Gênesis

40 Chuunin Chiken – GUERRA – Effet Papillon.


Notas iniciais
Hello people! Demorei nada, não? Haha Esse capítulo foi, sem dúvidas, o mais difícil de escrever até hoje. Céus...reescrevi ele tantas vezes que até perdi a conta. Foi desafiante, sobretudo devido o conteúdo. É um assunto bastante complexo... e foi difícil imaginar como os personagens reagiriam. Mas no final, ficou foda. Um dos melhores que os meus dedos já produziram haha Mas enfim... vamos falar do capítulo atual... Tenho um aviso importante...tem um TW –Trigger Warning (Aviso de gatilho) para esse capítulo. Ou seja...me sinto no dever de informar que nesse capítulo tem um conteúdo bastante pesado...Então...quem for sensível, ou tenha algum transtorno de Estress Pós-traumático, que pode ser despoletado por algum gatilho, recomendo não ler. Effet Papillon – Francês- Efeito borboleta. Deixado os avisos...vamos lá! P.S - Para quem gosta de ler com música, recomendo imenso ouvir a música que me ajudou praticamente a escrever esse capítulo: IMAGINARY (EP VERSION), da banda EVANESCENCE. É perfeita para o clima que construí nesse capítulo. Segue o link da música no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=A7qafOnr8jA

‟O sofrer, a melancolia e os grandes dissabores, são intrínsecos ao ser humano; outrossim, é surpreendente como pequenas ações, podem levar à grandes consequências. Um simples suspiro, uma breve troca de olhares, o bater de asas de uma borboleta...tudo isso ocorre em um piscar de olhos; mas as consequências, reverberam como ecos indefinidamente no vale da eternidade. ˮ

*************************************************************************

Sakura suspirou longamente, sentindo os músculos do seu braço doerem pela posição desconfortável. Mas ela não reclamou. Ela estava há quase meia hora naquela posição, e não havia nenhum sinal de Hinata.

Uma brisa gélida acariciou a sua face, bagunçando os seus fios róseos e curtos. Ela quase suspirou, ao sentir o cheiro de cereja que era emanado pelos seus cabelos róseos. Ela amava aquele shampu, e tinha saudades de um BOM banho.

Só de imaginar o seu corpo afundando em uma banheira com água morna, sais de banhos extremamente cheirosos e velas aromatizadas, com a água penetrando lentamente nos seus poros e a aliviando de toda tensão, enquanto permitia a sua mente simplesmente divagar em pensamentos indefinidos...Ela não conseguia conter um suspiro de prazer.

Mas uma nova brisa fria a trouxe de volta à realidade. Não, não podia se distrair com pensamentos como aqueles.

Escondida na escuridão daquele edifício, ela se sentia um pouquinho mal. Quer dizer...ela era uma arqueira exímia, escondida na escuridão de um prédio abandonado, com o chakra completamente apagado, e era capaz de atirar uma flecha tão rápido quanto o bater de asas de um inseto. Era injusto até...mas ela logo deu uma risada.

Nada naquele mundo de merda era justo.

Ela fechou o seu olho esquerdo quando captou alguém entrando no seu campo de visão. Sakura agradeceu a luneta que tinha acoplada no olho direito. Aquilo era a sua preciosidade e, ela mal podia acreditar quando encontrou aquilo com um dos gennins que elas haviam assassinado.

Graças à aquele dispositivo com visão infra-vermelha, apesar de não ser uma Hyuuga e estar escuro como nunca, ela conseguia observar tão bem como se estivesse de dia e a sua visão também era ampliada, com facilidade.

Depois de alguns segundos, ela percebeu que era Hinata se movendo. E, como de hábito, estava sendo perseguida por alguns gennins.

Sakura respirou profundamente, sentindo os seus pulmões se aquecendo pela entrada de ar. Os seus músculos relaxaram. Os seus olhos esmeraldas estavam dilatados pela extrema concentração. Ela estava tão focada, que os seus batimentos se sincronizaram com cada movimento de entrada e saída de ar no seu corpo.

E enquanto inspirava uma nova lufada de ar, Sakura soltou as flechas. As duas deslizaram suavemente pelo ar frio daquela noite sem lua, e se alojaram, com maestria, nos crânios daqueles dois azarados. Foi tão rápido que eles nem notaram o momento em que deixaram aquele mundo.

***

—Isso foi...fácil...

Hinata olhou fixamente para Sakura, sorrindo logo em seguida. Ela olhou para os dois cadáveres abaixo dos seus pés. Realmente, havia sido mais fácil do que elas imaginavam.

—Então...-Hinata olhou para Sakura, antes de continuar- eu faço, ou você...

Sakura resmungou.

—Porque você não pode esfolá-los?

—B-bom...eles são rapazes...eu sou uma garota de família, não posso ficar vendo troncos nus...

Sakura olhou, completamente chocada para Hinata. A expressão dela estava tão séria, que não era possível saber se ela havia brincado ou realmente estava falando sério.

—Se você estiver brincando, eu confiscarei os seus doces...

—Não estou. -Mas depois franziu o cenho- E não coloque os meus doces nisso...

Sakura apenas revirou os olhos, antes de se debruçar com uma kunai. Ela tinha uma expressão concentrada no rosto, enquanto tentava conter um sorriso idiota que insistia em brotar nos seus lábios rosados. Sakura estava prestes a enfiar a kunai na pele deles, quando Hinata a empurrou para longe do cadáver.

