Fênix da Noite Estrelada
40 Castigo
Notas iniciais
Sua caminhada era serena, não tinha pressa alguma de alcançá-los, aquilo estava deixando a deusa ainda mais agoniada com sua presença. Pensava que tinha se livrado daquele ser há muito tempo, mas, como uma erva daninha que sempre se propaga e encontra maneiras de sobreviver até ao mais terrível fogo ou veneno, ela estava ali, firme e forte como sempre foi.
¬ Um filho lhe dará poder. — serrou os dentes, odiava aquelas palavra. — Porém outro trará ruína. — odiava aquela sina, odiava o seu futuro visto milênios no passado.
As marcas que a definiam como um servo dos deuses, como o Oráculo, começaram a transparecer em sua pele. A armadura do senhor do submundo se soltava de seu corpo, desfazendo-se em sombras negras antes de atingirem o chão. Seu corpo, antes adulto, diminuía aos poucos voltando a forma de criança, dava para ouvir os ossos estalando e os músculos rasgando de onde estavam. Suas vestes eram uma camiseta larga todo rasgada e uma espécie de névoa esverdeada que cobria-lhe o corpo, parecia uma cobra enroscada. Os olhos deixaram de ser azuis e os cabelos negros, voltando ao que era normal, mas com um pequeno brilho verde amarelado por trás deles.
¬ Sua ganancia te cega. — as palavras eram cada vez mais venenosas. — Sua inveja lhe condena. — malditas palavras proferidas por tão odioso ser. — Sua irá lhe atrapalha. E sua arrogância te estraga.
Colocou-se ao lado do Cavaleiro de Andrômeda, que agora estava com os cabelos totalmente negros e olhos azuis, o senhor do submundo possuíra seu corpo por completo. Ficaram admirando Afrodite se contorcer por um tempo ao aumentar a pressão no pescoço dela, ignoravam ou fingiam ignorar a presença dos dois Cavaleiros ali presentes, somente quando a deusa começou a apresentar sinais de inconsciência é que ela foi solta com brutalidade.
¬ Ruína, apenas ruína. — concluiu altiva.
A deusa caio de mal jeito, tossindo e os amaldiçoando com vários nomes. Os outros dois continuaram a encará-la, seus olhares eram carregados de pena e vergonha pelo ser aos seus pés. O senhor dos mortos então deu as costas para a deusa e foi para junto dos Cavaleiros, como se estivesse ali para guardá-los do que quer que acontecesse a seguir.
¬ É toda sua. — foi tudo o que se dignou a falar.
A menina agarrou a deusa pelo cabelo e a fez se levantar até a altura de seu rosto, para que pudesse olhar no fundo de seus olhos e, consequentemente, de sua alma imortal. A deusa riu ao mirá-la melhor, não sabia se era irônico os seres que ela mais odiava estarem reunidos no mesmo “grupo” familiar ou se era uma maldita armadilha do destino.
¬ Então a serpente vive na pele da filha deles. — mirou os Cavaleiros com ódio.
O teto foi estourado, correntes pesadas com um brilho dourado caíram ao lado delas junto com parte do teto. Quem olhasse para o céu da madrugada veria a sombra de uma águia sobrevoando a catedral, até mesmo o senhor dos deuses mandou um de seus servos ajudar.
Se abaixou e levantou a pesada corrente com uma só mão, forçando a deusa a acompanhá-la. Olhou grilhão por grilhão, junção por junção, constatando que o trabalho do deus ferreiro era, de fato, perfeito. Abriu a coleira e mirou a deusa com neutralidade e impassividade.
¬ Afrodite. — pela primeira vez dirigiu-se a deusa. — Seus crimes ultrapassaram todos os limites. Nenhum deus lhe deseja mais no panteão.
Prendeu a coleira no pescoço da deusa, que gritou de dor ao sentir o metal queimar-lhe a carne, parecia estar se fundindo a pela da deusa. Como se não quisesse ouvir os protestos, a libriana segurou determinado ponto da corrente e a usou como um chicote, fazendo a deusa bater com força contra uma parede e ser coberta por escombros. Puxou a corrente e arrastou-a para fora dos destroços como que só aproveitando o momento.
¬ Você tinha tudo para vencer, Afrodite. — pronunciou-se o senhor do submundo enquanto admirava as unhas do corpo que ocupava. — Mas cometeste um erro grave. — riu ao ver a deusa ter o rosto enterrado no chão. — Seu erro foi se esquecer do que eles, Cavaleiros de Atena, são capazes de fazer pelo que amam, Afrodite.
