Fênix - Até as cinzas voarem
6 Tragédia em Melbourne
A temporada de 2019 da Fórmula 1 havia terminado há algumas semanas e todos estavam em clima de despedida. No entanto, para tristeza e choque de todos, um vírus letal começou a surgir e aniquilar a vida de várias pessoas por todo o mundo, desde a China e depois a Ásia, rapidamente se espalhou pela Europa e América, causando mortes em massa. Sabendo disso, Eduardo estava preocupado com a corrida de estreia da Vortex GP, já que a Fórmula 1 tinha decidido que a corrida iria acontecer, mas o risco de infectar toda a equipe e os pilotos eram enormes, o que significaria um problema enorme para eles. Sabendo disso, ele ligou para um de seus fornecedores, para tentar negociar.
- ...esteja livre até ele melhorar. Só coloque o carro no avião para a Austrália, o resto resolvemos quando chegarmos lá.
Frustrado com aquela discussão não estar levando eles à lugar nenhum, Eduardo saiu do escritório mais cedo, fechando-o e indo até a fábrica. Gustavo estava no simulador, Rafael e Gilberto estavam revisando a estratégia que usariam na corrida em Melbourne, na Austrália.
O restante da equipe estava tão focada nos preparativos para a corrida que nem notaram a presença do chefe e o semblante sério dele. Nos últimos meses, desde a apresentação do carro, todos passaram noites em claro lixando peças na mão, pintando o carro com poucos quilos de tinta e desmontando-o cuidadosamente para evitar qualquer dano. Tudo isso para conseguir economizar cada centavo para conseguir colocar o carro nas caixas de transporte e viajar para a abertura da temporada em Melbourne.
Vendo a equipe trabalhar tranquilamente, Eduardo se aproximou do amigo e o tocou no ombro:
-Gilberto, precisamos conversar a sós — disse ele.
-Claro. Rafael, vá para o simulador e veja com seu empresário se já está tudo em ordem — disse Gilberto.
-Pode deixar, senhor — sorriu Rafael.
A dupla de amigos se afastou, Eduardo olhou para o amigo tentando não demonstrar mais nervosismo do que já estava.
-Gilberto, preciso que você alerte a equipe sobre as restrições da Austrália. O vírus já se chegou lá e a Fórmula 1 já insistiu que vamos ter que correr, então quero saber se temos os recursos necessários para levar a equipe para o autódromo — disse ele.
-Bom, vai ficar bem apertado, talvez a gente fique quase sem nada lá, mas com certeza nosso carro é confiável o bastante para marcar pontos. Com o dinheiro dos patrocinadores vamos voltar para casa em segurança — sorriu Gilberto.
-Eu sei, mas estou preocupado com nossos pilotos ou membros da nossa equipe. O vírus já começou a se espalhar na China e na Europa. Continentes gigantes. Se qualquer um de nós pegar o vírus, não teremos a quem recorrer para substituir. Não temos piloto reserva e não teremos dinheiro para pagar um funcionário substituto!
-É só uma gripe, Eduardo. Se a gente não embarcar esse carro, a Vortex GP morre antes de nascer.
-Eu sei disso, mas...
-Não temos escolha, Eduardo. Ou vamos ou perdemos tudo antes de começar — interrompeu Gilberto.
Mesmo a contragosto, Eduardo precisava admitir que Gilberto tinha razão: apesar das restrições do mundo todo, a Fórmula 1 decidiu embarcar e começar o campeonato a qualquer custo. Se eles não embarcassem, tomariam uma multa da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), o que poderia fazê-los perder ainda mais dinheiro do que já tinham gasto nos preparativos para fazer o carro.
Naquela mesma noite, eles compram as passagens. Todos iriam viajar na classe econômica para economizar dinheiro. A situação dos pilotos era complicada também, pois não estavam só preocupados com o covid-19 também estavam ansiosos com a estreia na maior categoria do automobilismo mundial. Eduardo, o mais preocupado de todos, demorou para dormir. A ansiedade de ver a equipe correndo pela primeira vez já não era tão grande quanto a preocupação de contaminação, mas ele faria tudo o que fosse possível para que as coisas dessem certo. Eles iriam para a Austrália disputar aquela corrida, custe o que custar.
