Fênix da Noite Estrelada
39 Unindo Forças
Notas iniciais
Anna sentia seus braços queimarem. Desde que amarrara aquelas faixas em seus braços, ela os sentia queimar, mas agora aquela dor de queimadura estava quase insuportável.
A dor era tanta que ela nem percebeu como e quando saio da torre, só sabia que tinha saído. Deu alguns passos a frente, como se fosse receber alguém, a noite estava muito escura, não dava para ver nem um palmo na frente do nariz, e estava cruelmente fria, ela só usava uma camisa e uma calça, mesmo assim, o frio não lhe atingia de forma alguma, a queimação em seus braços era pior. Somente quando a dor se tornou quase insuportável, ela caio de joelho e não gritou, muito pelo contrario, se controlou, principalmente agora que estava frente a frente com seus convidados.
¬ Até quando vão ficar na penumbra? — rosnou de dor. — Saiam logo! Não vem que estão me matando?
¬ Então foi você quem nos chamou aqui? — uma voz profunda, milenar ela diria, reboou pelo ambiente, era a voz do Senhor do Inferno, Hades.
¬ Foi ela sim, meu senhor. — agora era uma voz submissa de mulher, a serva e irmã mais fiel que um deus poderia ter, Pandora.
¬ O que você quer menina? — exigiu outra voz de homem, igualmente profunda, porém mais envolvente tal como as águas de seu reino, Poseidon. — Não sabe que estamos tentando enterrar nosso passado? Porque chamou por aqueles que dormem?
¬ Fale por você. — volveu de forma mal educada o senhor da morte.
Uma pequena discussão se iniciou, mas ninguém dentro da torre sabia e nem deveria saber que a menina estava ali fora, nem mesmo Kiki que parecia um membro da Guarda Suíça de tão atento que era as coisas ao redor. Os braços dela doíam e aquela discussão tola estava dando dor de cabeça, sua mente estava explodindo com o tanto de coisas que vinham.
¬ Calem a boca! — a exigência calou todos os presentes, não por respeito, mas por indignação.
¬ Como ousa? — Pandora soou irritada. — Tem ideia com quem est...
¬ Eu sei com quem estou falado! Agora cala boca e me escuta! — a dor já era tanta que ela se esforçava em não chorar, mas isso não impedia a menina de encontrar as almas de seus espectadores e encará-las com intensidade, pode parecer loucura, mas ela realmente estava vendo a alma deles. — Eu quero falar com vocês e se preciso, eu quero propor um acordo.
¬ Acordo é? — uma terceira voz de homem soou um tanto irônica, devia ser o tal Marina que passou todos esses anos ao lado de Poseidon. — Acordos não existem entre nós.
¬ Mas existem histórias que os farão repensar. — volveu.
¬ Você não sabe nada sobre nós e nem nos apiedaremos de companheiros seus. — continuou a teimar.
Anna se levantou e caminhou cambaleante até ele, agarrando firme em seu pulso e sentindo um choque familiar com o contato. Não sabia como e nem porque, mas algumas vezes foi capaz de ver a vida inteira de uma pessoa só de tocá-la ou olhá-la nos olhos, e dessa vez não foi diferente. Se afastou e voltou a cair com a mão na cabeça. De uns tempos para cá as dores de cabeça tinham aumentado, assim como pesadelos e visões, parecia que tudo tinha piorado depois que se afastou dos pais.
¬ Cale-se Sorente de Sirene! — a menina o encarava com dor. — Eu não sei como, mas sou capaz de ver sua vida através do seu olhar ou toque. Sei tudo sobre você. — ditou firme ao segurar a cabeça com força. — Sei como era um aluno de música dedicado na infância, sei sobre a desilusão que sofreu no inicio da adolescência, sei como Kanon de Gêmeos o levou para o exercito de Poseidon, sei o que passou para se tornar um Marina, sei de todas as suas lutas, vitórias e derrotas, sei como abandonou tudo para acompanhar Julian Solo em sua jornada. — uma pontada forte na cabeça foi sentida enquanto que era encarada com verdadeiro espanto. — Eu sei tudo sobre você. Agora cala boca e escuta.
Grunhiu de dor de cabeça, socou o terreno rochoso e forçou-se a encarar seus convidados. Coisas desconexas vieram a sua mente, a cabeça latejava e seus olhos assumiram um brilho diferente. Passado, presente e futuro, estava tudo ali.
¬ Qual foi a última vez que os deuses se uniram por uma causa? — questionou ferina. — Qual foi a última vez que deixaram o orgulho de lado e se ajudaram?
¬ Você é muito abusada criança. — volveu Pandora. — Não acha que esta se aproveitando de nossa boa vontade só porque conseguiu nos chamar nossa atenção?
Ouvir a voz deles era doloroso, fazia mais e mais coisas surgirem em sua mente. Isso nunca aconteceu antes. Porque agora? Não sabia, depois se preocuparia com isso, tinha mais o que fazer antes de se preocupar com dores de cabeça.
¬ Não estou sendo abusada, estou colocando juízo na cabeça de quem perdeu. — sua voz soou irritada, quase mal educada. — E outra, vocês não teriam vindo aqui se fosse pouca coisa, não estou certa Lady Pandora?
A mulher a olhava de cima. Anna nem se incomodava, só queria ser ouvida e, eventualmente, que aquela dor de cabeça parasse. Geralmente seguraria a língua como Cisne a ensinou, só que com uma dor de cabeça como a dela, pensar no que se fala não é muito viável.
¬ Morda sua língua criança. — rosnou a mais velha. — Você não sabe o que diz e nem o que quer.
¬ Quero acabar com essa guerra e para isso quero sua ajuda. — volveu tão irritada quanto.
¬ Enlouqueceu? — estava se irritando com a ousadia da pequena. — Sua loucura pode agravar esta guerra. Não vamos apoiar quem nos trouxe ruína.
Anna começou a rir. Deuses são exatamente como Fênix dissera. Só pensam em si mesmos, são rancorosos, se recusam a aceitar conselhos e nunca dão ouvidos à razão. Mas também podiam ser como Andrômeda dissera. São tão defeituosos quanto os humanos e assim como eles, também são capazes de grande bondade. Esperava encontrar daquela bondade ainda hoje.
¬ Com todo o respeito que me permitido ter, Lady Pandora. — iniciou seu discurso um tanto sarcástica. — Porque a senhora não se comporta como o cão submisso que é e me deixa falar?
