Fênix da Noite Estrelada
36 Cabeças Queimadas
Notas iniciais
O aquariano foi o primeiro a entrar e, com certeza, era o mais determinado em chegar na “sala do trono”. Nem se quer olhou para trás quando entrou, por alguma razão que desconhecia, um ódio antigo e profundo queimava em suas veias, tornando sua visão rubra e turva, dando um ar de selvageria a todos os seus atos. Nunca sentiu uma sede de vingança tão forte e violenta, nunca sentiu sede de vingança, no entanto, estava convencido a saciar aquela vontade.
Não se importou de esperar os companheiros, eram todos adultos e sabiam se virar muito bem sozinhos, ainda mais agora que suas armaduras tinham sido “melhoradas” por meio do sangue divino, sem contar que eles o mandaram entrar se tivesse a oportunidade, e essa oportunidade surgiu quando conseguiu jogar um inimigo para dentro da catedral. Quando passou pelo corpo inerte, este possuía um grande pedaço de vidro azul atravessando o pescoço e outros mais estavam fincados no corpo, muitos outros cacos estavam espalhados pelo chão. Sentiu-se mal por ter destruído tão belo vitral e passou sem dar muita importância ao corpo.
Disparava pelos corredores da catedral sentindo os olhos dos santos e anjos que adornavam paredes e teto o acompanhado, era como se ele fosse culpado de algum crime muito grave, um pecado capital. Só que no momento ele pouco se importava com a opinião que os seres divinos e até mesmo os mortais podiam ter dele, o que ele mais desejava naquele momento era ver aquela maldita deusa chafurdando na lama.
O altar da catedral era grande e belo, muito bem decorado e capaz de deixar até o mais desacreditado dos homens maravilhado, porém, ele não estava ali para admirá-lo. A catedral tinha andares para cima e andares para baixo, portas, janelas e sacadas, não sabia por onde seguir e nem por onde entrar ou sair, e mesmo que estivesse se orientando com o cosmo, aquele lugar estava impregnado. Era um beco sem saída.
¬ Perdeu alguma coisa Cavaleiro?
Dignou-se a olhar na direção da voz, encontrando um Flecha de pé em um dos braços da cruz à olhá-lo com um sorriso desdenhoso. Ele em nada mudou sua postura, mas continuou a encará-lo. Este por sua vez, desfez o sorriso por meros segundos ao perceber para quem estava olhando e alargou o novo sorriso ao perceber a “sorte” que tivera.
¬ Ora, vejam só... — seu tom era arrastado e presunçoso. — Perdoe minha falta de educação. Petros de Paloma, Flecha do Amor Fraterno. — fez uma pequena reverencia em tom de brincadeira, enquanto que o russo nada demonstrava. — Não precisa se exaltar. — prosseguiu com provocações ao perceber que não retirara nada do homem a sua frente. — E não tenha o trabalho de se apresentar. Não, por favor. Eu sei quem você é, Cygnus.
Sentiu um frio estranho subir por suas costas e sua cabeça doer como se estivesse tentando se recuperar de uma ressaca, como se tentasse recuperar as memórias de uma noite de farra. Porém, ele sabia que aquelas “memórias” eram diferentes, podia não as ter, só que de alguma forma ele conseguia sentir que elas eram felizes e, ao mesmo tempo, extremamente dolorosas. Não deixou tais sensações transparecerem, mas seu desagrado não permitiria que ele ficasse calado. Para aquele homem estar ali, ele tinha que servir Afrodite diretamente, ou seja, ele era um dos Quatro Flechas mais perigosos do exercito da deusa, devia tomar cuidado com ele, mas como dito antes, seu desagrado não permitiria que ele ficasse calado e nem agisse racionalmente, diga-se de passagem.
¬ Diamond Dust!
O Flecha desviou um tanto desajeitado, era óbvio que não estava esperando por aquilo. A cruz tinha sido completamente congelada, assim como parte do altar, obrigando-o a buscar abrigo do pedestal de uma imagem, que se despedaçou com a fuga desesperada. O Flecha tinha algumas peças de sua armadura congeladas, quando eram tocadas elas se desfaziam em pequenos cristais.
¬ Wow! Isso foi perigoso! — ele se virou com o mesmo sorriso desdenhoso, paciência tem limite. — Minha vez.
O Flecha saltou e agora possuía algo em sua mão. Uma lança com detalhes em vermelho, cuja ponta soltava faíscas carmesim e dona de uma aparência um tanto intimidadora. Quis dar risada. Ele enfrentou as Doze Casas, Poseidon, Hades e, agora, Afrodite. Não era um palito de dente que o faria recuar! Muito pelo contrario, ele daria um fim a aquela brincadeira de forma rápida, ignorante e desproporcional. Ele não mudou em nada sua postura e nem sua expressão, apenas ergueu os braços, de forma a ficar parecendo uma ânfora.