Sakura, surpresa pela ação, rolou pelo chão duro e pavimentado. A sua cabeça acabou batendo em uma pedra, abrindo um ferimento na sua testa.

Ela se sentia tonta, mas conseguiu ver quando uma esfera de chamas tocou em um dos cadáveres, o incinerando instantaneamente. Ela arregalou os olhos.

Ela se levantou, cambaleando. Apenas para ver uma estranha garota surgir no seu campo de visão. A sua visão estava embaçada, por conta do sangue que escorria da sua testa, mas ela estreitou os seus olhos. Aquela garota usava um uniforme castanho, provavelmente de Suna, e tinha três estranhas esferas de chamas circulando ao seu redor.

Sakura olhou ao redor, tentando enxergar a sua companheira. Onde estava Hinata?!

—Não adianta procurá-la... –A garota sussurrou, com uma voz incrivelmente sem vida- O meu companheiro provavelmente está a enfrentando...ela é perigosa. Tenho que matar você o quanto antes para ajudá-lo...

—Oh...sério? –Os seus olhos esmeraldas escureceram- Quero ver você tentando...

Ela procuraria Hinata depois. Primeiro tinha que matar aquela garota.

Sakura interrompeu os seus pensamentos, apenas para se jogar para o lado, evitando uma gigantesca esfera de chamas de incinerá-la. Mesmo assim, o calor intenso a deixava tonta.

Quando se levantou, duas flechas saíram voando dos seus dedos. Antes que elas se afundassem na carne daquela garota, uma das esferas de chamas se colocou no caminho e cresceu de tamanho, engolindo completamente as flechas.

Aquilo...não era Katon, definitivamente. Vendo o seu olhar, a garota da Areia apenas sussurrou:

—Já que você vai morrer...acho que não tem problema dizer. Isso não é Katon...-As três esferas que orbitavam o corpo dela, cresceram absurdamente de tamanho- Isso é Shakuton...não me culpe se eu mumificar você...

Sakura suou frio. Aquilo seria...complicado.

***

Hinata respirou profundamente. Tentando normalizar os seus batimentos. A sua respiração era visível naquela noite fria, como uma fumaça branca. Ela olhou para a janela que havia ao seu lado. Estava escuro dentro daquele edifício, e a luz da lua, escondida sob grossas nuvens, tornava difícil enxergar naquele ambiente.

Ela sentiu as veias ao redor dos seus olhos pulsarem, enquanto ela ativava o seu doujutsu. Imediatamente, tudo mudou. Ela passou a enxergar tudo à sua volta em um tom infra-vermelho e passou a enxergar com uma riqueza de detalhes absurda.

Hinata afastou ligeiramente as pernas, e abaixou ligeiramente os quadris, enquanto colocava o braço direito à frente do corpo. Era a posição ideal para combate dos Hyuuga. E o seu agressor pareceu ter percebido aquilo.

Hinata viu aquele vulto disparando em sua direção, reagindo em instantes, ela desviou do punho que tentou acertá-la no rosto. Girando os pés, ela se moveu para as costas do seu oponente.

Hakke Rokujuuyon Shô.

Dois golpes.

Quatro golpes.

Oito golpes.

Dezesseis golpes.

Trinta e dois golpes.

Sessenta e quatro golpes.

Em uma velocidade absurda, Hinata acertou as suas palmas em sessenta e quatro diferentes tenketsus, os fechando. O último golpe, foi certeiro no coração. O fazendo parar de bater.

Quando ela terminou, suor escorria pelo seu rosto, mas o seu inimigo estava no chão. Hinata estava prestes a se agachar, e arrancar a sua ‟Marca da Morteˮ, quando teve que se afastar com um mortal.

Ele...ele estava se levantando. E aquilo era impossível. Ele não deveria ser capaz de se mover. Não depois daqueles golpes. Não importava o quanto um shinobi fosse resistente fisicamente, o assunto era outro quando se tratava de órgãos internos. Ninguém conseguia treinar os órgãos internos.

Mas o vendo assim, se erguendo lentamente, e com movimentos demasiado mecânicos para serem humanos, Hinata enfim começou a entender.

Estreitando os olhos, ela ampliou a sua visão assustadoramente, conseguindo enxergar finos fios de chakra ligados à aquele corpo, como cordas de uma marionete. Aquilo era...um cadáver, e estava sendo manipulado por um shinobi.

Ela interrompeu os seus pensamentos quando ele voltou a atacá-la. Hinata simplesmente torcia o seu corpo estranhamente esguio e flexível, como de um felino, enquanto desviava dos golpes extremamente rápidos daquele cadáver.

Os membros dele se torciam de uma forma inumana, enquanto músculos e tendões se rompiam, para que ele conseguisse se movimentar daquela forma absurda.

Hinata cerrou a mandíbula, à medida que suor escorria pela sua pele alva. Estava começando a ficar cansada.

—Apareça, seu covarde de merda!

Ela apenas ouviu o som alto de uma risada, por mais que tentasse, ela não conseguia identificar a origem do som. Vinha de todo, e ao mesmo tempo, nenhum lado.