Anna foi erguida pela gola de sua camisa. Sentiu os dedos da mulher roçarem a pele de seu pescoço e sua cabeça latejou mais uma vez. Sua mente se encheu de imagens, sons e sensações, um grunhido mais parecido com um rosnado escapou de sua garganta. Tal fato fora interpretado da forma errada, pois agora estava sobre a ameaça do punho da mulher.
¬ Criança insolente! — já podia sentir a ardência que viria depois do impacto.
¬ Pandora. — o mundo pareceu parar.
A mão antes erguida no ar, agora abaixava lentamente e muito a contragosto. Anna foi largada de qualquer jeito e colocou as mãos na cabeça. Doía muito, era difícil falar tamanha a dor, só que ela jamais perderia a oportunidade de provocar, aprendera muito bem como irritar as pessoas com Fênix.
¬ O que é? Não ia me bater? — deu a língua para mais velha. — Pois é... — outro latejar. — Você pode não gostar muito da ideia, mas ama tanto o seu irmão ao ponto de fazer o que ele manda, mesmo depois de tudo o que ele te fez. — o rosto da mais velha aparentava surpresa. — Mas nós irmãs mais velhas somos assim não é mesmo? Matamos e morremos por nossos irmãos. Eles podem ser o diabo em pessoa, podem ter nos feito sofrer a vida inteira, podem ter nos ferido mais do que qualquer outra pessoa, mas nós ainda os amamos e fazemos qualquer coisa por eles. — Anna a encarou como quem espera uma resposta. — Não é por essa razão que permaneceste ao lado dele depois de tudo, Lady Pandora? Porque a senhora aprendeu a amá-lo como seu irmão? Porque a senhora não consegue deixá-lo mesmo sabendo tudo? — a mais velha desviou o olhar e a menina riu. — A senhora não mudou nada Lady Pandora, continua sendo a melhor irmã que pode existir. Irmã mais velha, irmã mais nova, esta sempre do lado daquele que lhe criou e foi criado pela senhora como a família que são. — grunhiu de dor. — Nunca deixou de ser uma boa irmã e humilde serva, sua fidelidade é admirável, mas continua esquentada. Mas agora, por favor, cale a boca.
A mais velha cerrou os punhos, aquela menina estava precisando de uns tapas, mas... Apesar de nunca ter abandonado seu senhor e irmão, digamos assim, ela jamais expressou o que se passava em seu interior, então essa menina simplesmente aparece e fala tudo e mais um pouco. Ela não era normal, tinha algo de diferente nela, que a permitia saber tanto, mas o que seria era um verdadeiro mistério aos olhos de Pandora. Talvez seu senhor soubesse, a forma com que ele se manteve em silencio significa que tinha muito mais por trás daquela menina.
¬ Como você sabe? — por fim, questionou.
¬ Eu não sei. — volveu com um grunhido de dor. — Eu simplesmente vejo.
Pandora e Sorento se olharam e depois olharam para seus senhores. Demoraram algum tempo, mas logo deram um passo para trás e aceitaram o fato de ficar em silencio. Com os dois calados, só restava conversar com os deuses. Os verdadeiros alvos daquela conversa. Anna não saio de seu lugar, apenas encarou as duas almas ali presentes.
¬ Agora que a tempestade foi apaziguada. — cerrou os olhos com força quando mais imagens vieram a sua mente. — Desejo falar com os senhores.
O tempo pareceu parar. O mundo perdeu cor e se tornou estático. Somente a pequena libriana e os dois outros presentes estavam “vivos” naquele mundo apagado. Mal desconfiava que na verdade estava em uma pequena viagem.
Pandora e Sorento agora se encontravam sozinhos, seus senhores e a menina tinham sumido. O que assustou um pouco o ex-Marina, ele não estava tão acostumado assim com demonstrações de poder.
¬ Onde eles foram parar?! — questionou.
¬ Pelo jeito o assunto é sério mesmo. — comentou a mais velha. — Eles estão além do espaço. No espaço entre os espaços. Em resumo...
Sentiram um forte impacto e foram jogados contra rochas. Antes mesmo de atingirem o chão foram pegos e agora eram segurados firmemente pelo pescoço, sendo obrigados a encarar um par de olhos tão azuis que chegavam a se tornar outra cor.
¬ O que fazem aqui? — sentiram o aperto aumentar. — Espero que tenham uma boa justificativa, do contrario, tenham certeza de que logo estarão mortos.
¬ Foi... — era difícil falar e respirar. — Sua amiga... A menina... Quem... Nos chamou...
A expressão de seu agressor se transformou por completo. Foram soltos sem cuidado algum.
¬ Anna fez o que?!
A pequena estava se roendo de dor naquele outro mundo, quase esquecendo o porque de ainda estar ali. Os deuses apenas a observavam, esperando que falasse alguma coisa e também estavam um tanto espantados por um mero mortal estar resistindo tão bem a uma dimensão em que somente os deuses podem trafegar.
¬ Fale o que quiser criança, mas não garanto que vamos concordar. — afirmou o Senhor dos Mares.
¬ Ah... — começou a pequena com a voz um tanto arrastada. — Vocês vão. A quebra do Olimpo não é fácil de esquecer não é mesmo?
¬ O dia em que Atena foi nomeada defensora dos homens. — comentou Hades.
¬ Metade de nós ficaram contra ela e a outra metade ficou com ela. — completou Poseidon.
¬ Mas conseguem se lembrar que foram os senhores que mais a apoiaram? — questionou com a voz chorosa, a dor de cabeça era quase insuportável.
¬ Isso antes dela nos trair. — rosnou o Senhor do Inferno.
Imagens chegavam muito rápido. Coisas que ela não devia saber, coisas que nenhum mortal devia saber, que apenas deuses sabiam. Coisas que as águas guardaram o reflexo, que ventos frios levaram embora e que as montanhas sussurraram para as profundezas do esquecimento. Coisas escondidas, mas que ela agora sabia e usaria para conseguir o que queria. Faria uso de toda a sua teimosia “adquirida geneticamente através da convivência com Ikki”, como Andrômeda costuma brincar, para conseguir o que queria.
¬ Ela nunca os traiu. — respondeu mal criada. — Afrodite forjou tudo. Foi ela quem matou Dastan e incriminou Atena, Lord Hades. Foi ela quem encheu sua cabeça de bobagens, Lord Poseidon. — rangeu os dentes de dor. — Foi ela quem dividiu o Olimpo. Tudo por ódio dos castigos lhe conferidos. Ela queria que vocês pagassem e para isso colocou irmão contra irmão, pais contra filhos e amigo contra amigo. O Olimpo se dividiu por culpa dela!
