Fênix da Noite Estrelada

42 Fênix da Noite Estrelada


Notas iniciais
TT^TT Minha gente, este é o penúltimo cap e por mais que no começo eu quisesse acabar logo - sou apressada por natureza - eu me apeguei tanto que doí saber que vai acabar TT^TT Enfim TT^TT Tenham uma boa leitura :´)

Nada no mundo voltou a ser o mesmo.

A política mundial estava fragmentada, a economia destruída, a educação pobre, a saúde precária, a segurança inexistente e a organização chula. As coisas jamais seriam as mesmas.

Atena, antes uma observadora, passou a se envolver diretamente com as questões humanas e passou a auxiliar a humanidade da mesma forma que fazia em Eras passadas. Ajudou a estabilizar política e economia, mas não podia ajudar país por país a se erguer, por isso enviou seus Cavaleiros. Aos poucos o mundo saia daquela Era de Trevas, porém não seria o mesmo, ele estava mudando, tudo estava mudando e esperavam que fosse para melhor.

O mundo jamais seria uma utopia, no entanto, o caminho que trilhava era melhor do que qualquer outro. Chegaram a estabelecer leis, por conselho de Atena, que guiariam o mundo até ele se estabilizar por completo e que, talvez por sua eficiência, fossem mantidas depois.

Mas quanto sangue foi derramado para se chegar a esse ponto?

Muitos perderam suas vidas para que Afrodite fosse selada. As perdas foram gigantescas em todos os sentidos. No Santuário, após o termino definitivo da guerra, o luto durou meses.

Ter de enterrar companheiros tão honrados quanto o defensor da Casa de Touro e corajosos quanto a Amazona de Camaleão, por exemplo, pois houveram muito outros, foi dilacerante para todos. O número de perdas foi tão alto que tiveram de construir mausoléus que abrigassem os Cavaleiros de outrora e assim enterrar os companheiros mortos em batalha.

Ter que ver companheiros se recuperarem de feridas profundas foi doloroso, e alguns nunca se recuperariam o que tornava o sentimento ainda pior. Não foram poucos que perderam movimentos, ligamentos e tendões inteiros, as vezes membros, e agora não podiam mais exercer tão bem sua função quanto gostariam ou precisassem. Também tinha aqueles que estavam presos a leitos, tal como o defensor da Casa de Peixes, ele estava em coma fazia meses por conta de um ferimento na cabeça, todos os dias o Cavaleiro de Câncer e o de Capricórnio iam ver seu estado.

Ter que começar do zero foi trabalhoso e exaustivo. O Santuário resistiu, mas não suas construções já fragilizadas pelo tempo e por batalhas passadas, tombaram por inteiro em ataques e defesas. Muitas Casas tiveram de ser reerguidas, tal como Gêmeos e Aquário. Locais de treinamento, alojamentos, moradias, enfermarias, escolas, banhos, praças e conselhos tiveram de ser reconstruídos com o suor de seus moradores. O único proveito que tiraram disso foi melhorar o projeto original do Santuário.

Ter que engolir as lágrimas e seguir foi difícil e preciso. Nada do que estavam fazendo agora seria cumprido se estivessem chorando a dor que sentiam. Sentiam até os ossos, mas chorar não podiam.

As coisas mudaram e muito. Não conseguia mais ver o mundo e nem andar por ele, segundo médicos, seu quadro era metade psicológico, metade físico. Ficou em coma induzido por 2 meses e acordou quando as coisas estavam entrando nos eixos. A tristeza em seu coração era grande, mas a felicidade que tanto sacrificou para obter estava começando a ocupá-lo.

As vitimas de Afrodite foram melhorando aos poucos e exatamente como o Espectro de Griffon havia alertado. O Cavaleiro de Andrômeda e o de Virgem haviam convencido os governos a prenderem os homens e mulheres que foram cobaias da deusa e organizaram uma espécie de campanha de doação de sangue. Muitas pessoas compareceram, e assim puderam fazer a transfusão de sangue de 18 milhões de pessoas em um único dia, todas estavam melhorando do “envenenamento” por sangue divino tal como se melhora de uma febre. O Cavaleiro de Virgem nunca sorriu tanto na vida por sentir a dor passar.

A fome não mais afetava as pessoas, pois puderam voltar a ganhar o pão de cada dia e tocar suas vidas, como resultado, logo saúde, educação e segurança voltaram a ter sua força original. Cidades se reerguiam e voltavam a agir. Arranjar alimento era uma prioridade, portanto, nos anos que se seguiriam a guerra, não seria nem um pouco anormal ver Cavaleiros, Amazonas, Servos e Soldados de Atena trabalhando nos campos e cidades junto ao povo. Não seria nada incomum vê-los ajudando a reconstruir nações inteiras e se tornarem verdadeiros heróis aos olhos das populações, mesmo que para muitos, um sorriso já era o bastante. O Cavaleiro de Dragão, por exemplo, contava com lágrimas presas o dia em que ajudou um monte de crianças a reconstruir uma escola que tinha sido destruída por bombardeio, ele afirmava nunca ter visto tantas crianças tão feliz em poder voltar para escola.