¬ VAREKAI!!
¬ AURORA EXECUTION!!
Os ataques se chocaram de forma violenta, destruindo parte do altar da catedral, a disputa de poderes não durou muito tempo, logo o gelo cortante superou os raios púrpura e todo o altar se transformou em gelo. O aquariano apenas estendeu o braço e estalou os dedos, fazendo o inimigo congelado se desfazer em cristais, assim como uma pequena parte do altar, e assistiu-os caírem lentamente como a neve e se espalhar por todo o espaço.
¬ Idiota...
Não houve tempo para procurar, em segundos sentiu-se ser pressionado contra o chão, era como se a gravidade tivesse aumentado e tentasse fazê-lo chegar ao centro da Terra. Seu ouvido zunia, seus membros doíam e sua cabeça girava com a sensação de vertigem, com muito esforço, conseguiu mirar o teto da catedral, onde encontrou um Flecha com uma espada apontada em sua direção. Sentiu algo bater com extrema força em suas costas, sentiu-se quase ser atravessado. A pressão e a sensação de vertigem aumentou, a dor cresceu e a inconsciência o acolheu.
¬ Vocea. — o tom grave ecoou por todo o ambiente. — Agora só falta um.
Não muito longe da capital russa, um Cavaleiro descansava o corpo debilitado pela corrida de quilômetros e milhas. Faltava pouco. Podia ver a cidade e seu destino final. Apesar do caos, a Catedral de São Basílio se erguia soberana sobre a cidade em chamas. Serrou os punhos. Um ódio avassalador tomava seu coração. Queria vingança por motivos que não entendia e por sensações e memórias que não deveriam existir, mas que insistiam em surgir na forma de flashes e dores.
“Otou-san!”
Levantou-se em um salto e olhou em todas as direções, procurando em desespero por algo ou alguém que não devia estar ali, porém, nada encontrava. De onde vinha aquela voz?!
¬ Anna?!
“Kiki está me ajudando a falar contigo, então, por favor me escuta. Eu... Eu vi coisas ruins acontecerem. Coisas muito ruins, mas também vi coisas boas, e essas coisas boas só vão acontecer se o senhor se apressar! E... São coisas ruins que acontecem com o Papa e depois com todos. Eu lhe imploro, Otou-san. Se apresse! Juro que logo estarei ai para ajudar e não adianta reclamar ou negar, eu vou e ponto final”.
Era muito teimosa, não dava para negar. Só que agora ele não podia ficar ainda mais preocupado, nunca achou muito relevante, mas a libriana sempre disse ver coisas estranhas e pouco depois aconteciam, seu irmão brincava dizendo que ela era uma pequena cartomante, e o que mais assustava é que ela sempre estava certa. Nunca foi supersticioso nem nada, então não acreditava que a menina tinha um sexto sentindo afiado, isso não existe ela tinha que ter um cosmo ferrado — o que não era o caso, Anna tinha o cosmo de uma pessoa normal, pelo menos foi o que sempre apresentou -, mas ele também nunca ousou duvidar dela.
Pouco se importou com o próprio corpo ou com o desgaste, não passou anos de sua vida apanhando igual um corno para quebrar a barreira do som e ultrapassar a velocidade da luz por nada. Sentia o corpo em chamas quando parou de frente para o Cavaleiro de Pegasus, o sagitariano tinha acabado de enterrar um inimigo a 5m de profundidade com um chute e somente agora percebeu a presença do leonino, demonstrando toda sua confusão perante a situação um tanto inusitada.
¬ Ikki?!
¬ Onde está Hyoga? — curto e grosso.
¬ Calma, cara! — Seiya tinha sido erguido pelo pescoço e via que o mais velho não estava feliz nem de longe. — Ele entrou. Mas pra que...? — não conseguiu terminar, foi solto e abandonado em questão de instantes.
O sagitariano apenas deu de ombros e voltou sua atenção para a batalha que se seguia fora dos muros de São Basílio. Por outro lado, Ikki estava muito mais interessado no que estava acontecendo dentro da catedral. Entrar foi extremamente fácil, só teve que destruir a porta principal e marchar sobre os corpos inimigos em direção ao seu destino. Sua marcha foi lenta, com suas chamas destruindo a entrada da catedral e iluminando o ambiente, procurava sentir quantos inimigos tinha ali, muitos, isso era uma certeza, pois não tinha como seguir apenas um por ter diversas cosmo-energias impregnando o local. Desistiu de achar um inimigo especifico e focou-se em procurar seu único aliado.
