Fênix da Noite Estrelada
15 Curando Feridas
Notas iniciais
Guerra é Guerra. Eles sempre souberam, mas aquela era diferente, era especialmente cruel.
Como Saori havia dito, eles foram convocados para servir, até mesmo os Aspirantes, e todos, sem exceção, foram para guerra. A maioria deles estava alistado no exercito grego, poucos estavam alistados em seus países de origem, ou nos países de seus pais e/ou mestres, este era o caso dos irmãos Amamiya e de Hyoga, ambos alistados no exercito francês.
Ao chegarem, foram logo identificados como Cavaleiros de Bronze, que, desde que a verdade fora "revelada" e a guerra iniciada, era o mesmo que possuir a patente de Capitão, e eles assumiram esse posto sem problemas, sendo verdadeiros exemplos para os demais.
Por serem Cavaleiros, eles possuíam algumas “vantagens”. Além de poliglotas, devidos as inúmeras batalhas e necessidades que enfrentaram, eram “médicos”, engenheiros, estrategistas, soldados, marinheiros, aviadores, dentre outras coisas, e mesmo assim se portavam como o que realmente seriam em condições normais de guerra no mundo humano, soldados.
Mais uma vez, a Europa foi o palco das batalhas, juntamente com a Ásia, sendo a Grécia o quartel general dos Aliados – Cavaleiros de Atena e Companhia – e a Rússia o quartel general dos Terroristas – Grupo Vênus Maxima e Cia. Todos os países na mão dos Terroristas sofriam, o povo vivia sobre a ameaça e, temendo por seus iguais, os soldados faziam tudo que lhes era ordenado, eram meras marionetes controladas pelas forças da deusa Afrodite. E que, segundo boatos, fazia terríveis experiências com os soldados.
Dias vinham, dias iam, e a guerra prosseguia. Mais alguns países caíram nas mãos dos Terroristas, mas isso foi antes da chegada dos Cavaleiros, que igualaram a disputa, eles não só faziam uso de suas armaduras, como de roupas e armas militares também. Aquela foi a primeira e talvez única vez em que Atena permitiu o uso de armas por parte de seus Cavaleiros, sinal de que as coisas estavam muito feias.
Amamiyas e Yukida serviam ao 28° batalhão francês, um dos únicos que ainda não tinham ido para linha de frente, onde se encontravam metade dos Cavaleiros de Ouro, boa parte dos Prata e os demais Bronze. O 28° batalhão tinha por função atender os feridos de guerra, resgatar os civis e treinar soldados.
¬ Nós nos comunicamos através de códigos. — afirmou o leonino para 200 homens e mulheres a frente de um quadro branco com cartazes pregados e várias palavras escritas em código. — Vocês tem de saber esses códigos na ponta da língua, porque com a falta de palavra vem a morte no silencio. E não digo isso para que se esforcem e se mostrem bons soldados, digo isso para que tenham consciência de que esses códigos podem salvar vidas. O entendimento desses códigos determinará se seu companheiro vai morrer ou viver.
Ikki não gritava, o tom de sua voz somada à seriedade com que falava era o bastante para calar, intimidar e impor respeito aos soldados. Hyoga e Shun também assistiam as aulas de Ikki, quando terminavam seu serviços – o que era raro –, apenas para assistir e rir dos novatos, que sofriam muito – diga-se de passagem – nas mãos do Amamiya mais velho.
¬ Atirem! — vários disparos de rifle sniper foram ouvidos pela base, depois o som de recarga. — Atirem! — novamente o som de disparos e recarga. — Trocar! — os soldados trocavam de lugar com seus companheiros, variando quem atirava e quem calculava o alvo. — Atirem!
O engraçado mesmo eram as broncas, mas também, os novatos pediam para levar um esfrega algumas vezes.
¬ Todos os dias homens e mulheres estão morrendo naqueles campos. Vocês bebem a noite inteira para chegar a manhã seguinte e atirarem “por engano” ou “erro de calculo” nas cabanas hospitalares? Sendo que estas ficam na direção contraria das estandes de tiro? — só o olhar de Fênix era capaz de rasgar as almas dos novatos em pedacinhos.
Hyoga tentava, mas falhava miseravelmente em segurar o riso, Shun também não era lá muito bom nisso. E é claro que por conta disso, sobrava para eles também.
¬ Do que estão rindo? — questionou furioso.