Homens e mulheres aprenderam a estender suas mãos e ajudar quem necessitava, tamanho o exemplo que tinham dos moradores do Santuário. Cavaleiros e Amazonas faziam da reconstrução do mundo que aprenderam a amar e defender a razão de seu viver.

Suspirou. O céu devia estar muito bonito hoje. Sorriu. Apesar de não conseguir enxergar, conseguia ver nitidamente um mundo melhor se erguendo.

Ainda estava sentada onde deixaram-na. A grama acarinhando a pela levemente morena, os raios de sol aquecendo o pequeno coração e os sons aumentando sua alegria. Os pais e tios discutiam como deviam continuar o trabalho em sua nova casa, os avôs opinavam constantemente e tiravam os mais novos do sério, os irmãos e o primo – filho de uma Amazona morta em batalha e que seu tio adotou como seu — brincavam com os cães e um certo macaco ficava pentelhando o gato.

¬ Anna.

Virou-se com um grande sorriso. Apesar de não poder ver, sabia pelo tom de voz que seu amado Otou-san estava sorrindo para si. O sorriso que tinha apenas se alargou, estava feliz por ainda tê-lo ali, estava feliz por toda sua “estranha” família estar ali. As coisas estavam começando a melhorar.

¬ Você tem visita. — o tom de voz do mais velho mudou, parecia enciumada.

Ficou nervosa, nem mais conseguia sustentar um sorriso direito. Só tinha uma pessoa no mundo que fazia o tom de voz do mais velho ficar daquele jeito. Mas porque veio? Fazia tanto tempo que não se encontravam que chegou a imaginar que tinham se esquecido um do outro. No entanto, não podia negar que no fundo no fundo, estava até ansiosa para vê-lo.

¬ Pode me levar até o balanço, Otou-san?

¬ Tem certeza? — questionou o mais velho. — Mesmo que presa a uma cadeira, você ainda pode transitar dentro de casa.

¬ Acho melhor o balanço.

O leonino suspirou. A filha tinha seus motivos para tudo e raramente seus caprichos não tinham uma explicação e motivo. Pegou a filha no colo, tomando cuidado para não levantar o vestido que a menina usava, levou-a até o balança e a deixou ali sentadinha com uma expressão pensativa. Hun... Só pela cara que a menina fazia, a visita iria escutar até cansar. Não pode evitar de soltar um risinho. Não disse nada, apenas empurrou o balanço de leve e se retirou para ir buscar a visita.

Ficou ali esperando enquanto cantarolava uma música qualquer. O balanço já estava parando e apesar de tomar impulso ele continuava a parar lentamente. Logo sentiu mãos em suas costas lhe darem mais impulso, ainda foi empurrada muitas outras vezes, mas permaneceu em silencio.

A pessoa que a empurrava deve ter se cansado, pois agora seu balanço ia para frente e para trás livremente, sem impulso algum. Ainda estava ali, podia sentir a pessoa ao seu lado vendo o balanço indo e vindo, sorriu de canto, sentiu falta daquela presença.

¬ Eu não te vejo desde a batalha decisiva. — finalmente deu inicio ao dialogo. — Estava me evitando por um acaso, Kiki?

¬ Acho que sim. — o tom do rapaz era baixo.

¬ Então porque veio? — o balanço foi.

¬ Senti que você estava inquieta. — o engraçado é que a inquietação era culpa dele. — Tentei ignorar, mas como pode perceber, não obtive sucesso.

¬ Hun... E porque estava me evitando? — o balanço veio.

¬ Vergonha, talvez. — ele parecia profundamente envergonhado por falar nisso. — Culpa, certamente.

¬ Porque? — o balanço foi.

¬ E ainda pergunta? — seu tom se transformou, agora era uma mistura de indignação e irritação. — Pense em seu estado, Anna! — não precisava, sabia muito bem como sua situação era complicada, não podendo andar e dependente da família, com gaze sobre os olhos por não poder enxergar e para não ferir ainda mais a retina sensível, entre outros problemas adicionais. — Se eu tivesse sido mais cuidadoso e atento você não estaria assim.

O silencio reinou, somente os sons que vinham de longe preenchiam seus ouvidos com murmúrios e risadas baixas, além, é claro, no barulho que o balanço fazia. Esperou o balanço parar e estendeu os braços para o ariano que estava ao seu lado, o pedido mudo foi atendido prontamente pelo rapaz, que a tirou do brinquedo e a depositou no chão ali perto, onde também se sentou.

¬ Eu escolhi este caminho e estes são os frutos que colhi em seu trajeto. — por fim, pronunciou-se. — Você não é culpado de nada.

¬ Mas...

¬ Nada! Você fez o seu melhor e até mais! — seu tom subiu um décimo. — Sem uma única peça de armadura você foi para batalha! Derrotou mais inimigos com as mãos nuas do que qualquer soldado com uma arma! Protegeu bem mais do que amigos, você protegeu um ideal e a justiça que cada um carregava! Você se mostrou um homem honrado e que merece mais do que qualquer outro se tornar um Cavaleiro de Ouro só pelo seu caráter! — o tom voltou a sua normalidade. — Você fez muito por mim e sou-lhe imensamente grata, mas o estado que me encontro agora jamais foi e nem será culpa sua.

