Fênix da Noite Estrelada
43 A História Sempre Continua
Notas iniciais
Era a “Patriarca” agora, mas nem por isso deixava de ser mulher e por consequência uma Amazona, então passaram a chamá-la de Matriarca, até porque, vamos combinar, tratá-la como homem é forçar demais. Era a primeira mulher a ocupar tal cargo, o que gerava um pequeno medo dos demais, já que tal fato era inédito, porém, ninguém nunca teve o que reclamar. E assim seguiam a vida.
O trono do “Patriarca” era ocupado por sua figura altiva e estava rodeado de crianças e alguns adultos, em sua maioria mestres que foram acompanhar os pupilos. Todos tinham expressões curiosas, maravilhadas e ansiosas. Adoravam as histórias contadas pela Matriarca, parecia que tinha uma história para tudo e eles amavam isso. Todas as noites, após um dia de treino puxado e um jantar farto, subiam correndo as Doze Casas, muitas vezes passando reto por seus ocupantes, apenas para chegarem logo e poder escutar a voz melodiosa adornar feitos e jornadas dos heróis de outrora.
¬ Odisseu, preocupado com o rumo que as coisas haviam tomado, virou-se para Menelau e, em uma última tentativa de evitar a guerra, questionou: Se lhe pedisse que pensasse em nossas famílias, reinos e amigos, no sacrifício de nossos pais e na paz que criaram, nos libertaria do juramento? — as crianças pareciam hipnotizadas, aquilo a fazia sorrir abertamente – sua mascara só cobria metade do rosto –, adorava o carinho e atenção que as crianças dedicavam aos contos antigos. — Menelau apenas sorriu e, com sua voz tão profunda quanto o reboar de um trovão, respondeu: Não.
¬ E depois?! — formaram um pequeno coro.
¬ E depois... — prosseguiu enchendo a voz de expectativas. — Aaron, Ofhir, Brianos, Kisaia, Cora, Danarius, Ariel, Eren, Miksa, Frya, Anana, Gaya, Zira, Harlock, Yvainne, Ira, Xena, Jack, Ward, Kan, Viollete, Laika, Ür, Mira, Toorop, Nicola, Sparow, Ona, Rutty, Pallas e Quiron foram para cama, pois já estava tarde e passava da hora de dormir. — falou tão rápido quanto podia.
O tempo pareceu parar, as crianças estavam mudas e todas com a mesma expressão desacreditada, até os adultos ali presentes estavam parecidos. Soltou um pequeno riso, devia parar de fazer esse tipo de maldade, o duro era que todos caiam e nunca perdia a graça.
¬ CHATA!! — gritaram todos ao mesmo tempo, menos os adultos que tinham bom senso.
¬ Shh... — queria rir, mas compostura era exigida. — Lady Atena e Valentin estão dormindo, e se me lembro bem, combinamos que todos iriam pra cama assim que eles adormecessem.
Em seu colo repousava dois pequenos embrulhos. Dois bebês que ressonavam calmamente, pois sabiam estar mais do que seguros naqueles braços. Todos se aproximaram para ver a pequena deusa reencarnada e o pequenino lemuriano dormirem de forma tão serena, era algo muito bonito de se ver, apesar de que a maioria só olhava por curiosidade e diversão. Um bebê era uma verdadeira atração para eles, imagine dois.
Cada um se curvou com respeito e esperou mais atrás dos companheiros, que faziam o mesmo. Todos desejavam e pediam a mesma coisa.
¬ Boa noite, Lady Atena. — ainda demoraria para que a deusa pudesse responder, porém, todos sentiam o cosmo da mesma mais forte após tais palavras. — Boa noite, Mestre Anna. — aquilo era como pedir uma bênção, que sempre era dada com um aceno e um beijo na cabeça. — Boa noite, Valentin.
¬ Podemos nos retirar? — perguntou um dos adultos ali presente depois de pedir e desejar o mesmo que os pequenos.
¬ Tenham todos uma boa noite. — desejou com um pequeno sorriso. — E sim, podem se retirar.
Agora estava sozinha no salão, soltando um longo suspiro. Com todo cuidado, arrumou os bebês no colo e rumou para a ala que lhe servia de moradia. Entrou no espaçoso quarto, deixou cada um dos bebês em um berço e começou a tirar o pesado manto, o elmo e a máscara de Amazona, ficando apenas com uma camisa e uma calça, vestuário típico de aspirantes em treinamento.
Suspirou mais uma vez só de lembrar das crianças que a pouco tempo estavam no salão. Fazia dias que era assombrada com a ideia de que logo elas partiriam para conquistar suas armaduras, duas crianças em especial eram as que mais lhe assombravam, especialmente uma que logo estaria partindo e era a causa de suas mais recentes dores de cabeça.