O ambiente ficou muito mais pesado. Tudo bem. Ou abusou demais e acabou de assinar sua sentença de morte ou foi ousada o bastante e tinha acertado o alvo que desejava.
¬ Explique. — bingo.
Primeiro dirigiu-se ao homem de profundos olhos azuis, tão azuis quanto o oceano que governava. Somente depois de olhar nos olhos daquele homem é que entendeu a frase “o mar é repleto de tesouros e mistérios”, aqueles olhos escondiam muitos segredos, mas também ocultavam muitas coisas boas, inclusive um coração bom.
¬ O senhor a amava... — concluiu após algum tempo. — O senhor sempre a amou. Não é? — sem resposta. — Ela simplesmente surgiu em suas vidas, chamando Zeus de pai e os senhores de tios. E com o tempo, talvez, por gracinha de Eros, o senhor se viu apaixonado pela própria sobrinha. — segurou a cabeça novamente. — O senhor a amou tanto que quase perdeu tudo. Atena vale tanto assim?
Por um tempo, o deus parecia estar medindo as palavras que usaria para respondê-la. Anna estava acertando os pontos chave, só precisava esquematizar tudo de forma que eles aceitassem ajudar. Teria que tomar muito cuidado onde pisava agora.
¬ Atena não tem preço. — por fim ouviu sua resposta.
¬ Você se apaixonou perdidamente por ela, mas nunca conseguiu tê-la. Isso é triste e acredito ter uma parca ideia do que sentes. — por alguma razão, lembrou-se de certo ariano. — Mesmo ela não aceitando esse tipo de amor vindo do senhor, isso nunca o impediu de estar sempre ao lado dela. Mas tudo mudou quando o Cavaleiro de Pegasus apareceu. — segurou a cabeça com força, mais imagens vieram. — Eles nutriam uma forte amizade, talvez uma espécie de amor inatingível, mas Afrodite mandou ficarem enchendo sua cabeça de bobagens e histórias falsas. — uma forte pontada quase tirou-lhe um grito, viu a imagem de um belo e jovem deus a sorrir. — Foi seu filho, Tritão. Aquele em que você mais confiava foi quem lhe traio. Foi ele quem lhe fez dar inicio a uma rixa que dura milênios. — sentiu o ambiente se tornar pesado demais, quase não conseguia respirar.
¬ Meça suas palavras criança! — cutucou demais. — Tritão é meu filho, jamais me trairia.
¬ Da mesma forma que traíram seu pai Cronos? — se ia morrer por ter abusado, que fosse embora deste mundo deixando a dúvida na mente do deus. — Se não me fale engano, não foi Tritão que se aliou a Afrodite na última guerra que ela travou com Atena? Pobre tolo. Mal sabia o destino que o aguardava ao cair nos encantos daquela megera. Afinal, não foi ele destruído por completo durante uma batalha? Foi um Flecha que o apunhalou pelas costas não foi?
O deus se calou. Parecia refletir as palavras da menina com seriedade. Anna, por outro lado, continuava a grunhir com aquela dor de cabeça infernal, seus braços nem mais competiam com a dor de cabeça. Mesmo assim, ela prosseguiria com seu discurso.
¬ Foi quando explodiu a primeira guerra entre Cavaleiros e Marinas. Foi tão violenta que destruiu o continente Mu. — concluiu. — Desde então o senhor tem tentado tomá-la, mas nunca percebeu que estava fazendo o oposto. Esta afastando aquela que mais amou por acreditar que ela lhe traio.
Pareceu que o deus falaria alguma coisa, no entanto, Anna tratou de cortá-lo antes que se iniciasse um bate boca interminável.
¬ Atena sempre te amou. — afirmou convicta do que dizia. — Ela sempre teve o senhor, Zeus e Hades como os exemplos dela. Os deuses mais justos que ela conhecia, ela sempre os amou como o que são, a família dela. — imagens vinham sem parar. — Ela sofreu quando viu o que estava acontecendo e sofreu ainda mais quando percebeu que o senhor nunca mais daria ouvidos a ela, nunca mais estaria ao lado dela. Atena vem lutando com você sempre, mas ela sempre tem tentado fazer o senhor abrir seus olhos. — encarava o deus com muita dor no olhar, não só por sua cabeça, mas também pelo que sabia. — Porque acha que na última guerra ela aceitou conversar com o senhor? Ela nunca perdeu a fé no senhor, ela nunca desistiu do senhor. Porque vai desistir dela agora?
Parecia que sua cabeça explodiria. Era muita coisa para uma pessoa só, mas estava suportando. Sabia que aquilo não era algo normal, qualquer pessoa teria enlouquecido com metade do que ela sabia, só que de alguma forma aquilo só lhe dava dor de cabeça.
¬ Por favor, Lord Poseidon. — seu olhar era suplicante, estava difícil suportar a dor. — Pense bem. Não houve um único momento em que Atena ficou sem lhe estender a mão. Custa tanto estender a mão para ela? Custa tanto ajudar nessa guerra? Custa tanto ter quem ama de volta? — outra forte pontada. — Se não por Atena, pela humanidade que um dia o senhor ajudou a proteger. E se não por eles, para fazer Afrodite pagar seus pecados. — grunhiu de dor, dava para ver as veias saltando em sua testa. — Eu lhe suplico Lord Poseidon. Nos ajude nesta guerra. Apoie Atena mais uma vez.
Anna lançou um olhar profundo e cheio de significados para o deus ali presente. Logo sua expressão se contorceu em dor e ela abaixou o rosto. Como queria um remédio para dor de cabeça agora.
Sentiu tocarem-lhe o ombro. Também sentiu a dor diminuir, não sumiu, mas diminuiu consideravelmente. Olhou primeiro para o ombro e depois para frente, encontrando o olhar do senhor dos mares e de seu receptáculo humano unidos, falando com ela através de uma só voz.
¬ Eu vou... — pareciam um pouco incertos. — Eu vou pensar criança. — deu um mínimo sorriso, antes isso do que um “não”. — As coisas ditas... São um tanto novas para mim. — tombou um pouco a cabeça, parecia estar realmente refletindo sobre o que fora dito. — Mas como sabia disso?