¬ Rindo? — indagava o aquariano de forma sarcástica. — Quem está rido, Fênix? Eu que não sou. — falava cheio de inocência. — É você, Andrômeda?
¬ Eu? — o menor sempre entrava na brincadeira do mais velho. — Não. Imagine. Que absurdo.
¬ FORA DAQUI OS DOIS!! — este era Ikki os expulsando, enquanto os dois saiam correndo entre risos.
Nada de errado acontecia em horas como essa, na verdade era a parte mais fácil de todas. O complicado era cuidar dos feridos e refugiados. Um trabalho absurdamente difícil, pois os médicos faziam falta, então boa parte do trabalho "sujo" era deixado para os Bronze.
Hyoga se indignava e enojava com boa parte dos cenários que encontrava. Muitas vezes, as pessoas não tinham onde ficar, portanto era normal ocuparem tendas de lona com esteiras no chão, onde tinha feridos, mulheres, crianças e idosos; eram condições lamentáveis, em momentos como aquele, o bordão de Shun era:
¬ Isso não é nada bom. Não é nada bom. — murmurava enquanto assistia a chegada de mais um grupo. — A quietude e o fedor me dizem tudo.
A mais pura verdade, muitas das pessoas chegavam com feridas infeccionadas, até mesmo os civis que não tiveram contato direto com a batalha e nem se quer a viram, que não eram tratadas pelas más condições que toda Europa se encontrava e pela falta de suprimentos, que parecia cada vez mais constante, principalmente nos países isolados.
Mesmo sendo responsáveis por cuidar dessas pessoas, suas condições não eram muito melhores, tinha dia que os Cavaleiros pensavam que tinham se perdido no tempo, mais especificamente, na Idade Média, nem as batalhas contra Hades e Poseidon juntas foram capazes de deixá-los daquela maneira. Não tinham instrumentos cirúrgicos adequados, os remédios faziam falta, os obrigando a usar ervas medicinais colhidas e cultivadas por eles, e não havia espaço o suficiente para tantas pessoas, que esperavam ansiosas sua transferência para Grécia, colônias e arredores, o único lugar no mundo que parecia bem apesar de tudo.
Eram dias e dias ouvindo gemidos, preces e choros, sentindo o cheiro de podre e morte, e vendo o sofrimento tão de perto. Usavam facas para cortar carne podre e infeccionada ou remover projeteis, que iam de balas à estilhaços, não sabiam nem como aquelas pessoas resistiram até ali. Ervas, unguentos e antibióticos eram escassos e muito usados para tratar de doenças, infecções, ferimentos e/ou escoriações. Panos eram jogados fora todos os dias e tinha panos que eram lavados, postos em água fervente por horas, depois colocados ao sol para secar por um dia inteiro e por fim reutilizados. Todos os dias, metros e metros, até mesmo quilômetros de bandagens eram usadas. Tinham que limpar ferimentos e cuidar de cada pessoa como se está fosse um bebê, ainda tinham que organizar e limpar as estalagens. E a pior de todas, tinham que ensinar, além da arte da guerra, a arte da medicina aos demais soldados, porque nem os médicos disponíveis, cinquenta, somados aos três Cavaleiros, estavam aguentando a carga horária, sem contar que eram mais de 2 mil pessoas a cada 7/8 dias.
O verdadeiro purgatório estava ali, mas o Inferno estava um pouco mais à frente no campo de batalha. Era só uma questão de tempo até serem mandados para as linhas de frente, ou pior, se tornarem as linhas de frente.
Não tinham muito tempo para ficarem juntos e, principalmente, sozinhos, por isso aproveitavam todas as oportunidades ao máximo, era tão bom fingir que aquilo era apenas um pesadelo e que logo acabaria. Mas ele não acabaria, pelo menos não tão cedo. A gota d'água para os três Cavaleiros e o que os motivou a exigir que fossem mandados para linha de frente foi a morte de uma criança com gripe, que não teve remédios para ajudá-la a melhorar.
Amamiyas e Yukida foram transferidos para o 13° batalhão francês, dois dias depois. O 13° batalhão estava na linha de frente das forças ao nordeste da Europa, e onde Camus de Aquário e Milo de Escorpião mandavam e desmandavam. Foram recebidos de braços abertos pelo escorpiano, que fez de tudo para que eles se adaptassem o mais rápido possível, e foi até energético e extravagante em algumas apresentações ou comentários. Chegaram a duvidar da integridade do grego como líder, mas levando em consideração que aquele lugar era muito bem organizado e combatia todas as ofensivas com destreza, mais o fato de Milo ser um excelente Cavaleiro de Ouro, ele podia ter quantos parafusos a menos que fosse, ele não deixaria de ser um exímio Major-General.