¬ Você as ama demais. — a voz gentil e muito conhecida se fez presente. — Vai sofrer quando todas forem embora, assim como todas as outras vezes.
Virou-se para encarar sua interlocutora espectral. Ela nunca mudou, continuava com a mesma roupa branca adornada com flores, os cabelos loiros medianos e os olhos esmeraldinos cheios de brilho. Se tivesse asas seria um perfeito anjo da guarda.
¬ Esmeralda. — sorriu um tanto tristonha para a mesma. — Porque você só vem conversar para me servir de despertador?
¬ Minha função é protegê-la, ajudá-la e aconselhá-la, mesmo que de forma desagradável. — verdade seja dita, era uma serva de Zeus responsável pela proteção de Oráculo reencarnado, ou seja, nada de corpo mole.
¬ Não diga isso. — volveu irritada com a afirmação. — Sabe que nunca me desagradou, é minha estrela guia, assim como foi de meu Otou-san.
Falou um pouco alto de mais. Escutando um dos bebês reclamar, foi correndo para o berço do pequeno lemuriano e o pegou com todo carinho que possuía, ninando-o com uma cantiga. Logo este voltou a dormir.
¬ Deve ser difícil para você. — comentou. — Você ama cada uma dessas crianças como se fosse a mãe delas e como se não bastasse, daqui alguns anos terá de mandar outro filho seu para este suplício. – encarava o menino nos braços da mulher com carinho, outro menino saudável que quase custou a vida da mãe para vir ao mundo.
A libriana era mãe de crianças saudáveis permitidas e abençoadas pelos deuses, todas quase lhe tiraram a vida para vir ao mundo, mas faziam-na muito feliz. Na realidade, de criança só tinha o bebê em seus braços, pois seu filho mais novo dentre os mais velhos já tinha 26 anos.
¬ Não tens ideia. — seu tom era triste quando pousou o filho no berço. — E só de pensar que os mandarei para aqueles lugares horríveis daqui alguns dias ou anos. — olhou para o lado como se pensassem em alguém que estava longe. — Eles nem vieram escutar a história.
Esmeralda sabia muito bem de quem estavam falando agora. Um menino que iria embora dali três dias e uma menina que ficaria inconsolável dali três dias. Não a julgaria nem nada, sabia que aquele caso era diferente, a ligação que ela tinha com esses dois era muito mais profunda do que qualquer outro imaginava.
¬ É claro que não viriam. — volveu. — Querem aproveitar o tempo restante.
Soltou outro suspiro e abriu a grande janela que havia no lugar, a noite estava fresca e sem uma única brisa. O céu não tinha uma única nuvem e podia-se ver todas as constelações. Mais outro suspiro foi solto quando se debruçou na janela, sendo seguida por sua “conselheira”.
¬ Parece que foi hoje cedo que eu os trouxe nos braços, e parece que foi ontem que eu estava nos deles.
¬ Não vai ficar se lamentando agora, vai?– ela só tinha um defeito grave, comparar passado e futuro. - Se nem quando você não andava e nem enxergava você ficou se lamuriando, vai ficar agora?
Foi uma época difícil, pois Anna exigiu tanto de seu corpo na batalha contra Afrodite que o preço foi cobrado com juros. Além de danos físicos, que só foram corrigidos com cirurgias, também houveram danos psicológicos. E mesmo com todos os problemas decorrentes, ela nunca agiu como coitadinha.
Mas agora...
Anna sabia de seus deveres e sempre os cumpriu, mas por ser o Oráculo, ela era naturalmente longeva, então muitos que conheceu e amou já tinham morrido e encarnado nessas crianças pelas quais ela tanto zelava. Conciliar esse saber com a nova realidade não era fácil. Não podia exigir que aquelas crianças vivesse uma vida que não era mais sua. E o assunto de agora se tratava disso. A criança que Anna estava prestes a mandar embora foi alguém muito importante para ela, assim como a criança que choraria a falta da outra.
¬ Nu. — respondeu de imediato. — Desde que os vi sabia que esse dia chegaria. Sei o que os aguarda, sei das guerras que vão enfrentar, sei das vidas que vão tirar, sei dos amigos que vão perder e ganhar, sei até como vão morrer. — concluiu em um tom triste. — Só espero não estar mais aqui para sofrer sua perda novamente. Amar uma pessoa e perdê-la doí muito, mas tê-la novamente, amá-la novamente para perdê-la mais uma vez é destruidor. Não quero voltar no tempo e nem mudar o rumo das coisas, eu só não quero que sofram.