¬ Eu juro senhor, se eu soube-se lhe diria, mas eu só sei. — deu um riso envergonhado.
O deus se levantou e estendeu-lhe a mão para ajudá-la a fazer o mesmo. Ele possuía o desenho de um sorriso no rosto.
¬ Vou lhe dar um voto de confiança criança, pois seus olhos não mentem e nem seu coração. — afirmou. — Eu vou entrar nesta guerra em prol de minha sobrinha Atena e ajudar na virada deste tabuleiro.
Anna sentiu lágrimas escorrerem por seu rosto, não conseguiu se conter. Ela abraçou a cintura do deus murmurando diversos agradecimentos. A principio o deus se surpreendeu e não soube como reagir, mas Julian Solo, seu receptáculo afirmou que seria bom eles retribuírem a menina e, um tanto hesitante, foi isso que fez.
Ela então se afastou do deus, limpou o rosto, se curvou respeitosamente e encarou as sombras. Ali não havia um corpo, apenas uma alma milenar, se aproximou com cuidado e encarou a essência que parecia surgir na escuridão. Fria e vazia, sem vida ela diria, mas que transmitia uma sensação de muitas experiências e provações. Era o momento de enfrentar o verdadeiro monstro. Hora de não só virar o tabuleiro, mas dar o definitivo xeque-mate.
¬ Você disse que Afrodite matou Dastan. — pronunciou-se de forma solene. — Mas ao menos tem ideia do que falas?
Engoliu seco.
¬ Dastan. Deus das Almas e Decisões, Criador de Essências e Luz do Inferno. Filho de Perséfone e Hades. O único herdeiro do Inferno. — por um minuto, pensou ter visto um menino sorrindo. — Ele era um deus muito jovem. Nem apresentado aos mortais tinha sido. Era o raio de vida naquela terra de mortos. A única prova, segundo os outros deuses, de que o senhor tinha um coração e era capaz de amar. — o silencio prolongado do deus a incomodava. — Aquela criança era seu mundo, sua razão de sorrir e quando o perdeu foi como ter metade de seu coração arrancado e queimado até as cinzas, deixando a parte que restou sem vontade e amargurada. E como se não bastasse, ainda teve de suportar a história de que sua amada sobrinha Atena era a responsável pele morte de tão valioso tesouro.
Deuses não morrem, quando eles não são selados, eles são banidos para o Tártaro, de onde só podem sair depois de muito tempo, isso se não forem presos. No entanto, a morte definitiva de um deus é sua destruição total. Corpo, alma, mente, Ichor e a fé dos humanos deveriam ser destruídas, somente assim um deus morria, somente assim um deus desaparecia.
Esse deus de quem Anna falava, esse filho de Hades, nunca foi apresentado aos humanos, então a “fé” já tinha sido destruída. Corpo e Ichor é tão fácil de destruir quanto destruir um exercito de 100 mil homens, o que para um deus é insignificante, um corpo jovem então, era fácil demais. Alma e mente é mais difícil, mas se souber como, também é fácil de se destruir. Dastan era jovem, muito jovem, era um alvo fácil.
¬ Atena e ele estavam nos Jardins de Perséfone. — comentou o deus. — Eu confiava na minha sobrinha para cuidar dele e ela me voltou horas depois com lágrimas escorrendo e o sangue dele em suas mãos. O que tem a me dizer?
¬ O senhor não matou um servo naquele dia? — questionou curiosa. — Porque?
¬ Ele era responsável pela proteção de Dastan quando eu não estava por perto. — respondeu de imediato. — O matei para dar exemplo, para mostrar como sua desatenção custou caro.
¬ Mas já chegou a pensar que era ele o responsável pela morte de Dastan? — em sua mente, Anna via coisas que não queria, mas que eram necessárias. — Lord Hades. Seu filho era um jovem deus e Atena estava abandonando sua juventude, deixá-los sozinhos não foi algo bom, eles estavam vulneráveis, poderiam ser atacados por qualquer um. E se aquele servo passava tanto tempo com Dastan, já imaginou que não seria ele que o prejudicava, que não seria ele quem matou seu filho aos poucos? — suas palavras eram verdadeiras, mas não tinha como prová-las, só podia implantar dúvidas.
¬ Dastan não gostava de ficar com aquele servo. — o deus comentou para si mesmo. — Chorava toda vez que eu dizia ter que me afastar.
¬ Afrodite tem servos em todos os lugares. A forma com que essa guerra se iniciou é uma prova disso. — afirmou. — Ela foi capaz de corromper deuses para fazer a vontade dela, imagine servos. Ela pode ter convencido aquele servo a matar Dastan. Ele pode ter feito algo para que Atena não lembrasse dos acontecimentos e enquanto isso terminava sua missão.
¬ E quais razões Afrodite teria? — o deus estava bem falante para o que a menina sabia.
¬ Ela é rancorosa. — respondeu em um único ímpeto. — Muitas vezes os demais deuses a fizeram pagar por seu comportamento e ela se achava injustiçada. — estava certa em seu argumento. — Afrodite só queria transformar seu ódio na ruína dos demais deuses, queria dividi-los para poder fazer o que bem entendesse.
Um silencio desconfortável pairou no ar, ninguém ousou falar enquanto o deus permanecesse calado.
¬ Perséfone dorme até hoje devido ao desgosto de perdê-lo. — novamente, o deus comentou mais para si. — Rancor e ódio é tudo o que conheço desde que minha esposa e filho me deixaram. Desde que eu declarei guerra contra o Olimpo. Desde que chamei minha sobrinha de assassina.
Sabia que ali não existia um corpo físico para se pegar na mão ou qualquer coisa do gênero. Era só uma sombra, mesmo assim esticou a mão como se tentasse tocar algo. Aquilo chamou a atenção, era como se tentasse acalentar alguém em que não pode tocar, alguém por quem queria chorar sem poder derramar lágrimas, e ela permaneceu assim por algum tempo, o que espantou ainda mais. Nenhum outro mortal teve tanta sensibilidade quanto aos deuses, na verdade, houve um “mortal” assim, mas ele estava morto a muito, muito tempo.
