Fênix da Noite Estrelada
16 Monstros
Notas iniciais
Shun estava se preparando para uma de suas missões solo. Não era nada difícil, estava até pensando que Camus andava muito bonzinho na hora de despachar missões, era só uma missão de exploração no território recém adquirido pelos aliados. Era mais uma missão de "ver onde dá pra se esconder na hora de atirar".
Prendeu o cinto com dois pentes e o coldre da arma na cintura. Verificou a arma mais uma vez e a colocou no coldre. Prendeu a "bolsa" com os pentes do rifle no ombro e o rifle em si foi preso nas costas. Olhou-se dos pés a cabeça e soltou um suspiro. Vestindo sua armadura coberta por um tecido preto e com armas até os dentes, parecia aquelas imagens horrorosas de guerreiro do apocalipse.
Apesar de não estar gostando nem um pouco, cumpriria sua missão. Então saio de seu alojamento um tanto desanimado e foi para o alojamento do amigo e do irmão. Tinha prometido se despedir antes de sair, para Shun aquilo era uma forma de Ikki dizer "você pode tá longe, mas não quer dizer que eu não tô de olho em você". Sorriu. Ikki sempre protetor.
¬ Shu! — sentiu alguém agarrar suas pernas assim que entrou. — Não vá! Não vá! Não vá! — Anna estava com a voz chorosa.
Shun olhou para o amigo com um grande ponto de interrogação na cabeça. O aquariano estava obviamente preocupado e olhava para o menor como se dissesse que já havia tentado de tudo, mas, como podia se notar, nada deu certo.
¬ Anna, querida, solta o Shun. — o aquariano tinha se abaixado na altura da menina e tentava afastá-la. — Não é o fim do mundo, ele vai voltar.
A menina ainda se recusava a soltá-lo e agora gritava para ele não ir, molhando as partes expostas da roupa militar com suas lágrimas, mas não o soltava de jeito nenhum. Houve um dado momento que o aquariano conseguiu forçar a menina a soltar o virginiano, só que o escândalo dela aumentou e ele acabou cedendo.
¬ Ela tá assim desde que a acordamos por conta de um pesadelo. — justificou o leonino que acabou de sair do banho ainda secando o cabelo.
Shun se lembrava de que quando tinha pesadelos não desgrudava de Ikki por nada no mundo, principalmente quando o mais velho estava no pesadelo. Para Anna estar daquele jeito era porque Shun devia estar no pesadelo dela.
Ele se agachou para ficar da altura da menina e assim abraçá-la de verdade. A menina chorava e soluçava agarrada ao mais velho, sempre murmurando coisas desconexas aos olhos e ouvidos dos demais.
¬ Não vá até o monstro! Não vá! — a menina chorava sem parar. — Não mexa com o anjo desencarnado! Não irrite o monstro! Não entre lá! Não entre! Não vá!
¬ Tenha calma, Anna-chan. — ele acarinhava a cabeça da menina. — Eu tô bem. Eu tô aqui.
A menina não o soltou de jeito nenhum. Acabou que a menina só parou quando adormeceu nos braços do virginiano após horas e horas de choro. Shun a deixou coberta na cama do pequeno quarto do alojamento, despediu-se do irmão e do amigo com um abraço e partiu da base no início da noite.
A terra era porosa e sem vida. O céu coberto por nuvens cinzentas e tempestuosas. Vida era inexistentes.
A guerra destruiu aquele lugar antes tão belo e cheio de vida, campos antes tão verdejantes agora eram negros e cheios de buracos, casas de família agora não passavam de ruínas, lugares onde crianças costumavam brincar não mais existiam. Era um lugar lúgubre e apagado. O verdadeiro reflexo do que era uma guerra.
O único som que ouvia era o de seus passos. Tudo o que via era aquele deserto e vez ou outra um corpo. Só existia o cheiro de morte. Não era diferente de outros lugares que foi obrigado a vistoriar. Seria o mesmo tipo de relatório enviado a Camus, seria a mesma tristeza no dia seguinte e seria o mesmo tipo de batalha quando o inimigo atacasse aquele local. A história de suas batalhas voltariam a se repetir.
Ouviu um choro baixo, muito baixo. Por um momento pensou ser sua própria dor se condensando, mas não chorava, logo percebeu que não estava sozinho naquela terra de ninguém. Começou a seguir o som de choro. Queria achar a fonte daquele som de qualquer maneira e a qualquer custo. Se recusava acreditar que ainda havia alguém ali, mas se houvesse, ele tinha a obrigação de encontrar e ajudar.