O discursos e o tom de voz eram tão deprimentes que beiravam a depressão profunda.
¬ Por favor, para. — pediu com um gesto para enfatizar. — Está parecendo uma das pobres almas condenadas a vagar pelo Yomotsu. — empurrou-a de leve na tentativa de animá-la. — Onde está a mulher maluca e cheia de vida que eu conheço? Aquela que fez tudo o que deu na telha e mais um pouco? Aquela que realmente curtiu a vida?
Outro suspiro. Esmeralda nem sabia porque tentava animá-la, quando a libriana ficava assim não tinha nada nesse mundo, só sua consciência mandando-a parar de mimimi, capaz de mudar seu estado.
¬ Hoje em dia eu compreendo o porque de Mestre Shion ter chorado tanto após o termino da guerra e passado o posto de Patriarca para Mestre Saga. E também entendo o porque Mestre Saga chorou nas guerras seguintes, antes de me entregar seu posto. — grandes homens esses dois foram por falar nisso. — Nós aprendemos a amar cada um dos que vivem no Santuário como um pai, irmão e filho. Vê-los ir embora e, talvez, nunca mais voltar, é doloroso. — ela olhou para o Santuário lá embaixo. — Ver alguém que você ama partir novamente é ainda mais.
¬ Mas é o destino deles. — cansou de consolar, tinha que lembrá-la das razões para isso. — Primeiro devem conhecer o poder do escuro para compreender a força da luz. — outro suspiro. — Está se lamentando pelo que afinal? — questionou já irritada.
¬ Eu não estou me lamentando. — volveu.
¬ Está fazendo o que então? — retrucou.
¬ Estou analisando as vantagens e desvantagens de serem Cavaleiros sem ter um deus pra ficar atrapalhando a vida deles.
¬ Mas até agora você só reclamou de mandá-los embora.
¬ Ah, Esmeralda... — seu olhar era distante, bem distante, bastava saber se era no passado ou no futuro. — Eles finalmente podem ser felizes, suas almas finalmente vão poder descansar, mas é quase uma exigência que eles se tornem Cavaleiros. As provações que terão de enfrentar já foram capazes de destruir pessoas, não quero que isso aconteça com eles, ainda mais agora que podem ficar juntos. — encarou os olhos esmeraldinos. — Tanto como a filha quanto como mãe, eu quero que sejam felizes.
A libriana era uma peça rara. Aqueles que amou como seus pais, agora a amam como mãe. Viu-os crescer e ficarem cada dia mais fortes e próximos, os tinha como família novamente. Como toda filha e mãe, ela os queria ver felizes, porém, somente como mãe não queria que eles conhecessem as crueldades do mundo para isso.
¬ Não se esqueça que a força deles é muito maior do que você se lembra.– argumentou.
¬ O que me preocupa não é a força. — volveu. — É sua felicidade.
¬ Mestra. — hora de ir. — Com quem estava falando?
Girou nos calcanhares para encarar quem lhe chamava. Um menino de porte orgulhoso e vigoroso, mesmo tento apenas 8 anos, era dono de um olhar duro capaz de fazer qualquer um tremer nas bases e de um coração bom oculto por sua figura pequena e ainda sim intimidadora. Os olhos eram num tom de índigo que variavam entre o céu noturno e a mais profunda escuridão, a pele era morena de nascença e de tanto tomar sol, e os cabelos eram tão negros quanto a própria noite. Por ficar órfão logo após o nascimento, foi adotado e criado pela libriana.
¬ Nix. — sorriu para o pequeno, que cobriu o rosto ao ver que a mais velha estava sem a máscara. — Eu não falava com ninguém, apenas pensava alto, minha criança. — colocou a máscara e ajoelhou-se frente ao menino, fazendo-o tirar as mãos do rosto. — O que lhe aflige?
O menino a encarou espantado, com a boca levemente aberta e os braços pendendo. Não conseguiu deixar de pensar se na vida anterior, aquele menino tinha o mesmo comportamento quando criança.
¬ Como a senhora...
¬ Eu lhe vi crescer, Nix. — além de já ter vivido sobre o mesmo teto em outros tempos. — Não há como esconder algo de mim.
O menino abaixou o rosto corado. Sentia-se bem perto da mais velha, parecia que a conhecia há muito tempo, talvez fosse porque ela tenha sido a única figura materna que teve em sua vida, só que o pensamento de que havia algo mais nunca o abandonava.
¬ Eu queria... — bufou irritado com sua própria demora e como forma de tomar coragem. — Eu queria ouvir uma de suas histórias, Mestra.