Logo se sentiram em casa, e sabiam que a ação não demoraria a chegar, só não sabiam se estariam preparados. De fato, o momento de agir chegou mais rápido que o desejado.
Uma vila.
Uma vila ali perto, na Romênia, estava sendo destruída pelos Terroristas. Muitas das vilas tinham sido abandonadas durante a guerra, especialmente naquela região, outras estavam em processo de abandono e esse era justamente o caso desta vila. As pessoas estavam prontas para partir quando foram atacadas, a noticia demorou para chegar, mas não foi preciso que ela chegasse para que o 13° batalhão agisse, pois os Cavaleiros ali presentes sentiram seus inimigos antes mesmo do ataque propriamente dito se iniciar.
Granadas caiam por todos os lados, tiros rasgavam o ar sem parar, gritos e choros eram ouvidos sem fonte definida. Hyoga e Ikki estavam no campo propriamente dito, com suas armaduras cobertas com um tecido preto, uns cintos extras, fuzis, pistolas e granadas, já Shun estava em algum lugar alto com seu rifle sniper e a caixa de sua armadura ali do lado.
¬ Ei, Hyoga. — chamava pelo comunicador, enquanto recarregava a arma. — Dá pra cuidar direito do meu Nii-san? Já é o quinto engraçadinho que pego tentando acertá-los pelas costas.
¬ Ei! Não sou eu quem está atirando no joelho dos caras. — rebateu enquanto se protegia atrás de um muro e Ikki disparava ao seu lado. — Até onde saiba, as ordens da Saori, contradizendo as forças militares, foram atirem para incapacitar, jamais matar, afinal eles ainda podem vir para nosso lado. — parou apenas para atirar e voltou logo em seguida para recarregar a arma. — Atirar no joelho, ou melhor, estraçalhar o joelho deles com uma bala de sniper, é o mesmo que gritar: Atirem nas próprias cabeças, bando de filhos da puta!
¬ Antes o joelho do que a cabeça propriamente dita, não? — volveu o mais jovem.
Era difícil avançar, mesmo em grupos. A fumaça gerada pelo fogo atrapalhava a visão, tornando difícil discernir inimigo de civil, somando as balas perdidas e as granadas que caiam sem parar, atirando estilhaços para todos os lados, mais o cheiro de carne queimada e sangue recém derramado, que fazia o pulmão dos combatentes arderem e os olhos lacrimejarem, dificultava muito o avanço. Aquilo era um belo e pequeno inferno. Hyoga chegava a suspirar de alivio por Shun não estar presenciando aquilo tudo em primeira mão, não sabia se o amigo seria capaz de suportar tudo o que via.
Os inimigos vinham de todos os lados, tornando o uso de armas, muitas vezes, impossível, o jeito era socar ou usar o ambiente ao redor. Bombas caiam com mais frequência e os inimigos surgiam aos montes, pareciam formigas por sua quantidade e, por vezes, organização. Chegou um momento em que os Bronze se viram encurralados, Hyoga chegou a levar um tiro e Ikki levou três deles, mas como dizia Aldebaran, – que estava lutando na Ásia – vaso ruim não quebra tão fácil.
A mesa foi virada com dificuldade, foi difícil de sair detrás dos muros e batentes de portas, mesmo assim, os Aliados conseguiram, com a perda de muitas vidas, mas conseguiram. Houve soldados, bons soldados e até mesmo amigos que morreram nos braços dos Bronze. A vontade de vingá-los não foi pouca, mas ordens eram ordens e deviam ser cumpridas. Os civis primeiro.
¬ MI DRUMUL!! — uma voz infantil exigia sua soltura. — MI DRUMUL!!
O olhar de Hyoga foi atraído pela voz fina e quase inaudível devido as explosões e tiros. Uma menina de 5 anos, no máximo, estava sendo arrastada por um soldado inimigo de armadura, ela esperneava, gritava e chorava, porém ele não a soltava. Hyoga não tinha a mínima ideia do que o homem queria, na verdade, tinha uma ideia sim, mas não queria esperar para descobrir.