Voltou a correr, dessa vez em uma velocidade que seria normal a qualquer ser humano. Nunca foi um homem de fé, mas não estava gostando nem um pouco no olhar de tantos santos, mártires, arcanjos e anjos sobre si, sentia-se obrigado a dar fim em algo que mal sabia o que era. Não sabia dizer por quantos corredores passou e nem quantas portas abriu e fechou. Aquele lugar parecia um labirinto adornado com ouro, mas não desistiria de achar o que procurava.
¬ Primeiro Cygnus derrota Petros, para logo em seguida ser detido por Mars e levado para divertir Lady Afrodite. — parou imediatamente e olhou na direção da voz, era uma garota, uma das Quatro Flechas, sentada de forma displicente em um enfeite de uma pilastra. — E agora Phoenix aparece. Talvez minha senhora fique feliz. — a garota pulou do alto e pousou graciosamente ao lado do leonino. — Kalandero.
Uma besta surgiu nas mãos dela e seu dardo negro foi disparado. O leonino desviou e viu que onde o dardo se fincou, ele primeiro se desfez e depois começou a corroer a parede como um ácido, o raio de dano era relativamente grandinho. Voltou a encará-la como quem diz “só isso?”, outros dardos foram disparados e ele observava as reações que eles causavam enquanto desviava. Enfim encontrou uma maneira de “virar o feitiço contra o feiticeiro” e fazer bom uso de longas horas escutando e aprendendo com Dohko.
Ikki parou e esperou que o último dardo ficasse a poucos centímetros de si, sem encostar diretamente no dardo, fazendo uso de sua velocidade sobre-humana e de alguns movimentos de luta aprendidos com o Cavaleiro de Libra, ele fez o dardo dar a volta e acertar sua atiradora. A Flecha não teve tempo de reagir, foi atingida e ficou presa na parede, sendo consumida pelo próprio ataque, ela não conseguia respirar, soltava alguns soluços em seu desespero e vertia sangue.
¬ Crianças não deviam ir para guerra. — ditou firme. — Vocês perdeu a partir do momento em que se convenceu que já tinha me derrotado.
¬ Arg... Mald... dito...
Ela soltou um grito e segurou o braço com força, sua armadura finalmente fora atravessada e agora o estranho veneno estava consumindo o braço esquerdo. O leonino estimava que ela não devia ter mais de 13 anos, uma criança aos olhos dele, mas durante a luta era apenas um inimigo, tão nova e com uma vida inteira pela frente para acabar assim, por um momento ele pensou: “E se fosse uma de minhas filhas no lugar dela?”
¬ Me perdoe.
Essas foram as últimas palavras que a garota ouviu antes de tudo acabar. Ikki ainda ficou ali, vendo o resto de seu corpo se desfazer enquanto que a cabeça parcialmente queimada, também se desfazendo, rolava para longe. Ele não pensou duas vezes antes de cortar a cabeça dela, para ele, se aquela garota fosse uma de suas filhas e estivesse sofrendo tanto quanto ela, seria com imenso peso no coração que daria fim à aquela dor como fez agora. Olhou para o lado e viu a besta que fora empunhada pela Flecha, a pegou e levou consigo.
Logo tinha voltado a correr em busca daquilo que ele temia lhe ser tirado. Encontrou muitos outros inimigos pelo caminho, todos fracos e que acabaram com o mesmo destino, cabeças parcialmente queimadas rolando pelos corredores da catedral. Lembrou-se de Máscara da Morte, ele estava certo em dizer que era muito mais prático e rápido cortar cabeças, talvez adotasse o estilo.
Agora, o rastro de quem procurava estava mais forte, estava chegando, apertou o paço. Algo explodiu logo a sua frente e ele foi arremessado para longe.
¬ Taruka.
O leonino fitou o inimigo por alguns instantes e ergue-se entre risos. Foi aquele desgraçado que levou Hyoga, podia sentir resquícios do menor naquele homem.
¬ Você deve ser o tal Mars. — comentou enquanto limpava o pó de sua armadura. — Admito que eu esperava mais de alguém que derrotou Hyoga. Ele não perderia tão fácil assim para alguém como você. — sorriu ao vê-lo serrar os punhos. — Como foi? Chegou na surdina? No oportunismo?
¬ Taruka.
Dessa vez o moreno teve tempo de desviar e pode ver que o homem a sua frente agora empunhava uma espada de metal negro e adornos brancos, era uma arma bonita, tinha que admitir. Soltou outro riso. Quando muito irritado, seu riso era frequente, ele não tinha a mínima ideia do que aquele homem fez, mas somente a ideia de que ele tinha ralado um dedo no aquariano bastava para deixá-lo fora de si.
