentemente com Tobirama. Antes que ele dissesse algo, no entanto, ele ouviu a Raposa falar.
—Mesmo ela estando selada...ela já fez um grande estrago. –Naruto se virou para a Bijuu- Eu vou tentar, mas tem coisas que nem eu mais consigo concertar...
—Como assim?
—Bom...as possibilidades de ela ter feito danos irreversíveis são altas. Células são estruturas complexas...a mínima alteração... -A Raposa respirou fundo, mudando o que realmente queria falar- pode ser que...o seu corpo, nunca mais volte a ser o mesmo. O que eu estou dizendo é para você ficar atento...e não exagere em combate. Pelo menos por agora...o seu corpo está longe de cem por cento...ela bagunçou tanta coisa...
A mandíbula de Naruto travou, quando se lembrou o que havia acontecido. Ele cerrou o punho.
—Sei disso...Se eu não estivesse com essa Katana maldita... Você teria me curado. E o antídoto...teria sido para ela. E eu ainda perdi a cabeça e deixei a muramasa me controlar –ele suspirou, ao se lembrar da carnificina que havia cometido- Céus...Tudo está tão...confuso...
A Kyuubi deu um sorriso fraco.
—Por agora...você tem coisas mais sérias para se preocupar...
Naruto apenas assentiu. Não sabia o que dizer.
***
—Você finalmente acordou...
Ela ouviu aquela voz falar. Era Kurotsuchi.
Touka se sentia...flutuando. Como se o seu corpo estivesse submerso em uma banheira gelada, e a água estivesse, lentamente, penetrando camadas da sua pele, seus músculos, seus ossos...a deixando estranhamente relaxada.
Ela tentou abrir os olhos, mas ela logo percebeu que tinha algo de errado. Ela só conseguia ver com o olho esquerdo. Ela tentou abrir o direito, mas sentia como se a sua pele estivesse colada por alguma substância...Ela imediatamente se lembrou das chamas.
Ela tentou se debater, mas ela logo foi impedida por Kurotsuchi.
—Não se mexa! Você vai se afogar.
Ela então, percebeu que realmente estava na água. Em um riacho, na verdade. O seu corpo nu estava sendo banhado por Kurotsuchi. Ela levantou o seu braço direito, mas ela logo voltou a baixá-lo. Ardia, quando fora da água gelada. Ela sentia lágrimas escorrendo pelo seu rosto, ao se lembrar de Hijiro, sendo decapitado. O doce e gentil Hijiro.
—Pronto...-Kurotsuchi sorriu para si- Terminei.
Touka se colocou em pé. Aquele riacho não era fundo, pelo menos não no local onde estavam. Mesmo ela sendo pequena, a água chegava apenas até abaixo dos seus seios. Ela encarou o seu reflexo refletido nas águas escuras, naquela noite. E ela quase vomitou.
Todo o seu lado direito estava marcado por grossas e extensas cicatrizes. Desde o rosto, até a sua coxa. Ela se sentia deformada. Como se fosse um brinquedo quebrado. Ela sentia grossas lágrimas deslizando pelo seu rosto. Mas então...ela percebeu algo e começou a rir, como se estivesse louca.
Kurotsuchi apenas a olhava confusa. Touka sentia um misto de diferentes emoções a corroendo. Mas...havia um sentimento maior do que os restantes. Ódio. Muito ódio.
—Eu vou matá-lo! –ela começou a socar a água- vou matá-lo. Matá-lo. Matá-lo. Matá-lo. Matá-lo!
Antes que Kurotsuchi a parasse, aquilo aconteceu. Afundando, mais uma vez, o seu punho no riacho, a água a sua volta simplesmente explodiu, logo se transformando em vapor. Ela olhou, chocada, para os seus punhos, que emitiam um brilho dourado. Aquilo era...a Kekkei genkai do seu clã. Ela finalmente havia despertado.
—I-incrível –Kurotsuchi parecia surpresa- Esse chakra é...Bakuton...não sabia que você...
E então Touka sorriu. Um sorriso estranhamente destorcido no seu rosto batizado pelo fogo.
