Fênix da Noite Estrelada
37 Inveja
Notas iniciais
Estava frio e úmido. Engraçado. Nunca sentiu frio. Mas sabia que estava frio, sentia o frio e sentia a umidade decorrente do suor. Correntes o prendiam, coleiras e grilhões o seguravam, pesos o detinham. Estava rendido, incapaz, humilhado.
Encarava os olhos claros de forma venenosa. Já odiava aquela mulher naturalmente, agora não sabia nem dizer o que sentia, só sabia que era pesado e visceral. Não sabia nem como parou ali, nem se quer lembrava direito do que tinham acontecido, só lembrava que tinha saído dos confortáveis braços da inconsciência com muita dor.
¬ Dor.
Travou os dentes, cerrou os olhos, entretanto, sua resistência pouco durou. Os gritos de dor se misturavam cruelmente à risada deliciada pela dor causada. Doía. Doía muito. Não sabia onde e nem porque, só sabia que doía. Não tinha como escapar, não tinha como se esconder. Tentava se contorcer, mas as correntes não permitiam, machucando-o ainda mais. Tentava se libertar, mas acabava cortando e lacerando os pulsos e nuca. Tentava se recompor e lutar, mas nada do que fizesse adiantava, estava a mercê daquela desgraçada. Maldita deusa! Maldita titã!
¬ MALDITA AFRODITE!!
A dor parou com tal declaração vinda do fundo da garganta, do fundo da alma.
¬ Maldita? Eu? — começou em tom de ironia. — Oh, por favor. Estou sendo até boazinha demais com você. — a deusa ergueu-se de seu trono e caminhou lânguida até ele, pegando-o pelos cabelos e obrigando-o a encará-la direito. — Ou prefere que eu lhe transforme em um cisne novamente?
Cuspiu. Não seria o bobo da corte, não daria ousadia. Poderia morrer, mas jamais deixaria que ela lhe tirasse o que sobrou de seu orgulho. A deusa se afastou e limpou o rosto contorcido em ódio.
¬ Queime.
Não tinha fogo. Não tinha chama alguma. Porém, sentia labaredas lamberem-lhe a pele, as sentia entrando pela armadura, as sentia ferirem a pele. Queimava. Doía. Doía muito. Gritava. Não conseguia se conter. Doía demais. Não tinha nem mais lágrimas para aliviar a dor, só podia suportá-la.
A deusa ria. Se deliciava com a dor estampada na face e presente em cada som emitido pela garganta já rouca pelo uso excessivo. Se soube-se que isso lhe faria tamanho bem, teria dado um fim ao rapaz dessa mesma forma e muito mais cedo. Pena que não podia prolongar as sessões por muito tempo, ainda queria ter motivos para rir, não podia quebrar seu brinquedo tão cedo e dessa forma.
Ele estava ofegante. Queria chorar e nem sabia bem o motivo, mas suas lágrimas haviam secado há muito tempo. Não sabia nem como ainda estava vivo, na verdade até sabia. Sua família era sua força, a dor que sentia era a motivação que ele tinha para voltar vivo para eles. Afrodite podia fazer o que ela quisesse, mas ele voltaria para sua família e ainda faria questão de rir daquela maldita quando ela caísse. No entanto, ainda queria saber uma coisa.
¬ Porque? — ainda estava ofegante. — Porque tanto ódio?
A deusa voltou a se sentar em seu trono. Olhando-o como se olhasse para um inseto, com desprezo e um ar de superioridade intrincado em cada gesto de desdém.
¬ Porque você e Phoenix me humilharam. — respondeu como se aquilo fosse uma banalidade qualquer. — Mas tudo começou com sua mãe Astra, quando ela fez os mortais a adorarem e depois você nasceu para continuar esse legado de humilhação que ela me causou, então eu fiz o que fiz. — deu de ombros como se tivesse razão. — Paralelamente, Phoenix, causou desgraça na cidade que me pertencia, destruiu meu templo, matou um dos generais que mais me foram fiéis e difamou meu nome. — ela dirigiu-lhe um sorriso cruel. — Nada menos justo que devolver-lhe a moeda.
¬ Já ouvi essa história. — respondeu mal educado. — Eu quero saber o porque. Não fiz nada errado. — sejamos francos. — Eu só estava vivendo e você me amaldiçoou por ser visto como possuidor de uma beleza rara. Uma beleza passageira e que certamente desapareceria com o tempo. — ele estava certo. — E Phoenix? E Ikki? Ele fez o que qualquer general faria no lugar dele. O amaldiçoou por ter matado um amante seu e por nada mais. Deuses são blasfemados todos os dias e você apenas usou isso de desculpa. — ele a encarou com verdadeiro interesse misturado ao ódio. — Porque? Isso não faz sentido.
A deusa voltou a se levantar e se ajoelhou de frente para ele, segurando seu rosto com firmeza e o encarando profundamente. Sua expressão era neutra a principio, porém, logo se contorceu em ódio e um audível tapa fora desferido no rosto dele.