¬ Se está irritado é porque é verdade. — ele queria deixar o outro igualmente irritado. — Aliais. Acho que isso era de uma amiguinha sua. — atirou a besta nos pés do inimigo.
Ele se curvou e pegou a arma, a examinando com cuidado, como se fosse uma verdadeira relíquia. Quando ele ergueu o olhar encontrou o sorriso desdenhoso de Ikki, o leonino conseguiu o que queria.
¬ Como você pode? — rosnou. — Minha irmã era apenas uma criança! Lira só queria provar seu valor! — o leonino deu de ombros.
¬ Também tenho um irmão e ele está no meio daquele caos ali fora. — apontou por cima do ombro. — Ele tá lá porque eu sei que ele é mais do que capaz de se defender sozinho e também sei que ele é capaz de fazer alguma diferença nessa guerra. Mas se sua irmã precisava de proteção e era tão despreparada, porque a deixou lutar?
Foi a gota d'água. O homem partiu para o ataque com toda a brutalidade e insanidade que podia possuir. Seus golpes era velozes e incrivelmente pesados para alguém de seu tamanho, seria presunção afirmar que Ikki defendia seus golpes com facilidade, muito pelo contrario, ele encontrava certa dificuldade e ainda estava com uma simples faca de caça, não era nada fácil defender golpes consecutivos dessa forma.
¬ Vocês usam armas? — perguntou ainda em tom de provocação enquanto continha um golpe.
¬ Cale-se! — rosnou ao afastar as laminas. — E vocês não estavam usando delas até agora, Cavaleiro? Pelo que eu saiba, sua deusa não gosta disso.
¬ Ela abriu uma exceção. — sorriu ao ver o corte que fizera no rosto do outro. — Tcs. Isso vai deixar cicatriz.
Outros vários golpes foram desferidos contra o leonino, mal dava para ver a luta de tão rápida que ela se desenrolava, só eram possíveis diferenciar alguns borrões e as faíscas emitidas pelas laminas ao se chocarem. Um corte no braço e um sorriso inimigo. Ikki segurou o corte e constatou que a mancha de sangue era apenas um alarde falso, não era tanto sangue assim.
¬ Não está achando sua arma um tanto ridícula? — alfinetou o Flecha.
¬ Eu tenho mais habilidade com facas. — deu de ombros antes de voltar a se chocar contra o inimigo.
A luta se seguiu dessa maneira. Parecia interminável. Quem conhecia o moreno, sabia que aquela demora toda em uma luta se devia ao fato de que ele estava estudando o inimigo e procurando maneiras de dar cabo dele sem alarde ou problemas adicionais e posteriores.
Enfim viu sua oportunidade. O Flecha estava cego de ódio, assim como o próprio leonino. Ikki desviou de um ataque violento e o fez tropeçar. Antes que o inimigo fosse ao chão, o leonino o jogou para cima com um chute, fazendo-o se chocar contra o teto da catedral. Ao cair, a faca de caça o prendeu na parede pela parte exposta de sua armadura. O leonino se aproximou vagarosamente, pegou a espada caída no chão e a fincou até o punho no lado direito do peito no Flecha, atravessando armadura e carne, tirando um grito ensurdecedor dele. A faca foi retirada de seu lugar e fincada na mão esquerda também até o cabo.
¬ E não saia dai sim?! — questionou um tanto irônico.
O temível Cavaleiro de Fênix deu então as costas para o inimigo e passou a procurar novamente pelo aquariano. Aproveitando a distração do leonino, o Flecha ergueu o braço restante com muita dor e mirou no meio das costas largas, concentrando toda sua cosmo-energia em um único e derradeiro golpe.
¬ IBIS!!
Ikki então cambaleou um pouco para frente. Não sabia o que aquele maldito tinha feito, só sabia que o ataque tinha atravessado seu peito e destruído a outra parede. O ferimento vertia uma quantidade relevante de sangue, mas ele não estava muito interessado naquilo no momento. Sem ao menos olhar para trás, apontou o dedo para o inimigo e ficou ali parado segurando o ferimento enquanto o ouvia gritar.
¬ Phoenix Houou Genma-Ken.
Quando finalmente ouviu o último suspiro, arrancou a cabeça e saio cambaleante com ela sobre o ombro. Já estava de saco cheio. Faria a deusa Afrodite se afogar na lama feita com seu próprio sangue “divino”.
¬ “Sem dor sem valor” o cacete! — rosnou. — Eu vou bater tanto naquela vadia que vai machucar até falar o nome dela!
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