A deusa se levantou com esforço, um tanto cambaleante pela força com que acertou o piso. Endireitou-se perante sua espectadora impassível que agora balançava distraída uma corrente que seria ligada a perna da deusa, parecia estar apenas esperando ela se arrumar para continuar a falar.
A corrente tinha certa “folga” e uma espada estava logo ali na parede pregada como adorno sem deixar de ser uma arma mortal, a arma ideal a pouco mais do que três passos. A deusa pegou a espada e tomou impulso na direção de sua carrasca com a espada erguida de forma ameaçadora sem que ela se movesse.
¬ Você está fraca Oráculo! — seus ataques eram desviados com facilidade. — Vai morrer para me selar! Sem seus filhos não pode fazer nada! — bradava furiosa. — Aquelas crianças não são os verdadeiros Aurum e Argertum, são servos de Zeus mandados para te proteger! Não pode fazer nada com falsos!
A espada foi partida em pedaços quando a névoa se enroscou nela e comprimiu-se tal como uma cobra, podia-se ver que a menina não gostou em nada do termo "falsos". A deusa foi derrubada com um chute e sua perna direita presa a outro grilhão. Como “castigo” por seu comportamento ousado, a deusa foi jogada contra uma pilastra três vezes seguidas com uma força absurda, até mesmo para um Cavaleiro.
¬ Serás presa com os demais titãs e tratada como um. — declarou em alto e bom som.
Aquilo tudo era assistido com certo nível de pavor pelo Cavaleiro de Cisne fazendo-o segurar o corpo inerte do Cavaleiro de Fênix com força. Não conseguia acreditar no que via, se recusava a acreditar. Era sua filha que estava ali, era sua garotinha, era sua rainha cheia de graça, era Anna quem lutava de igual para igual com uma deusa, com uma titã, com Afrodite. Anna era o Oráculo, mas ainda não conseguia acreditar, mesmo vendo e tendo noção de todos os mistérios que rondavam a “lenda” do Oráculo de Delphos, ele não conseguia acreditar que era a sua filha ali.
Por outro lado, o Imperador do Inferno, Hades, parecia muito conformado com isso e até mesmo contente. Ele continuava a admirar a “luta”, para não dizer surra, com atenção e um mínimo sorriso, vez ou outra falava coisas que, ele sabia, irritavam a deusa de alguma forma.
¬ Na hora de agir eles são rápidos e ferozes como um rio.
¬ Vocês não vão me prender! — o olhar da deusa era ensandecido.
Ela tentou avançar sobre o senhor do submundo, mas a corrente foi puxada violentamente, fazendo a deusa ir de encontro ao chão. Sentiu seu pulso ser envolvido por um grilhão e suas costas serem pisadas por um curto tempo. Foi erguida com violência, chegou a sentir as junções de ossos e músculos rangerem e estalarem, antes de conseguir ficar de pé.
¬ Deste dia em diante Psique, esposa de Eros, será a deusa do amor e beleza. — ditava em tom firme. — E tu serás presa nas profundezas do Tártaro.
Outro grilhão foi atirado em sua direção, se prendendo em sua outra perna e sendo puxado, fazendo-a cair com brutalidade. Depois de bater uma décima vez seguida contra o chão da catedral que percebeu que aquilo estava muito além de um simples castigo, aquilo era o lado pessoal se expressando, mas o que realmente aumentava seu ódio era o senhor do submundo tirando sarro de si.
¬ Na hora de lutar eles tem a força, selvageria e brutalidade de um tufão.
A deusa se levantou com toda sua arrogância ainda presente em sua figura cada vez mais deteriorada. Olhava sua oponente como se esta fosse um ser inferior, mesmo sabendo que se ela quisesse poderia destruí-la com um único estalar de dedos, mas ao tomar consciência de quem tomaria seu lugar no panteão o sangue subiu-lhe a cabeça, jamais aceitaria isso, jamais aceitaria que aquela mulher tomasse seu lugar de direito.
¬ Não ousariam! — bradou a deusa, se aproximando de forma ameaçadora, elevando seu cosmo ao máximo. — Eu sou a deusa do amor e beleza! Ninguém tomará meu lugar de direito!
Como se tudo o que a deusa fizesse fosse nada, sua oponente simplesmente puxou sua corrente, de forma que ela se abaixasse e com um chute enterrou sua cabeça no chão outra vez. Ainda pisou mais algumas vezes, abrindo uma cratera cada vez maior e a erguendo pelos cabelos, não queria ouvir sua voz de forma alguma, tanto que pousou o indicador nos lábios de forma cínica, mas sem mudar em nada sua expressão neutra.