¬ Lord Hades. — começou um tanto receosa. — Não irei dizer que compreendo sua dor, pois sou uma criança e se algum dia eu for mãe e esposa, espero nunca passar por isso. — recolheu sua mão e se agachou, desenhando um rosto infantil na terra para depois apagá-lo. — Tire o filho de um homem e ele não tem mais nada a perder. Mas precisamos de sua ajuda também! O senhor pode pensar que não tem mais nada a perder, mas se algum dia o senhor realmente amou Perséfone, Dastan, Atena, seus irmãos e, quem sabe, a humanidade, pense comigo. — esclareceu a pequena. — Afrodite tem tirado milhares de vidas todos os dias. Tem escrachado do senhor e seus irmãos todos os dias. Tem tentado destruir Atena, suas forças e ideais. Tem destruído a terra, aquilo que sua esposa Perséfone mais adorava. Tem tirado a infância, a vida de milhares de crianças iguais a Dastan. Tem tentado destruir tudo o que protegemos e amamos. — concluiu com lágrimas querendo escorrer por seu rosto.
¬ O que te faz acreditar que ajudarei? — a voz do deus permanecia neutra, inatingível.
A menina pareceu pensar suas próximas palavras. Lidar com deuses é difícil, ainda mais deuses teimosos como aqueles.
¬ Nós humanos podemos ser orgulhosos e burros, mas nunca esquecemos dos deuses e rezamos para que nunca esqueçam de nós. — explicou o que para si era a verdade. — O senhor, Lord Hades, e seu irmão, Lord Poseidon, já amaram a humanidade, já lutaram por ela, já lutaram com ela. Atena e a humanidade nunca desistiram dos senhores. — a menina encarou as sombras. — Porque desistiriam de nós agora?
Anna escutou um suspiro audível por parte do Imperador do Inferno. E passou-se mais algum tempo em silencio. Aquilo estava começando a deixá-la louca, tinha medo da resposta.
¬ Não restam dúvidas, Hades. — comentou o senhor dos mares entre risos.
¬ Você está certo. — por um instante, temeu a resposta. — Não restam dúvidas que vou me libertar custe o que custar!
A afirmação assustou a menina. Não podia negar que pensava que seria mais difícil, mas também estava muito feliz por ter conseguido. Lágrimas de alegria escorriam livremente por seu rosto e ela tratava de secá-las o mais rápido possível, a dor de cabeça chata era quase inexistente agora e ela ria de alegria. Sentiu alguém pegar uma de suas mãos e a outra foi envolvida por uma sombra, gerando uma sensação um tanto engraçada.
¬ Não vou me ajoelhar e quem me enfrentar vai aprender o que é cair! — afirmava o deus dos mares. — Não pretendo perder, mas quem quiser tentar logo vai se arrepender! E estará perdido então. Pois vai saber o que é sofrer em nossas mãos!
¬ Eu vou sair dessa prisão. Eu vou sair deste lugar. — ditava o deus dos mortos. — Te juro, não será em vão! Te juro, vamos triunfar! Nenhuma força vai mudar a nossa escolha...
¬ Que é lutar! — afirmaram em uníssono.
O mundo voltou a ter a vida de antes, só que agora tinha um pequeno diferencial. Além de Pandora e Sorento com suas caras de nada, Kiki também esperava seu retorno, a expressão dele era uma mistura de preocupado com irritado. No entanto, logo suas expressões se modificaram para a mais pura surpresa, ficaram calados perante aquilo, não tinha a mínima ideia do que dizer.
Anna então foi calmamente até o ariano com cara de quem foi pego organizando a pegadinha do ano, estava profundamente envergonhada. Ela adorava o rapaz, desde que o conhecera era assim, nunca soube dizer ao certo o que ele era para si, só sabia que era um sentimento muito forte e que quando parecia deixá-lo bravo, doía mais do que tudo olhar para ele. Estava esperando a bronca do século.
Para sua surpresa o rapaz a abraçou com força. Escondendo o rosto na curva de seu pescoço.
¬ Porque Anna? — foi tudo o que disse.
¬ Porque eu os amo demais para ficar parado só vendo. — ela se afastou do rapaz para olhá-lo nos olhos. — Eu não quero que ninguém se machuque. Eu vi coisas nada boas, por isso tomei essa iniciativa.
Eram muito unidos. Mesmo com o pouco tempo de convivência e a diferença quase gritante de idade, ariano e libriana tinham uma forte amizade, sempre estavam lado a lado, possuíam uma ligação que era só deles e que ninguém de fora saberia explicar.
¬ Então porque não falou nada quando viu essas coisas? — sua voz era um tanto carregada, choro talvez.
¬ Eu sou uma criança. — respondeu de imediato. — Ninguém escuta uma criança, ainda mais em tempos como estes. Porque dariam ouvidos a uma criança com pesadelos?
Ele não tinha resposta, só voltou a abraçá-la com força.
¬ O que viu?
¬ Dor. — sua voz estava embargada e lágrimas escorriam só pela lembrança. — Muita dor. Sofrimento. Caos. Trevas. Ódio. O fim. — um soluço. — Eu vi o mundo corrompido pelo ódio de Afrodite.
¬ E o que vê agora?
A menina fechou os olhos por um tempo, respirou várias vezes tentando se acalmar. Sua cabeça deixou de doer, o que via aparentava ser bom, ainda havia o fantasma do que viu anteriormente, mas o que via agora parecia promissor.
Se afastou e colou a testa na dele, era uma linguagem só deles aquela, era a forma deles dizerem um ao outro que estava tudo bem.
¬ Luz. — afirmou. — Apesar de ainda existir uma sombra, eu vi luz.
Afastou-se do mais velho e limpou o rosto como podia, segurou a mão dele com força como uma forma de dizer que estava tudo bem, então virou-se para os deuses, vendo que estavam sozinhos. Não precisou perguntar, sua expressão dizia tudo.
¬ Mandei Sorente preparar as tropas e buscar quantas Escamas forem possíveis. — explicou o senhor dos mares. — Logo o seguirei. Mas antes precisaremos misturar nosso sangue com o de Atena para garantir a vitória.
¬ Misturar o sangue? — a pequena observou um tanto espantada a pinta na testa de Kiki fazer um arco.
¬ Se banharmos Armaduras, Escamas e Sapuris com nosso sangue, a força de nossos guerreiros crescera até níveis alarmantes. — prosseguiu em sua explicação. — Sabemos que tem um pouco do sangue da deusa guardado em sua torre. Não precisa de muito, quando misturados, a quantidade aumenta e assim todos terão ao menos um terço de nosso poder, claro que é algo temporário.
¬ Está me dizendo que todos usarão Kamuis? — ainda duvidava de tudo que ouvia e de quem falava.