—Não seja idiota, garota Hyuuga...-Ela ouviu uma voz falar- eu sou fraco. Ridiculamente fraco. Jamais seria capaz de enfrentar uma monstra como você mano-a-mano. Seria suicídio...esse seu punho gentil, é realmente perigoso...

Hinata estalou a língua. Ele era esperto. O estilo Hyuuga, que era focado em golpes internos, e não na força bruta, jamais seria eficaz contra uma marionete humana. Isso ela tinha que admitir...

Mas...um sorriso lentamente rasgou os lábios de Hinata. Ela era diferente...

As linhas de chakra dele eram ridiculamente finas, quase microscópicas, impossíveis até mesmo de serem detectadas por um Byakugan normal. Mas...ela não era a herdeira do clã por nada.

O seu doujutsu era, de longe, o mais avançado dentro do clã. Mesmo Neji, não chegava aos seus pés quando o quesito era capacidade de ampliação. Então, enquanto desviava dos golpes insanos daquele cadáver, ela concentrou ainda mais chakra nos seus olhos, aumentando a sua capacidade ao ponto de enxergar claramente de onde os fios vinham.

Ele estava no edifício ao lado. Hinata tinha que admitir, ele tinha que ser muito bom, para conseguir manipular alguém há aquela distância...

Hinata se afastou do cadáver com um salto para trás. Inspirando o ar frio de forma profunda, ela mudou a sua postura de combate.

Ela concentrou chakra em ambas as mãos. As chamas púrpuras cresceram, e tomaram a forma da cabeça de duas leoas.

Hinata afastou ambos os pés, e fincou os dois braços no chão, o seu corpo estava tão para baixo, que estava quase tocando o chão. Aquela posição...lembrava bastante uma felina, alongando os músculos antes de cravar as suas presas afiadas em um animal indefeso.

Yushi, escondido em uma das janelas de um edifício nas proximidades, estreitou os olhos, tentando entender o que aquela garota estava fazendo.

Os seus fios de cabelo negros estavam grudados na face pelo suor, e os olhos perolados dela estavam dilatados, refletindo o negro daquela noite sem estrelas, a pele dela, branca e alva, estava com uma expressão tensionada e brilhando pelo suor, e mesmo pela distância, ele apostou que ela provavelmente cheirava à lavanda. Yushi corou, quando percebeu algo.

Aquela garota era...incrivelmente bela. Mesmo nos seus quinze anos de vida, ele nunca tinha visto uma garota tão...bela. Era quase um pecado ele estar querendo matá-la...

‟Quer saber? Não vou machucar muito o rosto. Assim, talvez eu vá me divertir um pouco com o cadáver dela...ˮ

Ele se sentiu bastante orgulhoso do seu pensamento. Ele era um cara bastante legal. Movimentando o seu dedo indicador, o cadáver puxou uma kunai da sua bolsa, e avançou.

Hinata, com os olhos extremamente focados, viu o exato instante em que o cadáver começou a se mover.

Concentrando chakra, as duas cabeças felinas em suas mãos começaram a crepitar de eletricidade.

Raiton- Juuho SouShiken- Kaminari Ya. (Elemento Raio- Punho gentil dos Leões gémeos- Assassinato Relâmpago.)

Estático, Yushi viu aquela garota desaparecer diante dos seus olhos, e, muito antes do cadáver sequer dar um passo, cair no chão, completamente despedaçado.

Hinata apareceu alguns metros adiantes, com uma expressão feroz e as mãos completamente manchadas pelo líquido quente e escarlate. Ela levantou o olhar e olhou na sua direção.

E, Yushi, vendo aqueles olhos o encarando fixamente, como uma leoa encarando um camundongo, soube logo, que estava morto.

***

Sakura arfava pesadamente, tentando levar ar para os seus pulmões. A alijava nas suas costas, estava sem flechas. Uma única, estava posicionada no meio do arco. E ela estava pensando se devia ou não usar.

Nos últimos minutos, ela havia descarregado praticamente todas as flechas naquela garota estranha, mas só duas haviam conseguido passar por aquelas esferas de chama e acertá-la. Uma no braço, e outra no abdómen.

A garota de Suna estaria sangrando, se ela não tivesse cauterizado os ferimentos com as suas próprias chamas. Ela era louca, Sakura sabia, e agora estava a encarando como se quisesse matá-la...

—Estou surpresa...-ela falou, com aquela sua voz extremamente mecânica- Eu subestimei você...qual seu nome mesmo?

—Obrigada...Sou Sakura...-ela enfrentou um dilema por alguns segundos, antes de suspirar- er... e você?

Foi tudo o que Sakura disse, tentando soar confiante. Na verdade, mesmo ficar em pé era um esforço. Os músculos das suas pernas reclamavam de dores, de tanto correr para escapar daquelas chamas, ou ela teria virado churrasco à esta altura.

—Matsuri...

Sakura tencionou os seus músculos, prestes a se mover, quando teve o vislumbre de um corpo caindo pesadamente no chão pavimentado, entre ela e a garota de Suna.

Matsuri arregalou os olhos ao reconhecer o cadáver ensanguentado. Era Yushi, o seu companheiro. Ela logo estalou a língua, ele era um fracote mesmo.

Hinata pousou ao lado de Sakura. A rosada se virou, com um sorriso enorme no rosto, mas este morreu a ver a expressão tensa no rosto de Hinata.