¬ Acho que chegaste atrasado, minha criança. — respondeu já sentada na grande cama.
Ficou analisando o menino. Um dia ele foi seu Otou-san, mas agora era seu pupilo. Era a mesma alma, mas duas vidas e pessoas totalmente diferentes. Sorriu consigo mesma. Podiam ser pessoas diferentes, mas pelo menos ainda era a mesma alma que tanto zelou e cuidou de si, nada a impedia de amá-lo das duas formas.
¬ Mas eu não queria deixar Mariana sozinha. — o menino parecia dividido. — Sem contar que ela pediu que eu ficasse ao menos até ela dormir.
Sorriu. Continuavam tão unidos quanto costumavam ser.
¬ Pois acho que ela veio cobrar sua promessa. — disse apontando para a porta.
A menina que os encarava era uma verdadeira fortaleza, ninguém chegava perto se ela não quisesse, porém a imagem dura que transmitia não chegava nem perto da sensibilidade que tinha a tudo. Era um doce de criança e também era dona de uma beleza incontestável, apesar de só ter 5 anos. Os olhos eram azuis como o mar do norte, os cabelos cacheados variavam entre o castanho-claro e o loiro, a pele era branca e o rosto angelical. No todo, a menina era realmente um anjo, assim como quando ela ainda era seu Papa, talvez a semelhança também se deva ao fato de que a menina era bisneta de Miguel de Taça, irmão de Anna e cópia cuspida do pai.
Porém, o rostinho de anjo agora estava contorcida numa expressão de raiva e desagrado, além de ter lágrimas presas no olhar, engraçado como a tendência a ficar irritado e triste aumenta quando a gente fica doente.
¬ Mariana! — o tom de Nix era uma mistura de surpresa, medo e preocupação.
A menina saio correndo e se agarrou na cintura do mais velho, colocando os pés sobre os do maior para evitar o chão frio. Sorriu perante aquela visão. Lembrava-se com clareza que os pais ficavam do mesmo jeito nas manhãs frias, compartilhando de um abraço logo antes do café, sendo que o menor ficava pisando nos pés do maior para evitar o chão.
¬ Me deixou sozinha seu mentiroso. — pelo jeito ela mal tinha adormecido quando o mais velho saio.
¬ Mas eu... — tentou se justificar já com cara de quem sabia não adiantar. — Você tá certa. Eu te deixei sozinha, desculpa.
É realmente incrível como a morte não é capaz de destruir certas coisas.
¬ Eu não sei porque, mas sinto que vou me arrepender. — comentou consigo mesma, olhando os berços para ver se os bebês realmente adormeceram, pareciam duas pedrinhas.
Aqueles dois gostavam muito de histórias, mas não vieram escutar por conta da gripe forte da pequena e porque o maior logo iria embora. Achava um tanto injusto eles ficarem sem escutar.
¬ Os outros vão te devorar viva se descobrirem. — adorava sumir e fazê-la passar por louca, mas nem por isso deixava de falar, né?! - Lembra quando fez o mesmo com o atual Cavaleiro de Andrômeda e Amazona de Áries? — Esmeralda e seu habito de ficar lembrando-a da realidade e opinando sobre tudo. - As crianças descobriram e você não dormiu por três dias.
Três longos dias. As crianças não gostavam nem um pouco quando alguém tinha algum “privilégio” e mesmo sabendo que se descobrissem as coisas iriam ficar estressantes, resolveu correr o risco. Aquelas duas crianças um dia foram seus pais, mas agora eram crianças e, principalmente, seus amados pupilos.
¬ Bem. — pronunciou-se de forma que chamasse atenção dos dois. — O que acham de uma história?
¬ Sério? — questionou o mais velho cheio de expectativa.
A libriana confirmou com um aceno e convidou os dois para se sentarem na cama. Os dois foram voando na direção dela e sentaram-se lado a lado, mal ouviram a história e já estavam com aquelas carinhas de assombro e admiração. Sorriu. A inocência realmente torna as pessoas belas.
¬ É uma história muito antiga, que remonta a Era dos Primeiros Cavaleiros. — seu tom era profundo, o que dava ainda mais realismo e vida ao mito.
¬ É sobre o que? — a voz da pequena era cheia de curiosidade.
¬ É sobre a inveja de uma deusa. A dor de dois rapazes. E como seu amor foi gravado nas estrelas e perdurou a eternidade.
Existem certas coisas que a morte não pode destruir e existem histórias em que o coração é guiado por seus acontecimentos e sentimentos que duram a eternidade.
Phoenix e Cygnus. Ikki e Hyoga. Nix e Mariana.
A história sempre continua.
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