¬ Ikki! — chamou.
O leonino olhou na direção que lhe era apontada, tendo a mesma visão desagradável. Não foi preciso a troca de palavras para terem a mesma ideia, que só tomava mais e mais força conforme escutavam mais gritos da criança.
¬ Curts!! — Ikki berrou pelo comunicador. — Avance sem piedade!! Mostre para esse bando de punheteiros que não se ataca inocentes enquanto estivermos por perto!!
¬ Entendido, Capital Amamiya!!
Leão e Aquário tiraram seus comunicadores, deixando-os pendurados no pescoço e abandonaram a ofensiva para ir atrás da voz infantil que ainda gritava, mesmo que apanhasse – pois dava para ouvir o som dos tapas que levava – a menina continuava a gritar.
¬ NU!! — berrava o mais alto que podia. — MI DRUMUL!! BUNICA!! BUNICA!! AJUTOR!!
Chegaram a tempo de ver a menina lutando e arranhado o homem que agora tentava prendê-la ao chão, com uma única intenção desagradável. Ikki soltou um risinho debochado e desacreditado, já Hyoga só conseguiu pensar em pegar a menina.
¬ Esse eu mato com gosto!! — Fênix bradou antes de avançar com tudo sobre o servo de Afrodite.
Hyoga correu até a menina e a acolheu em seu colo, ocultando os atos de Ikki. Os gritos do homem pareciam muito dolorosos, podia-se sentir o cheiro de carne queimada e por fim mais nada, apenas o som de algo caindo, Hyoga pode ver que era a cabeça do homem, parcialmente queimada.
A menina antes quieta, começou a se debater desesperadamente no colo do aquariano quando percebeu a aproximação do leonino.
¬ Mi Drumul!! — uma voz infantil exigia sua soltura. — Mi Drumul!! Bunica!! Bunica!! Ajutor!!
Hyoga teve de conter a menina que passou a berrar e chorar. Ele se afastou do local com Ikki ao seu lado, chegaram à uma casa parcialmente destruída e se sentaram ali mesmo, na entrada. A menina berrava e berrava, parecia não ter fim, quando sua voz começou a apresentar falhas, o aquariano tentou conversar.
¬ Ei. — chamou de forma suave. — Não vamos te machucar. Só queremos te ajudar, mas primeiro você deve se acalmar. Eu sou Hyoga. E este é o Ikki.
Ikki não entendia uma única palavra dita, só os nomes e olhe lá, ele falava muitas línguas, mas romeno definitivamente não era uma delas. Decidiu se afastar um pouco e colocar o comunicador no lugar para ter uma ideia da situação, enquanto isso, o loiro lidava com a menina.
¬ Onde está minha vó?– indagou a pequena para exigir logo em seguida. — Eu quero minha vó!
¬ Não sabemos onde está sua avó.– explicou. — Mas juramos que vamos procurá-la. Até lá, você deve descansar pequena, passou por muita coisa, deve se acalmar e descansar. Prometo que vamos te proteger de todo mal.– ele tentava niná-la, balançando-se levemente. — Não há razão para chorar.
¬ Meu nome não é pequena!– volveu meio irritada. — Meu nome é Anna.– ela pareceu estudá-los por um tempo, ainda, em alerta. — E se vocês forem maus?
¬ Se fôssemos maus, não teríamos te ajudado.– respondeu tão gentil quanto possível. — Somos bonzinhos e sendo assim, nós vamos te ajudar, porém precisamos que você coopere.
A menina pareceu pesar cada uma das palavras de Hyoga com cuidado, ignorando os sons da batalha que ainda ocorria, e só depois de muito tempo é que ela acenou positivamente, tirando um sorriso do aquariano.
¬ Você tem um nome bonito sabia?– elogiou, tentando deixá-la mais confortável. — Anna significa cheia de graça. É um nome muito bonito e que reflete muito bem quem você é.– a menina ruborizou de leve.
¬ Obrigada.– respondeu. — Mas onde eu vou ficar? O que vai ser de mim?
¬ Pode ficar conosco até acharmos sua avó.– sorriu tentando passar confiança. — Não se preocupe. Eu disse que vamos te proteger de todo mal e é isso que faremos.
A menina pareceu relutar, mas depois de algum tempo aninhou-se no peito do aquariano, o abraçou e, ainda tensa, permitiu-se dormir. Hyoga passava a mão nos cabelos da menina, ninando-a e até mesmo cantarolando trechos de músicas infantis. Aos poucos a menina adormeceu e, não tão distante dali, a luta cessou.