—O que foi que-

—Sakura, temos que ir.-A rosada a olhou confusa. Hinata suspirou, tentando se acalmar- Eles descobriram o esconderijo. Enquanto falamos, eles provavelmente devem estar...

Sakura arregalou os olhos, completamente chocada.

—Então, esse retardado abriu a boca...-Elas ouviram Matsuri estalar a língua. Mas depois, a viram sorrindo de canto- Sim, nós somos só a distração...os irmãos Sabakus provavelmente...foram fazer uma visita naquele vosso ninho de ratos de Konoha...

Sakura paralisou. Ino e Shikamaru.

—Hinata, vamos!

Elas assentiram, quando fizeram menção de se mover, Matsuri apareceu diante delas. A expressão dela era dura como mármore esculpido.

—Vocês, não, vão, passar.

Como se fosse possível, as esferas de chamas ao seu redor cresceram ainda mais.

Hinata estalou a língua. Ela estava prestes a se mover, quando um vulto caiu dos céus, pousando delicadamente, bem à sua frente. Ela arregalou os olhos perolados, ele era...

Até Matsuri congelou a sua expressão. Ela parecia bastante assustada, e com razão. Ela era tudo, menos burra. Aqueles olhos frios...ela ia ser morta, definitivamente...

—Esse deve ser o vosso dia de sorte...

Matsuri estalou a língua, antes de desfazer as suas chamas. Ela deu um último olhar para eles, antes de desaparecer em um shunshin de chamas.

Hinata e Sakura soltaram o ar que haviam prendido, sem saber. Elas desviaram o olhar para a figura que estava bem diante dos seus olhos. Ele parecia diferente...a sua aura e os seus olhos, estavam ainda mais...cansados, como se ele tivesse quebrado ainda mais. Porém, aquele brilho obscuro nos olhos era inconfundível. Era ele, sem dúvida alguma...

***

Ino tremia, completamente assustada e abraçada à Shikamaru. O seu corpo quente, a aquecia naquela noite estranhamente fria, e a fazia sentir algo que já não sentia há bastante tempo: Segurança.

Ela sentiu os dedos de Shikamaru apertarem o seu queixo, ele levantou o seu rosto, a fazendo encarar aqueles dois orbes negros que ele chamava de olhos, estavam estranhamente gentis. Ele sussurrou um ‟vai ficar tudo bemˮ e, estranhamente, aquilo acalmou um pouco o coração de Ino.

Coração. Ela achava que já não tinha um. Não depois de ver o seu melhor amigo ser decapitado bem diante dos seus olhos. Aquela era uma cena bem difícil de esquecer.

Ela podia fechar os olhos naquele momento, e conseguiria reviver tudo de novo. Ela se lembraria do cheiro fétido de enxofre no labirinto, se lembraria das chamas douradas, iluminando macabramente, se lembraria de chegarem numa bifurcação e de Shikamaru dizendo que iria ver o que tinha à direita, se lembraria da imagem do seu amigo, Choji, sorrindo, enquanto aquela katana se afundava no seu pescoço, ela se lembraria do sangue, quente e escarlate, respingando no seu rosto, ela se lembraria das lágrimas frias deslizando pelo seu rosto e do sabor salgado delas nos seus lábios, e sobretudo, se lembraria de se sentir como se o seu coração estivesse sendo arrancado.

Quando ela percebeu, estava chorando e tremendo de novo. Shikamaru parecia preocupado, provavelmente tentando dizer para ela não fazer nenhum barulho, ou ‟elesˮ achariam aquele escuro e vazio quarto onde eles haviam se escondido.

Mas, apesar de vê-lo movendo os lábios, Ino simplesmente não conseguia ouvir nada, a não ser aquele som na sua cabeça. Aquele maldito som! O som que a katana fez quanto separou a cabeça de Choji. O som de Choji morrendo! O maldito som que não a deixava dormir, nos últimos três dias.

Shikamaru estava prestes a dizer algo mais, quando a porta do quarto foi aberta abruptamente, e aquele homem entrou no quarto.

Encolhido, no canto do quarto, com uma Ino inconsolável, ele soube que tinha que agir rápido.

Ele havia escolhido aquele quarto por algum motivo. Era o melhor iluminado pela lua, ou seja...haviam mais sombras para serem controladas.

Com um selo de mão, as sombras ao redor daquele quarto se reuniram à volta daquele homem, o prendendo. Ele se voltou para si e gritou qualquer coisa.

Por mais louca que Ino estivesse, por algum estranho motivo, ela entendeu que ele queria que ela fugisse. E, como a covarde que era, a covarde que deixava seus amigos morrerem por ela, ela fugiu, saindo correndo pela porta.

Mas, antes que ela sequer pisasse fora do quarto, braços fortes se envolveram ao redor do seu corpo e um instrumento gélido e pontiagudo foi pressionado na pele branca da sua garganta.

Shikamaru ficou branco.

—Largue ela... ou eu vou estrangular o seu amigo...

Com um selo de mão, uma mão negra subiu até o pescoço do homem que estava aprisionado.

Ino ouviu o cara que a estava apertando gargalhar. Ele a empurrou de volta para o quarto, ainda com a kunai na sua garganta.

—Força aí...isso é uma marionete...um cadáver na verdade...