¬ Acho que podemos classificar o resultado como Kamuis sim, mas como eu disse o efeito é temporário e, na verdade, nem eu sei como as armaduras irão reagir a tamanha força. — comentou pensativo. — Lembro que em Eras passadas houveram armaduras que explodiram.
¬ Você quer colocar nossas únicas armas e proteções em risco por querer “garantir” o final da guerra? — agora estava totalmente desacreditado.
¬ Não. — volveu. — Armaduras suportam bem o sangue divido, mas o problema é na mistura. As vezes a força pode ser tanta que a armadura acaba explodindo ou sendo corrompida. — explicou. — Pode acontecer? Pode. Mas é nossa melhor chance. Eu e Hades somos dois dos Três Grandes, mas ainda sim estamos enfraquecidos pela nossa última batalha contra Atena. Precisaremos recorrer aos extremos.
Kiki abriu a boca para falar algo mais, porém sentiu Anna pegar em sua mão. Imediatamente olhou para baixo e acabou vendo que a menina confiava neles. Suspirou. Anna já tinha feito sua escolha e os deuses também, só faltava ele fazer a dele. Não precisou dizer nada, apenas acenou para ela. O ariano iria até o fim do mundo com ela se fosse preciso.
¬ E o senhor? — Kiki indicou o mais velho dos deuses com a cabeça. — O que o fará?
¬ Pandora foi convocar os Espectros que sobreviveram a última guerra ou que já retornaram de seu exílio. — respondeu solene. — Porém, terei de usar o Cavaleiro de Andrômeda mais uma vez, pois meu corpo ainda não foi reconstituído. E antes que tome esperanças quanto a qualquer coisa, advirto-lhe de que não faço isso por minha sobrinha, eu já errei demais com ela para esperar seu perdão, faço isso pela minha sede de vingança.
Anna soltou a mão de Kiki e com todo respeito que poderia possuir se curvou perante os seres milenares.
¬ Sou muito grata em ouvir isso, Lord Hades. Mas eu lhe suplico. — ergueu a cabeça para olhá-lo, mesmo nada havendo ali. — Não faça uso do corpo de meu tio, ele está travando suas próprias batalhas e ainda tem que socorrer os feridos. Se o senhor precisa de um novo corpo, eu ofereço o meu.
O ariano chegou a abrir a boca novamente para retrucar, mas pode ver o senhor dos mares advertir-lhe com um sinal de cabeça. Aquele assunto era entre o Deus dos Mortos e Anna, ele se meter no assunto seria apenas uma dor de cabeça a mais.
¬ Meu receptáculo tem de conter a alma mais pura do século...
¬ Pois o senhor já é uma alma corrompida, então precisa de alguém que seja o seu oposto. — interrompeu antes que aquilo se prolongasse mais do que devia. — Mas pense bem, Lord Hades, meu tio possui a alma mais pura, que é justamente o que o senhor precisa, porém o senhor nunca pensou que alguém que tenha mente, corpo, coração e alma puros, não seja um equivalente? — o deus pareceu muito interessado no rumo daquela conversa. — E que equivalente melhor seria que uma criança? Eu só tenho 8 anos, conheço muitas coisas, mas minha inocência é minha senhora.
Anna estava de cabeça baixa, já tinha ousado até demais e tinha certeza de que se abusasse mais um pouquinho, sua cabeça não ficaria mais grudada ao pescoço por muito tempo. Seus braços voltaram queimar e lágrimas teimosas queriam escorrer por seu rosto infantil, mas ela jamais as permitiria.
¬ Não gostei de você, menina. — comentou o deus. — Você me lê como se eu fosse um livro aberto.
Anna desvendou os deuses em uma hora, coisa que nenhum outro conseguiu em séculos. Não que o deus não gostasse da menina, ele até gostou do jeito dela, ele não gostava era da habilidade dela de encontrar e revelar até as coisas mais bem guardadas. Só conheceu uma pessoa que fosse assim, mas ela morreu muito tempo atrás, mas ao conhecer aquela menina, ideias diferentes começaram a brotar na mente do deus.
¬ O que, em muitas culturas, é um sinal de pureza. — respondeu com um mínimo sorriso e ar de submissão.
Ficaram em silencio por algum tempo, Anna realmente os tinha pego desprevenidos, nem mesmo aqueles seres que se diziam oniscientes, onipotentes e onipresentes, foram capazes de prever o que a menina desejava, tanto que sua proposta causou espanto e verdadeira duvida nos presentes. Era loucura! E o pior, Anna estava disposta a levar aquilo até o fim. Demorou para conseguir convencê-los de que aquela ideia podia dar certo.
¬ Aceitarei sua proposta. — respondeu após o longo período de silencio. — Mas a advirto de que pode trazer consequências graves. Sem contar que irá dever favores.
A pequena libriana ergueu a cabeça, cravando um olhar assustadoramente profundo em seus convidados. O olhar da menina foi capaz de deixá-los desconfortáveis, fazia muito tempo que tinham visto um olhar tão carregado de sentimentos quanto o de Anna. O olhar era um misto de coragem, determinação, astúcia, inteligência, calculo, frieza e, um sentimento totalmente destoante, carinho.
¬ Eu não me importo. — ditou firme. — Guerras são Guerras. E eu só quero que essa acabe.
¬ Corajosa. — comentou o senhor das tempestades. — Muito corajosa, só tome cuidado para a coragem não lhe deixe tola.
¬ Qual seu nome criança? — questionou o senhor da morte.
¬ Anna. Anna Sortillegio Yukida Amamiya.
Os deuses não esconderam seu espanto. Não por ela possuir o nome de Fênix e Cisne, até o submundo já estava sabendo que a menina era filha deles, mas sim pelo segundo nome que a menina possuía.
¬ Você disse “Sortillegio”? A família Sortillegio? — a pequena confirmou. — Hades... Você não acha que...?
¬ É impossível. — ditou. — Foram destruídos há muito tempo. Caíram junto com sua cidade e seus últimos servos foram todos mortos não faz nem 300 anos. Mas... Ela nunca passou por meus juízes. Se passou eles não falaram nada. Não sei nem dizer se chegou a passar pelas portas da reencarnação.
A menina não estava entendendo aquela discussão. Apesar de estarem, obviamente, falando dela, tinha certeza que aquele assunto não era bem para ela se intrometer e discutir. Depois de longos minutos de discussão entre os deuses, Poseidon caminhou até ela e passou a examinar-lhe o rosto. O deus passou a mão nas laterais do rosto da menina, onde ela sentiu uma pequena ardência. O deus estava surpreso, então passou as mãos sobre os braços enfaixados da menina e passou a desenrolar as faixas, surpreendendo-se ainda mais.