¬ Você parece ser um grande entendedor. — voltou ao se afastar. — Mas eu tenho minhas razões e não preciso justificá-las.
Ele ergueu o rosto como pode e cuspiu um pouco de sangue para o lado, se o tapa tivesse sido mais forte, algum dente teria caído.
¬ Quando os deuses ficaram tão podres?
O tom de desgosto usado por ele fez a deusa girar sobre os calcanhares e encará-lo cheia de ódio, este, por sua vez, devolvia o olhar muito mais venenoso e frio.
¬ Congele.
Não tinha muito o que fazer. Não gritou, mas sentia a ardência do frio e sentia sua crueldade em anular qualquer forma de resistência. Tremia como um louco tentando se aquecer, sua respiração era falha e tudo seu corpo doía. Não tinha o que fazer, só lhe restava esperar que a deusa parasse. Demorou, mas finalmente parou. Ainda demorou um pouco mais para que aos poucos ele se estabilizasse e, mesmo ofegante, ele prosseguiu.
¬ Eu acho que sei o porque. — ele ainda batia um pouco os dentes. — Você é invejosa.
Ele estava abusando da pouca paciência da deusa. Afrodite agora ostentava um olhar ensandecido.
¬ Asfixie.
Não demorou muito até ele começar a se contorcer. Tentava respirar, mas o ar não alcançava os pulmões. Seu desespero era quase palpável, o ar não era tragado e por mais que tentasse não adiantava. Os machucados decorrentes de sua busca por ar agora sangravam. Afrodite ria com o que via. O cavaleiro se contorcia, arranhava o chão, arfava e se machucava ainda mais com suas amarras, mas não conseguia o ar que tanto necessitava.
Vendo que sua brincadeira podia ir longe demais, a deusa decidiu parar. Ele arfava em desespero, tentando tragar o máximo de ar possível, encher os pulmões o quanto era possível. Demorou muito para se recompor, sentia-se humilhado demais até mesmo para continuar vivo, mas aquele não era o momento de ser covarde, era o momento de ser corajoso e enfrentar o que quer te prejudicar de frente.
¬ Você não invejou a beleza, você invejou as qualidades. Você inveja aquilo que você não é.
¬ Quebre.
Sentia como se seus ossos fossem esmigalhados e apesar de não ter fôlego, uivava de dor. Sua voz era falha, sua respiração era falha, seu sangue tingia o chão e sua dor imensurável divertia a deusa. Travou a mandíbula e se obrigou a falar depois de sentir que os ossos pararam de ranger.
¬ Você não amaldiçoou Phoenix só por ele ter matado um de seus amantes, deuses não fazem isso. — cuspia as palavras com audácia. — Deuses amaldiçoam quando se sentem profundamente insultados. — ele a encarou, vendo todo o desprezo que a deusa sentia, e demonstrando-lhe o quanto o sentimento era reciproco. — Você deve ter visto algo nele e tentou seduzi-lo, ele não lhe deu ousadia e você quis se vingar. Fez Ares, o tolo deus da guerra, amaldiçoá-lo com a imortalidade de forma que ele pudesse sofrer pela morte daqueles que ama, isso por não ter aceito o seu falso amor.
A verdade era pronunciada de forma baixa e solene, mas ainda sim, elas calavam entre as paredes daquela sala e não paravam de se repetir nos ouvidos da deusa.
¬ Afogue.
A reação era semelhante a que tivera enquanto era asfixiado, a diferença estava no fato de sentir água em seus pulmões. Novamente, foi o alvo de risadas da deusa. Ele podia ter se calado quando tudo parou, porém, aquilo que estava preso exigia sua soltura e não seria ele a impedir.
¬ E quando finalmente conseguimos ser felizes juntos, você quis destruir tudo. — declarou cheio de ódio. — Você teve inveja da nossa felicidade. Não sei como é com vocês deuses, ou melhor, titãs, mas eu sei que felicidade não é bem um atributo que esteja disponível à vocês, que tem de viver com a sombra do medo e traição. — a deusa parecia querer despedaçá-lo só com o olhar. — Você inveja os mortais pelas qualidades que lhe foram concedidas e pela felicidade que você jamais terá.
¬ Eletrifique.
Um ataque desferido pelo Cavaleiro de Leão era nada comparado ao que sentia agora. Era como se estivesse sendo tragado pelo veneno de uma vespa do mar. Sentia a queimadura e a dormência característica de um choque elétrico por todo o corpo, só que numa intensidade e frequência tão grande que seus pulmões estavam quase rasgando e sangrando de tanto que ele gritava de dor. A deusa só o deixou por acreditar que ele já tinha desistido.
¬ Você tem inveja daquilo que não pode ter nem mesmo fazendo uso de todo o seu poder. — ele jurou a si mesmo que poderia morrer no processo, mas falaria tudo o que tinha para falar. — Você é tão podre por dentro e por fora que inveja seres tão imperfeitos como os humanos. Você é tão vil e mesquinha que sabe que jamais poderá ter paz, pois todos querem sua cabeça, jamais terá a paz conferida à felicidade.