As nuvens diante da lua se moveram, permitindo Shikamaru finalmente analisar o vulto preso pelo seu jutsu, era...um cadáver em decomposição. Ele suou frio.

O cérebro de Shikamaru estava à milhas, tentando achar alguma maneira de, possivelmente, sair vivo daquela situação. Mas tudo piorou quando um vulto entrou pela enorme janela e se moveu até às suas costas, pressionando uma kunai no seu pescoço.

—Desfaça o Jutsu...-A voz era fina e melodiosa, uma garota, sem dúvidas- Agora...

Suspirando, Shikamaru desfez o selo do jutsu e logo sentiu o seu corpo ser pressionado no chão frio, e a garota prendendo os seus braços nas costas. Ela riu.

—Isso foi muito fácil...Kankurou-nii-san...

O garoto, que havia prendido Ino, apenas soltou um som parecido à uma risada. Não era realmente perceptível, uma vez que ele tinha o rosto inteiro completamente enfaixado.

—Eu sei, Temari. Nós queríamos o garoto Uzumaki, e as duas cadelas que andaram caçando os gennins de Suna...mas olha o que encontramos aqui...? Dois ratos assustados...

—Falem mais baixo...-Eles ouviram o som de passos lentos, um garoto ruivo entrou no quarto- Sons altos me deixam com sono...e eu não durmo há nove meses...

—Desculpe, Gaara. Mas eu estou feliz sabe...-Kankurou sussurrou. A sua boca estava estranhamente próxima do ouvido de Ino, e ela sentia o quão doente a voz dele era- Tão feliz. Temos presas tão...interessantes nessa agradável noite...você não acha?

Gaara apenas deu de ombros, com a sua típica expressão vazia.

—Tanto faz. Apenas mate eles logo. Eu quero ir atrás do Uzumaki...ele é forte. E tem olhos tão determinados... tão determinados que me dão vontade de arrancá-los...

Kankurou apenas sorriu de canto, pressionando ainda mais a Kunai na pele de Ino, arrancando um filete de sangue. Ele aproximou sua boca da orelha dela.

—Você...por acaso não saberia me dizer...onde Uzumaki Naruto, está?

Ino sentiu o seu corpo voltar à tremer, quando sentiu aquele hálito quente no seu ouvido.

—Largue ela! –Shikamaru gritou, os olhos acendendo em fúria, ele tentou se soltar, mas Temari apertou ainda mais os seus braços- Ela não sabe...nós não sabemos onde ele está!

Temari pressionou o seu queixo violentamente no chão, Shikamaru gemeu de dor.

—Calado, rato de merda!

Kankurou apenas riu, aquele olhar desesperado no rosto daquele garoto, ele reconheceria em qualquer lugar. Amor. Tão previsível. Eles provavelmente eram um casal. E aquilo, simplesmente, o deixava extremamente enojado. E sabe o que Kankurou fazia com coisas que o deixavam enojado? Ele quebrava. Exatamente como fazia com seus brinquedos na infância.

—Cara, cara...-Kankurou balançou a cabeça, de modo completamente teatral- Sabe...eu não estou gostando da forma que você está me olhando. Esses olhos faiscando de raiva...é quase como se...eu fosse um monstro cruel...-ele lambeu a ponta da orelha de Ino, enquanto movia a sua Kunai, lentamente, para o zíper do colete dela, Ino travou- Eu pareço um monstro pra você?

Shikamaru ficou estático. Não, não podia ser. Aquele cara não podia estar pensando em fazer aquilo. Ino só tremia e chorava, completamente encolhida.

Shikamaru suplicou.

—Pare...pare...pare...pare...por favor...

Kankurou fingiu olhar para ele com dúvida, enquanto terminava de abrir o zíper do colete de Ino.

—Parar o quê? Eu não tou fazendo, absolutamente, nada de errado...

A garota que prendia Shikamaru se remexeu, parecendo incomodada.

—Espere um pouco Aniki...-Temari murmurou, parecendo hesitante- Você... está indo longe de mais... só mate ela logo...

Kankurou suspirou, e parou o que fazia. Ele se afastou de Ino, ao invés disso, a prendeu com a sua marionete.

Com passos lentos ele se aproximou de Temari e Shikamaru. Ele se agachou, ficando com o rosto rente ao de Temari, e com um olhar incrivelmente gentil, acariciou os fios loiros da sua irmã.

Temari fechou os olhos, aproveitando o carinho incomum. Imediatamente, ela se lembrou da sua infância, quando Kankurou sempre a acalmava daquele jeito. Especialmente depois da morte da sua mãe. Ela só conseguia adormecer nos braços do seu gentil e carinhoso aniki.

—Olhe pra mim Temari –Ela abriu os olhos, ele continuou- Você me ama? -Temari olhou confusa para ele, mas logo assentiu. – Isso é bom...eu também amo você, sabe? E o que nós fazemos com quem machuca as pessoas que nós amamos?

Ele ainda continuava com aquele tom incrivelmente calmo e gentil.

—Nós...-Temari pensou um pouco- Também o machucamos, Aniki. Muito.

—Certo...-Kankurou assentiu- E é só isso que eu estou fazendo, querida imouto...