Dias se passaram, Eduardo estava na fábrica, ajudando a equipe a terminar de empacotar a última peça do carro e colocar no caminhão que levaria para o avião, quando seu celular tocou. Era de Gilberto. Inicialmente, o coração deu uma leve errada na batida, pois ele havia dito que estaria na fábrica às sete da manhã para ajudar no embarque das peças do carro e já eram onze da manhã e nada dele chegar, mas Eduardo procurou se manter calmo. Às vezes, um compromisso inadiável apareceu como tantas outras vezes e Gilberto se atrasou, certo?
Ele atendeu no segundo toque.
-Oi Gilberto, cadê você? Já estamos arrumando tudo no caminhão para levar pro aeroporto — disse ele.
-Eduardo, meu amigo. Eu não poderei ir para a Austrália com vocês — anunciou ele, com uma voz fraca.
A espinha de Eduardo gelou.
-O que aconteceu? — perguntou.
-Tive uma reunião de negócios com um homem que veio do leste Europeu para assinarmos um contrato de patrocínio, mas após a reunião comecei a tossir... Achei que era só cansaço extremo de noites em claro, mas... — ele tossiu.
-Gilberto, não me diga que você... — Eduardo disse, com a voz embargada.
-Sim, eu peguei covid-19. Acabei de fazer o teste.
Eduardo levou as mãos à cabeça, sem acreditar no que estava ouvindo. A mente por trás do projeto de liderar a Vortex GP estaria ausente e com sério risco de morte.
-Eu avisei, Gilberto. Eu avisei que não era uma boa ideia. Primeiro você, imagina se alguém da nossa equipe pega durante a corrida... — ele ia dizendo, mas Gilberto interrompeu.
-Eduardo, por favor... Me escuta. Você vai ter que liderar o pessoal em Melbourne. Eu confio em você, sei que irá conseguir. Cuide dos meninos. Não deixa o sonho morrer na garagem, por favor — pediu ele.
-Eu? Sozinho? Gilberto, eu tive a ideia de criar a equipe, mas foi você quem desenhou o carro e da fábrica. Eu não posso ir lá sem você do meu lado — implorou Eduardo.
-Você pode e você vai, Eduardo, Porque não é só meu sonho. É seu também. Nós somos brasileiros e um brasileiro nunca desiste.
Aquela frase sendo repetida pelo seu melhor amigo, criada em 2004 pela Lew Lara e representada brilhantemente em uma versão acústica por Herbert Viana, tocou no fundo da alma de Eduardo. Gilberto tinha razão, ele não podia desistir do sonho dele e do melhor amigo, estaria desonrando não apenas a amizade e o sonho dele, mas também o legado brasileiro.
-Tudo bem amigo, eu vou. E também irei te manter informado de tudo o que acontecer nos bastidores — prometeu ele.
-Ótimo camarada. Vou assistir tudo pela televisão — sorriu Gilberto.
No dia seguinte, Eduardo está no avião, ao lado de Hunter e Nicolas, empresários de seus pilotos, olhando pela janela enquanto luta para se manter calmo, tentando focar na corrida. Sua mente estava focada em gerenciar a Vortex GP na Austrália sozinho, sob os olhares dos dois, mas seu coração estava na mão por causa da saúde de seu velho amigo.
Quinta Feira, Autódromo de Albert Park — Melbourne, Austrália
A chegada no circuito foi bem tensa para a equipe. Embora tivesse ocorrido tudo bem durante o viagem, todos estavam focados em seguir as regras de restrição de Eduardo: não tossir ou espirrar próximo da equipe, não ficar muito tempo próximo dos fãs durante as sessões de fotos e autógrafos e nada de curtir a cidade. Era dos circuito para o hotel e do hotel para o circuito.
-Desde que não tenha nenhum canguru à solta por aí e destrua o nosso carro, tá de boa — riu Gustavo, dentro do Uber que os levaria para o circuito.
-Pelo menos essa cairia na conta da empresa de Uber, não da equipe — brincou Rafael, sabendo que o motorista não os entendia em português.
Ao chegarem no circuito, os dois pilotos viram que a equipe já estava na garagem. Entrando, viram os carros ainda com os cobertores sob os pneus, os aquecendo. Engenheiros observavam os dados pelos mecânicos que ajustavam as últimas peças do carro ou montavam as estratégias. Horas depois, já com tudo pronto, Eduardo convocou todos para uma reunião na sala privada da equipe dentro do paddock. Devido às restrições impostas por ele, todos prepararam marmitas e comeram lá mesmo, durante a reunião.