Nas laterais do rosto da menina tinham duas tatuagens que lembravam raios e nos braços dela também haviam tatuagens. No braço esquerdo tinha uma espada que começava na unha do dedo do meio e terminava um pouco antes do cotovelo, era a representação da espada do Imperador do Inferno com sombras envoltas nela. No braço direito tinha um tridente que também começava na unha e terminava pouco antes do cotovelo, era o tridente do Imperador dos Mares com sua linha envolta no braço.
¬ Hades. — chamou. — É ela. É Oráculo.
Anna que até então estava tão assustada quanto os deuses ao ver aquelas coisas em sua pele, decidiu se pronunciar quando percebeu que o buraco era bem mais fundo do que o esperado.
¬ Do que estão falando?
¬ Criança. — começou o deus, examinando-a dos pés a cabeça. — Acho que você é muito mais do que aparenta e pensa ser. E, se realmente quiser fazer alguma diferença na batalha derradeira, vai ter que recorrer as suas lembranças mais ocultas, ao seu saber mais misterioso e ao seu instinto mais primitivo. Você vai ter que recorrer a força de sua alma.
¬ Na...
Anna olhou imediatamente para trás. Miguel e Sarah estavam de mãos dadas, a escorpiana pela primeira vez foi vista se escondendo atrás do irmão com medo daqueles que os cercavam. Ambos pareciam preocupados, apesar de que o pequeno sagitariano ostentava uma ousadia natural da família, parecia que, mesmo com a pouca idade, ele iria espancar quem encostasse nas irmãs.
¬ Argertum. Aurum. — Anna estendeu as mãos, os chamando para de junto dela.
Os pequenos praticamente correram até a irmã, seguidos de perto por um macaquinho. Eles a abraçaram e cada um sentou de um lado dela, cada um segurando uma mão. O macaquinho, por outro lado, cismou de sentar no ombro de Kiki, observando tudo atentamente, assim como o rapaz em que sentara.
¬ Tá fazendo que?
Anna não soube o que responder aos irmãos, por alguma razão estava com vergonha de dizer que “vendeu a alma pro diabo”. Apenas apertou as pequenas mãos e tentou sorrir para eles, como que para dizer que logo o pesadelo iria acabar. Os deuses observavam a cena curiosos, até o senhor dos oceanos decidir se aproximar e abaixar-se na altura das crianças.
¬ Seus irmãos? — recebeu um aceno em resposta. — Estamos aqui para ajudar. Não tenham medo. — ele pousou as mãos na cabeça das crianças com um sorriso. — Viemos lutar.
Eram pequenos, mas não burros. Ao perceber o que o mais velho queria dizer, Sarah olhou para Miguel e sem palavras eles chegaram num consenso.
¬ Também queremo ajuda. — afirmou a pequena escorpiana.
O macaquinho pulou do ombro de um lemuriano completamente chocado e se dependurou no ombro do deus, para logo se sentar ali e esperar.
¬ Goku também. — completou o pequeno sagitariano.
¬ Não! — ditou o ariano com firmeza, estava meio a parte na conversa, mas isso não queria dizer que não prestava a atenção. — Enlouqueceram de vez? Já me basta Anna, vocês também não!
Hades se aproximou das crianças e tocou as duas na testas, um símbolo roxo apareceu para sumir logo em seguida. Poseidon fez o mesmo gesto e aconteceu a mesma coisa.
¬ Pronto. — afirmou o senhor dos mortos. — Agora possuem nossa bênção. Nada nesse mundo vai atingi-los enquanto estivermos por perto, mas acho curioso que já exista alguém os protegendo. Estou errado serva do raio? — o deus sussurrou a pergunta com alguém que só ele e as crianças viam, uma jovem de olhos esmeraldinos. — Mas esse carinha aqui... — tirou o macaco do ombro do senhor dos mares. — Acho que aguenta o espírito de uma quimera. — tocou o peito do animal e ele todo foi adornado por símbolos estranhos que sumiram logo em seguida. — Quando nos aproximarmos do campo de batalha sua transformação vai ser um pouco dolorosa, mas será imbatível no campo de batalha e uma ótima proteção para os pequenos.
Colocou o animal no chão, este voltou a escalar o lemuriano, que praticamente vasculhava os pequenos em busca de qualquer machucado, cautela com deuses nunca era pouca. O deus voltou-se então para a menina, ela estava com os punhos fechado e séria, estava pronta para o que fosse acontecer na concepção de qualquer um.
¬ Está pronta? — recebeu um aceno em resposta. — Pois bem, eu já lhe peço desculpas pelo que irá passar.
Aquela massa negra cobriu Anna por completo, quem prestasse atenção veria aquela massa entrando pela boca da menina. Ela tremia e soltava grunhidos de quem não conseguia respirar, os olhos lacrimejavam. Sentia como se estivesse sendo rasgada em milhões de pedaços. A massa foi aumentando envolta dela, tomando uma forma humana, logo podia-se ver cabelos negros e olhos azuis.
Somente depois de agonizantes 5 minutos, Anna tombou em um baque surdo, inconsciente. Kiki foi socorrê-la e antes mesmo de olhar em seu rosto soube que tinha algo de diferente, começando pelo fato dela ter crescido, um indicio disso eram as roupas rasgadas. Anna agora aparentava ser uma mulher adulta com a pela mais branca do que podia imaginar e cabelos negros como o piche. Aparentemente sua união com o senhor dos mortos deu certo, mas se ela não acordasse, nada daquilo teria adiantado.
¬ Anna! — balançava-a desesperado. — Anna! Anna!
¬ Não grite lemuriano. — a voz era dupla, olhando-a melhor pode ver que aqueles olhos azuis não tinham nada da menina. — Ela esta bem, só tive que fazer algumas alterações no corpo para que pudesse comportar minha alma. — explicou o deus como se fosse capaz de ler os pensamentos do rapaz.
Levantou-se um tanto cambaleante, se acostumando ao corpo novo. Quase imediatamente uma Sapuris, a Sapuris de Hades, começou a cobrir o corpo de Anna. Ela desembainhou uma espada e ficou admirando o próprio reflexo.
¬ Ela era uma menina de 8 anos. — comentou um tanto indignado. — Você a transformou numa mulher de 20!