—Mas mesmo assim aniki...-Temari suspirou- Nós não fazemos esse tipo de coisa. Quer dizer...eu sou uma garota. O que você faria se alguém fizesse isso comigo?! –Kankurou ficou em silêncio, ela olhou para Gaara- Diz alguma coisa, Gaara!

Gaara apenas deu de ombros.

—Tanto faz. Ele faz o que quiser.

Os olhos de Kankurou faiscaram de raiva. Ele retirou, lentamente as faixas que envolviam o seu rosto, e Temari desviou o olhar.

—Olhe para mim...-Ele pediu, quando Temari não o fez, ele pegou no queixo dela e a obrigou a olhá-lo- OLHE PRA MIM, CACETE!

Temari assim o fez, e ela sentiu vontade de vomitar. Kankurou tinha grossas e extensas cicatrizes no lado direito da face. Estava completamente deformado, na verdade. Aquilo era...resultado da joelhada que Naruto tinha acertado nele. Foi tão grave, que Kankurou precisou passar por uma cirurgia de mais de doze horas para poder sobreviver, e as sequelas foram aquelas. Além das horríveis cicatrizes, tinha constantes cefaleias e episódios epilépticos, o que o levou à uma segunda cirurgia, em que removeram parte do seu cérebro.

Ele havia perdido totalmente a sensibilidade. Podiam enfiar uma kunai no seu olho, e ele simplesmente continuaria sorrindo daquele jeito insano.

—Olhe o que ele me fez! –Kankurou esbravejou, Temari tremeu- Você não me ama?! –Ela assentiu, Kankurou suspirou, tentando se acalmar- Além do mais, ele machucou a minha querida irmãzinha. Ele tentou matar você... E, o que eu faço com quem machuca minha irmãzinha?

Temari tinha lágrimas nos cantos dos olhos, e tremia feito uma vara.

—Nós... quebramos eles...

Kankurou sorriu, um tanto gentil.

—Sim, imouto. Nós os quebramos. E sabes como? Machucando as pessoas importantes para ele. Como aquela garota ali, e esse garoto...então você entende porque eu tenho que fazer isso? -Temari apenas assentiu, ainda tremendo. Kankurou se levantou- Ótimo. Segure o garoto, eu quero que ele assista.

Shikamaru sentiu a sua voz desaparecer e os seus olhos ficarem humedecidos. Ele apenas olhou para Temari, suplicante. Ele não queria...não queria ver aquilo...

—Me mate...-ele sussurrou- Por favor, me mate...

—Sinto muito...-Foi tudo o que ela disse, antes de virar o rosto dele para aquela cena- Você precisa ver...

Não, não, não. Shikamaru começou a se debater.

—Por favor...me mate! Me mate, caralho!

Ino sentiu o seu corpo tremer pelo frio, quando aquele garoto deslizou o seu colete para o chão daquele quarto. Temari desviou o olhar para baixo. Ela... não conseguiria ver aquilo.

Ino deixou escapar um gemido de dor quando aquele garoto a jogou no chão, ela sentiu uma forte pontada de dor na cabeça, quando ela tocou aquele chão duro e frio. E ela sabia que estava sangrando pelo líquido quente que sentiu no seu couro cabeludo.

Ela queria se levantar, realmente queria, mas estava demasiado tonta para isso.

Subitamente, ela sentiu aquele garoto estranho se deitar sobre si. Ela sentiu as suas mãos, ásperas e grossas subindo pela sua pele, e então ela sentiu a sua respiração acelerar.

Nã, não, não. Ela não queria aquilo!

Começou a se debater, mas sentiu os dedos ásperos dele prenderem os seus pulsos acima da cabeça, e o seu hálito doentio no seu ouvido:

—Se você resistir...-ele a forçou a olhar para o paralisado Shikamaru, com uma kunai na garganta- Ele vai morrer...-ele depositou um beijo no pescoço de uma Ino estática- E você não quer isso, não?

Ino arregalou os olhos. Morrer? Shikamaru ia morrer?

Ela viu estranhas e pesadas sombras a cercarem, e ouviu uma voz na sua cabeça sussurrando:

Sim. Eles vão cortar a cabeça dele.

Ino sentiu a sua respiração falhar:

Como...Choji? Ela perguntou para voz.

Sim, como Choji...

Então ela ouviu aquele som de novo, na sua cabeça. Som de Choji morrendo. O som de Choji dando um último suspiro. Ela não queria ouvir. Ela não queria ouvir aquilo de novo!

Então, o seu corpo ficou imóvel. Estático. Como uma boneca abandonada boiando em um lago gelado.

Sim, ela era uma boneca quebrada.

Ela focou os seus olhos na lua prateada que brilhava no céu, enquanto aquelas mãos ásperas arrancavam suas roupas.

A lua era bela, fria e solitária. Era perfeita. Mas escondia um lado sombrio que mostrava para poucos.

Exatamente como eu.

Ela se perguntou se a lua também sofria... como ela.

Ela sentiu as mãos dele sobre as suas coxas, e ele abrindo as suas pernas. E, então, veio a dor.

Forte e dilacerante, e que parecia rasgar o seu corpo, assim como a sua alma.

De repente, ela já não queria mais ser uma boneca quebrada.

Ela...ela não queria aquilo. Não queria ser como a lua.

Ela percebeu que estava chorando quando sentiu um gosto gelado no seu rosto.