Viu-se de frente para uma casa de madeira, ou o que restou de uma. A porta rangeu quando ele entrou e o choro parou. Agora só se ouvia os rangidos da casa e sua própria respiração. Olhou cômodo por cômodo, corredor por corredor, mas nada parecia encontrar. Seria um delírio? Sua mente lhe pregando peças tamanha a tristeza? Ou quem sabe a guerra já estava afetando sua sanidade?
Finalmente arriscou-se em subir as precárias escadas. Só tinha uma porta fechada e foi justamente nela que encontrou algo. Era um quarto simples, ainda dava para ver alguns desenhos nas paredes, brinquedos no chão, livros e ursinhos nas estantes. Na cama havia alguém deitado de costas, a reação do virginiano foi imediata, ele correu para junto do leito no intuito de ajudar.
¬ Você está bem? — puxou quem estava deitado para que pudesse ver melhor a pessoa.
O que viu arrancou-lhe um grito arrepiante, ele caio para trás e se arrastou um pouco, penou para acreditar no que tinha visto. Sentiu suas costas baterem contra uma barreira que não devia estar ali e logo sentiu um frio desconfortável subir por suas costas.
¬ O que pensa estar fazendo?
Sentiu algo bater com muita força em sua nuca, sentiu-se atordoado e logo sentiu ser atingido novamente, dessa vez sendo acolhido pelos braços frios e sedutores da inconsciência.
Acordou em um lugar escuro e úmido, deviam ser os restos de um porão, preso a uma cadeira e com muita dor. Sua vista estava turva, mas conseguiu ver suas armas e partes de sua armadura amontoados em um canto. O que estava acontecendo afinal?
Sua perna latejava de dor, o que atraio seu olhar, a visão de uma faca ali fincada até o cabo o alertou que as coisas não estavam nada bem. Seu sangue manchava o chão de madeira e sua cabeça dava a entender que explodiria a qualquer minuto. Demorou um pouco, mas logo pode visualizar melhor seu carcereiro. Um menino.
¬ O que estava fazendo? — o olhar era de pura demência e a voz raivosa. — O que pensava em fazer com minha irmãzinha?
¬ Eu...
¬ Cale-se!
Não houve tempo para formular uma resposta. Shun se viu rugindo de dor quando outra faca fora enterrada em seu ombro esquerdo. Era uma dor lancinante, o metal frio sendo enterrado na carne quente gerava o pior sentimento de invasão possível, os olhos lacrimejaram e os dentes trincaram. Facadas consecutivas se seguiram nos ombros, braços, pernas e certa hora o rosto foi cortado. Gemia e por vezes gritava de dor. A voz de Anna ecoava em sua mente.
"Não entre lá!"
"Não vá até o monstro!"
"Não mexa com o anjo desencarnado!"
"Não vá!"
Seguiu-se assim por horas. Estava fraco, até mesmo respirar sugava-lhe as forças, que situação lastimável para se estar. Continuava a reparar nas coisas ao seu redor e a se preocupar até com quem não devia.
¬ Oe. — sua voz rouca e exausta não passava de um sussurro. — Sua perna tem um machucado bem feio. — fazia algum tempo que percebeu que o garoto mancava. — Não acha melhor cuidar dela?
Sua resposta foi uma facada no pé. Mais uma vez aquela casa se encheu de gritos e gemidos de dor. Mais uma vez a voz de Anna ecoou em sua mente.
"Não irrite o monstro!"
"Não vá!"
"Não irrite o monstro!"
Naquela altura, sua mente não mais funcionava direito. Estava muito pálido pela perda de sangue, sua voz nem mais existia e seu instinto de sobrevivência martelava em sua cabeça. Seu pior lado estava começando a despontar com a sombra da morte tão perto.
Estava sozinho. Os pulsos estavam em carne viva, mas estavam quase livres das cordas. Uma faca estava fincada em seu joelho e outra estava jogada perto de sua cadeira. Estava quase conseguindo.
Começou a ouvir o ranger das escadas. Se apressou, pegou a faca no chão assim que se viu livre de suas amarras e voltou a colocar as mãos atrás das costas como antes. Seu carcereiro entrou naquele momento.