¬ Cale-se semente do mal. — ditou acusadora e erguendo uma das correntes. — Suas correntes e grilhões foram feitas pelo próprio Hefesto e banhadas no Ichor dos demais deuses. Não há escapatória para alma tão sombria.
Prendeu a corrente que faltava na deusa e se afastou com calma, jogou as correntes sob uma viga do teto, de forma que ergue-se a deusa do chão e a deixasse suspensa. Enquanto a deusa rugia de dor nos membros torcidos pela posição desconfortável, sua pequena oponente pegava uma espada para cortar a palma das mãos.
¬ Em suas almas sempre há uma chama acesa que lhes dão tudo o que precisam para seguir. — pronunciou-se o deus dos mortos em meio a risos.
Afrodite assistia Oráculo desenhar um enorme circulo com o próprio sangue, que estava carregado de cosmo e jorrava dos punhos cerrados com força. O olhar dela brilhava em um tom assustador de verde, sua boca sussurrava palavras sem parar e o desenho feito de sangue era cada vez maior e elaborado com uma quantidade absurda de cosmo impregnado em sua formação. Aquilo era suicídio para qualquer um, se não pela perda de sangue, seria pela perda de cosmo-energia. Cisne queria agir, queria impedir sua menina, porém, não conseguia se mexer, só assistir.
Seguia o conselho dado pelo deus. Aquilo era instintivo para menina, se lembrava vagamente de ter aprendido algo assim, mas todo aquele processo era algo natural para ela. Os passos vinham em sua mente e ela os executava, sabia que já tinha feito coisas parecidas antes, sabia como fazer e que finalidade teria. Ainda estava meio assustada por descobrir que, de fato, era o Oráculo, por ter tamanho peso sobre os ombros, mas aquilo não lhe era estranho, era normal. Ela sabia o que tinha que fazer e como fazer, sabia o que seu esforço custaria e o que salvaria. Para ela, o sacrifício valia o preço.
O desenho parecia completo. Um grande circulo com a união dos símbolos antigos do masculino e feminino, em cada ponta dos símbolos unidos existia palavras escritas em grego, latim e uma língua estranha, da qual o aquariano não conhecia, mas que já tinha visto em livros muito antigos presentes no escritório do Grande Mestre. O sangue de Anna ainda escorria quando se voltou para Afrodite.
¬ As correntes lhe prenderam por toda eternidade e serão reforçadas a cada mil anos para que você jamais volte a fugir.
Ela estava bem abaixo de Afrodite, no meio do circulo, quando pisou no chão com força, fazendo uma corrente de cosmo-energia correr por seu corpo e se propagar pelo chão, dando ao sangue mais poder ainda e uma cor viva de dourado.
¬ E a luz de Atena está sempre os guiando. — Hades bloqueava a luz emitida pelo circulo com a mão. — Eles são invencíveis para seres como você, Afrodite. Eles são Cavaleiros de Atena. Com ou sem armadura, eles são Cavaleiros de Atena.
As correntes mais uma vez estavam nas mãos da pequena. Ela as soltou de forma que a deusa se chocasse com violência contra o chão destruído. Pisando em seu peito para que ficasse onde podia vê-la. Sua expressão ainda era dura e impassível.
¬ Afrodite. – sua voz reboava pelas paredes da catedral, assumindo um tom milenar. — Eu, o Oráculo, a grande cobra Píton, Geradora do Mundo e Ordem encarnada, lhe condeno ao Tártaro pela eternidade!
A menina pisou com força no peito da deusa, fazendo-a engasgar e uma grande quantia de cosmo lhe transpassar o corpo, a energia então correu mais uma vez pelo circulo, que agora pulsava e parecia estar sendo talhado no piso. De fato, cada corrente de cosmo-energia impulsionada por Anna fazia o circulo ser talhado no chão, dando mais poder ao que quer que estivesse pretendendo fazer.
¬ VERGONHA!! – uma palavra brilhou ao mesmo passo que Afrodite cuspia sangue dourado. — DESGRAÇA!! – outra palavra. — OFENSA!! – mais outra. — HUMILHAÇÃO!! ATROS!! – o circulo pulsava ao ritmo de um coração, parecia vivo. — ABRA-SE BOCA DA FERA!!
O chão se abriu, uma cratera se abriu sobre as duas, mas elas não caíram, era como se estivessem sobre um piso invisível. A cratera era profunda e ocultava os portões do Tártaro. Cisne só foi capaz de reconhecer porque já tinha lido relatos de como era e, é claro, o amigo já tinha contado que fora lá enquanto estava sob o domínio de Hades na Guerra Santa. Sua melhor comparação seria o Inferno descrito na Bíblia, mas ali não havia almas e nem demônios, apenas fogo, olhos ferozes e urros animalescos.