—Por favor, pare...-ela começou a se debater, mas ele continuava se movendo sobre si, a dor era aguda e dilacerante, diferente de tudo que já havia sentido — Pare!

Mas ele não parou.

Nem mais a imagem da lua prateada era suficiente para distraí-la da dor que a rasgava por dentro. Ela se sentia suja. Muito suja.

De repente, tudo parou: As dores, as vozes sussurrando e o seu mundo escureceu.

***

Quando eles três encontraram o esconderijo completamente frio e vazio. Sakura entrou em pânico. Algo que ela já não sentia há bastante tempo.

Mas então, Hinata a acalmou, dizendo que iria averiguar com o byakugan. Porém, quando as costumeiras veias apareceram ao redor dos olhos de Hinata, ela entrou em choque. Os olhos perolados arregalados e a garganta completamente seca.

Sakura gritava com ela, querendo saber o que acontecia, mas Hinata havia esquecido o lugar mágico onde ficava a sua voz.

Aquela cena, tão bem detalhada pelo seu doujutsu, apenas a deixou pior. Era exatamente igual...igual ao que tinha acontecido com Naomi. E ela, simplesmente caiu de joelhos, se sentindo uma garota assustada de novo.

Sakura, vendo que não conseguiria arrancar nada da Hyuuga, simplesmente a segurou pelos ombros, e gritou:

—Onde?!

Hinata balbuciou um monte de palavras inteligíveis, antes de Sakura finalmente entender a palavra ‟Quintoˮ.

Sakura, esquecendo a excruciante dor que tinha nas pernas, subiu rapidamente às escadas. E ela desejava não tê-lo feito...

Hinata viu quando ele se agachou ao seu lado, e sentiu aqueles braços a envolverem em um abraço. Imediatamente, ela relaxou, ao sentir aquele cheiro de canela e limão adentrando as suas narinas. Cheiro de Naruto.

Ele enxugou as suas lágrimas com o polegar e a forçou a olhá-lo.

—Tá tudo bem, Hinata...

Ela balançou a cabeça.

—Você não entende...Ino e Shikamaru...eles...

—Eu não sei o que aconteceu com eles. –Naruto a cortou, com aquele tom incrivelmente calmo e profundo, como se a sua voz estivesse vindo das profundezas dos oceanos. Os olhos dele estavam incrivelmente tristes- Mas eu sei que...para você estar assim, deve ser algo...enfim, só saiba que não precisa lidar com isso sozinha... Então... –ele a levantou delicadamente- Eu estou aqui. Sempre estarei...

Hinata assentiu, ainda com lágrimas nos cantos dos olhos.

Enquanto eles subiam as escadas, Naruto arregalou os olhos. Aquele cheiro no ar...era incrivelmente familiar. Sangue e...sémen. Ele automaticamente escureceu os olhos, e cerrou a mandíbula.

Céus...aquilo não.

Quando eles adentraram o quarto, e encontraram Sakura, ajoelhada no meio do quarto, as mãos pendendo ao lado do corpo, e completamente estática, eles ficaram paralisados.

No canto do quarto, chorando encolhido com uma Ino nos braços, estava Shikamaru. Ela estava semi-coberta por um lençol, igual aos que cobriam aquelas camas, e aparentava estar inconsciente. Mas...vendo as manchas roxas na sua pele alva e o cheiro que havia no ar...Naruto entendeu. Entendeu algo que ele não queria ter entendido.

Quando Shikamaru notou a sua presença, os olhos negros dele faiscaram de um sentimento que Naruto nunca esperou encontrar. Ódio. Muito ódio.

Shikamaru se levantou, com o corpo de Ino entre os braços, e a entregou para a estática Sakura, que pareceu recobrar um pouco da consciência ao ter a sua melhor amiga nos braços.

Sem dizer qualquer palavra, Shikamaru se aproximou de si, com os punhos cerrados, e acertou um soco na sua mandíbula. Naruto sentiu o gosto metálico explodir na sua boca, mas não revidou.

Não revidou, nem quando Shikamaru empurrou o seu corpo para o chão, e começou a socá-lo repetidamente. Uma, duas, três, quatro...até Naruto perder a conta.

O moreno não falava nada, simplesmente o socava violentamente.

Hinata arregalou os olhos:

—Pare, Shikamaru!

—Não! –Naruto gritou, cuspindo sangue no chão- Não pare! Continue, Shikamaru. Continue, caralho!

E ele continuou. Continuou a socá-lo, até perder as forças nos braços. O moreno não dizia nada. Apenas olhava com ódio para ele, e grunhia feito um animal.

E foi aí que Hinata finalmente notou. Tinha um filete de sangue escorrendo no canto da boca dele e...Hinata arregalou os olhos, havia algo ensanguentado no chão daquele quarto. Se aproximando, ela percebeu que era uma língua ensanguentada no chão, e ela não quis acreditar.

Eles...eles haviam arrancado a língua dele.

Hinata correu até eles, e arrancou Shikamaru de cima do loiro.

—Já chega! –Os seus olhos perolados estavam humedecidos por lágrimas- Já chega dessa merda.

Sakura apenas assistia à tudo aquilo perplexa. Como...como tanta merda podia acontecer em um único dia?!

O sofrer, a melancolia e os grandes dissabores, eram intrínsecos ao ser humano; outrossim, é surpreendente como pequenas ações, podiam levar à grandes consequências.