—Ele tirou todas as pessoas importantes para mim...agora eu farei o mesmo...vou explodi-los. Um por um.
Kurotsuchi sentiu um arrepio atravessar a sua espinha. Touka havia...enlouquecido...
****
Quando Naruto abriu os olhos, e viu o teto apedregulhado daquela caverna, ele suspirou, levando a sua mão para as suas têmporas, as massageando. A sua cabeça ainda doía.
—Você...acordou...
Ele ergueu o seu olhar, vendo tanto Kabuto, quanto Risa há alguns metros de si. Debruçados sobre um inconsciente e ferido Akai.
Naruto sentiu a sua mandíbula travar.
—Hai...
—É você? –Risa tinha os olhos afiados em sua direção- Realmente você?
Naruto se ergueu, sentindo a manta que o cobria naquela noite fria deslizar para os seus pés. Ele tratou de sorrir para Risa. Ela suspirou, antes de apontar para o canto da caverna.
—Suas roupas...
O loiro corou quando percebeu que estava semi-nu. Ele se levantou e, depois de vestir o uniforme da folha, caminhou até eles. Ele arregalou os olhos ao ver o ferimento de Akai. Aquilo...não tinha um bom aspecto, ele sabia. As ataduras estavam ensopadas de sangue.
—Céus...eu fiz isso?! –Ele bagunçou os seus cabelos, suspirando logo em seguida- E-eu...merda!
—É...você fez isso. — Kabuto apenas dispensou um olhar para si, parecendo concentrado na tarefa de trocar as velhas ataduras por uma nova.- Você.
Risa apenas olhou de soslaio para ele. Naruto travou a mandíbula.
—Eu...posso ajudar...quer dizer, concertar.
—Impossível – Kabuto disse- Nem o meu chakra medicinal foi capaz de curá-lo. Essa ferida é...
—Só me deixe tentar...
Risa passou pelos olhos o que não poderia ser dito por palavras. Kabuto entendeu os significados, e deixou Naruto se aproximar.
‟Kyuubi...conto contigo.
Ele ouviu a Raposa suspirar.
—O seu corpo ainda não está em condições para receber o meu chakra...você ainda está-
—Não me importo...só faça isso. Por favor.
Ela suspirou novamente, como se estivesse desistindo ˮ
Naruto colocou as mãos sobre o tronco de Akai. Imediatamente, a temperatura daquela caverna baixou absurdamente, a respiração se tornou visível, como uma fumaça branca, enquanto um chakra branco revestia as suas mãos. O tecido à volta da ferida começou a se fechar lentamente, quando estava quase no final, Naruto parou o processo, apenas para ter uma crise de tosse.
Eles saíram do torpor e seguraram o loiro.
—Você está bem?!
Naruto arregalou os olhos ao ver o tanto de sangue que havia na sua mão. Mas, disfarçadamente, limpou a sua mão na barra da sua calça. Ele apenas assentiu, sorrindo levemente. Ninguém precisava saber.
Eles sorriram.
—Incrível...-Risa parecia bastante surpresa. Kabuto apenas olhava para ele de forma estranha- o ferimento fechou bastante...
—Desculpe...não consegui fechar tudo...
Kabuto ajeitou os seus óculos, ainda com aquela expressão.
—Não se preocupe...em um, dois dias no máximo a ferida vai fechar...
—Ainda bem...
Risa parecia estranhamente aliviada. Naruto tentou sorrir, mas logo desistiu. Não conseguia.
—Eu vou...apanhar um pouco de ar...
—Está chovendo lá fora...-Ela comentou.
—Precisamente.
Risa apenas assentiu, parecendo ocupada em segurar as mãos de Akai entre as suas. E Kabuto apenas olhava de uma forma estranha para si. Os olhos estreitados, em evidente interesse.
Logo que saiu da caverna, Naruto percebeu que realmente estava chovendo. Gotas frias de água caíam do céu, castigando sua pele.