Três vultos negros e mal cheirosos saíram da cratera, eles planavam sobre suas cabeças de forma ameaçadora. Três seres que realmente achou estarem apenas na mitologia, mas, pelo jeito, eram tão reais quanto os deuses que os comandavam. Aelo, Ocípide e Celeno. Esse era o nome das harpias que sorriam com dentes afiados para sua filha. Eram figuras assustadoras que nem se quer pareciam abalar a pequena libriana.
¬ LEVEM DAQUI O IMPURO!! – ordenou. — AO TRAIDOR NADA É DEVIDO ALÉM DO DESPREZO!! – as harpias cantaram com a ordem da menina.
A deusa gritava e esperneava, mas as hapias seguravam suas correntes com firmeza e arrastavam-na sem dó alguma para as profundezas do abismo de fogo. Anna então esticou seu braço e cerrou seu punho para que mais sangue escorresse, fazendo a enorme cratera se fechar. Enquanto se fechava, os gritos da deusa eram cada vez mais desesperados e altos, seu castigo eterno teve início.
Por fim, o silencio reinou e a menina permitiu-se suspirar.
¬ Vá agora coração negro. – as palavras sussurradas fizeram todo o circulo feito de sangue sumir e se converter em uma grande quantidade de energia que se voltou contra a pequena, fazendo-a voar contra a parede.
Desesperou-se, mas ainda não conseguia se mexer e sentia uma vontade imensa de desmaiar. Assistiu a pequena escorregar até o chão e sua cabeça tombar, estava inerte. A visão fez um novo estimulo correr por suas veias, soltou-se do leonino ainda inconsciente e foi socorrer a filha, trazendo-a para de junto dos demais. Batia de leve no rosto da menina e chamava-a sem parar.
¬ Anna! – seu tom era puro desespero. – Anna! – pode ter resistido à perda de Fênix, mas não resistiria à perda de um filho. – Anna! Querida! Acorda, minha rainha! Acorda! Anna!
A menina estava muito pálida e fraca, sua respiração quase nula e suava muito. Ela mexia os dedos da mão bem de leve, recuperando os sentidos aos poucos. Piscou uma, duas, três vezes, cobriu o rosto como se estivesse esgotada e riu de sua vitória para começar a chorar logo em seguida. Conseguiu. Conseguiu. Acabou com a guerra. Acabou com a dor. Estava tão feliz.
¬ Papa... – tocou o rosto do mais velho com carinho, secando as lágrimas que por lá também escorriam. — Otou-san... – olhou para o homem deitado ali perto. — Ainda bem...
Abraçou-se ao aquariano como podia. Estava acabado. Aquela maldita não mais voltaria para assombrá-los. Acabou. Acabou.
¬ Papa!
Olharam para porta e viram os gêmeos entrarem correndo por ela o mais rápido que suas perninhas lhes permitiam, também viram um grande macaco tentar passar pela porta sem sucesso em nenhuma das tentativas. Os pequenos também choravam e soluçavam, tinham enormes sorrisos e a evidente alegria latente de toda criança.
¬ Coneguimo, Papa! – gritava a pequena escorpiana. – Coneguimo! Malvado rendeu! Malvado rendeu!
¬ A buxa foi emboa! – completava o sagitariano. – Vencemos! Vencemos!
Os pequenos pularam sobre o pai, derrubando-o e, por mais que estivessem doloridos, todos riram. Estavam verdadeiramente felizes. O pesadelo acabou. A guerra terminou. A vida voltaria a sua normalidade. E eles agora poderiam ser a família que eram.
¬ Oto! – Miguel pulou do colo do aquariano e correu até o leonino deitado. – Oto!
O pequeno o balançava e abraçava. Puxava e empurrada, mas nenhuma reação vinha por parte do mais velho. Não importava o quão pentelho o loirinho fosse, o moreno não se mexia. Aquilo estava começando a preocupar.
A escorpiana também foi até o moreno e passou a ajudar o irmão, mas nada dele reagir.
¬ Oto... – ela tocou o rosto moreno. – Papa. – chamou. – Oto tá frio.
Com a libriana ainda no colo, o aquariano se arrastou até o mais velho e constatou que a filha estava certa, ele estava frio. Mas o que realmente fez seu coração pesar foi perceber que o ele não respirava, os olhos quase totalmente cerrados estavam vítreos e o coração não batia.
¬ Ikki...
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