¬ Eu cansei de você. — afirmou. — Só me dá trabalho e não consigo dar a devida atenção para irmãzinha. — o virginiano não tirava os olhos do cutelo que o outro carregava. — Você não fala nada do que eu quero saber, então vou dar um jeito em você.
Aquelas palavras dispararam um alarme na cabeça de Shun. Sua reação foi automática, no momento em que seu carcereiro se virou com o cutelo erguido, ele enterrou a faca que segurava na barriga dele e alavancou-a para cima, fazendo um talho de 25cm no torso.
Ele não gritou nem nada, apenas colocou a mão na barriga e observou o próprio sangue com profundo interesse antes de tombar inerte sobre a poça de seu sangue. Não sentiu nada naquele momento, nem mesmo arrependimento.
Ao percebe o que tinha feito, tudo o que conseguiu fazer foi chorar e gritar de dor. Seu carcereiro não passava de um menino, devia ter no máximo 14 anos, subnutrido e machucado. Era um garoto assustado e que sofreu demais. Uma vida inocente destruída pela maldita guerra de Afrodite.
A chuva caia impiedosa, misturando-se as lágrimas do pequeno virginiano, enquanto este contemplava as cruzes dos dois túmulos que acabara de cavar. A casa em chamas, chamas que ele causara na tentativa de apagar todo aquele sofrer, era sua única iluminação. Dois túmulos. Duas vidas perdidas. Duas crianças, um menino e uma menina, que sofreram e morreram com a guerra.
A menina estava deitada na cama, num estado avançado de decomposição quando Shun a encontrou. O menino havia enlouquecido e no final de tudo morreu pelas mãos de Shun.
Cuidou de suas feridas da melhor forma que pode e ainda demorou dois dias para retornar a base. Quando o virginiano finalmente voltou para base, Ikki e Hyoga já estavam se preparando para ir procurá-lo. Engana-se quem achou que o leonino recebeu o irmão de braços abertos, primeiro deu-lhe um soco bem dado e só depois o abraçou entre lágrimas. O aquariano ficou calado, não tinham e nem sabia o que falar.
¬ Sua inocência é sua beleza, Shun. — o irmão rugia furioso, o que não combinava em nada com a voz chorosa. — Mas sua ignorância um dia vai te matar! — sentiu o irmão estreitar o abraço e ele apenas retribuiu.
Seus ferimentos foram tratados devidamente, alguns deixariam cicatrizes que nunca sumiriam, e chegou a precisar de uma doação de sangue, estava se recuperando rápido, mas ainda sim precisou ficar na área hospitalar da base por um tempo.
A única coisa que parecia não melhorar era sua tristeza. Todos tentaram falar com ele sobre o ocorrido, só que ele se recusava a falar.
Um dia, Anna foi visitá-lo. Anna geralmente vinha visitá-lo ao lado de Ikki e Hyoga, mas dessa vez a menina veio sozinha. Ela era bem pequena em comparação ao leito, então pegou um banquinho qualquer e o usou para subir na cama.
Anna estava sentada ao lado de Shun balançando as pernas, ela então pegou uma das mãos do virginiano e ficou examinando-a com cuidado, vez ou outra desenhando as linhas da mão dele.
¬ Shu. — chamou a pequena. — Só você vê o sangue daquele menino.
O virginiano pulou com o susto do que ela falou. Não contou para ninguém o que aconteceu, não falava sobre isso nem quando acreditava estar sozinho. Então como...?
¬ Não se culpe. Não foi culpa sua. Na verdade, tenho certeza que eles estão felizes agora. Você os libertou do monstro. — afirmou a menina. — Você deixou o anjo desencarnado descansar e libertou o menino das amarras de seu próprio monstro, mas para isso você precisou deixar seu monstro sair.
Shun sentia lágrimas escorrendo por seu rosto e sentiu uma gota cair na mão que Anna segurava, a menina estava sempre de cabeça baixa.
¬ Não se culpe. Monstros são assim. — a voz da menina era um tanto embargada. — São o nosso pior e aparecem nessas horas, as vezes como vilões, as vezes como heróis. — a menina o olhava com o rosto manchado de lágrimas e um sorriso de consolo adornando o rosto. — Considere-se abençoado, Shu. Seu monstro foi um herói dessa vez.
A menina secou uma das lágrimas do mais velho e o abraçou, ela não o culpava, nem o chamaria de vilão, pois sabia que era em momentos, em épocas, como aquele que os verdadeiros monstros apareciam. É só olhar a história. Guerras são feitas por monstros e terminadas por eles.
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