Ele se apoiou na parede, sentindo o seu corpo extremamente cansado. Ele teve uma nova crise de tosse. Tinha sangue de novo na palma da sua mão, misturado com a água dos céus. Ele respirou profundamente. O que... o que a muramasa havia feito com ele?
Ele ficou cerca de cinco minutos sentado, apenas inspirando o ar frio daquela noite chuvosa de forma profunda, até se sentir um pouco melhor. Sua cabeça ainda doía, mas o frio que fazia o anestesiava um pouco.
Ele subiu até a árvore que havia na entrada da caverna, e sentou num tronco. Os ramos daquela árvore eram fortemente entrelaçados, então, só algumas poucas gotas chegavam a tocar na sua pele. Ele ficou vendo o céu nublado, parecendo perdido em pensamentos.
Os seus pensamentos vagavam de forma definida, como um peixe sendo arrastado pela correnteza, e quase sempre fluíam para um único ponto. Chouji. Karin.
Ele massageou o rosto. Aquele era apenas o Terceiro dia, mas ele já se sentia...exausto. Como se estivesse em um lago gelado, as roupas completamente ensopadas, lutando para não se afogar. O problema é que eles pareciam querer tragá-lo para o fundo.
Ele sentiu alguém sentando ao seu lado. Não precisou olhar. Já sabia que era Risa. Sem dizer nada, ela ofereceu uma daquelas tigelas de caldo instantâneo para ele. Só naquele instante Naruto se tocou que não comia há um bom tempo, e estava faminto.
Ele se concentrou em sorver aquele caldo, enquanto tentava ver a lua escondida sob grossas nuvens. Faltava pouco para a meia noite. E então começou. Aquela mesma música deprimente que tocava ao final de cada dia, enquanto rostos passavam no céu cinzento.
Naruto sentiu o seu corpo travar, quando viu o rosto de Karin no céu. A pele pálida, os fios ruivos e os olhos vermelhos sob um par de óculos. Ela estava sorrindo na foto, com covinhas fofas nos cantos da boca. Ele parou de comer. Apertou o seu punho com tanta força, que a colher em sua mão quebrou.
—Ela...era linda, não?
Naruto ouviu Risa dizer. Olhando para a garota, ele percebeu que ela segurava as lágrimas, como se já tivesse chorado o bastante, ao ponto das suas lágrimas secarem. Os seus fios de cabelo azulados estavam encharcados, grudando na sua pele cor de café. O loiro apenas assentiu, travando completamente a mandíbula. Era. Passado.
—Onde você acha que ela está agora...?
—Chuva...-Risa olhou para ele confusa pelo que disse- Ela vai virar chuva...
—Chuva?
Naruto assentiu, fechando os olhos por um instante, como se estivesse simplesmente tentando sentir as poucas gotas geladas que castigavam a sua pele. Ele queria sentir algo. Se sentir vivo.
—Sim...chuva –ele ainda mantinha os olhos fechados- Quando você morre...e a terra reclama o seu corpo...e os insetos devoram sua carne...você virá adubo. Vira estrume, que é absorvido pela terra. E então nasce a grama, nascem as árvores...-ele fez uma pausa.
—E, à noite, quando as coisas evaporam, de volta para o céu noturno... os pedaços que restam de você, do seu corpo, chame do que quiser: Alma, ou espírito... Permeiam o ar... Flutuam até os céus...Até formarem as nuvens...então, quando chove...quando essas gotas gélidas caem de volta para a terra, as gotas de ‟vocêˮ, se tornam novamente grama, plantas, animais ou outros seres humanos...e assim continua o ciclo. Então...quando você está olhando para as nuvens, para a chuva, para as plantas, para os animais...você está olhando para os mortos.
Ela olhou para o loiro, curiosa.
—Então...a minha vozinha está nessa chuva? Nessas gotas gélidas? –Naruto assentiu- E meu tio? E...a Karin-chan também...? –Ele assentiu, de novo- Entendo...eu sou chuva...-ela apontou para Naruto- Nós somos chuva...
Naruto olhou para ela, os olhos serenos.
—Nós somos chuva...
E então eles caíram em silêncio.
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