A deusa trincou os dentes.
¬ Rasgue.
Era pior que tudo. Era tudo junto. Sabia estar inteiro, só que a sensação de estar sendo rasgado em milhares de pedaços era demais. Seus gritos de dor ecoavam pela catedral e além. Sabia que o objetivo da deusa era destruí-lo por completo, mas era teimoso e orgulhoso demais para dar tal gosto a ela. Não se envergonhava de sua dor, por gritar de dor, mas se envergonharia se deixasse que ela sorrisse.
¬ Acho graça da sua inveja. — prosseguiu durante a “pausa” — Tão tola. Dá pena. E ainda é burra de querer repetir a mesma ladainha. — seu olhar agora era uma mistura de pena e ódio, mais pena do que qualquer outra coisa. — E eu não sei se você percebeu, mas você está perdendo. Aposto que de todo o seu exercito, só sobrou você e aquele filho da puta que me trouxe para cá. — o rapaz riu, assustando a deusa. — Do que eu estou falando? Nem digna de pena você é!
A deusa serrou os punhos.
¬ Rasgue.
Os gritos ecoavam e as forças se esvaiam.
¬ Mas afinal você é assim não é? — questionou de forma ousada. — Tola, invejosa, egoísta, mesquinha e podre. Só queria saber o porque eu e Ikki, afinal, você inveja tudo mundo!
¬ Rasgue.
O coração falhava batidas. Estava sendo demais, mais um pouco e certamente morreria em decorrência da tortura.
¬ E sabe o que mais? — perguntou debilmente após parar de gritar, completamente rouco. — Minha felicidade te incomoda? — olhou-a com ironia e sarcasmo. — Engraçado, a tua nem me interessa!
¬ RASGUE!!
Sentia cada fibra, cada célula, cada ligamento, cada músculo ser rasgado pelo esforço exercido para suportar a dor. Era pior do que tudo. Sentia como se estivesse perdendo pedaços do corpo, como se estivessem pendurados por meros fios, tão finos que se partiriam a qualquer instante. Era como se estivesse ali e não estava, doía mais do que qualquer coisa, mas também não sentia. Era uma sensação horrível e cruelmente dolorosa. Era impossível não gritar, a dor era demais, chegando ao ponto de verter sangue no lugar das lágrimas.
Estava caído inerte, sangrava muito e sua respiração era quase imperceptível. Estava tão cansado.
¬ Você sofre porque quer. — afirmou a deusa.
Ele riu. Uma risada rouca e cansada, mas que não deixava de ser uma risada.
¬ Ah, claro! Muito obrigado! — respondeu irônico. — Tudo faz sentido agora, eu adoro sofrer! Não tá vendo? — ele se ergueu do jeito que pode e estendeu os braços para mostrar os grilhões. — Tô acorrentado e sendo torturado por uma maluca rancorosa e que tem sérios problemas de memória, já que meu nome não é mais Cygnus a milênios, é Hyoga, mas eu tô sofrendo porque eu quero! Porque eu gosto! — voltou a cair para descansar enquanto a deusa o deixasse em paz. — Deviam colocar essas correntes e grilhões em você.
A deusa tencionou falar algo, mas um pequeno tremor a impediu. Olharam para as portas trancadas da sala. Outro tremor, a porta rangeu e poeira caia do teto. Outro tremor, a porta estava cedendo e pequenas pedras caíam do teto. A porta estourou e chamas adentraram o recinto de forma violenta, espalhando-se e morrendo, gerando calor o bastante para sufocar.
Várias cabeças queimadas passaram a rolar para dentro da sala, manchando o piso ornamentado com sangue negro e dando um ar grotesco ao que fosse entrar por aquela porta. A cabeça de Mars de Cupido parou aos pés de sua senhora, a expressão final contorcida em surpresa.
¬ Vingança não leva a lugar nenhum, dizem os mais chatos, em especial um amigo meu. — afirmou a voz grave.
Os olhos logo se voltaram para o Cavaleiro de Fênix que adentrava a sala calmamente. Ele observava o lugar rapidamente, mas se demorou um pouco ao avistar o Cavaleiro de Cisne no estado deplorável em que se encontrava. O aquariano se encolheu sob o olhar clemente e sofrido do leonino, como se sentisse vergonha por ser visto assim, como se o olhar dele ferisse mais do que a tortura propriamente dita.
O moreno se voltou para deusa com o olhar ensandecido, serrando os punhos e sendo envolvido por chamas.
¬ Mas isso aqui não é vingança. — ele voltou a avançar, dessa vez mais ameaçador. — É lei do retorno.
Ele disparou com o punho erguido. Os olhos dourados devido ao cosmo elevado e as chamas azuis devido ao extremo calor.
¬ HŌYOKU TEN SHŌ!!
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