Um simples suspiro, uma breve troca de olhares, o bater de asas de uma borboleta...tudo isso ocorre em um piscar de olhos; mas as consequências, reverberam como ecos indefinidamente no vale da eternidade.

Eles eram como borboletas batendo as suas asas, e no caso, aquilo que acontecia diante dos seus olhos, eram os resultados das suas escolhas. Eram os seus ecos.

Shikamaru apenas deu um último olhar para o Uzumaki, antes de se voltar para Sakura.

Hinata o ajudou a se levantar. Naruto teve um sobressalto quando sentiu a mão dela pousando no seu ombro.

—Você...-ela suspirou logo depois- tá tudo bem?

—Por que eu não estaria?

—Bom...você está chorando...

Naruto arregalou os olhos, só então notando o gosto salgado que se acumulava nos seus lábios. Ele estava chorando? Sério? Há quanto tempo aquilo não acontecia?! Ele passou o dorso das mãos nos olhos, e tratou de construir o seu melhor sorriso falso, mesmo com o rosto ensanguentado. Ela não acreditou, obviamente.

—Eu...vou para o banheiro...

O loiro cuspiu sangue no chão, antes de, sem dizer mais nenhuma palavra, sair daquele quarto.

Hinata olhou para ele enquanto saía, indecisa se o seguia...ou ajudava Ino. Ela suspirou, no fim. Se voltando para a cena que ela tanto queria esquecer. Ino era...prioridade.

***

Naruto fechou a porta atrás de si, e depois de molhar o seu rosto no lavatório, ele encarou o seu reflexo naquele espelho. E, imediatamente, as lembranças vieram.

Ver Ino daquela forma...o rosto e os cabelos eram diferentes, e ela não tinha seis anos, é claro. Mas o cheiro de sangue e sémen no ar...as marcas roxas na pele...as lágrimas...os olhares sem vida...tudo era exatamente igual. Igual à aquele maldito orfanato...

Não, não, não. Aquilo não. Ele não queria lembrar daquilo. Especialmente porque havia acontecido na véspera do seu aniversário, exatamente como naquele momento...

A Kyuubi, encolhida nas profundezas da sua consciência, apenas suspirou de forma profundamente triste, quando sentiu os sentimentos que emergiam do seu carcereiro. Céus...ele estava quebrado. Tão fodidamente quebrado.

Aquilo que tinha acontecido com o garoto... Ela sentia o seu coração –coisa que ela achava que já não tinha, não depois de tantos milénios- se apertando... No fundo, ela se sentia culpada. Culpada por não ter feito nada, enquanto aquilo acontecia diante dos seus olhos...Ela era culpada. Mil vezes culpada.

‟Gaki...ˮ

—Eu estou bem! –Ele parecia que dizia aquilo mais para si mesmo- Eu estou bem. Não aconteceu nada. Aquilo...aquilo nunca aconteceu.

—Mas-

—Eu estou bem, cacete!

Ele socou o espelho, o quebrando. Naruto encarou firmemente o seu reflexo ensanguentado naquele espelho. Agora sim estava melhor. Bem melhor. O espelho estava quebrado, assim como ele.

Notas finais
Na última vez que eu escrevi uma cena do tipo, alguém reclamou dizendo que eu não DESCREVI O ATO. E aquilo me deixou perplexo. Claro que eu não vou descrever o ato (ou seja, citar DETALHADAMENTE o cara enfiando...vocês entenderam). Não sei se repararam, mas quando eu escrevo esse tipo de cena, eu tenho o especial cuidado de me focar nos sentimentos/emoções que esse ato vil desperta, do que na DESCRIÇÃO. Porque é só isso que importa para a obra. Até porque, tem que se ser muito babaca para detalhar um ato desses, como se desse prazer algum. Estupro é uma das coisas mais nojentas que o ser humano pode fazer, e para quem também escreve, aconselho a não tentar ´´romantizar´´ esse tipo de coisa. (As famosas histórias em que um cara estupra uma menina, mas depois ele se arrepende, e ela o perdoa, se apaixonando por ele e vivem felizes para sempre. Cada um é livre de escrever o que quer, é claro, mas confesso que tem que se ter muita preguiça mental para criar uma história que desmerece uma situação tão séria). Só escreva cenas do tipo se for estritamente necessário para a obra! Repito, essa história apesar de ser fictícia, eu diria que se passa em uma época comparável à idade medieval, com seres humanos com mentalidades extremamente duvidosas e complexas (shinobis no caso). E nós bem sabemos que essa não era uma época exatamente cor de rosa. Eu atento pelo realismo na minha escrita, então, INFELIZMENTE, esse tipo de cena, ainda vai se repetir... e ainda vão acontecer cenas piores, ok? Enfim, só queria deixar isso claro... e sobre o Naruto...muita gente deve estar se perguntando: ONDE ESTÃO OS GENNINS QUE ESTAVAM COM ELE?! Bom...o próximo capítulo será um flashback falando exatamente sobre isso...vai ser tenso...muito tenso...(pensaram que o sofrimento acabou? Hahaha, ainda tem mais!) Acabo de perceber que eu talvez seja o Shinigami disfarçado de FicWriter kkk Abraços! #Se_Cuidem. #Fiquem_em_casa.