-Então, lembrem-se: não precisamos inventar estratégias malucas nem manobras arriscadas e desnecessárias que possam danificar nossos carros. O primeiro objetivo aqui, é pontuar com os dois. Gilberto não está aqui, mas ele estará vendo a corrida na cama dele, enquanto se recupera. Vamos deixá-lo orgulhoso, está bem? — disse ele.
Todos concordaram e assim que a reunião acabou, saíram da sala de reunião à espera do primeiro encontro com a mídia e os fãs. Porém, no caminho, o baque veio: equipes corriam de um lado para o outro, aflitos, desesperados enquanto os gritos dos fãs eram ouvidos do lado de fora.
Confusos, Gustavo e Rafael se juntaram com a multidão que passava por lá, agoniada.
-Ei, o que aconteceu? Por quê esse alvoroço todo? — perguntou ele à um mecânico da Haas.
-A corrida foi cancelada! — respondeu o mecânico, sem parar de andar.
-O quê? Por quê? — perguntou Rafael.
-Parece que um dos mecânicos da Mclaren pegou covid e agora está de quarentena, mas a FIA não é burra e sabe que isso não será suficiente, então preferiram cancelar a corrida. Precisamos ir embora antes do lockdown!
Chocado, Gustavo olhou para seu companheiro de equipe.
-O Eduardo precisa saber disso! — disse ele.
-Concordo, vamos — falou Rafael.
Mas, na verdade, Eduardo já sabia disso. Algo que havia descoberto durante aquelas poucas horas em que tinha ficado no paddock junto com todos aqueles anos sendo fã de Fórmula 1, ele sabia que quando algo acontece, o paddock fica sabendo rapidamente. Por isso, assim que a notícia do cancelamento da corrida australiana foi anunciado, ele logo começou a ligar para os patrocinadores, fornecedores, credores, quem pudesse ligar, para decidir como poderia pagar a volta ao brasil sem a verba dos patrocinadores.
-Não é culpa nossa que a corrida foi cancelada, não podemos voltar para casa sem o dinheiro! — reclamou ele.
-Sabemos disso. Sentimos muito, mas o dinheiro que depositamos vem da receita que ganhamos quando nossos nomes aparecem nos carros de vocês. Não temos como receber o dinheiro com a corrida cancelada antes mesmo de acontecer o treino livre! A culpa é da FIA que liberou vocês para viajarem para a Austrália sabendo desse vírus mortal assolando o mundo todo! — disse o dono de uma das empresas que patrocinava a equipe.
Enquanto desligava mais uma ligação, a equipe desmontava tudo o mais rápido possível, antes que mais alguém fosse contaminado. Pensando no que fazer, Eduardo viu outra chamada no seu celular. Acreditando ser mais uma ligação de um patrocinador, ele atendeu sem nem olhar de onde o número vinha.
-Alô? Quem fala? — perguntou ele, tentando se manter calmo.
-Senhor Silveira, aqui é a Marizete, assistente do Gilberto — disse a voz do outro lado, com uma voz embargada.
Ouvindo o tom de voz da mulher, Eduardo sentiu um aperto no peito.
-O que houve? Aconteceu algo com o Gilberto? — perguntou, torcendo pelo milagre.
-Bem, sim... Ele... Ele teve uma piora muito grande de ontem para hoje e... Os pulmões dele foram completamente atingidos pelo vírus. Ele... -ela engoliu em seco — Ele morreu, senhor.
Sem acreditar, Eduardo ficou estático por alguns segundos, quase um minuto, enquanto tentava processar a informação. Até que as lágrimas vieram sem controle e ele se ajoelhou na entrada dos boxes da equipe, chorando feito uma criança.
-Chefe, a corrida foi cancelada... — disse Gustavo, chegando no box — Ei, o que houve?
-O que aconteceu, senhor? — perguntou Rafael.
Os pilotos se sentaram ao lado dele, tentando consolá-lo. Algo que chamou atenção não apenas da equipe Vortex como também de todas as outras, que passavam olhando, curiosos.
Entre uma respiração e outra, Eduardo conseguiu sussurrar:
-Gilberto está morto... O covid levou ele.
Rafael e Gustavo se entreolharam, incrédulos e ao mesmo tempo, assustados. Gilberto não era apenas o diretor técnico, ele era a alma paterna da equipe, o homem que soldava cavaletes e acreditava neles quando ninguém mais acreditava. Foi ELE quem havia projetado o carro e tornado o sonho de chegar à Fórmula 1 possível. E agora, estava morto.
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