Ikki se aproximou, tocando-lhe o ombro.
¬ Quem diria? — ele parecia um pouco surpreso. — Você tem jeito com crianças. Daria um excelente pai.
¬ Tem coisas que você ainda desconhece sobre mim. — provocou.
¬ Não vai se achando só por causa disso. — Ikki estalou um beijo em sua bochecha e passou a mirar a menina com cuidado. — Diga-me. — pediu. — O que vocês conversaram?
¬ Ele é esperta. — concluiu. — Desconfiou de nós a todo instante e mesmo assim, ainda sinto que ela esta desconfiada. Ela também quis saber da avó e o que seria dela a partir de agora.
¬ E o que você disse?
¬ Disse que nós cuidaríamos dela e a ajudaríamos a encontrar sua avó.
Ikki se colocou de frente ao aquariano com a expressão mais fechada que podia ter.
¬ Hyoga. — começou em um tom velado de raiva, tinha briga a caminho. — Você sabe muito bem...
¬ Ikki! — cortou o leonino antes que o egocentrismo começasse. — Eu não quero discutir com você agora e nem hoje. Só quero que compreenda e aceite. Ela precisa de nós. — ditou. — E eu vou ajudá-la, você estando presente ou não. Eu vou acolhe-la e vou cuidar dela até encontrarmos a avó. — o russo abaixou o olhar. — Sei que as probabilidades de achar apenas um corpo ou achar nada são altíssimas, mas não me importa o que vai acontecer, eu não vou deixar essa menina sozinha nesse mundo.
A menina se remexeu no colo do russo, se acomodando melhor nos braços dele. Ikki passou algum tempo admirando a pequena, ela fazia sua mente viajar, indo para bem longe dali, num possível futuro, cada vez mais impossível.
¬ Ikki. — chamou carinhoso. — Olhe para ela. Sei que não devia dizer isso, sei que é egoísmo, mas... Ela é o mais próximo que eu e você teremos de um filho.
O leonino fez uma careta. Definitivamente odiava a facilidade com que o loiro o dobrava, e se perguntava se algum dia seria capaz de dizer “Não” quando fosse necessário.
¬ Arg. — colocou as mãos na cabeça, bagunçando o cabelo. — Eu te odeio, sabia? — Hyoga riu.
¬ Sei. — afirmou sorrindo. — E então, quem ganhou?
¬ Hã? — o leonino demorou um pouco para se situar. — Ah, você esta falando da luta. Nós ganhamos. Já estão até recolhendo os corpos, cuidando dos feridos e escoltando os civis para um lugar seguro. — o moreno envolveu o ombro do loiro e passou a caminhar. — Agora, onegai, vamos sair daqui. Não sei você, mas tem uma bala na minha coxa que tá me deixando louco. — dito e feito.
Os dois passaram a andar de volta para a base em silencio para não acordar a menina. Definitivamente, metade da base iria abaixo e a outra metade explodiria, quando chegassem com aquela menina nos braços.
Algumas semanas depois do ocorrido, descobriu-se que, de fato, a avó de Anna veio a falecer durante o ataque e agora a menina estava sozinha no mundo. Bem, não inteiramente sozinha. Anna já estava muito bem adaptada a vida que levava ao lado dos Bronze, chegando a chamar Ikki e Hyoga de pais – e os dois realmente se comportavam como se fossem os pais dela –, Shun e Isaak eram os tios, e Milo e Camus eram os vovôs — a quem a menina chamava de bunic, que seria avô em romeno. Esse comportamento era totalmente explicável pelo histórico dela. A única família que possuiu foi a avó, pois o pai desapareceu e a mãe morreu no parto, sabia-se que na realidade sua família tinha origens ciganas, mas que decidiu instalar-se na Romênia por motivos desconhecidos para menina. O resto era história.
Anna tinha olhos azuis violáceos, cabelos na cor e brilho do bronze, pele levianamente morena, traços delicados e, ao mesmo tempo, duros, corpo de criança, voz de mulher. Pensamentos claros e puros como a água, mas muito próximos da realidade, e com um magnetismo que ninguém entendia. Parecia uma mistura de seus “pais” adotivos mais o “tio” japonês, mesmo não tendo nenhum parentesco com eles. Tinha quem achasse que a menina era uma fada.