Seu tom de voz era embargado, estava segurando o choro. Sim, estava triste por sua atual situação, mas se estava assim foi porque escolheu assim, já tinha se conformado com isso e estava lutando para mudar, portanto, não era culpa de nada e nem ninguém estar desse jeito e saber que alguém se culpava por isso a machucava. Sentiu que o ariano estava cada vez mais irritado, ou melhor estava cada vez mais triste. Não suportava saber que ele estava assim.

¬ Como você consegue? — a voz do rapaz era quase um rosnado embargado. — Anna. Você não anda e nem enxerga! — ela estava perdendo a paciência, tremia muito, não queria mais ouvir isso dele. — Se eu estivesse cuidando de você direito isso não teria acontecido.

Gota d'água. O tapa que dera no rosto do mais velho fez um estalo doloroso. Conseguia ouvir o pai leonino cantando vitória ao mesmo tempo que os aquarianos e virginiano o repreendiam e o escorpiano acompanhado das crianças davam risada. Eh... Cada um tem a família que merece.

¬ VOCÊ NÃO É CULPADO!! — gritou alto o bastante para os deuses ouvirem-na de qualquer lugar do mundo.

Chorava quando começou a tatear o ar em busca do rapaz. Bateu com a mão contra o peito, depois procurou os braços e rosto, onde demorou-se um pouco no local atingido e soltando um soluço estrangulado fez um mínimo carinho, como se pedisse desculpas. Se afastou e, em um rompante, o abraçou ainda entre lágrimas.

¬ Nada disso aconteceu porque você se descuidou. Aconteceu porque eu quis proteger quem eu amo. — se afastou e começou a limpar o rosto como podia. — Por favor, não gosto de saber que está assim. Você não tem ideia de quanto sangue o meu coração está vertendo, a culpa que você pensa carregar e o tapa que lhe dei é o que o faz sangrar. Prometa que não ira mais sofrer por isso. — tentou esconder o rosto. — Prometa para mim, que eu prometo fazer de tudo para melhorar. Por favor, não vamos mais falar disso. Por favor.

Com certo receio o rapaz a abraçou, trazendo-a novamente para junto de si. Passaram um longo tempo assim, tentando se acalmar, — o que fazia alguns dos espectadores arrancarem os cabelos e espumarem de ódio, enquanto os outros nem ligavam – até se separarem e um beijo ser estalado na testa da menor.

Ficou sentada com a cabeça do maior em seu colo, aproveitava para fazer carinho nos cabelos curtos e ficar desenhando o rosto dele com os dedos. Não era algo anormal de fazerem, sempre que tinham um momento de paz juntos um dos dois deitava a cabeça no colo do outro, já era um habito para ambos. Apenas procuravam sentir a grama, os raios de sol e a presença um do outro.

Conversavam sobre banalidades, mal parecia que minutos antes haviam "brigado". Os temas eram até variados. Falavam de seus mestres/pais. Falavam de como as coisas estavam melhorando. Falavam de coisas que fizeram. Falavam de coisas que farão. Falavam do Santuário. Falavam dos Deuses. Falavam de como era o dia a dia. Falavam de coisas engraçadas. Falavam de filmes e livros. Falavam de tudo, de tudo e mais um pouco, mas o mais importante é que sempre estavam sorrindo.

¬ Como consegue encarar tão bem está situação? — perguntou o mais velho um tanto encabulado.

Não queria magoá-la e voltar a bater na mesma tecla, mas estava verdadeiramente curioso quanto a isso. Ela apenas lhe dirigiu um sorriso, sabia que a curiosidade era a verdadeira razão daquela conversa de agora.

¬ Nem eu sei. — respondeu sem dar muita importância, erguendo o rosto para o céu. — Talvez porque eu veja luz. Talvez porque eu tenha minha família. Talvez porque Atena esteja me protegendo. Talvez porque tenha visto algo muito belo antes de meus olhos serem cobertos por este véu.

¬ Algo muito belo? — o rapaz sentou-se, agora estava com sua curiosidade martelando a cabeça. — O que você viu?

Soltou uma longa risada enquanto a brisa soprava forte e bagunçava seus cabelos, como se alguém brincasse com eles incentivando-a a contar, seu sorriso agora era simples e bonito.

¬ Quando meu Otou-san me carregava para fora de São Basílio, eu acordei e olhei para o céu noturno. A última coisa que vi foi uma constelação se desenhar na noite. — ela virou a cabeça para onde ouvia seus avôs, tios e pais darem atenção aos pequenos, seu sorriso se tornou ainda maior. — Eu vi a Fênix da noite estrelada.

Notas finais
Eu sei, muito drama até as finais, mas precisava disso. Afinal, a menina tá toda lascada e o cara prometeu que ia cuidar dela, é claro que ia rolar uma culpa básica :P Espero que tenham gostado :) Bjs. L :3