¬ Foi preciso. — respondeu. — O corpo dela não aguentaria duas almas tão antigas, se ela fosse 2 anos mais velha e possuidora de uma alma jovem, não precisaria disso. Mas a alma dela é tão velha quanto a minha e o corpo é jovem demais, tive que envelhecê-la para que não padecesse. — voltou a encarar o ariano, o olhar estava diferente, era uma mistura, podia ver Anna neles, mas não por completo. — Não se preocupe, ela voltara ao normal quando eu sair de seu corpo. Vai ser doloroso e difícil, mas ela escolheu correr o risco e eu vou ajudá-la a passar por isso. — por meros instantes o cabelo, olhos e pele voltaram ao que seria o normal da libriana, assim como seu sorriso. — Vou ficar bem. Eu sei os riscos, Kiki. Confie em mim.
Não teve tempo de argumentar. Hades voltou a tomar o controle e juntou-se a Poseidon, que por alguma razão tinha se afastado fazia algum tempo para encarar o horizonte.
¬ Sua serva é rápida. — comentou ao avistar uma grande massa negra entre as escarpas do labirinto que era Jamiel.
¬ O seu também. — não via, mas sentia que o Marina já aguardava seu senhor.
Em poucos instantes, viram-se cercados de Espectros. Nenhum deles atacava e nem falava, mas todos pareciam inquietos, esperando por algo. Os Juízes se puseram perante seu senhor ao lado de Pandora, todos fizeram reverencias e agora aguardavam suas ordens.
¬ Imperador Hades. — chamou-lhe Pandora. — Eles já estão informados sobre tudo, só estão inquietos, acho melhor o senhor acalmá-los.
O senhor do submundo olhou para o irmão quando sentiu a mão deste pousada no ombro. Poseidon tinha uma expressão dura e decidida.
¬ Você lida com os seus, que eu lido com os meus. — passou a se afastar, abrindo caminho entre os Espectros. — Nos vemos em batalha irmão. — acenou sem nem olhar para trás.
¬ Nos vemos em batalha. — respondeu com igual seriedade.
Aquele pequeno dialogo pareceu incomodar um pouco os Espectros. Não que eles não tivessem consciência do que estava por vir, só estavam demorando para acreditar que seu senhor realmente estava tomando partido naquela guerra, ainda mais do lado de Atena, alguém que ele tanto desprezou por séculos, se não milênios. Queriam ouvir a verdade da boca de seu senhor e Hades sabia disso.
¬ O mundo da voltas e é por essa, e outras razões, que eu odeio as Parcas. — começou seu discurso com calma, fazendo alguns engolirem seco. — Todos sabem que agora lutaremos ao lado de Atena. De perto e de longe nós iremos lutar, embora tenhamos o nosso orgulho, dessa vez teremos de engoli-lo por um bem maior. — pode-se ver que eles mediam bem as palavras ditas. — Estamos prontos para lutar, estamos aptos a lutar e dessa vez lutaremos ao lado Atena, como fazíamos em Eras Mitológicas, mas já provamos o nosso valor há muito tempo, agora vamos lutar por nossa vingança. Somos guerreiros exilados, mas guardaremos os guerreiros de Atena tal como nossos irmãos de armas. Lutaremos nas sombras da noite, do anoitecer ao amanhecer, nos cairemos sobre nossos inimigos como os monstros que enfrentamos e aprisionamos. Vamos lutar com toda nossa força! — as palavras pareciam aliviar a tensão e animar os servos ali presentes. — Todos aqui foram escolhidos há muito tempo e sempre se mostraram como os guerreiros corajosos que são. Contarão nossas histórias, nossas lutas, nossas vitórias. Nas asas da história, por sua vez a partir de casa, de nosso lar e irão se propagar. Para viver eternamente ligados ao futuro e ao passado de gloria! — alguns já ostentavam sorrisos, as palavras de seu líder já era o bastante para fazerem qualquer coisa. — Em toda a história, nunca antes foi mais devido a tão poucos a gloria de ser um exilado reerguido! — podia parecer que não, mas todos ali sabiam o que seu senhor dizia, todos sabiam o que era aquela cede de vingança e, o principal, compartilhavam da mesma cede. — Afrodite deve pagar pelo que nos fez! Pela luz que ela nos tirou! — ergueu a espada acima da cabeça, fazendo luz do luar refletir de forma ofuscante. — Agora qual de você lutará comigo?!
Urros forma ouvidos por todos os lados. Seus guerreiros lutariam ao seu lado, só precisavam de um incentivo, isso era muito bom. O destino daquela guerra estava selado, o destino daquela maldita deusa estava selado. O deus não conseguia deixar de sorrir com a ideia, mas logo desfez o sorriso, pois faltava a voz de alguém naquele clamor. O deus virou-se para seus Juízes e irmã. Só faltava a resposta deles.
Talvez fosse algo do corpo que possuía agora, talvez fosse a pequena libriana se manifestando de alguma forma. Mas o olhar dirigido aos três homens e a mulher era uma mistura de carinho e veracidade, algo que somente aqueles que estavam há muito tempo consigo mereciam ver.
¬ Vocês me seguiram uma última vez?
O primeiro a se ajoelhar foi Minos de Griffon, seguido de Radamanthys de Wyvern e Aiacos de Garuda, todos servos leais e que jamais abandonariam seu senhor. Pandora nem precisou fazer o mesmo, seu olhar e comportamento sempre disseram tudo.
¬ No dia mais claro. — ditou Pandora.
¬ Na noite mais escura. — prosseguiram os Juízes.
¬ Todos aqueles que ousam nos enfrentar, aprenderão o que o Pecado pode custar! — completaram os demais espectros em um estado de euforia que só se ouve falar em batalhas antigas.
Hades sorriu. Aquele era o juramento que todos seus servos deviam fazer quando se ajoelhavam perante ele a primeira vez. Olhou para o lemuriano e as crianças ali paradas, vendo todo assustados.
¬ Anna esta um tanto cansada depois de tudo. — informou o deus. — Mas logo estará recuperada. Ela também me pediu que vocês nos acompanhassem lemuriano, você e as crianças.
Kiki não tinha muito o que fazer, apenas empurrou seus receios para um canto esquecido de sua mente e assentiu decidido de sua escolha. O senhor do Inferno ergueu a espada mais uma vez e urrou com todas as suas forças:
¬ À GUERRA NÓS IREMOS!!
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