Kiki – que estava ali a mando de Mu para executar uma missão –, agora com seus vigorosos e rebeldes 16 anos, olhava a menina de 5 anos com verdadeiro encanto. Shun, que nada deixava passar, se aproximou do futuro Cavaleiro de Áries e comentou distraidamente:
¬ Pedofilia é crime. — e porque não maldosamente?
Kiki pareceu ter levado uma surra da realidade, virou a cabeça com tanta força na direção de Shun, que está acabou dando um tranco audível. Shun tinha um sorriso digno da Monalisa em seu rosto.
¬ Ela é bonita, não é? — Shun agora falava diretamente com o rapaz. — Se com essa idade já atrai tantos olhares, imagine quando se tornar mulher. — Kiki não conseguiu deixar de engolir seco. — Que cara é essa, Kiki? Até parece que você não sabe disso. — riu. — Mas duvido que vai ter alguém com coragem o bastante para encarar o Nii-san, ele vai espantar todos os pretendentes só com o olhar, se depender dele, essa menina nunca vai conhecer um altar.
¬ Mas e se essa pessoa existir? — perguntou incisivo.
¬ Bem, essa pessoa terá um duro caminho pela frente, ainda mais por estar enfrentando meu Nii-san e meu melhor amigo, mas se conseguir a afeição de Anna, certamente terá uma boa vida.
¬ Shu! — uma voz infantil chamava.
Mal terminaram a conversa, que a menina foi correndo na direção do ariano e do virginiano, pulando risonha no colo do mais velho.
¬ Anna-chan! — respondeu com o mesmo nível de empolgação. — O que foi? Cansou dos mais velhos e veio brincar com o Shun-oyaji? — a menina negou.
¬ Shu não é velho! — ela aprendia rápido, tanto que agora falava três idiomas além do romeno. — Tem cara de menina! — as pessoas que escutaram soltaram risinhos. — Quem tem cara de menina não é velho! — ignorando a parte do “cara de menina”, que fazia Kiki gargalhar, Shun sorriu.
¬ Arigato, Anna-chan. Mas então, o que você quer? Farei o possível para atender sua vontade. — sorriu brincalhão.
A menina colocou a mãozinha na frente da boca e riu corada, aquilo perecia deixá-la ainda mais bonita. O queixo de Kiki só não foi ao chão por estar muito bem fixado ao crânio.
Anna se aproximou do ouvido de Shun e sussurrou-lhe algo, ele escutava com atenção, depois sorriu, olhando de soslaio para o ariano ao seu lado e sussurrou para menina de volta, ela então foi posta no chão. Anna apenas esticou o braço, pegando a mão de Kiki e se apoiou nos calcanhares, largando todo seu peso para trás e sorrindo para o rapaz, que não entendeu nada a principio e acabou corando.
Ela voltou a ficar normal, mas não soltou a mão do ariano, apenas sinalizou para que ele se abaixasse e ficasse da altura dela. Kiki acatou o pedido tal como uma ordem, se agachou e viu a menina soltar sua mão para tocar seu rosto. Ela desenhava os traços do rapaz com os dedos e com pura inocência no olhar, parando nas duas pintinhas que ele tinha na testa e sorriu sapeca.
¬ Saikhan!! — afirmou na língua mãe de Kiki, o mongol.
O rapaz sentiu-se um pouco constrangido com a avaliação da menina, ele nunca pensou em si mesmo como alguém bonito, na verdade, nunca pensou na própria estética, então não sabia dizer qual foi a razão de seu coração disparar ao ser classificado como bonito por uma menina de 5 anos. Por fim, decidiu elogiá-la de volta em romeno.
¬ Tine. — aquela simples palavra fez a menina sorrir ainda mais, se é que isso era possível.
Depois disso, ela passou o resto do jantar ao lado do ariano. E com isso, Ikki passou o jantar inteiro se corroendo de ciúmes da “sua” princesinha e Hyoga, estava com um pouco de ciúmes também, mas estava feliz, pois Anna não estava curando somente as próprias feridas, como a de muitos outros a sua volta com um simples sorriso, que ocultava muitas lágrimas que ele secou antes da menina ser capaz de sorrir.
Bunica/Bunic — Vovó/Vovô
Mi drumul — Me solta
Ajutor — Socorro
Saikhan — Bonito
Tine — Você também
Fale com o autor